segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A segunda podia ser curta como esse texto

Este bloquinho vai acabar. Falta o que? Acho que quinze páginas. Nem isso. Vou ter que comprar outro pra poder escrever minhas listas de afazeres. Os outros bloquinhos tão vazios.
As listas são fáceis de fazer.
Hoje tá difícil. Queria sentar no colo de alguém e me lamentar até segunda que vem. Dá vontade de nunca mais escrever. Chega. É isso.
Por quê eu escrevo? A caneta é pesada.
Escrevo.
Escrevo.
Escrevo.
Que outra coisa eu posso fazer? Só sei isso. O resto é nada.
Minha ficha é a 106. Mais uma e depois sou eu. A criança sentada na cadeira da frente me olha bem dentro do olho. Sorri. Não sorrio porque não sei sorrir assim, mas finjo qualquer coisa como um sorriso. Acho graça em pensar como criança não tem medo de encarar gente grande dentro do olho. Fico sem jeito.
É a minha vez.
Parei de escrever pra ir até o guichê. Multa da biblioteca paga, mais uma vez. Nunca aprendo. Dez e meia da manhã. Entro na livraria depois de caminhar todo o centro. Asfalto quente. Concreto duro. Não quero mais essa segunda-feira.


Annabel Laurino

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Eu queria me enjoar de você

Queria que você passasse atrás de mim enquanto estou sentada na frente do computador e meu corpo nem sentisse você passar. Pra lá e pra cá. Você passaria e seria a mesma coisa que uma roupa tivesse escorregado do ombro da cadeira ou que o tapete da sala tivesse suas cerdas bagunçadas pelas pegadas da gata. Sem ninguém perceber.
Nesse monotom eu anoto as coisas que acontecem ao redor. O ônibus dando partida e você do lado de fora, na calçada, teus olhos passando de janela a janela, até o ônibus ir de vez e você ficar pra trás. Quantas janelas foram? Eu contei quatro. Quatro vezes que vi teus olhos congelarem nos meus. Guardei pra sempre.
Dessa dor que carrego no ombro esquerdo, sempre perto, traiçoeira, eu divago sozinha quando é que, quando é que... ai dou conta, não sei o que. Presa num ruminar de silêncio, as verdades evaporam pelo ar. A dor fica. A saudade, a coisa não cumprida, a procrastinação que fica, e fica, e fica e faz um mal danado pra gente. Sem contar naquelas coisas que a gente faz, fala, não sabe porque. Nunca sabe porque.
Te dizer que tenho conversas ligeiras contigo quando você não ta em casa. Coisas que pra te dizer rápido teria que caçar o telefone e levaria tempo e a coisa já teria passado. Converso com você sobre a gata escondida debaixo da cama, tirando as espumas de lá e brincalhona me espiando, balançando a cola. Te conto coisas como pra te lembrar do nosso passado. Não é incrível que a gente agora tenha uma gata? Uma gata, veja só, a gente! Te faço lembrar daquela vez que a gente voltou de Pelotas no ônibus, sentados lá no fundo, que você voltou o caminho inteiro me olhando. Uma hora me olhando no olho, me fazendo gostar mais de você e desse tom castanho meio chá.
Te digo essas coisas a essa hora, porque já perdi a hora mesmo, e porque faz tempo que não te escrevo. E porque também, aconteceram várias dessas coisas agora enquanto você não tava. Pensei em te dizer todas, mas a gente só tem brigado, discutido, você sabe. É mais fácil ficar só brava com você do que te dizer da gata, de pelotas, do que eu comi, do que eu pensei. Tudo fica difícil quando a gente ta mais longe do que a distancia física.
E por isso te digo, repito, dou esse nó nessa conversa sem jeito, que o que eu queria mesmo era me enjoar de você. Do cheiro do teu moletom, por exemplo. Mas daí, escondo o rosto no teu peito e afundo lá a cara no meio daquele algodão de cor azul e laranja, com cheiro tão teu. Do teu cabelo quando tu acorda, das tuas caras de birra e sono. A melhor delas: quando você ri. É tão raro que eu registro triste pensando se a culpa é minha ou o que. Mas registro. Você rindo de calção, sem camisa, as dez da manhã na cozinha enquanto eu danço na tua volta te pedindo café.
Se eu pudesse de fazer lembrar de uma coisa seria de uma música.
Depois disso não seria nada como eu te amo, ou eu to com saudade ou coisa e tal, aquela coisa de que tu já sabe bem.
Seria mais algo como pra te fazer lembrar dos dias azuis. E dos que ainda podem vir.



