sábado, 11 de julho de 2015

Conto de uma Mulher Neurótica


Elisa estava apaixonada. Isso sim era uma notícia e tanto para ser primeira página do jornal local daquela cidadezinha pacata, mas cheia de marginais. Elisa estava com borboletas espiralantes batendo asas alvoroçadas em seu estômago. O flautista que tocava todos os dias no centro da cidade escolheu Fly Me To The Moon do Sinatra especialmente na hora em que Elisa passava antes de ir para o trabalho naquele dia, e sorriu, mesmo sem receber uns trocados em sua caixinha preta e esfarrapada. Se foi coincidência ou não, não se sabe, mas a música a fez flutuar romanticamente, imaginando cenas perfeitas, beijos estalantes, frases retiradas de filmes antigos, mas que dessa vez, em sua imaginação, saíam de sua própria boca, como uma romântica desenfreada no auge de sua paixão, como em Cinderela em Paris, ela era Audrey Hepburn.
Estava apaixonada há vinte e duas horas, trinta e quatro minutos e vinte e três segundos. Era um recorde. Sentia-se extasiada, era como experimentar uma droga e para ela, que nunca havia provado nada de inovador e exótico, além de um café bem forte e um cigarro amargo, essa droga, a paixão, a fazia sentir-se em êxtase, como se sua mente estivesse fora do ar.
Por isso naquela manhã de uma quarta feira cinzenta e fria, acordou sem se incomodar com o barulho incessante do despertador. Sem se importar até mesmo com sua franja que estava um pouco torta, na verdade parecia até mais bonita assim, meio amassada, julgou-a espontânea e de um visual beirando ao rock 'n roll, combinou perfeitamente com sua saia preta e sua camisa azul royal, com suas meias escuras e charmosas e seu casaco pesado, estilo londrino. Não se importou, ou não deu a devida importância para a sua vizinha parada no portão, que sempre espichava os olhos aguados de uma velha muito velha para a sua saia que fazia questão de dizer bem alto como estava curta, e nesse dia em questão o fez com uma rabugice desprezível, mas que Elisa nem percebeu. Também não ligou para o fato de ter que ir em pé no ônibus, quando deu por si já estava no centro da cidade e todos os passageiros pulavam para fora do ônibus, apressados.
Era maravilhosa aquela sensação. Sentia-se como se tudo ao seu redor fosse dar certo, como ser abraçada por uma gigantesca nuvem de Felix Felicis. Essa sensação aumentou ainda mais com o seu chefe parado em meio ao escritório observando-a entrar, soltando um bom dia alegre e elogiando seu cabelo, havia feito algo? Não, respondeu sincera e feliz, não visitara seu cabeleireiro naquela semana e agradeceu estupefata.
Ah! Como são fervorosas as sensações da paixão. Tão cáusticas e intrepidamente ressonantes no peito daquele que o sente. Elisa não podia evitar, não o pode, nem mesmo quando deu por si e percebeu que havia algo de diferente entre o caminho do coração e da sua mente. Não conseguiu e nem mesmo tentou, para falar a verdade, expulsar aquele intruso de dentro do seu corpo. Era profundo aquele ressoar gostoso de uma onda viva e dourada, cheirando a lavanda e almíscar. Todos os dias podiam ser cheirosos assim, decretou inebriada.
Porém é válido ressaltar de que embora Elisa se encontrasse assim tão ineditamente apaixonada e que essas sensações ludibriantes assolassem seu peito, agora inflado de um amor súbito e ferrenho, ela estava inebriada demais para perceber as causas amargas desse sentimento tão único. Não havia percebido o outro lado da moeda até aquele momento fatídico, não havia se questionado, indagado o desabrochar daquela paixão.
E foi assim, com uma pergunta simples, no momento em que grampeava um documento ao outro, sentada no escritório da rua 24 com carpete marrom e manchado, rodeada de seus colegas, ouvindo o barulho estridente de um telefone que não parava de tocar, que a moça firmou seus pés no chão.
Não sabia como isso tinha começado, como ou em que momento ao certo ela se deu por conta de que estava apaixonada. Não saberia dizer. E por isso perguntou-se: Por que me sinto assim tão feliz? Esse sentimento irá acabar? Eu continuarei feliz assim? Um sufocamento novo e contrário a toda aquela felicidade começou a apertar em seu peito. Sentiu-se tonta com a leve percepção de que tudo isso, todo esse sentimento, toda essa felicidade, poderia ruir em segundos. E se ele não a amasse? Estaria ele feliz como ela? Seus olhos antes tão estalados e amorosos tornaram-se olhos de gato que rumina um rato dentro de um buraco na parede, olhos investigativos e altivos.
Elisa sentou-se estática na sua cadeira de trabalho, ficou fitando o longe, o outro lado da rua através da janela do escritório. Imaginou seu amante naquele exato momento apertando o nó de sua gravata e saindo para o trabalho, parando o carro no sinal vermelho e assim que passasse uma moça bonita ele não resistiria de olhar um bocadinho, só por um esporte costumeiro, então examinaria suas sobrancelhas no espelho retrovisor e voltaria a dirigir.
