terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Diversidade em anonimato

    Eu queria uma coisa deliciosamente secreta que ficou esquecida por cima de algum muro por ai, meio perdido, em algum lugar deliciosamente secreto, entre algumas árvores e vigas, entre alguns emaranhados de complicações desconhecidas e outras conhecidas de mais até que se tornaram cansativas. O importante e o fato era que eu queria essa coisa que não poderia mais ser  adiada nem se quer em um espaço curto de tempo. Eu queria e ponto. Algo que se alastrava mansamente conforme os olhos decorriam a solta as multidões no calçadão da cidade ou as propagandas de filmes nas televisão. Nada consumista ou ganancioso. Estava lá para quem quisesse ver muito mais amostra do que uma roupa cara numa vitrine de luxo. As mãos dos casais entrelaçadas, os olhares anônimos cheios de uma compaixão ou desejo únicos, as conversas e os risos, o jeito todo como tudo fluía num determinado lugar e espaço, as pombas gurnindo na calçada, os velhos sentados em seus bancos com o sol batendo sobre a boina cinza e ruida do tempo, as senhoras passando em frente a igreja e fazendo o sinal da cruz, as outras mais senhoras ainda trocando confidencias de algo importante, uma receita de bolo ou torta, o ponto certo no crochê, não sei, e há os jovens e suas tecnologias, caminhando com os celulares enfiados na frente do nariz e as mulheres com suas bolsas coloridas presas ao corpo, os quadris bamboleando ao passo apressado, algumas sozinhas, outras acompanhadas. A diversidade sem fim.
      Eu queria estar lá dentre todas as coisas daquelas pessoas, enxergar por trás das mascaras em que se escondiam, entender seus gestos e o que as motivava de estarem ali naquela hora do dia. Eu queria aspirar uma essência unica que ficava refletida nelas e talvez poucas percebiam. Eu só queria entender um pedaço do desconhecido mundo das pessoas a minha volta, talvez assim, eu, aos poucos fosse me entendendo melhor e aspirando a minha tão estranha forma de viver e conhecendo o meu anonimato ainda desconhecido.


Annabel Laurino

domingo, 27 de janeiro de 2013

O Nosso Amor A Gente Inventa



O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver

Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu

Te ver não é mais tão bacana
Quanto a semana passada
Você nem arrumou a cama
Parece que fugiu de casa

Mas ficou tudo fora de lugar
Café sem açúcar, dança sem par
Você podia ao menos me contar
Uma história romântica



Cazuza 


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“Se eu tivesse tomado um atalho, uma rua estreita qualquer, que tipo de pessoa eu teria me tornado? Não sei. Mas gostaria muito de saber. Pelo retrovisor, vejo todas as pessoas que eu poderia ter sido e não fui.”

 O Teatro Mágico

Não é tudo não

    Sabe, se você parar pensar, nada que só viva de amor dura. Nada que fique pendurado por uma corda só por amor viverá. Nada se alimenta só de amor. Nada mata a sede e a secura amarga da garganta somente com uma colher diária de amor. 
    Amor é navio e não mar. Amor é lenço voando de uma janela aberta em um trem em partida. Amor é detalhe, amor é suplemento e não alimento. Amor é enfeite que complementa. Amor absorve e nem se quer suga. Amor é coisa que a gente tem e se não tiver, paciência. Aliás, paciência é sim uma das coisas que necessitam para que algo sobreviva. Sabe, paixão, sim paixão e claro, humor. Perdão, sabedoria, risos e paz de espirito. Isso sim é alimento, amor não. 
    Amor não faz ninguém morrer, não faz ninguém definhar, amor é algo que sente mas não prende ninguém, não amarra ninguém, não faz com que uma vida inteira pare de funcionar. É desse amor que não gruda ninguém que é o nosso amor, que é o meu tipo de amor. 
    Eu preciso de muito mais do que amor para me manter viva. Eu preciso muito mais do que só amor para querer ficar de verdade e ainda assim te dar um beijo daqueles de novela com direito a chuva caindo e um olhar cheio de palavras declaradas que nunca serão ditas, porque não é preciso. Eu preciso de uma injeção diária de paixão, de motivação, eu preciso de tudo e mais um pouco que se chama bom humor e carinho. Sim, eu preciso de romance com o 'r' bem desenhado em letra maiúscula e em negrito. Eu preciso de muito mais que amor para querer dormir do teu lado e acordar te achando a pessoa mais linda do mundo mesmo que todo despenteado. Companheirismo e intimidade. Compreensão e amizade. 
    Desde o começo eu acho que já consegui provar que amor não é o todo, é só o resto. É o que faz a gente ficar por livre e espontânea vontade com a liberdade de partir mas não querer, porque há amor. Amor é livre que nem pássaro alçando voo na beira de uma praia e rumando para lugar algum desde que haja sol. Amor é a porta para possibilidades, mas não a possibilidade em si.
    É por isso que eu preciso de muito mais que amor para querer segurar sua mão até o fim desta jornada que desde o inicio tem se mostrado árdua e complicada. Na junção de dois completos opostos temos comprovado na pele que pode até ser verdade que os opostos se atraem, mas eles também se destroem e se consomem um ao outro.
   Estou falando da capacidade de suportar tudo isso e ainda assim querer ficar. Mas meu caro, amor eu tenho de sobra, como recheio transbordando de um bolo recém assado e quente, ele não se contem de tão grande. Amor não é tudo, há muitas coisas mais e todas elas estão indo pelo ralo e eu não as vejo mais, não consigo mais segurá-las em meus dedos e amarfanha-lhas nas minhas mãos e ordenar que fiquem. Essas coisas, essenciais e discretas, sim, essas sim seguram um mundo se não um universo de coisas. São elas que manteriam a nossa ligação de dois opostos em uma perfeita e completa harmonia, seria como a lei do equilíbrio sendo posta a prova.
    Eu preciso de mais do que amor, eu preciso de paixão, saudade, vontade, e isso eu quase já não vejo mais. 



Annabel Laurino

sábado, 26 de janeiro de 2013

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“Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer. Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar.”


Tati Bernardi 

Aquela coisa

Não quero desestabilizar passos
Não pretendo algemar mãos
Não quero amarrar ninguém a força
Chega de esperar pedaços
De aguardar fatos
Ansiar momentos que nunca virão
Eu não quero uma saudade repentina
Nem calor momentâneo 
Eu não quero paz amiga 
Nem abraço em uma manhã com sol
Eu só quero aquela coisa que cola
Que fica, na chuva, sobre a tempestade no final de semana
Não há dente quebrado ou cabelo despenteado que a impeça  
Livre, ela vai embora se quiser
Hora e tempo, quando pretender
Mas ela fica, ela cola, ela simplesmente se faz por inteira
Sem partidas em vão.





Annabel Laurino

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

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"Essa ferida meu bem, às vezes não sara nunca. Às vezes sara amanhã"



  Drummond 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Acalanto

    Será que eu sou a unica que não consigo ser indiferente à tristeza alheia? É, aquela tristeza que sempre mora ao lago, servindo de peso nos ombros de nossos companheiros. Será que sou a unica que não consigo fechar os olhos e me enganar com a mentira de que todas as pessoas são felizes com o que elas realmente tem, seja ruim ou horrivelmente bom. 
    Eu me proponho a carregar quase todo o peso dos amigos que eu conheço. E não me vanglorio por isso. Depois que eu faço, eu logo esqueço. Eu realmente fico ao lado ajudando a sustentar o fardo, e se caso eu não consiga levar uma pontinha da carga eu fico ali, dizendo palavras que deem força, e quando a madrugada surgir fria eu estarei lá com o meu abraço mais quente para reconfortar os ombros cansados e enxugar as lágrimas mais doloridas.
    Não há necessidade de me pedir. Simplesmente estarei lá oferecendo conforto, nem que seja um lenço para guardarem no bolso quando tudo virar tormento. Mas eu estarei lá. 
    É algo meu, não sei. Não há forma de eu ser indiferente a essa natureza tão delicada que somos nós e não me compadecer, não querer me aproximar e tocar no rosto daquele que se sente frágil, cansado. 
    As vezes parece que eu me doou de mais e depois fico sem. Há dias que tudo não vai realmente bem. Você sabe, tem aqueles dias de cão. Sei lá, vai saber quantas coisas podem ser consideradas ruins para que você diga que seu dia foi ruim. Para o meu dia dar errado eu só preciso que o meu coração esteja esmagado feito um pão na chapa quente. Problemas familiares então me desestabilizam, me desestruturam. Não há para mim nada pior do que um âmago familiar em crise. E dai vem os meus dias de cão.
    O engraçado é que todo mundo some quando você realmente precisa. Sei lá porque as pessoas somem, elas tem coisas mais necessárias do que se preocupar, faculdade, trabalho, sexo, namoros essas coisas todas e então elas realmente as vezes não pensam muito bem. Mas é quando eu realmente prendo o grito e ninguém aparece.
    Tudo bem, eu sou mesmo um silêncio desenhado em pessoa. Eu sofro calada. Cubro o rosto com a coberta para chorar, mesmo que eu seja a unica pessoa trancada no quarto. Eu fecho os olhos para que nem eu mesma descubra o que eu estou sentindo. Sofrer de angustia é sempre muito ruim. E geralmente eu não anuncio que estou mal. Sou da velha moda de quem te conhece de verdade sabe no seu semblante que o pé esquerdo foi o primeiro a tocar o chão. 
    É por isso que me alivio em palavras escritas. Se eu pudesse dizer o quanto é desesperador não saber a quem dizer de verdade "estou mal, me ajuda. É claro que eu tenho a quem, na verdade. Mas machuca o que eu sinto, machuca também dizer, imagine só. 
    Eu aqui toda esperançosa ainda querendo que todo mundo pense um pouquinho como eu penso. Achando que vou receber um afago na cabeça nos dias de diluvio, achando que alguém vai passar a mão por cima de mim e dizer que vai passar, claro que vai passar.
     Eu sei que vai passar. Claro que vai. Um dia, quem sabe. Só me pergunto quando. Só me angustio me perguntando quando e quando e simplesmente quando. 



Annabel Laurino