Annabel Laurino
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
O Esconderijo, rijo e quente
Na curva quente do teu ombro é onde eu mergulho o rosto. Mergulho dentre a pele tão quente e branca. Veias azuis, sangue pulsando. Na curva do teu ombro é onde mergulho no teu cheiro tão familiar, meu alecrim. Te cubro de beijos, te deixo uma marca. É nessa curva exata onde perdida nos teus braços eu me encaixo por fim em teu corpo inteiro, selando nosso encontro, repouso meu rosto. Me visto de você, me cobres a pele. Ah, meu amor...
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Saudade Parisiense
Isso não é Paris, eu bem que o sei. Abro as janelas do meu
quarto e vejo o céu quase escurecido lá fora, vislumbro a cor amarronzada,
com pinceladas de um vermelho quente e o negrume que toma conta agora de todas
as árvores do quintal. Não é Paris, mas é algo bom e fico contente, gosto do
que vejo, gosto desse lugar, dessa cidade de pedras e água. Gosto do ar que
finalmente entra pelo quarto, esse ar gelado e perfumado que agosto trás, esse
agosto que recém chegou. Dentro das formas e nuances perdidas lá fora, no mundo
que tange através da janela do meu quarto, dessa caixinha azul por onde me
perco e me encontro, eu gosto de imaginar que mesmo não sendo Paris, Hemingway
tinha razão quando disse que onde estava, no seu quarto, produziria suas
palavras sinceras, verdadeiras. Faço isso agora, dou vida as frases perdidas no
fundo da minha cabeça congestionada de divagações e sou sincera. Tenho que ser.
Ontem mesmo, por
acaso ou coincidência, tive uma conversa que há muito tempo reservei apenas para
as minhas próprias introspecções. E se não habitamos casas e nem lugares e nem
cidades e nem países e sim pessoas? E se não importa nada disso, esses tijolos
fabricados, essas argamassas endurecidas e essas paredes levantadas para nos
abrigarmos se não existíssemos tão fielmente e tão verdadeiramente, de alguma
forma, dentro de alguém? O que habita em mim? Eu habito assim em alguém? Pergunto-me
isso enquanto vejo a luz refletida de uma janela vizinha acesa e a televisão
acendendo e apagando enquanto alguém troca de canal. Eu sei quem habita em mim,
eu sei o que habita em mim, ‘tenho em mim todos os sonhos do mundo’. E onde me
faço morada?
É sexta feira e eu nem acredito. Se eu contasse que alguns
dias atrás tudo parecia um caos completo. Não que agora tudo esteja
completamente bem, mas as coisas caóticas tende por entrarem no eixo de alguma
maneira, e acho que é isso, as coisas estão entrando no eixo. Não quero ser
esperançosa, não, eu só quero pensar que tudo está bem, que tudo pode ficar
bem. Não é como se eu acreditasse nisso, é só que eu quero pensar nisso.
Você pode me perguntar, e qual é a diferença? Por que você
não quer acreditar, por que você não quer ter esperanças? Eu já tive tantas.
Tantas esperanças, fragmentadas e profundas, por muito tempo foram minhas
balinhas coloridas de açúcar. Hoje eu prefiro só pensar, pensar que tudo pode
ficar bem e o que tiver que ser vai ser, não importa. Eu prefiro dessa forma e
é assim que tem sido, é assim que tem funcionado.
Meu som favorito, sempre tem sido desde então, é o da cafeteira gorgolejando, aquele ronco produzindo o melhor
aroma do mundo, o de café recém-passado. Agora não que esse não seja mais o meu som favorito, mas possuo outros para a minha coleção, outros sons e aromas favoritos.
Tenho descoberto pequenos prazeres da
vida, pequeninos e pequenos grandes. Caminho pela cidade, compro discos de
queijo na livraria do centro, vejo rostos e pessoas, pessoas e seus rostos
cansados, ouço as buzinas desesperadas e vejo o desespero em olhos demasiado
tristes. Há uma beleza nisso, mesmo que quase melancólica, mesmo que seja
loucura admirar a tristeza assim, nos olhos de outrem. Mas não estou mais só,
divido qualquer coisa como um sorriso, uma música, uma conversa, as minhas
próprias mãos e eu inteira. Se isso me assusta? Muitíssimo. Muitíssimo e
latentemente. Ignoro, continuo. A vida é um frenesi sem fim de abocanhar e
morder as coisas mais doces, mais gostosas. Como receber beijos e flores azuis.
Nos dias de chuva eu pulo poças d’água dispostas nas
calçadas, me escondo embaixo de um guarda-chuva, vezes compartilhado, vezes sozinha,
agora mais do que nunca, sempre compartilhado. Vejo as folhas secas chafurdando na
lama, os jovens perdidos de botas compridas tentando desviar dos ônibus
ensandecidos e em movimento, sinto frio nas faces geladas e escondo o pescoço
no meu cachecol. Como diria o Caio, “na
ultima sexta feira eu tive certeza, devo mesmo estar enlouquecendo”. Nas sextas
feiras eu deixo para sentir saudade, chafurdo nas águas desconhecidas da qual
vou adentrando, com medo, e por isso penso que enlouqueço, mas por gosto porque eu quero e porque eu sei, eu me
sinto viva. Nessas saudades eu coloco uma musica para tocar, sento na janela do
quarto, vejo o céu de inverno, penso, repenso e trespenso, e repito quase
baixinho “Não é Paris, mas podia ser.”.
Escrevi um bilhete recentemente, o começo tem por inicio algo assim “Nas reentrâncias das minhas entrelinhas misteriosas, tu me
descobristes só, fizestes do meu tédio cotidiano o teu tédio também, me
vestistes das tuas cores e experimentasses do meu mundo. Se mesclados numa
singela mistura ambos os dois, veremos que nos enamoramos bem...”. Não irei
contar como prossegue, mas a pouco eu o terminei e sorri ao final.
Sexta feira. Não é Paris. Sexta feira agasalhada de saudade
junto desse céu que agora, no fim dessas palavras já se veste de negro. Ah,
sexta feira. Agosto. Quanta coisa mudou de um ano para cá, quanta coisa, quanta
coisa já não existe mais e hoje são apenas borrões e lapsos de memória
empoeirados num lugar distante dentro de mim. Hoje tudo faz sentido, hoje,
nessa sexta feira de saudade, eu penso em rosas azuis, em coisas novas.
Me vejo não mais refletida nos reflexos de um espelho onde
deixei minha face, não. Me vejo pululando, repercutindo e respirando através de cada
palavra que escrevo, cada ponto, cada vírgula, cada linha enviesada e cruzada
em si mesma numa reentrância mista de sentimentos que não escondo, que não
demonstro, que conto baixinho, assim, só para dizer no ouvido quente de quem procuro “Gosto tanto de você.”.
Annabel laurino

segunda-feira, 28 de julho de 2014
Cigarra desaventurada nas entranhas da solidão
Não me recordo a primeira vez que a avistei. Não, não. Agora
tudo são nuances cinzas dentro da minha massa cefálica, tudo é uma nuvem
esfumaçada do que existiu e eu não me recordo com avidez de todos os mínimos detalhes.
Por exemplo esse, de quando foi a primeira vez que a vi. Porque, bem o sabe,
poderia ser em qualquer época de minha vida, em qualquer esquina ou cruzamento,
na padaria ou no metrô e eu, bem, eu não lembro.
Mas eu me recordo muito bem quando eu a avistei de fato
pela primeira vez. Quando a reconheci de uns desses cruzamentos da vida em que
não me lembrava em meio as nuvens cinzentas e esfumaçadas de minha memória. Tão
tentadoramente ela mesma que repercutia como o som de uma mordida em uma fruta, suculenta,
deliciosa.
Fumava seu cigarro
tão distraidamente, tão perdidamente sozinha em meio a fumaça que subia sobre o alto
de seus cabelos brilhando ao sol, que podia-se até pensar que tragava a vida, ou
quem arriscaria também, que o tédio a tragava copiosamente através daquele
único cigarro.
Antes que você, leitor, queira a invejar ou sinta-se atraído, eu aviso: não o
faça. Não se atraia por aquelas pernas, por aquele tom branco condensado no
rubi de seus lábios bem desenhados, pois ela tem escondido no céu de sua boca
ferina um desejo inabalável. O desejo de te devorar.
Ah mon Cher, ela é
uma devoradora, destruidora de corações. Vai mastigar você. Vai repartir você.
Vai distroçar em mil pedaços todas suas esperanças construídas em anos, seus
sonhos filosóficos que ditou a si mesmo em frente ao espelho do banheiro todas
as manhãs, com as olheiras protuberantes de noites mal dormidas. Vai acabar com seu coração másculo e empedrado, isso não irá
existir. Sentirás vontade de cantar um mantra, de chorar, de se entregar e
depois partir. Não conseguirás. Ela plantará em ti o mais terrível dos
sentimentos, a melancolia.
Possui um riso
cômico, meio infantil é verdade, meio histérico também, mas isso se deve ao
fato de quão surpresa se sente com o ato de sorrir. Raramente sorri. É como a
Senhora Darling de Peter Pan, que escondia o beijo secretamente, assim era essa
dama, que escondia o sorriso, enviesado em meios aos lábios contornados de
vermelho, raramente os curvava, e quando o fazia parecia sempre uma mesura, por
simples educação.
Dentinhos brancos e afiados se escondem atrás de seus
lábios, fininhos e cortantes como pequeninas navalhas genuínas que vão devorar
você, mastigar suas carnes. E adorarás. Implorarás em júbilo por mais uma
mordida, por mais um corte sereno na tua pele acalorada. Pois ela te morde, mas
no fim acaba por te beijar, acaricia tua cara desmantelada de cansaço,
massageia teus ombros de pesos fartos. Ouvirá seus dramas como uma mãe, te
amará como uma santa, se entregará a ti como uma puta. Te restará apenas a
tentação. E não resistirás.
Você a acha cruel? Eu
não a acho. Falando assim, eu sei, bem que parece. Lembrando-me agora de quando a vi pela primeira vez, parada no meio
do comício de um dia cheio, tantas pessoas passando em sua volta e ela era a
única que parecia se destacar no meio daquele trânsito, daquela loucura. De
vestido branco e os cabelos assim, caindo-lhe a tez. Eu quis perguntar seu
nome, me aproximar, tocar seu rosto, saber se era real. Mas eu a conhecia bem,
pois desenvolvia em seus atos um trejeito que eu bem já sabia e a reconhecia. Não precisava de informações que eu sei, ela me mentiria. Só iria ludibriar-me para depois me mastigar como sempre e como todas. Me atrevi aos detalhes, aos fundamentos.
Você não sabe como eu sei, mas assim como a dama escondia nos
seus lábios o seu sorriso, escondia também embaixo da sua pele embebida de
branco marcas profundas de solidão. Perdida demais em ser ela mesma. Perdida
demais que repetia sempre os mesmos rituais, indo a livrarias e cafés,
conversando distraidamente com os jovens nas boutiques e cinemas, embora não se
recordasse depois dessas conversas, as esquecia de imediato. Preferia a solidão de seu
próprio ser. Ninguém entendia o porque, tinha uma inclinação ao drama, ao
romance, ao perdido e ao acaso.
Acostumou-se em ser uma marca no asfalto, uma coisa
corriqueira, um alguém, simples ninguém sem voz. Por isso a dama não possui
nome, deste eu não sei nem se quer a primeira letra. Seu rosto eu vislumbrei
apenas uma vez, que me recordo. Não me lembro se em uma avenida movimentada, em
um final de março talvez. Não era ruiva nem loira, morena muito menos. Não
defino sua idade pois poderia ser jovem, muito jovem, com aquele corpinho
pequeno e de ombros estreitinhos. Mas seu ar teatral a denunciava e parecia
mais velha, sua malícia a entregava, eu não saberia dizer.
O que me chamou a atenção naquela pobre dama? Seus olhos, ah
sim, seus olhos. Não a cor e nem a forma, mas a maneira voraz como ao mesmo
tempo distraída, devorava o mundo ao seu redor, como se buscasse entre a apatia
diária algum tipo de salvação.
E por que te conto sobre essa dama? Para que tenhas cuidado,
meu caro. Caso a encontres em meio as vielas dessas ruas noturnas, caso a
aviste nos recônditos escondidos dessa cidade de pedras. Eu mesmo não esperava,
agora convivo com a solidão da sua imagem presa na minha memória meio gasta,
estarei sempre a espera de a reencontrar, eu sei.
De toda forma, se a encontrar, cuidado. Sei que não resistirás ao vícios,
ao olhar, as pernas e nem aos cabelos perfumados de sândalo quem sabe, ou patchouli talvez. Escutarás uma música e se sentirás vivo. Te aviso. Comprarás um terno novo, será como ir a missa de domingo. Te sentirás salvo, embriagado, embebido, bêbado de ilusão.
Nunca mais a vi depois daquele dia de sábado, vestida de
solidão.
Annabel Laurino
domingo, 27 de julho de 2014
;
[...]Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. [...] Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. [...] Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
Caio Fernando Abreu
(Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)

terça-feira, 22 de julho de 2014
;
"Olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no seu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa - gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você."
Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 14 de julho de 2014
1/2 ?
Afaga essa minha
cabeça de cabelos bagunçados e pensamentos tão tempestuosos. Me ajuda? Sim, me
ajuda nessa crise diária de enfrentar o espelho com a cara lavada e não saber o
porque que eu sou. Vicia em mim, cola em mim e me consola. Consola com um
café, com um beijo, uma surpresa qualquer. Me faz procurar nos seus braços
qualquer coisa como paz, tranquilidade, refugio e sossego. Seja o meu porto
seguro, seja minha toca do coelho, alguma coisa palpável.
Eu sei que ando muito desesperada, muito tudo. Eu sei, culpa do tempo. É esse clima todo daqui, não combina comigo, não me encaixo. E esses cabelos em pé, essa cara de sono, esses olhos vidrados, é tudo desespero. Não sei dizer. É a estática.
Eu estou farta
de ‘um meios’, ou de ‘três quartos’, não aguento mais rabiscar metades nos meus
papéis, não aguento mais rabiscar metades na vida inteira. Porque tudo é feito
de metades? A vida é um recheio feito só pela metade, o resto é fim.
Literatura.
Acho que os velhos
e encardidos com suas roupas de final de domingo dentro daquele boteco lá fora
onde eu consigo ver daqui de dentro pela janela do ônibus, concordam comigo.
Seus cafés são servidos pela metade, assim como as pingas. E eles pagam um
atrás do outro, todos eles. Porque o costume mantém o hábito e a coisa é assim,
é um ciclo. A diferença é que eles sabem, em seus íntimos, e tem a cachaça como consolação.
Mas não quero
cachaça e nem pinga. E nem boteco nenhum, e nem reclamar em mesa de bar, colocando uma musica brega para tocar num jukebox dos anos 70 com luzes de néon. Nada
disso. Mesmo que minha inclinação ao drama peça algo assim, mesmo que o caos de agora
peça algo assim.
Quero você e seus
braços fortes, suas mãos, seus pés, suas pernas e seu corpo inteiro,
inteirinho. Depois eu quero o que fica do lado de dentro, o que não pode ser
tocado a não ser com os olhos, com o peito. Por falar nisso, me toca, vai. Me
puxa, repuxa, abusa. Toca. Toca no fundo e me faz acreditar. Me para no meio do
rabisco de uma metade no canto de uma folha qualquer e me faz ter um café completo, quente,
encorpado, sem ser pela metade. Ou melhor, me faz ter você todinho, sem ser
pela metade.
Ah, esses
momentos de misantropia, se eu pudesse me desfaria de todos eles. Aglutinam
minhas horas solitárias multiplicando cada segundo em duas horas, bebo o chá de
cor vermelha, caminho, sinto o vento gelado batendo no rosto. Tudo gira sem sair do lugar.
Eu não quero ser
metade e nem um vazio inteiro. Eu quero transbordar. Eu quero o mais de todos
os mais e muitos de um todo. Eu quero tudo. Com você.
Annabel Laurino

domingo, 13 de julho de 2014
O disco e a Vitrola
Quero que você
fique, que você fique. Quero que você fique. Começa assim baixinho, uma melodia
calma, clarinha, bonitinha. Cantada calmamente soa devagar até que finalmente a
agulha encontra o disco e ele começa a rodar na vitrola então torna-se mais
precisa, mais urgente, e roda e roda e o
som se espalha como um suspiro. Quero que você fique.
Quero que você se
torne feixe de luz brilhante que irá pulular contente no teto do meu quarto,
quero que você seja doce como jujubas coloridas, daquelas minhas favoritas, as
azuis, que lembram muito jasmim, assim, docinhas. E por falar em lembrar, não quero te lembrar nada que
possa ter sombreado no seu passado algo bom ou ruim, quero ser sua coisa nova,
brilhante, que irá iluminar algum recanto bom da sua vida. Deixe o passado para
depois, onde ele deve ficar, porque não existe mais tempo para ele.
Por isso mesmo, eu
não quero ser para você nada que já tenhas tido. Quero ser presente novo, sua
surpresa, seu gosto bom. Assim como eu quero. E que tenhas lugar no meio da sua estante para mais um livro já meio
amassado, com páginas rabiscadas e orelhas marcadas, porém em sua defesa,
existem coisas nele, frases e segredos, principalmente nas entrelinhas, que
ainda ninguém leu. E você pode ler.
