segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Flor, papel..

    Sinto-me como uma flor esmorecendo em um vaso vazio dizendo: - Ei por favor, cuide de mim, coloque sobre meu corpo umas gotas de água, limpe esse vaso vazio, limpe-me com sua água, mate minha sede.
   Sinto-me como um papel amassado e caído no chão, perdido no tempo, esquecido no pensamento, escrito com palavras em vão, que por um certo dia, ou no certo tempo fora escrito por mãos quentes e temerosas e hoje é apenas um pedaço de papel, caído gritando assim: - Oh por favor, abra-me, desamasse essas rachaduras que me doem tanto, desdobre esses vínculos dolorosos que se partem em mim, repouse-me sobre uma mesa limpa e depois leia-me. Leia-me como um verso interminável da razão vivida, leia-me como nunca lestes nada na vida.
Eis que é assim que me sinto. Gritando assim: Cuide-me! Cuide-me por que me achastes, sou tua agora.
   Cuide-me.


Annabel Laurino.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tempo. No tempo. Do momento. No sentir...

    Tudo ultimamente tem parecido meio louco. Não sei se o relógio me engana, mas as horas voam, passam rapidamente, dispersas ao meu olhar. Queria que o tempo parasse um pouco e me desse um segundo a mais, só para poder digerir a idéia da nova correria, das novidades dos dias, dos sentimentos.
    Eu não sei como dizer, mas sustento dentro de mim, mesmo que por fora não aparente, uma estranha vontade de ser cuidada. E isso pode nada ter haver com a minha estranha necessidade de que o tempo parasse.
    Às vezes, depois das loucuras do dia, no descanso da noite, trancada no quarto, a porta fechada, as luzes apagadas, me pego escutando musicas que prometem um abraço, um carinho, um amor. E no meio do escuro, meus olhos fechados agradecem por ninguém ver o que peço silenciosamente... Não peço uma, nem duas vezes de um dia normal, com alguém normal que possa apenas servir para satisfazer um vazio carnal eletrizante e gritante dentro de mim, ou que possa apenas matar essa sede escapista de ter com que repartir um pedaço da vida, da dor, do amor. Apenas, peço humildemente, ao tempo, no silêncio, um segundo para tudo parar e que nesse pequeno intervalo de tempo, eu posso sentir a aproximação eterna e tão desejada de alguém especial chegar. Quero que o tempo pare para me deixar sentir. Sentir alguém, esse alguém especial, me tomar em seus braços e dizer que sempre me quis, mesmo quando o tempo, no escuro do tempo, na velocidade do vento, não podia me ver.
    Não sonho em sonhos perfeitos, em perfeições físicas, ou mentais. Nada é pronto, nada é perfeito, nada é completamente lindo ou surreal. Não peço nada assim, nem sonho assim.
    É apenas um clamor cálido, daqueles que se faz quando se está só, quando se pode pensar melhor, quando se pode ouvir atentamente as batidas da musica que agora já não mais soam de seus fones de ouvido, mas de lá dentro, do seu coração. Você pode ouvi-las atentamente agora, na percepção do escuro, na falta de luz, sua mente trabalha compassadamente junto a pureza de seu coração. E você sente-se fechando os olhos, é uma batida bonita, sincronizada, não há bem um som, mas é o seu som, é bonito, é real. Você pede, a ultima coisa que pode pedir, para que um dia não seja a única a ouvir esse som. Esse belo e verdadeiro som da vida. Esse real e surreal clamor de... Sentir.


Annabel Laurino.



Ainda sou... Ainda serei... Uma eterna garotinha...

    Quando ficamos velhos, ou melhor, cada vez mais que ficamos velhos, temos a exagerada tendência a ser incrivelmente chatos sem perceber.
    Coisas que antes nos faziam rir e apertar a barriga em meio a gargalhadas e choros de risos, com o tempo passa a ser substituído por um união de sobrancelhas enrugadas, olhos apertados, resmungos exagerados...
    O abraço da mãe na frente dos amigos nos deixa irritadiços e sem jeito, o aperto nas bochechas da sua tia avó torna-se insuportável, as gargalhadas de seu primo mais novo no cinema por que achou a cena engraçada é no mínimo irritante, a guerra de bolhas de sabão é insignificante, as garotinhas convidando-a a brincar de cartas é irrelevante, seu tio coruja tentando paparicá-la como se ainda tive cinco anos de idade é idiota, suas amigas fazendo guerras de travesseiro é besta, e sua mãe querendo contar suas histórias de criança é... chato.
    Por quê? Por que temos essa tendência de sermos incrivelmente chatos conforme vamos crescendo? Por que não podemos rir sempre? Por que não podemos estarmos felizes sempre? E, pior ainda, por que as coisas de crianças que um dia fora nosso presente agora tende a ser uma coisa tão incrivelmente esquecida?  Como se nunca tivesse existido.
    Não entendo isso. Ainda sou uma eterna criança exagerada. Tudo bem que às vezes por baixo de meus óculos de grau e de meus livros chatos eu pareça uma nerd ambulante extrapolada de estranha e sem um pingo de risos. Mas me faça rir. Eu adoro.
    Vamos motivar mais isso. Rir mais. Brincar mais. O que tem de errado nisso? A vida não foi feita para ser levada tão a sério assim. É importante conversar, trocar idéias, entender o que se passa no dia-a-dia, falar sobre questões mundiais exageradamente importantes.
    Mas é mais importante ainda viver. Rir, pular, sorrir, gargalhar. Saber rir das coisas pequenas, saber manejar as situações infantis e relembrar os velhos tempos.
    Sentada na grama seca, brincando de bonecas a tarde inteira, comendo sorvete direto do pote, fazendo biscoitos e sujando a cozinha de farinha, pregando peças nos avós, inventando histórias, inventando brincadeiras.
    Ainda guardarei meus velhos tempos, ainda lembrarei de quando ria sem motivo, de quando me esquecia do mundo, e de quando inventava um só para mim. Ainda caminharei de pés descalços sobre a grama fria, ainda sujarei a roupa, farei bagunça, ainda andarei descabelada se bem me convir, ainda comerei sorvete do pote, andarei de balanço, correrei no parque, ainda tirarei fotos doidas que ninguém precisa ver, ainda rirei tanto que chorarei, e cantarei tão alto que meus pulmões protestarão.
    Não é necessário agir como criança. Mas aquela que existiu um dia, não precisa ser apagada completamente de mim.



Annabel Laurino.



Gosto de como... Meu corpo...

    Gosto de como a sutileza de um bocado doce de ternura beirando a inocência às vezes se apoderam de mim. Gosto do tom da minha voz, da minha risada em escalas, meio ponderada, meio casual, meio arrastada, meio sensual. Às vezes como um ponto, gritante ela afina, e depois se espicha meio como uma calda espiralando no ar. Gosto do gosto adjacente da sabedoria afiada que arde na ponta da minha língua quente, das palavras em meus olhos, iluminando a alma, aquecendo a mente. Gosto das feições costumeiras de meu rosto brando. Gosto da minha pele, febril e macia. Do brilho do sol invernal repousando calidamente sobre meu corpo. Gosto de como esse mesmo sol fica dourando os pelos de meus braços nus, iluminando e recaindo sobre minhas pestanas negras. Gosto de como meu corpo se acentua sob um vestido negro, e que eu, ao todo muito branca, pareço assim, meio faminta, meio felina, meio brutal.
    E por fim, gosto do meu corpo. Gosto do que ele faz. De como ele faz.


Annabel Laurino.



