Tati Bernardi
sábado, 22 de dezembro de 2012
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“Seria mais fácil, se ele fosse um estranho, de quem ela pudesse se desligar. Eles são muito diferentes. Gênios opostos, eu diria. Mas tem algo em comum. A liberdade. O desapego. O medo da entrega. Quem sabe ficando juntos encontram uma solução. Bem que podia, né? Ela sempre pensou assim: “Pra ficar do meu lado tem que ser melhor que minha própria companhia. Eu tenho que admirar.” E ele me parece um pedaço daquilo que a vida tem de mais charmoso. Ela estava ficando instigada. Que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Ela diria que ele salvou sua vida se não soasse tão dramático. Ele não faz planos ou promessas, só surpresas, te ensinou a gostar de surpresas. Ele é diferente. De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o coração fica a ponto de explodir.”
Espero.
“Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da indiferença. Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim. Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais falar. Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que me telefone para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas.”
Fabrício Carpinejar


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“E as discussões se sucediam, sem pé nem cabeça. Mas ciúmes são cegos como o próprio amor. São sentimentos mesquinhos, minuciosos, não esquecem a insignificância dos mínimos segundos. As batidas do coração jamais deveriam se escravizar aos tiquetaques desencontrados de dois relógios diferentes. A verdade, porém, é que eram ambos loucos, um pelo outro, e seus corações acabavam por se entender, num ritmo comum de compreensão. E as hostilidades descansavam invariavelmente em beijinhos e mil perdões.”
Chico Buarque

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“Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou.”
Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Enquanto os outros dançavam, o nosso time acabava
Ta vendo essas pessoas ali na rua dançando na calçada enquanto falta um minuto para o tão falado fim do mundo? Pois é. Você deve ta ouvindo a musica louca explodindo dos alto falantes logo ali na esquina enquanto rola uma festa louca, mulheres gritam e fogos de artificio são soltos no céu por alguém inspirado na polêmica.
Tem tanta gente lá fora nessa hora, eu sinto o cheio de umidade entrar pela janela aberta, sentada numa poltrona, olhando as luzes amareladas dos postes, os carros cobertos de gotículas de orvalho, é verão, choveu durante o dia, mal tomei café hoje, talvez por isso eu esteja assim. Nós não estamos lá, nós não estamos no verso tocado da musica descompassada e nem nos passos de dança das pessoas desajeitadas comemorando uma felicidade sem motivos. Não estamos nem em nós mesmos e o fim do mundo pode chegar e nós nem se quer nos falamos, o mundo pode explodir agora e eu não pensarei em nada, somente em como o cheiro da rua é incrivelmente delicioso hoje, com seu cheirinho de chuva próxima.
Talvez essa história de que o mundo iria acabar tenha me feito pensar um pouco, não sei. Não acredito que isso poderia ser possível, mas e se? E se acabasse mesmo eu faria o que? Talvez não desse tempo nem de sair correndo para algum lugar e pegar os cachorros, tropeçando nos chinelos pela rua, atropelando pessoas. Talvez simplesmente tudo acabasse e puft. Não teria o que fazer, é um fim, uma catástrofe, essas coisas acontecem as vezes. Aceitação.
E a gente ensaiou os passos tão perfeitamente, a gente queria tanto que desse certo, mas quer saber? Amigo, não deu. Vamos aceitar isso de uma vez por todas. Vamos olhar esse teorema complexado que talvez nem Einstein conseguiria resolver e vamos entender que simplesmente os fatores estão trocados, que ta tudo errado, que não vamos nunca chegar á um resultado aceitável.
Meteoros caem nas calçadas com fogo zunindo e lambendo todas as coisas que conseguem alcançar, crateras se abrem no solo, pessoas gritam, a terra racha ao meio e meio mundo é engolindo para o abismo infinito, tudo acabando, tudo sendo exterminado. Não há o que se fazer.
Mas vamos aceitar vai, vamos entender de uma vez por todas, chega de correr para todos os lados e puxar os cabelos, implorando socorro de ultima hora que não vai vir. Nosso tempo acabou que nem jogo em máquina de fliperama depois que você não tem mais moedinha para colocar, game over para nós.