Que eu seja para
você o que ainda ninguém foi. Pode ser até um reflexo, uma paisagem outonal,
uma pintura, um sorriso. Que você faça por mim o que não fez por ninguém, que
faça comigo o que não fez com ninguém. Porque não haverá passados, não haverá
coisas velhas. Algo muda perto de você porque tudo se faz novo. E isso faz
sentido agora.
Como um disco e
uma vitrola, nós dois combinamos bem. Como uma dupla vintage, meio démodé, meio
blasé e que fica cute, eu acho cool. Nós nos enamoramos bem.
Vamos ouvir
discos velhos na vitrola do seu quarto, vamos nos beijar por horas e horas e
horas. E depois rir descontroladamente um com o outro ou um da cara do outro.
Deixa eu fazer manha, a minha manha, enrolar meus pés nas suas pernas, ronronar
baixinho quando o beijo estiver bom, dizer que não quero que você me abrace
mesmo já envolvendo meus braços em torno da sua cintura magra e que eu gosto
tanto. Deixa eu me deliciar com os seus detalhes, com as suas pernas compridas,
seus ossos protuberantes, suas costas brancas, seus olhos fortes.
Se você não
quiser, tudo bem. Estou enviando para você minha caixinha de biscoitos da
Alice, mesmo assim. A regra é clara. “Coma cada um deles”, servem para isso. E
você pode morder devagarzinho, para se deliciar com calma.
Se chover não tem
problema, a gente corre no meio da chuva, ri, pula as poças, se molha, claro,
faz parte. Não tem problema. A gente até desafia o tempo e para no meio do
caminho, se beija e tudo bem, volta a correr depois.
Descobrir você ou
você ter me descoberto foi como não saber que ainda estavam vendendo de ultima
hora os ingressos da minha banda favorita e que eu ainda poderia me divertir e
ir ao show. Não hesitei, eu comprei os ingressos. Foi foda, foi incrível, foi surpreendente.
Descobrir você foi assim.
De repente tudo
isso não passa de um sonho, brincadeira, coisa que a gente nem irá saber definir.
Talvez depois de amanhã você queira ir embora, talvez eu tenha que ir embora.
Talvez tudo fique entoando como uma nota de uma flauta soando suave num disco
que ainda roda na vitrola sem ninguém ouvir. Faz parte, nós sabemos e corremos
o risco.
Depende se você
quer ficar, se eu vou ficar. Mas o que importa é que ainda temos Paris, ainda
temos os Macarrons para serem provados, ainda temos Gramado, ainda temos os
discos, os livros, as bandas e Camel. Ainda temos um universo nosso que sem
querer e talvez sem nem mesmo perceber moldamos secretamente sem permitir a
entrada de ninguém a não ser de nós mesmos.
E dançamos,
dançamos sobre a luz da lua que banha nosso universo mágico que ninguém pode
ver, a não ser os reflexos ofuscantes que emanam dele. É cheio de literatura,
música e sons, e beijos e coisas doces e tudo e tudo. É um universo Polisipo,
todo Polisipo. A nossa pausa da dor. I’m your recall, you are my locomotive
breath.
Annabel Laurino


quarta-feira, 9 de julho de 2014
Chafurdando
Ei Zé, tudo bem?
Quanto tempo que não nos falamos, ein amigo? Quanto tempo faz que não compro
papel de cartas e te escrevo algumas palavras meio doloridas desses dias
cotidianos demais para o meu gosto meio doce. Ultimamente o que me falta é luz,
luz que clareie forte nessa minha cabeça com pensamentos tão congestionados,
ando até meio fatigada, sempre quando acho que a coisa vai engrenar ela desanda
e acabou, já era.
Não to falando de
uma coisa especifica não, eu to falando no geral. Tem tanta coisa que eu achei
que ia dar certo e não deu, não teve jeito. E depois claro, eu nem fiz mais
questão que desse, mas sabe quando parece que vai dar?
De qualquer forma
eu não te escrevo essas palavras para elas serem lidas, te escrevo essas
palavras para elas serem desenhadas na sua memória, Zé. Porque se você apenas
ler, sentado no seu banco, em frente ao fogo, tomando seu copo de café e
esquentando os pés já envoltos nas suas meias
de lã velhas, eu sei que você vai esquecer. Que vai entender que tudo isso é apenas um
drama, nada mais. Mas não é drama, juro que não é. Dessa vez não.
