quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Música

Andei cantando uma música que ninguém poderia ouvir. Notas de piano, com pingos de um violino, como pássaros anunciando a chegada da manhã.
Alto e baixo. Suave e preciso.
Sempre tem sido assim, dês de que eu comecei a cantar.
Canto, e canto sem nunca me cansar.
É maravilhoso, o tom, a nota a sobrepairar, a esperança de alguém ouvir.
Canto alto, bem alto.
Canto mais forte do que meus pulmões poderiam suportar. Rasgo a garganta tentando chamar.
Um grito no ar, uma nota aguda.
Como pingos borrifados na vista de um pára-brisa.
Gotas vermelhas.
Alguém há de notar.
Alguém há de procurar de onde vem a música, os gritos, as gotas. Alguém, oh, por favor, há de me encontrar.




Annabel Laurino.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Desapontamento

As vezes só por que você se doa para alguém não quer dizer que vão lhe receber Bem. Você pode catar as melhores flores do mundo, as mais belas e cheirosas, e dar de amor para quem lhe faz bem, mas este pode ver apenas flores, e não as mais belas flores, ou ainda, o trabalho de catá-las uma por uma, de juntar em um buque, e depois com um cartão unido de palavras formosas e ternas que você especialmente fez. Você deve entender. Eu devo entender. Que nem todos os olhos do mundo vão lhe ver como você gostaria que vissem. Nem todas as bocas irão proclamar o que você gostaria que proclamassem. Nem os coração mais desejados irão sentir por você o que você gostaria que sentissem. Mas apesar de tudo, do desapontamento então, basta lembrar que o mundo é grande de mais, á pessoas de mais, milhares de lugares, de milhas a se caminhar. E num desses pedaços do mundo você vai encontrar alguém que lhe veja muito mais além do que você poderia imaginar, alguém certo pra você mesmo. Pra mim mesma.


Annabel Laurino.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Natal...

   Ah essa época do ano. Calor. A noite quente e formosa, o ar úmido e árido de verão. O som festivo, os risos, as expectativas. Tudo que me lembro sobre o natal são as melhores lembranças que posso pensar em ter, e que vou guardar para o resto da vida.  Eu pensei em falar sobre o natal em um sentido literal demais. Sabem, a árvore, os biscoitos, a torta, os presentes, as músicas e os abraços. Mas isso não é o Natal.
Natal não é só uma celebração. Não é uma festa, nem um encontro de familiares. Celebrem todo dia, festejem todo dia, abracem suas famílias todo dia! Por que só no Natal?
  Lembro-me de quando ser criança, de sentar a mesa com meus avós, que ainda vivos faziam-me acreditar no papai Noel, nos presentes e nas dádivas do natal. Eu era apenas uma criança, e tudo que eu entendia sobre ter um natal eram os presentes, a ceia posta a mesa, as pessoas rindo, a felicidade. E sempre que eu via todos sentados a mesa, cortando seus pedaços de frango alegres, ceiando sorridentes e maravilhados, eu sentia a felicidade. Eu via os rostos de meus avós envelhecidos pelo tempo e tudo que eu conseguia pensar era os quantos natais eles já não deveriam ter passado, eu via seus rostos corados, seus sorrisos ternos esboçados alegremente sobre o rosto, o brilho nos olhos na hora de entregar os presentes, os abraços apertados. Era além da felicidade, era algo mais, algo mais puro, mais além de que meus pequeninos olhos infantis poderiam captar.
  Eu guardo uma lembrança passada, tão boa quanto uma mordida em chocolate. Macia, gostosa e suculenta. Meus pais, ceiando a mesa em mais um natal. Mais uma vez os sorrisos alegres, os olhos tilintando de comemoração, a paz jazia bem ao nosso lado, como um sussurro elevado que só os puros de coração poderiam ouvir. Eles esboçavam pureza, comiam a ceia e me beijavam ternamente como pais beijam seus filhos, com amor. Eles beijavam-se, se abraçavam, e sorriam alegremente um para o outro. Nós três, sempre fora assim pra mim, com amor.
  Então eu ainda não entendia, era criança pequena. Natal, presentes, comida. O que mais poderia ser? Mas os tempos simples passam como fagulhas rápidas em um céu borrifado de luz, é tão rápido.
  Comecei a refletir naquela sensação boa de natal, na união, nos abraços, nos beijos, nos sorrisos, no ato de dar um presente, no ato de ceiar á mesa, de sorrir, de dizer boas graças e de agradecer por tudo de bom na vida.
  Foi como pegar uma trufa, recheada de cerejas e mel coberta por camadas de ouro e prata, glacês do mais puro açúcar, das melhores confeitarias, morder e degustar, até captar a doçura, a sobrepairar, o resultado. O ato do amor. Como uma injeção de fatos.
Ali esta o amor, aqui está o amor. O Natal não é uma festa sem uma música, uma música soada por corações. Pegue a mão de seu irmão mais próximo. Ele não é lindo? Não brilha como você brilha? Não possui um coração?
  Divida sua trufa de doces celestiais, reparta o perdão, o amor, a paz e alegria com seu irmão.
  Renovação, é perdoar e saber ser perdoado. Renascer, respirar o ar e continuar sempre em frente. Amar a Deus, ao próximo.
  Dê de presente não só algo material, mas o seu melhor sorriso, seu melhor abraço, sua melhor face de alegria, dê sua mão, suas forças. Retribua em paz, em canções. Deixe o amor pairar no ar como quando uma ave voa e rodopia alegre num infinito sem fim. O ápice das coisas, o resolver, permanecer de tudo.
O amor.
Viva a paz, vivas a renovação, vivas a ressurreição!