Annabel Laurino



sexta-feira, 30 de junho de 2017

Se essa escrita fosse minha

Volto à gênese. O lápis é de cor azul, ceúzinho. Não paro para pensar nas arestas dessa escrita, que vai se formando numa massa amorfa e solta, livre, pululando por aí sozinha.
Volto ao retorno do pensamento. Uma sala branca só pra mim. Abraço o que eu sou. Abraço no inicio o corpo, o corpo que eu sou. Tem dias em que é tentadora a ideia de não chegar nunca mais perto deste corpo, de olhá-lo. Mas hoje, toco as cicatrizes da pele, as ondinhas brancas das coxas, as marquinhas vermelhas da barriga. Toco com estranheza e digo “essa sou eu”. Começo a abraçar os pelos escuros dos meus braços, as coxas, os joelhos quadrados, os quadris sempre tão largos. E digo mais uma vez, “essa sou eu”. Nem sempre amo. Quase sempre confusa, odeio a imagem distorcida de mim, que eu distorço. E se sei disso, quando sei quem eu sou? E se sei disso, quando me amo? Não faço ideia. As mãos percorrem a barriga nunca dura, nunca magra. Mais uma vez eu digo “essa sou eu.”
Quando saio, não quero que vejam a minha juba despenteada pintada de vermelho, um casaco caindo desajeitadamente dos ombros, carregando uma bolsa de estampa esquisita. Quando saio, é a voz de dentro que quero que seja ouvida. Mas em tempos de internet, de canais no Youtube, de vlogs e vídeos caseiros ultra cults, super modernizados, quem vai parar pra ler o que eu escrevo?
            Escrevo uma frase, apago de novo. Nada parece ficar da maneira certa de se dizer. Existe uma maneira certa? Existe uma maneira certa de ser? Pergunta juvenil, Annabel. Pergunta de 14 anos. Pergunta dos tempos em que usava all star preto enquanto Cazuza tocava mais uma vez nos fones de ouvido enquanto eu atravessava a praça Tamandaré, matando aula sozinha em mais alguma quarta-feira, terça-feira, fosse o dia que fosse.
            Talvez se eu não tivesse atrasado várias cadeiras da faculdade eu já teria me formado. Talvez sem a ansiedade eu teria encarado melhor a prova do ENEM. Talvez se eu fosse mais esperta, mais animada, extrovertida, quem sabe eu pudesse ter tido mais amigos. Uma pausa, um gole de café e eu volto a pensar em mim mesma com dezesseis anos, a pergunta, a pergunta que volta sempre, aquela, aquela, se existe mesmo, sabe, afinal, uma maneira certa...
            Azul, rosa, amarelo, vermelho, tantas cores já foram os meus cabelos. Antigamente parava na frente do espelho, segurava as peles flácidas das coxas com desprezo, perguntava “porque assim?” enquanto uma revista de nome qualquer ficava aberta em cima da cama, com a imagem perfeitamente retocada e ilustrada de uma famosa de nome ainda qualquer com um corpo mais do que perfeito. Ah, se eu tivesse, se eu tivesse entendido como percorrer o caminho dos tijolinhos amarelos, talvez eu já teria entendido onde estava a resposta.
            Continuei minha busca durante todos esses anos atrás de um falso Oz. Sapatinhos vermelhos abandonados no fundo do roupeiro com adesivos de chiclete colados na porta. Risquei frases, joguei fora rascunhos não terminados que hoje, eu faria muito para tê-los de volta. Medo de escrever pro mundo. Medo de dizer. Poemas, contos, histórias, engavetados todos. Volto ao inicio germinativo.
E se essa escrita, se escrita ainda fosse minha, quem sabe eu não mandaria lapidar, cada frase, cada frase... Não há dúvidas de que eu posso me encontrar.