         E ela ali, toda contente. O gosto que sentiu foi amargo e incisivo na sua boca que antes era só doce. Sentiu-se preenchida por uma nova sensação áspera e surpreendentemente quente, azeda e corrosiva. Imaginou-o com outra logo depois que foi embora, imaginou-o mandando mensagens para essa outra, dizendo para essa mulher o quanto a amava, da mesma forma que dizia para ela, nos momentos de dizer adeus. Se sentiu tonta, magoada, enganada, quase chorou. As perguntas não paravam de rodopiar em sua cabecinha escura, e se ele estivesse fingindo amá-la? E se, e se, e se...
No final do expediente da manhã Elisa estava decidida: iria romper com tudo. Seu sentimento que antes era florescente e feliz agora era algo caótico e destrutivo, sentia-se louca, amarga, desesperada. Não era mais Audrey Hepburn, mas Zelda Fitzgerald no limiar de uma loucura, de um ato insano, iria saltar no Sena, jogar-se no rio. Olhou para todas aquelas mulheres, suas colegas de trabalho, observou-as conversando com os outros homens, a maneira como flertavam e riam para os clientes que entravam no escritório, imaginou se alguma daquelas mulheres seria a biscate, a outra, a que ouvia os elogios amorosos que ele lhe dava.
Quando Elisa saiu para o horário de almoço a música que tocava em sua cabeça era She’s lost Control do Joy Division, muito diferente das melodias harmoniosas e da voz quente de Frank Sinatra. Agora em seu peito um ciúmes doentio incidia acompanhado de uma vontade enlouquecida de descobrir toda a verdade, mesmo que apenas em sua mente ela se fizesse verdadeira.
Ponderou que agora tudo fazia sentido. Quando ele não atendia o telefone ou nos finais de semana em que arranjava uma desculpa de trabalho por não poder vê-la e até mesmo as várias flores que ele lhe dava acompanhadas de presentes caros e bonitos, todos os mimos, tudo parecia um amontoado de pedidos de desculpas por algo que ele vinha fazendo.
Caminhou sem rumo predestinado em direção ao calçadão. Seus passos que antes eram leves e flutuantes, agora eram pesados, com os saltos de seus sapatos batendo retumbantes no asfalto. Passou reto pelo flautista negando seu cumprimento sorridente, deixando-o para trás com um semblante confuso, sem entender nada. Ele que se danasse, pensou Elisa, podia ser mais um desses homens cafajestes e mentirosos, estava farta dessa raça.
Aquela sensação romântica agora era apenas uma lembrança distante em sua mente. Elisa sentiu-se enganada, havia-se deixado preencher por aquele sentimento tão idiota, escapista e burro. Como pode? Caminhou em direção à praça, passou por tantas pessoas, tanta gente, tantas coisas, não viu nada. Foi o medo que bateu no seu rosto junto com o vento gélido, foi o desespero que espiralou seus cabelos ao dobrar a esquina. Elisa estava condenada.
Soube disso no momento em que sentou-se no banco daquela praça. Folhas avermelhadas caíam preguiçosamente no chão junto ao amontoado de folhas secas e quebradas, pisoteadas pelos passantes, uma criança com uma mochila de super herói passou acompanhada de sua mãe e sorriu divertida pra Elisa, pombas aglomeravam-se ao longe, bicando os restos de pão deixados por alguém, um sol de meio dia batia no seu rosto e o aquecia por inteiro, nuvens brancas carregadas de chuva nadavam em um céu cinza e pesado, trabalhadores passavam rápido, apressados e famintos em seus horários de almoço, o fluxo interminável carimbado em uma atmosfera invernal.
Estava marcada por aquele sentimento, não havia como ir embora dele ou manda-lo embora. Aquele sentimento... Sabia que não havia mais volta. Já tinha se entregado. Elisa, 22, recém formada. Agora com o acréscimo de mais uma informação em seu currículo social, estava apaixonada, louca, pirada, provando das duas faces desse sentimento odioso e lindo, como foi tola.   
Respirou fundo e firmou seus ombros em um ângulo reto, levantou o queixo, quis xingar alguém, quis parar os carros que buzinavam na sinaleira mais ao longe e gritar com todos eles, todas as pessoas do mundo, dizer que estava feliz, muito feliz, estava in love, puramente e maravilhosamente in love... Mesmo que doesse encarecidamente. Porém não o fez. Se conteve, aprumou a bolsa no ombro e marchou, como uma soldada que acabasse de receber sua missão.
Alecrim com jujubas coloridas, chá mentolado no inicio da manhã de um sábado fresco, café passado e pão de queijo às cinco da tarde, jasmim e damas da noite, água batendo nas rochas, um vento fresco. Tudo isso acaba no final.


Annabel Laurino

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