Annabel Laurino.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Vem.

Num sussurro baixo, tímido. Em uma voz calma, tranqüila, e mesmo assim, soante . Eu lhe convido a sentar no espaço vazio ao meu lado.
Vem.
Caminhe até a mim.
Sente-se comigo, inspire o ar. Não há pressa. Não há dor.
Você pode pegar minha mão se quiser, deixar eu ver seu sorriso terno esboçar para mim. Você pode dizer o quanto o dia é lindo, o quanto o sol é bonito e o quanto o silêncio é valioso.
Sem dor.
Sem medo.
Eu vou contar uma história pra você, pequena e rápida. De uma certa vez. De algo que eu vi, que eu senti. Quatro letras, duas vogais, três consoantes. Vou lhe explicar, lhe conduzir pelo caminho dos sentimentos. Cada um que eu conheci. Meus pensamentos. Os mais difíceis de traduzir.
 Você não pode ter pressa pra ir embora amor.
Calma, lembra?
Então eu vou deixar você me olhar. Não ver. Olhar. Como eu realmente sou. Sem aquele sorriso educado que coloco no rosto todo dia. Sem aquela face infantil de quem pensa muito e pouco fala. Como eu sou. Realmente.
Vou deixar você temperar o dia. Com um toque de beijo, de malicia.
E novamente, calma.
É como pegar uma peça rara, muito rara. De cristal fino, com um toque a mais e no mínimo de cuidado se quebrará.
Então eu vou ouvir. Atentamente tudo que você tem pra dizer.
Onde você esteve, o que você procura aqui. Conte-me amor. Conte-me tudo, todos seus sonhos, desejos e ambições. Seus medos, suas dores.
Deixe-me curar você.
Cura-me.
Tome-me em seus braços e proteja o que lhe dou.
A peça rara.
Confiança.
Fique com todo meu carinho e confiança.
Tome conta pra si.

Annabel Laurino.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Certa vez,


Certa vez á muito tempo, recordo-me de ter dito para alguém – que agora eu não lembro bem pra quem – que dias chuvosos estragam nossos planos. Além de serem feios, céu cinza, nuvens carregadas e tudo, completamente tudo encharcado e tomado por poças compridas e lamacentas. Talvez, só talvez, eu estivesse enganada.
 Hoje quando abri as janelas, eu vi a chuva. O céu cinza, as nuvens, a paisagem encharcada. E eu suspirei. Não era bem o tempo em que havia planejado, não em um dia planejado. Eu queria sol. Muito sol. Calor e um céu lindo. Mas choveu o dia todo.
 E sabem, eu poderia bem ter feito cara feia, ter falado mal do tempo, do dia, da chuva, do céu e do frio que estavam fazendo. Mas tudo que eu consegui pensar foi: “que a chuva lave.”
É isso que dizem os antigos. Que a chuva lava, que ela é um bom presságio. A chuva tem o bom consentimento de purificar, levar as más noticias, o passado, banhar e inundar de boas novas o que se tem por vir.
 Parece bobagem, talvez só mais uma história mística que os avós costumavam contar para agente. Mas sendo assim ou não, tudo que eu resolvi acreditar hoje, foi que a chuva realmente levou e lavou tudo. Completamente tudo que ainda se prendia em mim. Os maus sentimentos, as velhas interrogações.
 E justo hoje, em um dia tão chuvoso, eu me permiti sorrir. Não que não sorrisse antes. Mas eu sorri pra chuva, pro dia. O dia inteiro.
 São coisas loucas e minúsculas que as vezes chamam nossa atenção como o amarelo bifurcado no meio do branco em luz. São coisas assim, capazes de lhe chamar a atenção em meio a tantas outras coisas.
O que podia ser um dia tão comum, tão chuvoso, tão sem cor. Tingiu-se muito bem em cores, em beijos, em sorrisos.
 Nessa certa vez, depois de tempo, - quanto já não me recordo mais – alguém sorriu pra mim, não como qualquer outro sorriso. Como quando se sorri normal. Eu prefiro guardar como um sorriso doce, cor de lilás, mas gostoso e macio como o chocolate, quando você mastiga lentamente e em uma sensação tão boa lhe faz fechar os olhos. Foi um sorriso, de certo alguém, em certa vez, que eu me recordo muito bem.



Annabel Laurino.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

!

Escrever, escrever e escrever. Nada sai como eu quero, nada tinge o papel como esperado. As palavras entalam na garganta como bolas de letras irreconhecíveis incapazes de que eu possa traduzir.
Eu quero gritar. Jorrar os montes de palavras fora. Quero soprar os pesos. As angustias.
Eu grito.
Grito.
Ninguém ouve.
E quem mesmo gostaria de ouvir?

Annabel Laurino.

Você sabe.

Se eu for contar quantas vezes vi a chuva passar bem ao meu lado eu me perderia. Mas, tudo bem. Valeu a pena pensar que eu fiquei bem perto de ir embora. Valeu a pena, eu poderia ter esquecido que você existia em um piscar de olhos. Mas veja eu sou uma garota bonita e sabe eu gosto de você! Por que?
Eu sei lá!
Talvez seja aquele seu jeito de... Bem você sabe.
Mas pensando bem, não é tão bem assim se comparado ao seu jeito de... Bem você sabe.
E eu fico pensando que se um dia o céu estiver escuro, bem escuro e lá, bem de lá do fundo uma luz brilhar, não será de seus olhos. Será do clarão iminente de que enfim chegou a hora de eu te esquecer. Não será no céu azul. Nem no sol celestial.
Querido falta pouco, lembre-se eu sou uma garota muito bonita, entende. Não da pra ficar só no seu jeito de... Bem você sabe.


Annabel Laurino.

Escarlate

Encha meu copo até a borda e transborde. Encha amor, encha do seu amor. Faça transbordar a cor escarlate que sua alma me doa, me enche. Sim, escarlate. Encha até a borda e transborde.
Deixe escorrer por todos os cantos do quarto, deixe o cheiro doce se espalhar.
Logo molhe meus lábios, umedeça-os do seu amor. É, seu amor.
Faça com que fervilhe, e aqueça.
Deixe todo frio escapar como vapor quente de uma chaleira. Vamos! Sim, vamos transbordar de amor.
Chupe meus dedos que deixaram-se passar no amor, o amor transbordante ao chão.
"Ah que pena", disseram os anjos. Fizemos muito mais do que desejado. Nem se quer justificamos aos céus, apenas cantamos e dançamos na grande poça escarlate e terna de amor que emanava em nós. Em nós dois amor.






Annabel Laurino.