Annabel Laurino






Foto da Jade Luzardo 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A história que não se conta



São movimentos que destoam. Não se pode saber em qual esquina encontrará os destroços de algum caos que esqueceu. Sutiã apertado, dor de cabeça no canto esquerdo da testa. Não deveria ter saído de salto, ela pensa. Salto alto e pedras não combinam. Os calcanhares doem assim como todas as pedras fora do lugar nessa cidade.
Esta que ninguém sabe o nome, diz para si mesma que não quer voltar para as louças sujas jogadas na pia. Não quero voltar para aquelas louças sujas na pia, embora eu mesma tenha escolhido aquelas louças. E acrescenta mais uma vez, entre um tropeço e outro, que não deveria ter saído de salto.
Ninguém saberá seu nome porque criatura alguma é lembrada aqui. Ninguém saberá quantos prédios de fachadas sujas esses olhos negros não destrincharam. Olhos negros de uma criatura sem nome. Que não saberão, não lembrarão.
Como poderiam? Não poderiam. Passos podem ser ouvidos no escuro. Os passos de quem são? A cidade dorme de baixo de uma cortina, véu azul escuro, desacortinado de memórias confusas, rostos que estamparam no presente passado.
Ela vai voltar para as louças sujas? Voltará. Em algum momento do dia enquanto estiver entre mastigar as cenas das ruas e beber as ultimas gotas da sua esperança, ela, sem nome, voltará para a casa, para os compêndios de frases não ditas, amontoados de sensações esquisitas de quase morte, nunca de verdade sentida. Como é futuro e de futuro ela nada sabe, mesmo que quisesse não acreditaria. Nem em cartas, tarôs ou búzios, porque em coisa alguma acredita, mesmo que todas essas coisas lhe falassem de futuro. Dorme não pensando no que acontecerá. Acorda sabendo que mais uma vez venceu o sono e que sem saber por que, acordou.
Se levanta em madrugadas de domingo e como não sabe para onde ir, espera o sol surgir no céu e ir rabiscando mais uma vez, uma porção de sensações esquisitas. Escorrega nos espaços abertos de uma história que não deveria ter começado. Porque ela não contará.


Annabel Laurino

thunderstruck9:
“ Charles Lacoste (French, 1870-1959), Rue de Paris, 1911. Watercolour, 16.6 x 11.10 cm.
”

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Uma carta. Um adeus de mim


Volto e escrever pra você, meu caro. Você, ao menos, não é um delator. Eu sou a grande delatora de mim mesma. Com braços perfumados de flores que não conheço, você me recebe.
Não com entusiasmo, assim espero dessa vez. Não me receba com um sorriso no rosto, nem com um abraço afetuoso. Não. Eu chego suja, em pura sujeira humana de mim.
Chafurdo na minha própria lama. Mergulho num eu sombrio, encontro cascas e cascas. Camadas sórdidas de um eu em erupção, insano. Estou ficando fora, estou ficando dentro. A palavra loucura perdeu seu significado constituinte. Eu perdi meu significado. O que eu, afinal, sou?
Amigo, não precisa responder. Não precisa me dizer nada. Mas será que se eu te entregar todo esse peso, você segura? Segura? Se eu te der essa minha sujeira inteira, você pega? Me alivia de mim? No final das contas, eu quero redenção.
Chafurdo no mistério. Tomo café e no reflexo do negro a luz da cozinha. No reflexo do escuro, uma sombra se movimenta. Sou eu. Você, amigo, é outra coisa maior e por isso eu te escrevo. Se eu bebo essa escuridão inteira, meu eu é escuro feito breu, não me encontro. Você me encontra?
Respingos de chuva na janela do quarto. Roupa atirada no chão. Uma música que não tocou. Meu rosto deixado no espelho e esquecido ali desde as sete da manhã. Um rosto cansado, sobrepujado de mentiras, maquiagens falsas, cílios compridos que não tenho, boca vermelha que nunca terei. Aquele é o eu que eu sou no mundo. Que ficou guardado no espelho, na minha retina desde a última vez que eu me vi. Um eu que agrada as propagandas, agrada as mulheres na rua, os homens que passam, as revistas que ditam. Um eu com medidas, tudo no lugar. Gente sentada na sala da espera do psicólogo é feia. Eu, pro mundo, sou sanidade profunda, redentora de mim, batom vermelho, perfume forme, meia calça fio 15, tá tudo bem. Um beijo que não foi dado. Comida sonsa pedindo sal. Três palavras que insinuavam tudo, mas que não foram ouvidas. Três palavras que diziam tudo. Tudo. Mas ninguém ouviu. Eu sinto muito.
Caio no chão do banheiro, as pernas frouxas, brancas, vermelhas. Vermelhas. No azulejo eu estendo a mão. A água do chuveiro cai nos cabelos, nos olhos, na boca. Disseram que eu sou toda água. Shampoo, condicionador, espuma. Gente com cheiro humano é feio. Fedor é feio. E fede e fede. Ninguém gosta de cheirar.
Amigo, a dor é humana, mas senti-la é fraqueza. Não sinto, dou passos incertos em consentimentos mudos de inimizades comigo mesma, com o eu que eu sou. Hoje eu não falei comigo. Faz dias que não falo comigo. Não quero me ouvir. O eu que tem dentro grita, e é insano. Ou insana? O gênero não se aplica, nada se aplica. O eu não pode ser definido. Mas você entende, não é amigo? Você, me recebe nua, sem a máscara que ficou pendurada no espelho, sem a roupa parcelada em sete vezes no cartão porque preciso ser bonita. Você me recebe ao todo, por completo, me deixa ser, sendo. Não é? Eu nem preciso saber se sou mesmo, você sabe, você entende.
Nada do que eu diga engrandecerá a sua existência tão infinita. Nada do que eu diga realmente dirá sobre a sua bondade, meu caro amigo. Quando te escrevo, a vergonha prende-se aos meus braços, trava a minha escrita. Na última carta, você disse que não importava. Deveria escrever, escrever sem medo do meu eu, sem vergonha, porque você sabia. Eu escrevo.
Arranho as primeiras paredes dessa casa com as minhas unhas quebradiças. Barulho das minhas unhas nas paredes descascadas. Cansei de todas as cascas, cansei de todas as dores. E por isso dói ainda mais. Vasculho um chão sem cor, sem cheiro. Adentro um vazio sem fim. Coisas construídas. O eu que eu sou é um prédio inteiro construído pra mim. O eu é uma construção vacilante. O eu é um grande possuidor de coisas. Prostituta de mim, vendi-me fácil durante algum tempo. Vendi-me incessante em direção a coisas e disse, pra mim, que eu era aquelas coisas. Construí um edifício inteiro assim, andares de coisas, quartos de coisas, senti-me dona de mim, olhei-me no espelho e disse: esse sou eu. Não era. Nunca foi. E você sabe.
Grande amigo, só você compreende as marcas desses ponteiros do tempo sobre mim. As linhas de expressão. As dúvidas que eu não dei voz. Assenti, continuei. As linhas costuraram-se na minha pele, rastros de medos, de inseguranças. Na minha testa, as marcas do tempo de dúvida, do tempo de medo. Nos meus olhos as noites sem dormir esperando um dia chegar, o tempo passar, o medo mais uma vez em marcas roxas, em linhas cinzentas, em veias arroxeadas nas pálpebras trêmulas de cansaço, esgotamento, implorando por algo sem saber o que. Eu não sou essas linhas, essas cores, essas marcas. Mas minha pele, essa capa, esse corpo, me entregam. Delatores de mim.
Não importa. O eu de dentro é quem escreve.  O eu marcado pelas linhas, pelas cores. O eu cansado, calado, com dúvidas, com medos. O eu que não entende. Amigo, essa carta é para você saber, antes de mim, que eu me despeço. Sozinha eu vou na sua direção porque me sinto só. Choro, choro tanto porque dói esse desprender-se.
Parto para outro país com a intenção de destruir esse edifício inteiro que sou. Quero a sua ajuda, juntos colocar abaixo todo um eu de coisas, um eu de paredes mal pintadas, portas arrancadas e janelas tortas. Só assim serei.
Não pego coisa alguma, nem caneta, nem papel. A boca que tenho falará por si tudo aquilo que precisa. Vens me buscar? Te espero. Uma luz que sobe toda manhã, um calor. Outono, folhas secas, avermelhadas, amarelas, cheiro de terra úmida após a chuva, o vento no lusco-fusco de um dia em agosto, ou setembro. O mar, as cores do mar embaixo do sol refletindo a superfície da água que mais parece feita de plástico, tudo tranquilo, maré baixa. A espuma das ondas condensada em branco puro. Você é todas essas coisas, amigo. Eu me pergunto como, algum dia eu pude me enganar que controlava algo. Como pude acreditar  nesse algo, quando você é o tempo todo.
Afasto-me aos poucos de mim. Penso em você, bonito como uma maçã recém colhida, como uma música tocada, um acorde de violão, um som, uma palavra nova, um cheiro de chá, chá de hortelã, banho quente, o conforto de um abraço. Pensar mais em você e menos em mim é pensar em ser. Me distancio do ter. Aos poucos coisas são lembranças vazias, confusas.
Amigo, iremos juntos?
Voltarei a escrever.




