domingo, 6 de novembro de 2011

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É uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

    Caio Fernando Abreu

Gosto estranho


    E tudo era um sabor estranho. Ela suando, sentindo sua pele escaldada em chamas ardentes que chamuscavam e escapuliam para fora de seus poros mais ardentes. Mãos estranhas vagavam sobre suas coxas grossas, seus braços pequenos, e tudo gritava, era noite e tudo tinha um sabor estranho. O arfar nervoso grunhia para fora de seus lábios tingidos de cor de rosa, o ambiente era quente, tinha cheiro de menta doce com vento fresco preso nas janelas negras de um carro qualquer. E tudo virava, parecia que o mundo virava também. A música escapulia como louca, nem parecia mais música, parecia que saia de dentro dela. Uma batida fervente, acrescentada a um segundo a mais e logo o mundo já estava diferente outra vez, parecia que escorria de algum lugar e se filtrava, se renovava e vinha reforçadamente insano. O suor escorria desde as veias mais azuladas dentro daquele corpo branco. Sem contar no outro corpo também. As chamas eram claras, e o pedido era simples: Me consuma agora e depois suma. É só agora. De repente ela começou baixinho como quem cantarola o hinário da igreja de domingo, mas não era o hinário e nem uma poesia antiga de seus livros envelhecidos e bolorentos, era algo mais batido e chocante, era algo mais ever-agora, de momento, sabe? Era rock and roll puro e de repente, só de repente ela descobriu o sabor. E não era doce, nem amargo, mas era incrivelmente quente. Incrivelmente errado e louco.



Annabel Laurino.

sábado, 5 de novembro de 2011

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    Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.
    Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

(Caio Fernando Abreu. Morangos Mofados)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

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 Aprendi a viver. Aprendi a desesperança de não saber o que acontecerá. Aprendi a não me apegar, a viver, a juntar moinhos de areia sem medo de que durante a noite a maré os leve junto do mar. Por que aprendi que é assim mesmo, que é assim que deve ser. Que tem coisas na vida que por mais que a gente queira que seja permanente, fixo, para sempre, não da. Momentos que são eternos, lembranças, e essas eu também aprendi a selecionar. Ando seletiva. Com pessoas, roupas, manias, músicas, filmes e amores. Escolho tudo a dedo e pego da mão, os amigos são os que mais me importa, vejo o coração, é bom? Então só me basta poucos e vou levando, vou levando, quem sabe eu leve até o final da vida? Não sei... É tão longe, tão perto. Mas levo. E levo feliz. E se possível, sempre sorrindo e cantando.

Annabel Laurino.

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- Tá fresquinho - ela serviu o café. - Agora só consigo dormir depois de tomar café.
- A senhora não devia. Café tira o sono.
   Ela sacudiu os ombros:
- Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

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A gente se prende, se repreende, e se machuca, em cada verso de música, em cada vontade absurda, em cada frase lida, coisas tingidas. Se arrisca, se afina, e grita. E depois chora, ri, passa. Mentira. Sente e sente, e dorme sentindo sem nem mesmo dormir. E acorda no outro dia, segura o coração, quase que exprime. Olham-se na cara, engolem o choro, fingem pose, beijam outros lábios, e se machucam. E desafinam o grito no silêncio obscuro de chegar ao final. Final do que? Por que? Questionam-se, preenchem vazios um do outro que nada preenche na esperança de se dispersar de memórias. E mentem. Como mentem. Por que retina brilha, tinta pura, exclama, coração ferido, lembranças luzidias, tudo branco, dizendo: “volta”. Quando a vida estampa: “Não volta mais.”

Annabel Laurino.

Anotando.


    De repente deu uma vontade. Uma vontade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Qualquer deles. Nem mesmo que fosse lugares, mas momentos.
    Aqui, sentada na minha típica cadeira do quarto, a luz apagada, são oito da noite, acabei de chegar, as luzes do dia estão fracas, mais um dia dando adeus. Tudo começa a ser substituído. O arroxeado no céu, a ventania que paira sobre os cubes das arvores mais altas, o vento sacudindo as flores nas arvores fazendo-as despencar docemente, as aves cortando o céu, o mundo, lá fora. Tão fora. E aqui dentro fica esse silencio que só é cortado por esse música que toca insanamente. Ao meu lado uma revista antiga de Nova York. Folheio cansativamente, o ar de quem deixou muito cair no chão e não há mais forças para pegar nada. Mas eu junto forças, folheio as paginas, e choro, olho novamente para fora da janela. Essa tela grande que estampa o mundo real lá fora. Se me perguntasse o que eu vejo talvez não seria muito bem a resposta esperada. Não são bem plantas, é vida crescente tingida de verde que respira constantemente e que exclama “ar”, não são telhados úmidos, são telas solares onde as aves pousam de seus vôos rasantes, não são flores, são botões que vestem as copas de arvores mais prestigiosas e que por uma benção divina ficam aqui na minha janela todos os dias, e todos os dias quando acordo, abro as janelas e respiro, “ah sim...". Talvez eu esteja mesmo em alguns lugares por ai. Como agora, nesse exato momento. Estou me imaginando longe, estou bifurcando na musica, no negro do café, e nas aves, no arroxeado do céu sendo borrifado de um alaranjado mudo. Mas continuo aqui, dentro dessa caixa colorida onde anoto tudo e vivo, mesmo que viva em palavras, em pontos e em virgulas, mas eu vivo. É anotando que se sente. Não é assim com você?


Annabel Laurino.



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Para de chorar vai, nada que dói que não possa ser curado e nada do que não é pra ser que não possa ser superado. Você sabe menina, você sabe, o melhor só está por vir.

annabel laurino.

Ele pode estar olhando tuas fotos neste exato momento. Por que não? Passou-se muito tempo, detalhes se perderam. E daí? Pode ser que ele faça as mesmas coisas que você faz escondida, sem deixar rastro nem pistas. Talvez, ele passa a mão na barba mal feita e sinta saudade do quanto você gostava disso. Ou percorra trajetos que eram teus, na tentativa de não deixar que você se disperse das lembranças. As boas. Por escolha ou fatalidade, pouco importa, ele pode pensar em você. Todos os dias. E, ainda assim, preferir o silêncio. Ele pode reler teus bilhetes, procurar o teu cheiro em outros cheiros. Ele pode ouvir as tuas músicas, procurar a tua voz em outras vozes. Quem nos faz falta, acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape. Talvez, ele perceba que você faz falta e diferença, de alguma forma, numa noite fria. Você não sabe. Ele pode ser o cara com quem passará aquele tão sonhado verão em Paris. Talvez, ele volte. Ou não.

                                                       Caio Fernando Abreu


A gente se segura em cada coisa quando espera por algo, ou alguém...

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Nunca diga é impossível, por que o impossível sempre acontece. 



annabel laurino.