Eu gosto do silêncio... Eu o venero. A quietude quente e amistosa.
Mas hoje... Hoje eu quero abduzir o silêncio, quero amassá-lo como a uma folha
de papel, quebrá-lo em pedaços indefiníveis e jogá-lo como uma bola arremessada
no ar para muito longe. Quero rasgar as cortinas genuinamente brancas, pintar
as paredes de qualquer cor que seja cor, quero abrir as garrafas de café e
ligar o som, quero derrubar os móveis por acidente e deixá-los por lá por
quanto tempo for preciso, jogados, esquecidos, corpos sem vida mortos no chão. Eu
os matei. Que tragédia, que maldade. Quero, como quero dançar, mexer o corpo e
passar as mãos pelas coxas em carne, minha carne, sentir a quentura do suor
grudando, ligando as partículas da pele, quero pegar a pele e apertá-la,
apertar a mim, e sentir, continuar, subindo e descendo. Meu corpo. Eu estou
viva. Sim. Barulho e barulho. Estou viva. Movendo-me como uma alga marinha no mar
sendo levada e levada, dançando, a água fluindo, posso até escutar o som. Morder,
comer, jogar, pular, é só no que consigo pensar. Verbos. Sair, correr, olhar,
respirar, sorrir, gargalhar. Apertar. Instigar. Mover.
A porta azul ainda
estará aberta. A maçaneta cor de rosa ainda clicará fácil quando você for
forçá-la. Ela clicará e você poderá abri-la e entrar. O tapete verde mar ainda
estará levando-o para o mesmo lugar, flores amarelas e azuis estarão nos vasos
brancos, onde você deixou antes de sair. Os quadros de molduras em neon estarão
gritando no corredor, o piano estará tocando sozinho, nenhuma figura estará
dedilhando o teclado empoeirado que você deixou para trás. Quando partiu. Minha
boca seca estará gritando, a pele nervosa e rachada estará suplicando. Não,
água não. A fonte que mata a sede está em outro lugar, outro corpo. Seus passos
aumentam no lugar, suas pegadas macias e pesadas sobem a escada branca, seu
corpo esguio sobe e sobe. Já posso escutar.
Minhas mãos pingam de
suor, eu posso ouvir. Meus ouvidos se aguçam. Meus olhos entre a tempestade de
luz que golpeia da janela se afirmam na reentrância e afinam o foco. Um suspiro
lento como um golpe no ar sopra dos meus lábios rachados causando dor e
ardência. Vejo sua moldura alta, a forma brilhante de seu corpo branco. Seus
olhos brilham no sol. Suas mãos nos bolsos, sua boca vermelha e úmida. Até que
enfim, você chegou.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho.
Um brilho. Pequeno, muito pequeno, mas é nítido mesmo assim. Ele sai da pontinha redonda e achatada da sua caneta dourada refletindo na luz acima de sua cabeça e dançando no ar denso e quente e remotamente limpo. Que coisa engraçada! Eu nem o conheço. Mas seus olhos me olham assim e eu sorrio. Que coisa pare de fazer isso, eu penso. Eu não iria embora, se não precisasse ir. Mas eu preciso. Sua pele é branca, quase cinza, seus olhos são castanhos claros quase verdes. Suas mãos são compridas, brancas e gélidas e eu me pergunto por que você rói as unhas, por que seu cabelo é tão bagunçado e se a cicatriz no lado esquerdo de seu pescoço é seu único defeito. Não é uma cicatriz grande, é pequena, branca da cor de sua pele e ela nem parece uma cicatriz, parece uma distorção na sua pele perfeita, como se alguém houvesse lhe beliscado forte e puxado a pele para cima até marcar. E você me olha. Meus olhos estão marcados pelos seus. E agora nós dois fomos marcados por alguma coisa. Minha cicatriz é invisível. Branca e reluzente, apesar de que ninguém possa vê-la. É uma idéia apenas, compartilhada da lembrança de te ver. E eu guardo aqui.
Todo mundo tem medo de alguma coisa. Todo mundo, eu também. A pergunta espiralasse no ar, assim: “O que, que eu to fazendo?” Enquanto eu lambo delicadamente a ponta da colher suja de sopa instantânea de frango, ainda quente por que fora recém tirada da tigela, e fico olhando o filme em preto e branco passando no canal de filmes antigos e vendo aquelas cenas tão remotamente vividas mesmo pela falta de cor penso que as coisas estavam indo bem, eu estava indo bem... Mas... Há algo em mim, algum caminho suntuoso e singelo, secreto que nem mesmo eu conheço que diz “venha” quando eu já não posso mais resistir, me impedindo de caminhar até o ponto certo do modo mais fácil. Eu tenho medo só de pensar em estragar com tudo, sabe como é, perder as chances quando elas estiverem bem na minha mão. Daí, dez anos depois eu vou me tornar uma idiota amargurada parada na fila da padaria fumando um cigarro barato que amarela até os últimos fios de cabelo, vestindo uma calça de abrigo suja há semanas e um moletom de magas puídas esfarrapado e sujo de manteiga com a frente escrita “você sabe que me ama”, gritando com as pessoas e odiando a mim própria por ter sido estúpida e não ter feito as coisas certas enquanto ainda tinha tempo de fazê-las. Até mesmo a menção do pensamento em escrito faz a idéia parecer ainda mais aterrorizante. Eu tenho medo de um turbilhão de coisas. Tenho medo de passar a idéia errada, daí afastar. Tenho medo de caminhar por caminhos que não deveria caminhar pensando serem certos. Tenho medo de acordar em um dia pela manhã quando eu já tenha feito de tudo e me sentir... vazia. O medo paralisa. Esse é o problema. É aquela droga de matéria que você tem que estudar, aquele encontro para ir com aquela pessoa que você estava cuidando a mais de semanas, aquele emprego novo que surgiu, aquela chance de mostrar que você é capaz, aquele negócio pra fazer, aquela música nova para aprender... Então você sente que não é capaz. Mas, que droga, quem foi que disse afinal? Quem disse o que é errado? Quem disse que não? Quem disse pra parar? Quem?