Annabel Laurino


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vamos casar!


            Não vai ser no domingo. Vai ser numa terça-feira 13. Não vou me vestir de branco, não vai ter véu e grinalda. Mas serei a tua noiva ainda assim. Tu não vai ter que esperar por mim, porque chegaremos juntos, de mãos dadas. É assim que tem sido até aqui, não é?
            Vamos ter um lugar chamado nosso. E eu sei, tu vai comprar jornal pra mim. Vamos ouvir nossas músicas, cozinhar comidas gostosas no nosso fogão pequeno e mudar os móveis de lugar milhares de vezes. Aos domingos, vamos acordar tarde, eu vou passar o café, vamos ver filmes e você vai dormir antes de terminar. A gente vai brigar. Mas depois tudo vai ficar bem de novo.
            Não sei como chegamos até aqui. Eu olho uma foto nossa em frente aquela cafeteria em Pelotas. Nós nos olhando enquanto alguém tirava a foto. Eu amo aquela foto. Naquele segundo em que te olhava eu pensava “Eu amo esse cara”.
            Eu sempre amei a tua sensibilidade. O fato de tu me entender, de forma tão sensível e carinhosa. Eu amo tua maneira de falar comigo, o fato de tu ser meu melhor amigo, meu companheiro, meu conselheiro. E tudo bem que nem sempre tu dê os melhores conselhos do mundo. A gente ri, juntos, não é mesmo? A gente ri um do outro. Eu amo isso.
            Mas e aquela foto, eu tava falando dela. Foi no dia em que a gente colocou nossa aliança. Estávamos tão felizes. Achamos que o casamento ia ser algo distante, “ia levar tempo”, tu disse muitas vezes, desanimado, demonstrando ansiedade pra que o dia chegasse logo. Choramos muitas vezes antes de chegar até aqui. Choramos juntos, abraçados, choramos emburrados um com outro. Choramos desesperados. A única certeza: queríamos nos casar.
            E agora o dia está chegando. Sei que mesmo assim, sentirei saudades de ti todos os dias. Assim como sinto agora. Sei que vou querer sempre afundar a minha mão no teu cabelo e tocar tua cabeça com a ponta dos meus dedos, encontrar a pinta no teu queixo enquanto passo a mão pelo teu rosto. Beijar teu nariz, cheirar teu nariz. Beijar teu olho. Ler um poema em voz alta enquanto tu senta do meu lado com uma caneca de café.
            Naquele dia eu não sabia que isso tudo realmente podia acontecer. Nem mesmo quando tudo começou. Com um café. Um café num copo de isopor tomado as pressas numa rua movimentada de estudantes. Você de cabelo cacheado e grande, eu com a minha camiseta dos Guns N' Roses. Depois disso foi uma série de músicas compartilhadas, conversas sobre livros e um filme que mudou o rumo de tudo depois. Eu ainda acho que ele foi o grande influenciador. Será que...?
            Ah, eu mal posso esperar pra fungar teu pescoço assim que acordarmos. Mal posso esperar pelos próximos choros que ainda virão. Pelos sorrisos, pelas comemorações, pelos dias de tristeza, - porque agora já sabemos que nem tudo é flores, e que esses dias chegam sim -, pelos dias de sol batendo gostoso na nossa cara de preguiça. Mal posso esperar pelas nossas viagens, pelos dias de chuva em que não faremos nada. E pelos dias de chuva em que eu acabarei te arrastando pra fora de casa, pra pular poças, pegar um ônibus, ir pra algum lugar. E eu direi assim “vamos pr’algum lugar”. Tu vai rir. Vai ficar tudo bem. Você vai me deixar ser a sua Holly. Vai aturar minhas tpm's mais cruéis e eu sei, no final do dia, você vai me encher de margaridas e amores. 
            E vai acontecer mesmo, não é? Vamos casar. Vamos casar! Chamem os vizinhos, avisem o tio da carrocinha de churros, o cara que vende jornal, a professora que deu aula pra gente na primeira série e que a gente nem sabia, mas na verdade estudamos juntos todo o fundamental. Avisem os primos distantes, os tios, as tias, a família toda. Vamos comemorar com todo mundo. Amanhã mesmo eu vou contar pro motorista do ônibus. Vou ligar pra uma amiga que não vejo a meses. Vou contar baixinho no ouvido dos meus cachorros. Vou falar pra mim mesma, na frente do espelho, enquanto penteio o cabelo ou meço meu nariz mais uma vez, assim, bem baixinho “eu vou casar.”.
            Lembro do vô, lembro da vó. Que a gente chegue as bodas de ouro como eles chegaram. Que a gente tenha tanta paciência como eles tiveram, que a gente persista até o fim como eles persistiram, que a gente lute mesmo na dor. Que a gente nunca esqueça que a nossa amizade vem em primeiro lugar, que na verdade, antes disso tudo, a primeira coisa que a gente se chamou foi de amigo.
É, meu amigo, a gente vai casar! A gente vai casar, mas não vai ser no domingo. E esse escrito é sobre nós. É real. É real.
Beijos com gosto de menta com chocolate, 


