Estou doente. Oh sim, estou doente. Essa letargia constante em que me encontro abomina meu corpo, adentra minha alma, crucia meus pensamentos, paralisa minha fala. Estou doente. Essa capacidade imunda da realidade que abre e fecha os poros na minha pele branca deixa marcas. Dor. Estou doente. Quero salvar meu corpo, viajar com minha alma para muito longe, cavalgar sobre meus instintos prolíferos e não saber onde estou. Não quero sentir. Ou quero sentir. Já não sei mais qual é o pior. Se sentir, morro de dor, se não sinto, morro de nada. Morrer de nada. O que é pior?
Estou fraca, estou só. Estou doente. De amor, de dor, de ódio. Fustigam minha alma, arrancam meus pelos, puxam meus cabelos. Sem dó. Esse caso danoso, essa fúria desse mar de confusão custa tanto a passar. Vou fugir, vou chorar. Estou doente. Mas ainda estou aqui. Ainda sinto meu corpo que não se mostra mais tão lúcido e nem mais tão frágil. Ainda sinto-o em mim. Ainda estou aqui. Ainda grito e falo. Ainda sinto prazer, ainda sinto-me excitada na loucura dos meus atos, na loucura da vida, do dia, da dor. Sou insensata na dor. Até mesmo na dor.
É difícil dizer. Eu queria ser aquela garota que fosse convidada para alguma coisa. Nem que fosse para sair e ver a monotonia da vida, da cidade, das árvores, do tempo. Eu queria isso. Queria ser a garota que tivesse um beijo roubado, a mão pega por cima da mesa, o olhar encontrado, uma flor recebida, uma carta guardada. Eu queria ser a garota que roubasse o coração de alguém, que roubasse o tempo de alguém. Queria ser o pensamento incessante e provocante. Queria ser a garota cujo motivo tiraria o sono, roubaria horas de pensamentos confusos, o motivo de pensamentos imaginativos, doidos. Queria ser aquela garota que arrancaria sorrisos, faria as horas passarem sem serem percebidas ou contadas. Eu queria ser o motivo de alguém olhar o celular a cada minuto pra ver se uma mensagem minha chegou, pra ver se liguei, se me importei. Queria ser para alguém o motivo de acordar sorrindo, de pular da cama e pensar em mim, queria ser a luz do dia, o aconchegar da noite, a solução da mesmice, o grito no silêncio, o abraço esperado, a saudade correspondida, o aperto no peito, a vontade mais louca, o lado mais puro, a alegria constante. Queria ser aquela pessoa que esse alguém largaria tudo, deixasse tudo pro ar, que esquesse o mundo por mim, pra fugir, pra me encontrar.
Eu queria ser. Não sou.
Eu gosto do silêncio... Eu o venero. A quietude quente e amistosa.
Mas hoje... Hoje eu quero abduzir o silêncio, quero amassá-lo como a uma folha
de papel, quebrá-lo em pedaços indefiníveis e jogá-lo como uma bola arremessada
no ar para muito longe. Quero rasgar as cortinas genuinamente brancas, pintar
as paredes de qualquer cor que seja cor, quero abrir as garrafas de café e
ligar o som, quero derrubar os móveis por acidente e deixá-los por lá por
quanto tempo for preciso, jogados, esquecidos, corpos sem vida mortos no chão. Eu
os matei. Que tragédia, que maldade. Quero, como quero dançar, mexer o corpo e
passar as mãos pelas coxas em carne, minha carne, sentir a quentura do suor
grudando, ligando as partículas da pele, quero pegar a pele e apertá-la,
apertar a mim, e sentir, continuar, subindo e descendo. Meu corpo. Eu estou
viva. Sim. Barulho e barulho. Estou viva. Movendo-me como uma alga marinha no mar
sendo levada e levada, dançando, a água fluindo, posso até escutar o som. Morder,
comer, jogar, pular, é só no que consigo pensar. Verbos. Sair, correr, olhar,
respirar, sorrir, gargalhar. Apertar. Instigar. Mover.
A porta azul ainda
estará aberta. A maçaneta cor de rosa ainda clicará fácil quando você for
forçá-la. Ela clicará e você poderá abri-la e entrar. O tapete verde mar ainda
estará levando-o para o mesmo lugar, flores amarelas e azuis estarão nos vasos
brancos, onde você deixou antes de sair. Os quadros de molduras em neon estarão
gritando no corredor, o piano estará tocando sozinho, nenhuma figura estará
dedilhando o teclado empoeirado que você deixou para trás. Quando partiu. Minha
boca seca estará gritando, a pele nervosa e rachada estará suplicando. Não,
água não. A fonte que mata a sede está em outro lugar, outro corpo. Seus passos
aumentam no lugar, suas pegadas macias e pesadas sobem a escada branca, seu
corpo esguio sobe e sobe. Já posso escutar.
Minhas mãos pingam de
suor, eu posso ouvir. Meus ouvidos se aguçam. Meus olhos entre a tempestade de
luz que golpeia da janela se afirmam na reentrância e afinam o foco. Um suspiro
lento como um golpe no ar sopra dos meus lábios rachados causando dor e
ardência. Vejo sua moldura alta, a forma brilhante de seu corpo branco. Seus
olhos brilham no sol. Suas mãos nos bolsos, sua boca vermelha e úmida. Até que
enfim, você chegou.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho.