As vezes eu paro e olho para você. Te vejo vindo naquele passo tão reconhecido no fundo do meu cérebro e mesmo de tão longe, lá do outro lado da outra rua, muito distante, eu te reconheço caminhar. Como não reconheceria? Depois de tanto tempo... Sinto uma saudade lancinante. Não é nostalgia, do tipo de saudade que se sente de coisas que foram e não voltam mais. É uma saudade de te ter por perto, de saber como anda a sua vida, arrumadinha como sempre? O que você tem feito? Você ainda lembra de mim? Quando chove, ou quando tem café meu rosto lhe paira na mente?
Vontade de estar nos seus braços e sentir aquele cheiro tão familiar e gostoso, aquela sensação de paz tão boa creditada as boas risadas antigas que agora foram substituídas por olhares hostis que me entregas mansamente. Não há o que eu possa fazer de verdade. Mas sinto uma terrível falta da sua amizade, do seu rosto presente ao meu lado todos os dias. Sinto saudade de você e é estranho, sinto que essa saudade não pode ser suprida.
Fico quietinha no meu canto, o vento sobre as arvores fustiga as folhas e logo golpeia meu rosto, vento frio de outono. Você atravessa a rua e me olha, fingindo não ver. Faço o mesmo. O coração como um passarinho preso na gaiola debatendo-se triste... Cheio de saudade, louco para se libertar.
Annabel Laurino
quinta-feira, 3 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
...
Na certeza súbita no meio da fala, agucei os ouvidos.
Na certeza súbita que vinha devagarzinho como um mártir rastejante, com sua enorme cauda branca esvoaçando pelas escadas, como uma serpente branca.
Subitamente sabendo, franca, quase nua, tão pura na verdade intangível.
Nada seria recuperável jamais.
Nada tão substituível assim a ponto de esquecer.
Substituir tão difícil quanto querer esquecer e mesmo assim lembrar.
Substituir.
Nem nada, nem ninguém, nem coisa alguma.
Never. Não da.
Annabel Laurino.
Na certeza súbita que vinha devagarzinho como um mártir rastejante, com sua enorme cauda branca esvoaçando pelas escadas, como uma serpente branca.
Subitamente sabendo, franca, quase nua, tão pura na verdade intangível.
Nada seria recuperável jamais.
Nada tão substituível assim a ponto de esquecer.
Substituir tão difícil quanto querer esquecer e mesmo assim lembrar.
Substituir.
Nem nada, nem ninguém, nem coisa alguma.
Never. Não da.
Annabel Laurino.
sábado, 28 de abril de 2012
...
Frágil
– você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o
protejam, para que sintam sua falta. [...] Você se comove com o que não acontece,
você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos
poucos começa a passar.
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
.
“Seja como
for, continuo gostando muito de você - da mesma forma -, você está quase sempre
perto de mim, quase sempre presente em memórias, lembranças, histórias que
conto às vezes. Saudade…”
(Caio Fernando Abreu)
...
Todas as palavras
do mundo não irão expressar o respeito a um cão tão imensuravelmente forte como
você, meu amigo.
Se algum dia você virar uma estrela no céu, espero que você
seja a mais brilhante.
Não, você não pode saber o que escrevo agora, você ainda está deitado na cozinha, ainda está do mesmo modo que
te deixei quando me ausentei nesses cinco minutos para poder escrever isso que
escrevo.
Você será sempre o
cão mais lindo e maravilhoso que eu poderia pensar em ter, você foi bravio e
destemido e lutou como um guerreiro. Quem poderia ser mais forte do que você?
Pensando bem, você não poderá ser uma
estrela, seria muito pouco, você teria de ser um cometa ou um planeta luz, algo
bem forte e lindo, cheio de luzes e faíscas flamejantes com auroras boreais todos os dias batendo ao pico de montes terrestres e chamas coloridas salpicando os arredores do globo planetário que seria você. Eu poderia dar seu
nome a ele, se eu pudesse. De qualquer forma, você seria o planeta estrela mais lindo do céu. Você brilharia quando eu o avistasse numa noite de verão. Eu saberia que era você sem pestanejar. Sei disso.
Já sinto saudades amigo,
seja forte meu companheiro bravio.
E tenha certeza caro amigo, não esquecerei de você.
Jamais.
Annabel Laurino.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
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"Amor
não resiste a tudo, não. Amor é jardim. Amor enche de erva daninha. Amizade
também, todas as formas de amor."
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Beijo Invernal
É agora que os nós dos dedos tornam-se esbranquiçados no dorso
da dobra que articula em volta da camisa de inverno sendo repousada na cama. É
agora que o vento frio encarapita-se dentro da camisa de inverno, como bolhas
de ar gelado brincando de entrar e sair da roupa enquanto ela repousa macia em
cima da cama. É agora, nesse momento eterno e especial, que os finos pelos
erguem-se de um sono caloroso, despertando-se para o frio invernal. Na pele do
pescoço que se arrepia, viva, ela e seus pequeninos poros rugindo de uma
sensação lenta e mordaz que escorre pela coluna, ergue aos ossos dos cotovelos
e pela lombar, beija a coluna. É agora que a maciez da pele reflete no espelho,
que o corpo delgado esconde-se nas camadas quentes das lãs e que o corpo busca
refugio no outro corpo ou na caneca fiel do café amargo. Ou doce. Para matar os
dias briguentos em que nós mesmos somos adornados pela santa preguiça de querer
a cama e nada mais. Mas penso eu, que se é agora que essa mágica eterna
acontece, e quem pode nos garantir que acontecerá novamente, o que quero eu com
a cama, a apatia a vida ou ao drama melancólico e banal?
É agora irmão, é
agora que os versos nascem como filhos luzidios, que as folhas secam e que tudo
transmuta-se em uma ternura lenta, como o alentar de um beijo quente decaindo
frio nos lábios do mundo. É agora. É agora.
Annabel Laurino
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