Dias Anormais

    Hoje é um daqueles dias anormais. Prefiro chamá-lo assim, por que anormal é a única palavra que consigo descrever dias como estes.
    Meio cinzentos. Começam de uma forma doida. Você desperta de um sonho maluco que mesmo depois de acordada você fica relembrando-o, deixando que as lembranças do sonho perfurem na sua mente com um sentimento de agonia. O que ele quis dizer?
    Depois os invariáveis e sucessivos acontecimentos que correm diante da mudança das conotações de cores do dia são repetitivos, e anormais. Acontecem como qualquer outro dia, você faz praticamente as mesmas coisas. Porém seu corpo está pesado, sua mente é um turbilhão, suas mãos tremem e sua boca é um poço de ressequidão. Dias em que nada é explicado. Dias em que parece um ponto no meio de mais tantas vírgulas, você não sabe o que se sucede depois, você não sabe nada. As coisas que vem acontecendo ultimamente são inesperadas, os sentimentos cálidos que lhe preenchem são surpresos, como bolinhas explosivas explodindo dentro de você.
    Estou tentando manter a calma em dias anormais, estou tentando ser indiferente, agir como se nada estivesse acontecendo. Mas é complicado. Me encontro em um emaranhado de fragmentos circunspectos que são essenciais no dia, na vida e não posso fugir. Não posso fugir desses sentimentos que me golpeiam, que me perfuram até mesmo nos dias normais, que se tornam anormais.
    Vou ter que aprender. Vou ter que entender isso. Em cima da dor, e da reentrância de um sentimento remotamente só e vazio, vou ter que me virar. Vou ter que começar a encarar.
    Até mesmo nesses dias... Dias anormais.


   Annabel Laurino


terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos os Neandertais da Nova Geração...

    Lembra daquela musica do amado Cazuza em que ele dizia tão bravamente: “seres humanos vivendo como bichos”? Nossa, Cazuza estava completamente certo no que dizia. Quinze anos se passaram desde que o trecho da música explodia nas rádios. Mas a realidade da musica é cada vez mais perturbadora.    
    Hoje nós seres humanos matamos e roubamos por tão pouco. Agredimos e falamos tão violentamente por meras futilidades que já não se sabe mais o que se está em jogo, sua vida comparada a futilidade do motivo versos a razão. É uma loucura abominável que adentra nossos dias, não é preciso ficar tão surpreso assim, é só ligar no jornal e assistir todos os dias, você sempre pensa que não viu nada igual até que... Olha só, tem mais gente louca por ai!
    Gente louca? Gente louca é pouco. Gente que não deveria ser chamada de gente. É real. Pessoas que agridem crianças por que os pais as ofenderam, maltratam e seqüestram, prendem e depois as matam. Que horror, que atrocidade! Até mesmo as crianças que são o futuro de uma nação hoje não passam ilesas sobre uma confusão. Animais sendo brutalmente mortos, colocados em fogo, queimados, agredidos... Pessoas bêbadas, drogadas. Jovens na prostituição.
    A alucinação dos dias, do dinheiro, da renovação tecnológica e a inovação de uma nova geração de modas e maneiras transformou as pessoas no que se pode chamar de bichos. Meros neandertais vivendo em suas cavernas com luzes, piscinas e roupas de grife. Andando em seus carros esportes de ultima geração com pneus de pedras, tapando os olhos com vendas de gripes de mil reais pra protegê-los do sol. Ou da realidade?
    Não importa o que façamos, o quanto o mundo ande e se altere, seremos sempre eternos brutais, loucos e fascinados pela loucura, seremos eternos ignorantes. Mataremos por pouco. Perdemos o valor da vida. Somos como os homens das cavernas, não importando quanto você tenha no banco, qual é o seu titulo de família ou quantos anos você passou na faculdade estudando, isso não é nada, simplesmente nada, se amanhã ou depois você consegue matar a sangue frio.
    Onde estamos? Onde foi que nos perdemos?
    Que saber?
    Talvez seja mesmo razão. Talvez tenhamos mesmo nos afastado de Deus.

Annabel Laurino.

Você me deixou assim. Estou assim agora, e....

    Quero me desprender de você. Mas como faço isso? Já estou presa! Estou amarrada na sua história, em seus sentimentos transbordantes e até mesmo nas suas coisas fúteis. Você adentrou em mim, perfurou um buraco no meu peito e entrou, sem licença, sem hora, sem pedir. Você não se enxerga como eu o enxergo. Como nos enxergo. Somos completamente iguais. Iguaizinhos um do outro. Você é meu par, eu sou o seu. Somos assim...  Estou assim agora, agarrada a histórias fantasiosas de filmes antigos e românticos, estou presa á uma coisa que nem se quer pode existir. Estou sendo pessimista, romântica e profundamente repetitiva. Sempre gosto de quem não vai gostar de mim. Mas agora é diferente. Você não vai gostar de mim. Mas eu vou. De outro jeito.

Annabel Laurino.

sábado, 23 de julho de 2011

Caixa

 É nessa caixa secreta perdida no tempo, levada pelo vento que me escondo de mim. Já não sei mais como cheguei aqui. O que fiz o que perdi. Ainda estou  pensando por que, e como me deixei assim. Pisei sobre meus ideais, esqueci minha filosofia de vida, minha ideologia constante. Sinto minha pele arroxeada de frio arder em brasas da vergonha, da luta e do medo que senti. Sinto medo de mim. Vergonha de mim.
    Que triste.
    Choro por que não sei para quem me desculpar. Fui eu que me infligi, fui eu que me machuquei dessa vez. Abri a porta sem ter permissão por fazê-la. Me igualei a quem não queria me igualar. Me perdi.
    Chorei.
    Choro por que sinto medo, sinto danos irrecuperáveis no tempo, nos dias que se passaram, que se alastraram a minha frente e que eu me esqueci. Esqueci de você e de mim. Sou egoísta agora, mimada e triste, sou dor e amor. Só não sei com quem dividir. Guardo tudo pra mim dentro dessa caixa fechada onde ninguém pode saber estar. Guardo trancada, selada, escondida. Só abro pra quem souber o segredo de como me abrir, de como fazer eu me entregar. Enquanto isso, fico como uma vara coberta de cera endurecendo ao vento quente que congela meu corpo varal, visceral, viscoso. E tudo isso me cansa. Me fatiga. Já não agüento mais pensar em mim.

     Annabel Laurino



Estou doente.

    Estou doente. Oh sim, estou doente. Essa letargia constante em que me encontro abomina meu corpo, adentra minha alma, crucia meus pensamentos, paralisa minha fala. Estou doente. Essa capacidade imunda da realidade que abre e fecha os poros na minha pele branca deixa marcas. Dor. Estou doente. Quero salvar meu corpo, viajar com minha alma para muito longe, cavalgar sobre meus instintos prolíferos e não saber onde estou. Não quero sentir. Ou quero sentir. Já não sei mais qual é o pior. Se sentir, morro de dor, se não sinto, morro de nada. Morrer de nada. O que é pior?
 Estou fraca, estou só. Estou doente. De amor, de dor, de ódio. Fustigam minha alma, arrancam meus pelos, puxam meus cabelos. Sem dó. Esse caso danoso, essa fúria desse mar de confusão custa tanto a passar. Vou fugir, vou chorar. Estou doente. Mas ainda estou aqui. Ainda sinto meu corpo que não se mostra mais tão lúcido e nem mais tão frágil. Ainda sinto-o em mim. Ainda estou aqui. Ainda grito e falo. Ainda sinto prazer, ainda sinto-me excitada na loucura dos meus atos, na loucura da vida, do dia, da dor. Sou insensata na dor. Até mesmo na dor.
 
   Annabel Laurino.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ser para alguém

    É difícil dizer. Eu queria ser aquela garota que fosse convidada para alguma coisa. Nem que fosse para sair e ver a monotonia da vida, da cidade, das árvores, do tempo. Eu queria isso. Queria ser a garota que tivesse um beijo roubado, a mão pega por cima da mesa, o olhar encontrado, uma flor recebida, uma carta guardada. Eu queria ser a garota que roubasse o coração de alguém, que roubasse o tempo de alguém. Queria ser o pensamento incessante e provocante. Queria ser a garota cujo motivo tiraria o sono, roubaria horas de pensamentos confusos, o motivo de pensamentos imaginativos, doidos. Queria ser aquela garota que arrancaria sorrisos, faria as horas passarem sem serem percebidas ou contadas. Eu queria ser o motivo de alguém olhar o celular a cada minuto pra ver se uma mensagem minha chegou, pra ver se liguei, se me importei. Queria ser para alguém o motivo de acordar sorrindo, de pular da cama e pensar em mim, queria ser a luz do dia, o aconchegar da noite, a solução da mesmice, o grito no silêncio, o abraço esperado, a saudade correspondida, o aperto no peito, a vontade mais louca, o lado mais puro, a alegria constante. Queria ser aquela pessoa que esse alguém largaria tudo, deixasse tudo pro ar, que esquesse o mundo por mim, pra fugir, pra me encontrar.
    Eu queria ser. Não sou.

    Annabel Laurino