Essa noite não vai dar a gente dançando na calçada e nem trocando beijos e olhares amistosos com promessa contida no futuro próximo. Não vai ter eu te amo e carinho no rosto. Trocaram a musica e tudo que temos agora é o silêncio da destruição pós final. As cinzas do extermínio.
Tem tanta gente lá fora agora, eu to aqui esperando um abraço de conforto que não irá chegar, as mulheres pararam de gritar e os fogos de artificio recomeçam em um frenesi distante. Um, dois, três. O mundo não acabou ainda, não preciso me preocupar em sair correndo. Olho para fora da janela, o mundo intacto, perfeito, e o nosso destruído. Já tão esquecido em meio a um cinza desbotado onde um dia teve tantas e tantas cores. Tantas que eu nem saberia dar nome.
Tem tanta gente lá fora nessa hora, eu sinto o cheio de umidade entrar pela janela aberta, sentada numa poltrona, olhando as luzes amareladas dos postes, os carros cobertos de gotículas de orvalho, é verão, choveu durante o dia, mal tomei café hoje, talvez por isso eu esteja assim. Nós não estamos lá, nós não estamos no verso tocado da musica descompassada e nem nos passos de dança das pessoas desajeitadas comemorando uma felicidade sem motivos. Não estamos nem em nós mesmos e o fim do mundo pode chegar e nós nem se quer nos falamos, o mundo pode explodir agora e eu não pensarei em nada, somente em como o cheiro da rua é incrivelmente delicioso hoje, com seu cheirinho de chuva próxima.
Talvez essa história de que o mundo iria acabar tenha me feito pensar um pouco, não sei. Não acredito que isso poderia ser possível, mas e se? E se acabasse mesmo eu faria o que? Talvez não desse tempo nem de sair correndo para algum lugar e pegar os cachorros, tropeçando nos chinelos pela rua, atropelando pessoas. Talvez simplesmente tudo acabasse e puft. Não teria o que fazer, é um fim, uma catástrofe, essas coisas acontecem as vezes. Aceitação.
E a gente ensaiou os passos tão perfeitamente, a gente queria tanto que desse certo, mas quer saber? Amigo, não deu. Vamos aceitar isso de uma vez por todas. Vamos olhar esse teorema complexado que talvez nem Einstein conseguiria resolver e vamos entender que simplesmente os fatores estão trocados, que ta tudo errado, que não vamos nunca chegar á um resultado aceitável.
Meteoros caem nas calçadas com fogo zunindo e lambendo todas as coisas que conseguem alcançar, crateras se abrem no solo, pessoas gritam, a terra racha ao meio e meio mundo é engolindo para o abismo infinito, tudo acabando, tudo sendo exterminado. Não há o que se fazer.
Mas vamos aceitar vai, vamos entender de uma vez por todas, chega de correr para todos os lados e puxar os cabelos, implorando socorro de ultima hora que não vai vir. Nosso tempo acabou que nem jogo em máquina de fliperama depois que você não tem mais moedinha para colocar, game over para nós.
Essa noite não vai dar a gente dançando na calçada e nem trocando beijos e olhares amistosos com promessa contida no futuro próximo. Não vai ter eu te amo e carinho no rosto. Trocaram a musica e tudo que temos agora é o silêncio da destruição pós final. As cinzas do extermínio.
Tem tanta gente lá fora agora, eu to aqui esperando um abraço de conforto que não irá chegar, as mulheres pararam de gritar e os fogos de artificio recomeçam em um frenesi distante. Um, dois, três. O mundo não acabou ainda, não preciso me preocupar em sair correndo. Olho para fora da janela, o mundo intacto, perfeito, e o nosso destruído. Já tão esquecido em meio a um cinza desbotado onde um dia teve tantas e tantas cores. Tantas que eu nem saberia dar nome.
Annabel Laurino
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Não compreendendo o perdido
Você pensa que me entende. Mas você nunca irá entender. Você nunca conseguirá compreender a fome de novas fórmulas para viver que essa minha alma precisa. Da sede que arranha na minha garganta todas as noites de dormir por querer sempre mais, sempre mais, o muito se tornando aos poucos insuficiente.
