É difícil dizer. Eu queria ser aquela garota que fosse convidada para alguma coisa. Nem que fosse para sair e ver a monotonia da vida, da cidade, das árvores, do tempo. Eu queria isso. Queria ser a garota que tivesse um beijo roubado, a mão pega por cima da mesa, o olhar encontrado, uma flor recebida, uma carta guardada. Eu queria ser a garota que roubasse o coração de alguém, que roubasse o tempo de alguém. Queria ser o pensamento incessante e provocante. Queria ser a garota cujo motivo tiraria o sono, roubaria horas de pensamentos confusos, o motivo de pensamentos imaginativos, doidos. Queria ser aquela garota que arrancaria sorrisos, faria as horas passarem sem serem percebidas ou contadas. Eu queria ser o motivo de alguém olhar o celular a cada minuto pra ver se uma mensagem minha chegou, pra ver se liguei, se me importei. Queria ser para alguém o motivo de acordar sorrindo, de pular da cama e pensar em mim, queria ser a luz do dia, o aconchegar da noite, a solução da mesmice, o grito no silêncio, o abraço esperado, a saudade correspondida, o aperto no peito, a vontade mais louca, o lado mais puro, a alegria constante. Queria ser aquela pessoa que esse alguém largaria tudo, deixasse tudo pro ar, que esquesse o mundo por mim, pra fugir, pra me encontrar.
Eu queria ser. Não sou.
Eu gosto do silêncio... Eu o venero. A quietude quente e amistosa.
Mas hoje... Hoje eu quero abduzir o silêncio, quero amassá-lo como a uma folha
de papel, quebrá-lo em pedaços indefiníveis e jogá-lo como uma bola arremessada
no ar para muito longe. Quero rasgar as cortinas genuinamente brancas, pintar
as paredes de qualquer cor que seja cor, quero abrir as garrafas de café e
ligar o som, quero derrubar os móveis por acidente e deixá-los por lá por
quanto tempo for preciso, jogados, esquecidos, corpos sem vida mortos no chão. Eu
os matei. Que tragédia, que maldade. Quero, como quero dançar, mexer o corpo e
passar as mãos pelas coxas em carne, minha carne, sentir a quentura do suor
grudando, ligando as partículas da pele, quero pegar a pele e apertá-la,
apertar a mim, e sentir, continuar, subindo e descendo. Meu corpo. Eu estou
viva. Sim. Barulho e barulho. Estou viva. Movendo-me como uma alga marinha no mar
sendo levada e levada, dançando, a água fluindo, posso até escutar o som. Morder,
comer, jogar, pular, é só no que consigo pensar. Verbos. Sair, correr, olhar,
respirar, sorrir, gargalhar. Apertar. Instigar. Mover.
A porta azul ainda
estará aberta. A maçaneta cor de rosa ainda clicará fácil quando você for
forçá-la. Ela clicará e você poderá abri-la e entrar. O tapete verde mar ainda
estará levando-o para o mesmo lugar, flores amarelas e azuis estarão nos vasos
brancos, onde você deixou antes de sair. Os quadros de molduras em neon estarão
gritando no corredor, o piano estará tocando sozinho, nenhuma figura estará
dedilhando o teclado empoeirado que você deixou para trás. Quando partiu. Minha
boca seca estará gritando, a pele nervosa e rachada estará suplicando. Não,
água não. A fonte que mata a sede está em outro lugar, outro corpo. Seus passos
aumentam no lugar, suas pegadas macias e pesadas sobem a escada branca, seu
corpo esguio sobe e sobe. Já posso escutar.
Minhas mãos pingam de
suor, eu posso ouvir. Meus ouvidos se aguçam. Meus olhos entre a tempestade de
luz que golpeia da janela se afirmam na reentrância e afinam o foco. Um suspiro
lento como um golpe no ar sopra dos meus lábios rachados causando dor e
ardência. Vejo sua moldura alta, a forma brilhante de seu corpo branco. Seus
olhos brilham no sol. Suas mãos nos bolsos, sua boca vermelha e úmida. Até que
enfim, você chegou.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho.
Um brilho. Pequeno, muito pequeno, mas é nítido mesmo assim. Ele sai da pontinha redonda e achatada da sua caneta dourada refletindo na luz acima de sua cabeça e dançando no ar denso e quente e remotamente limpo. Que coisa engraçada! Eu nem o conheço. Mas seus olhos me olham assim e eu sorrio. Que coisa pare de fazer isso, eu penso. Eu não iria embora, se não precisasse ir. Mas eu preciso. Sua pele é branca, quase cinza, seus olhos são castanhos claros quase verdes. Suas mãos são compridas, brancas e gélidas e eu me pergunto por que você rói as unhas, por que seu cabelo é tão bagunçado e se a cicatriz no lado esquerdo de seu pescoço é seu único defeito. Não é uma cicatriz grande, é pequena, branca da cor de sua pele e ela nem parece uma cicatriz, parece uma distorção na sua pele perfeita, como se alguém houvesse lhe beliscado forte e puxado a pele para cima até marcar. E você me olha. Meus olhos estão marcados pelos seus. E agora nós dois fomos marcados por alguma coisa. Minha cicatriz é invisível. Branca e reluzente, apesar de que ninguém possa vê-la. É uma idéia apenas, compartilhada da lembrança de te ver. E eu guardo aqui.