sábado, 3 de março de 2012
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Que nossas estradas não se desfaçam, que nossos caminhos sempre se entrelaçam. Não quero perder você. Minha força com a sua torna-se acima de qualquer força, torna-se invencível. É necessário que eu veja seu sorriso pintado sobre seu rosto tão familiar todos os anos, até o sempre, quem sabe eterno, dos dias, não sei bem. Mas preciso. Sempre e sempre.
Que nossas vidas sejam amigas, ou irmãs, e que se enamorem todos os dias, para até o longo sempre.
Que nossas vidas sejam amigas, ou irmãs, e que se enamorem todos os dias, para até o longo sempre.
Annabel Laurino.
sexta-feira, 2 de março de 2012
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Cada dia que amanhece sozinho levanta-se sóbrio. Você sente seus ossos estalarem quando se levanta do colchão quente e sai do meio das cobertas fofas, você pensa que a vida por mais gostosa, por mais fofinha, e que por vezes parece viver em meio a tragédia fatal de um ponto que se enrosca nu em meio a beleza cotidiana. Pode parecer nostálgico eu sei. Mas dou graças todos os dias assim que acordo, olho o sol e penso que um novo dia está prestes a se desenrolar da tecelã mágica que se chama vida. Pode ser que ao final do dia eu fique sentada no mesmo lugar remoendo pontos faialíticos ou tecelando belezas nas pontas dos dedos e murmurando: "que lindo, que lindo", sem ninguém mais ouvir.
Annabel Laurino.
quinta-feira, 1 de março de 2012
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Se eu largar sua mão que você sobreviva são, que você viva bem, leve, feliz. Que quando eu soltar sua mão você se desprenda vivo como um fio de luz que se sobressai sozinho do globo central e viaja pela atmosfera encontrando outros fiozinhos. Que você não sinta falta, que você saiba sempre porque soltei sua mão. Sem dor, sem mas, sem arrependimentos. Sem choros, sem velas, sem nada mais do que saber, eu soltei sua mão.
Annabel Laurino.
We're just two lost souls, swimming in a fish bowl, year after year
Se você fechar os olhos por um instante, colocar uma musica ou quem sabe, se você for daquele tipo um tanto mais sentimental você queira ouvir o próprio som da chuva e do vento que lá de longe vem arrastando os pingos de chuva, os debatendo contra o vidro frio do quarto. Quem sabe. Mas também não faz muita diferença o que ao certo você vai estar ouvindo, vamos direto ao assunto, por que em geral o importante é que você não se preocupe mesmo com o que ouve mas sim com o que sente. Vamos voltar para a parte em que se fecha os olhos... Sim, feche os olhos e silenciosamente imagine a imagem daquela pessoa, pense nela, mas não como algo impossível ou como uma possibilidade até mesmo, pense nela real, lembre-se do cheiro, do gosto, do riso, dos olhos, do brilho dos cabelos, dos gestos, lembre-se de tudo como se fosse não uma forma imaginativa em sua cabeça mas real e pura. Lembre-se de um momento. Ah sim, você já não se lembra? Então lembre-se de cheiros, sei que nessa parte tudo pode parecer um tanto doido, mas tente. Sim, quadro velho, madeira puída e envelhecida, sol de inverno, garotos gritando no pátio por uma partida de futebol, o sol entra e jorra em seu rosto, a porta esta trancada, e ele vem em sua direção como um leão pequeno, manso, como se suas patas fossem feitas de luvas brancas e delicadas, sem produzirem som. No rosto um sorriso nervoso, o cabelo despenteado e fora do lugar, porém bonito, do jeito que você gosta, você se lembra. E há também as cortinas velhas azuis estranhas, há uma atmosfera densa e tensa, e você se lembra de que tudo passa quando vocês se beijam, como se não fosse mais um beijo, mas sim algo muito mais intimo do que isso, 'só um beijo'. Como se fosse uma espécie de aliança, uma ligação formosa.
Ah sim, você consegue mesmo se lembrar de tudo. De volta ao presente, a musica toca viva e nítida nos ouvidos embalada pelo som da chuva numa manhã de quinta-feira.
I wish you were here.
É claro que sim, claro que deseja.
Ah sim, você consegue mesmo se lembrar de tudo. De volta ao presente, a musica toca viva e nítida nos ouvidos embalada pelo som da chuva numa manhã de quinta-feira.
I wish you were here.
É claro que sim, claro que deseja.
Annabel Laurino.
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Mas
o que houve — o tropeço, o solavanco, o esbarrão, a tosse no meio da área
lírica —, o que houve foi um pensamento impiedoso e exatamente assim: não faço
parte disso.