Annabel Laurino


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

sangue

Eu sei que eu disse que ficava.
Mas agora parto
Aparto no parto

  Em prantos

o que sai de mim,
rubro despejo
com ares de despedida.
Bravura cândida.
Eu sei que eu disse que ficava,
mas na pressa tanta;
parto.
Uma parte, corto a menor das quatro
e esquartejo a mim
em quatro
no quarto.
Um, dois, três

e quatro.



Annabel Laurino 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Coisas que quebram


 Vou escrever pausadamente. Em pausa, ao som de queda livre, numa mistura singela de cacos de vidros. Uma cacofonia de coisas que quebram. Vou escrever triste em uma manhã ensolarada. Vou escrever quente em um dia frio.
  O café perdeu o gosto. O barulho do relógio fazendo tic e tac, tic e tac enquanto os meus olhos procuravam encontrar teu rosto. Tic e tac. Um rosto vermelho. Um rosto estranho. Do lado de fora um carro passa arranhando os pneus no asfalto. Um miado agudo vem manhoso do telhado da casa. Da sala, o burburinho da televisão ligada, passando um programa culinário.
  Meu peito inflando. O som do ar entrando e não saindo. E depois nem entrando. Um peito inflando. Seus olhos perdidos. Duas órbitas perdidas na vastidão de um chão sujo, empoeirado. Inflando. Espero a resposta. A atmosfera muda, transmuta, sucumbe. Queda livre. Pressão baixa. Um comprimido de Rivotril tomado.
  Nada.
  Nada.
  Satélite em busca.
  Droga, não é assim, não é assim. A resposta, eu preciso de uma resposta. Desespero. O nó na garganta. O irremediável. O nó que arranha a garganta seca. A secura. A loucura de remediar os danos. Impossível. Desespero. É que eu não te mereço. A resposta. Ela vem com a calmaria vertiginosa que a queda tem. Veio lento, jogando fora todos os cartões que você me deu. Fotos nossas perdidas num segundo de resposta.
 Nada mais foi dito. Ou foi, mas não vale o registro caótico. Não foi importante, nunca é. Me levantei. Um pé dormente, as mãos geladas. A sensação do piso frio ainda em contato com a carne. Um nada. Seus olhos olhando o chão. Tudo bem, tudo bem. A voz rouca, a minha voz rouca dizendo que tudo bem. A mão, a minha mão, alcançando a maçaneta da porta. A mão tocando no metal frio. Tudo bem, mais uma vez, antes de sair.
 Uma orquestra de coisas que quebram. São ordenadas, até mesmo. E o que eu tinha pra dizer e não disse ficou na garganta. Entre o nó e a partida. A mão na maçaneta da porta ainda e depois o clic agudo com ela se fechando. Tinido de cacos.
Você só precisava ter tentado. Eu nunca disse. O maestro encerrou sua orquestra sinfônica. Dó menor.

Dó-re-mi. 


Annabel Laurino

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Saudação empoeirada

Saudo-o novamente por meio dessas linhas enviesadas de fé e sujeira humana. Me perdoe mais uma vez, pela minha forma breve. Já não sei o que isso pode ser, a página de um diário, uma carta, um bilhete ou apenas um rascunho que jogarei fora. Me perdoe também pelas folhas amareladas e roídas de traças, eram minhas ultimas folhas sobrando, a ânsia por te escrever foi maior do que o capricho e a delicadeza esperada.
O frio chegou nessa cidade. Forte e assolador, as temperaturas baixaram rápido, tirei todos os meus casacos guardados do fundo do roupeiro junto com as meias de lã e os cachecóis. Não sei se será assim por todo o outono e inverno. Minhas mãos estão geladas e meu nariz vermelho. Fazia muito tempo que não provava dessa sensação, depois de dias e dias de calor e céu em brasa.
Caminho pela cidade, no meu passo diletante e perdido de sempre. Não te encontro mais nas esquinas como te encontrava antes e nem nos rostos desconhecidos dos passantes que atravessam os mares de gente. Tudo mudou, a atmosfera e o cheiro das ruas mudaram. Percebo isso ao sair de um café às sete da noite, o vento beijando minha tez, fazendo voar meus cabelos para todas as direções e aquela profusão de sensações, frio, cheiro de fumaça tisnada, céu escuro, luzes de postes, motores de carros, sirenes ao longe, conversas alheias de gente que passa com pressa pra pegar o ônibus e voltar para as suas casas, lojas fechando, o dia chegando ao fim, o termômetro preso numa esfera nova e fria.
No compasso da solitude eu vou ribombando, cada vez mais só. Nua, eu atravesso a cidade. Nua, eu ultrapasso as edificações cruas de concreto negro. Foram muitos passos, meu caro amigo. Por você, eu me desfiz das minhas máscaras. Por você eu me lavei de humildade, coisa essa que eu nem sabia o nome, só pra te saber tocar. Percebo, eu em mim mesmo. O coração é meu, é quente, é duro, é coisa. Choro por dentro. Esse troço duro no peito lateja, lateja, e eu me desmancho sem som.
E o vazio? Ele me cerca. O vazio da tua tão chegada partida. Quem partirá primeiro? Somos como dois tolos, remamos no mesmo barco, em sentidos contrários. Nos extenuamos, aos sôfregos e sem fôlego, paramos à beira mar, perdemos nossos remos. Quem será o primeiro a se atirar no mar e nadar? Iremos juntos? Teremos coragem de dar braçadas contra essa maré insana que se levanta?
Não sei. Na praça eu vejo crianças com suas mochilas coloridas, doces nas mãos, correndo, os pais atrás, caminhando no passo cansado de quem teve um dia cheio de trabalho. Os vendedores estrangeiros recolhem suas mercadorias. Sorrio para um deles, que já me conhece de tantas vezes que já me viu passar por ali. Eu o cumprimento, ele me cumprimenta. Continuamos em nossas dores individuais no percurso incoerente de existir.
Ó, meu caro amigo, o que foi que aconteceu com você?
Perdoe-me pelas perguntas vagas. Essas perguntas vazias e que não possuem respostas, perdoe-me por perder a linha, ter descompassado tanto nessa valsa que era nossa, mas que agora, assim, acabou, ou acaba. Dois descompassados loucos. Você, um desculpante que não se contém, eu uma neurótica, insana.
 O que te dizer? Não sei. Nem carta isso pode ser. Mesmo assim te escrevo ainda mantendo todo o capricho numa letra de tinta negra, à mão, feita pelas minhas frias carnes.
 Não te digo mais nada. Só que sinto saudades. Oras, já me dói a sua partida que ainda não aconteceu, mas que prevejo. Sinto na pele como tempestade que se aproxima. Sinto saudades agora, prematuras. Do teu rosto e do teu cheiro. A musica ficou tocando sozinha no meio do salão, aquela valsa antiga que você e eu já conhecemos bem.
  E eu? Eu continuo, no meio da multidão. Amigo, talvez daqui um tempo você não me reconhecerá mais, serei outra, diferente. Ou deixarei de existir e me tornarei poeira. Não importa. No instante agora, eu continuo. Continuo, continuo, continuo. Nua. Sem nada. Só, como eu só sei ser.


P.s: I wish you’d never forget the look on my face when we first meet.




Annabel Laurino

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terça-feira, 19 de abril de 2016

NUVEM

Talvez eu esteja agora mais de partida do que algum dia já estive de chegada. Talvez eu não veja o que o futuro há de trazer. Entre a ressonância do existir, talvez eu não veja o que o mundo será um dia. A morte é consolação, é prêmio, sabendo que não pertenço, não sou daqui.
Embarco sozinha no meu maravilhoso silêncio em direção ao além do sentir. Só, profundamente só. Nesse quarto bagunçado, diante dessa cama desarrumada, eu me sinto diante do que pode ser alterado, ao mesmo tempo que sei, há aquilo que já não pode mais.
Dói. A minha capacidade humana persiste em insistir no erro. Mas pra que? Porque me custa compreender que nada sou e que nada tenho e que nada posso. Não posso mudar aquilo que é imutável, nem alguém que não pode ser mudado. Nem eu mesma posso, porque já sou; torta e despenteada de nascença, não consigo me consertar.
Os dias possuem um zunido sonoro triste, baixinho, escondido na camada cotidiana de acontecimentos. Mas ele está lá, esse zunido melancólico, repercutindo suas dissonâncias mansamente, se você se atentar irá ouvir, mas melhor mesmo é que não ouça, continue assim, assista a uma TV, leia uma revista, abra um bom livro, tome um café, ignore o zunido, viva num tempo incerto, viva sem a consciência de ser dentro do tempo, viva como se hoje fosse um dia e como se amanhã fosse outro dia e como se depois de amanhã virão outros dias até que dias sucessivos uns dos outros cheguem, sem nada se alterar.
Depois que reparei no zunido eu nunca mais fui a mesma. Passei a questionar tudo, a ter dores constantes no peito e a sentir a noitinha um calafrio pelo corpo todo, como se pressentindo as próximas notas dessa sonoridade dispare e triste que toca seus violinos chorosos sem que ninguém perceba.
Ah, Zé, pega da minha mão e diz pra mim que ela ainda está quente? Faz assim, se tu me mostrares que ainda vivo eu te mostro quão viva eu posso ser. Diferente disso eu desfaleço numa quietude branda de tons cinzas e cálidas memórias. Estou muito mais velha do que um dia chegarei a ser.
Zé, as nuvens são tão distantes assim ou nós que somos tão pequenos? Distantes, tu diz, distantes porque ser pequeno é uma questão relativa, nada tem a ver com tamanho. Distância sim, distância não pode ser medida dessa maneira e que maneira eu pergunto e tu diz dessa, dessa maneira empírica e forte. Eu choro dizendo que me sinto pequena quando olho para as nuvens, e tu diz que tudo bem, todo mundo se sente mesmo e que nós somos assim muito pequenos de tamanho, mas grandes em outras coisas. Eu te pergunto se posso ser grande como uma nuvem, tu diz pode, podes ser grande como uma nuvem.
Desde então eu me sinto meio nuvem. Faço café pensando que como nuvem eu tomo café e que como nuvem eu pego o ônibus e encaro os dias toda meio nuvem. Como nuvem eu dobro guardanapos coloridos, escrevo frases soltas, leio um livro. Como nuvem eu assisto um circo passando na TV e leio notícias, vejo o mundo parar. Como nuvem eu fico, fofa, toda branquinha, com as minhas outras amigas nuvens, eu me misturo e me camuflo.
Da nuvem que sou eu passei a entender que vezes eu fico meio cinza, vezes meio branca. Sumo, horas apareço. Vou indo. Papo doido esse de ser nuvem né? Mas não pretendo mudar. Mudar de papo, eu quero dizer, porque de ser nuvem eu não sei mais. Pode isso, Zé, mudar de ser nuvem? E tu diz sim, pode, que eu posso ser o que eu quiser. Se amanhã, por exemplo, eu acordar e quiser ser uma folha de álamo, eu posso, difícil mesmo vai ser me sentir folha, tu ri. Eu digo que se é uma questão de sentir, hoje eu me sinto nuvem.
Como nuvem que hoje chora. Chove, chove esmagada num céu cinza gris, tisnado, egoísta esse céu, me deixou aqui, turva nuvem branca, chorando gotas ácidas por um tempo que talvez não vá chegar.





Annabel Laurino