Ontem acordei num
solavanco, achei que a casa tava caindo. Deitei na cama sem a intenção de
dormir e quando menos esperei eu estava num sonho daqueles mais loucos, mais
viajados. E quando acordei achei tudo estranho, sabe quando bate um reflexo de
sol na sua cara nas primeiras horas do dia e soca você com aquele ‘acorda,
acorda, acorda’ insistente? Então, foi isso. Acordei daquele sonho com um
reflexo de luz que me cegou, me deixou tonta, me deixou meio zonza e depois
clareou os cantos mais estranhos da minha mente, aqueles que eu não estava
conseguindo ver.
Se foi culpa do
sonho ou não, eu não sei Zé. Não sei dizer.
Fico chafurdando
dentro desse café amargo nesse exato instante e me sinto mergulhar nessa água
de mistura negra. Eu mergulho e depois volto. Zé, quando é que alguma coisa
nessa minha vida vai ser permanente?
As vezes, quando
não tenho nada para fazer eu me pergunto quando será que irá surgir o Ultimo
dos Moicanos a habitar nessas terras isoladas por onde me encontro e então,
decidir ficar. E sim, eu sei que tudo em mim é muito estranho, é muito caos, é
muito tudo. Eu sei. Sei também que a minha casa é muito Weasley demais, meio
torta, as vezes se tem a impressão de que realmente irá cair, que nada faz
sentido e tudo é caótico e turbulento. Culpa de saturno, meu caro. Não importa.
Quando é que alguém simplesmente irá ficar por aqui, se encantar por aqui, se
encaixar nas rachaduras das paredes e se interessar pela bagunça do meu
roupeiro?
As coisas de
dentro são muito mais importantes daquelas que estão de fora e eu me pergunto
onde estão essas coisas de dentro que às vezes nem eu mesmo enxergo. Alguém
pode enxergar para mim?
Ah Zé, se você soubesse, se você imaginasse...
Eu ando por essas ruas, eu vejo tanta gente, nada me interessa. É apenas em
meio aos livros onde me encontro, em meio aquelas palavras grafadas ali, há
tanto tempo, saídas de sabe-se onde e quando e porque. É no mundo de outrém por
onde vago, mas o que eu queria mesmo era habitar aqui onde fico sempre, embaixo
da soleira dessa janela velha e descascada, procurando poemas nos jornais
bolorentos de noticias feias e tentando encontrar a beleza em rostos cansados.
Te escrevo essa
carta Zé, para você saber que ando inclusive dormindo muito. Quase sempre que
posso e quando consigo. Durmo e depois acordo, e sonho quase sempre, quando
lembro. Mas o que eu queria mesmo é que alguém ficasse, que combinasse com as
paredes desse quarto, nesse clima. Não, eu não quero alguém, quero o alguém. E
você sabe Zé, as vezes eu sei, eu me convenço, eu devo estar cada vez mais só.
E é o que eu quero mesmo, estar cada vez mais só. Essa incapacidade de
encontrar alguém que nos entenda cansa tanto, da tanto trabalho que ficar só
como agora, te escrevendo essa carta, tomando meu café, olhando para meus
livros e contando os dias é muito melhor, é mais saudável, é mais aceitável.
Sabe, aceita-se, aceita-se os fatos.
O fato de não
saber lidar, de não corresponder, de não saber dividir ou ser. De não se fazer
entender se não por partes ou por cifras e códigos e entrelinhas. É tudo entre
pausas e não flui. E cansa. Se corre o risco.
Queria mesmo era estar em Paris. Ah, Paris! Como sonhei esses dias, exatamente como sonhei esses dias. Como em Paris é Uma Festa de Hemingway. Estar lá, respirar Paris, ir nos lugares e nas ruas mais escondidas, mais feias e mais bonitas, comer as comidas mais gordurosas e gostosas. Paris e seu point zero, ainda estarei lá. Que tal, Zé? Topa no próximo inverno? Eu e você, juntos com nossa Polaroid, podemos comer crepes de Nutella e dançar no Jardim das Tulherias.
Enquanto isso, enquanto não se pode ter tudo, nós vamos vivendo. Tapando os buracos, mastigando os vazios que nos faltam. E tudo bem.
Te escrevo, Zé. E abraços, com cheiro de jasmim.
Annabel Laurino

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