Você não conseguirá acompanhar os meus passos de animal selvagem se esgueirando pelas folhagens, cuidando para não ser visto, quanto também não conseguirá entender os meus caminhos expostos, cheios de feridas abertas, de sorrisos brotados em flores roxas e arco-íris pintados sobre nuvens. Você nunca irá ver além da fumaça densa que sobe da minha caneca de café, daquela minha banda favorita, você nunca verá além, o sorriso de satisfação enquanto mato um vicio, que você também nunca irá entender.
Não compreenderas minha mania de ler todas as palavras soltas e de querer conhecer sempre mais, tudo, todos os assuntos, palavras, pontos, resquícios e velharias estampadas em jornais de domingo. Não entenderás porque choro sempre quando vejo um animal perdido, o medo que eu sinto na minha pele como se fosse o próprio animal, sozinho na chuva e no mundo. Não conseguirás ver além das mechas loiras dos meus cabelos e das minhas coxas grossas, das minhas mãos pequenas e dos meus olhos dispersos e disparatados, como duas lentes de uma câmera do tempo da vovó.
Sentarás em teu quarto, tirando os sapatos e passarás horas tentando entender minhas loucuras, meus berros, minhas mudanças de humor e de pensamentos, tentarás sim, inúmeras vezes compreender o porque tão louca, maluca, estranha, sozinha e cheia de manias. Não conseguirás respostas. Passarão horas, dias e talvez semanas, as folhas das arvores serão substituídas por outras cores, mais vibrantes, e ainda assim não entenderás.
Te olharei no fundo de teus olhos castanhos e te pedirei em silêncio que não entendas, por favor, não entendas, você não conseguiria de qualquer forma, seria mais um tempo perdido. De todos os outros tempos que também jamais irás entender.
Você não conseguirá acompanhar os meus passos de animal selvagem se esgueirando pelas folhagens, cuidando para não ser visto, quanto também não conseguirá entender os meus caminhos expostos, cheios de feridas abertas, de sorrisos brotados em flores roxas e arco-íris pintados sobre nuvens. Você nunca irá ver além da fumaça densa que sobe da minha caneca de café, daquela minha banda favorita, você nunca verá além, o sorriso de satisfação enquanto mato um vicio, que você também nunca irá entender.
Não compreenderas minha mania de ler todas as palavras soltas e de querer conhecer sempre mais, tudo, todos os assuntos, palavras, pontos, resquícios e velharias estampadas em jornais de domingo. Não entenderás porque choro sempre quando vejo um animal perdido, o medo que eu sinto na minha pele como se fosse o próprio animal, sozinho na chuva e no mundo. Não conseguirás ver além das mechas loiras dos meus cabelos e das minhas coxas grossas, das minhas mãos pequenas e dos meus olhos dispersos e disparatados, como duas lentes de uma câmera do tempo da vovó.
Sentarás em teu quarto, tirando os sapatos e passarás horas tentando entender minhas loucuras, meus berros, minhas mudanças de humor e de pensamentos, tentarás sim, inúmeras vezes compreender o porque tão louca, maluca, estranha, sozinha e cheia de manias. Não conseguirás respostas. Passarão horas, dias e talvez semanas, as folhas das arvores serão substituídas por outras cores, mais vibrantes, e ainda assim não entenderás.
Te olharei no fundo de teus olhos castanhos e te pedirei em silêncio que não entendas, por favor, não entendas, você não conseguiria de qualquer forma, seria mais um tempo perdido. De todos os outros tempos que também jamais irás entender.
Annabel Laurino
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"Talvez seja da minha natureza não me sentir pertencendo totalmente a lugar nenhum, em lugar nenhum."
(Chico Buarque)
(Chico Buarque)
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"Quem me dera estar ao ar livre. Quem me dera ser de novo aquela criança, meio selvagem, audaciosa e livre… e rir das ofensas em vez de me preocupar com elas! Por que estou tão mudada? Por que ferve o meu sangue com tanta facilidade com umas míseras palavras?"
O Morro dos Ventos Uivantes
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"Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo."
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo."
Chico Buarque
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