Não
uma dúvida, mas uma certeza. Absoluta.
Sem
inveja nem mágoa, revolta ou vontade furiosa de que pudesse ser de outra forma.
Secamente, definitivamente, eu não fazia parte daquilo. (…) Por razões que
não sei explicar; e nem precisariam tentar ser explicadas porque eram e, pior,
continuam sendo completamente indiscutíveis. Eu
não fazia parte, e pronto.
(Caio Fernando Abreu)
it's a beautiful day, raining day
É o pingo que pica na poça
que explode no ar
É o pingo que pinga no caminho
do bico do sapato
ao canto do tijolinho
É o pingo que pinga
na cabeça careca
na tinta avermelhada
dentro do olho vizinho
É o pingo de chuva
que pinga não mais sozinho
e que caiem os pingos
todos molhadinhos
Vão pigando sem parar
encharcando tudo
pingando aos pouquinhos
vezes bravos, vezes devagarzinho
Vão costurando a água no ar
Annabel Laurino.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
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Astuta. Ela me ouve reclamar de longe, e quando está à quilômetros daqui e sente a emoção taciturna que me eleva feliz pela sua ausência ou quando até mesmo fico triste e começo a chafurdar numa espécie de neve rarefeita, densa e enregelante ela atiça seus ouvidos, aguça seus sentidos e como um ladrão ela volta no meio da noite e me pega desprevenida.
Não falarei mais dela. Dizem que quando tocamos de mais em certos assuntos eles se tornam mais reais e quanto menos falarmos sobre algo aquele algo desce a um esquecimento profundo, até não existir. Talvez esse seja meu remédio. Talvez seja tudo que eu mais precise.
O silêncio absoluto que se transformará num oco recheado de histórias não contadas e sentimentos não vividos. A solidão, o deslocamento, e até mesmo outros sentimentos que muitas vezes ruins, pelos quais nos sentimos arrastar, virarão memória esquecida, só memória. Logo, não quero nem lembrar-me os nomes.
Annabel Laurino.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Dor, oh dor conhecida.
Acho que a pior dor que pode ter é aquela que vem no final do dia. Não, não desvalorizo aqui o amontoado existencial de outras dores. Mas afirmo que a pior e mais conhecida é a que acompanha o crepúsculo estampado na janela aberta do quarto, que adentra amena como uma manancial fina e vem mansamente com suas sapatilhas de algodão. Depois do dia cheio, da tarde quente, das coisas loucas, dos inesperados das horas, da turbinação do sol, das peles, rostos, e temperaturas em alto grau você se joga na cama e olha para o celular. Meu Deus, a ultima pessoa que você acabou de falar era a pessoa que até então era a mais especial da sua vida e vocês acabaram de brigar. Ninguém até agora perguntou como foi o seu dia. A cabeça lateja, o café não resolve, o corpo rasteja, os olhos ardem, e por dentro tudo parece em cacos. Você até pensa se essa momentânea gripe de dor no corpo e nariz estranho não venha a ser uma forma de todas as coisas trancadas lá dentro estarem escapulindo para fora, fisicamente.
Dói tanto se sentir tão só, é como querer água num deserto, os pés uns torrões de areia frita, a longitude imensa a sua frente, nem uma viva alma, e o sol acima torrando os miolos, tudo tão dolorido, só e tudo que você quer tão longe.
Tudo que eu mais quero era um ligação, ou um abraço, ou um beijo terno no rosto, umas frases por mais clichês que fossem, um café feito, uma conversa construtiva, alguém que me ouvisse também, um colo, um afago no cabelo, e tudo ia ficar bem.
As vezes parece que a gente entra para essa guerra só e sai só sem mais nem menos. Parece até que tem alguém que fica nos chutando pelas costas nos empurrando para seguir em frente mesmo que tudo pareça tão desesperador.
Acho que posso estar só com medo, ou talvez arrependimentos. Não sei, é um misto de coisas. Só sei que meu telefone não toca, que ninguém liga, que meu velho amigo novamente me esqueceu. Fico tentada a procurar alguém, fico tentada e discar os números e sei lá, puxar conversa. Mas até isso se torna cansativo.
É aquele velho sentimento de querer ser salvo, entende?
Dói tanto se sentir tão só, é como querer água num deserto, os pés uns torrões de areia frita, a longitude imensa a sua frente, nem uma viva alma, e o sol acima torrando os miolos, tudo tão dolorido, só e tudo que você quer tão longe.
Tudo que eu mais quero era um ligação, ou um abraço, ou um beijo terno no rosto, umas frases por mais clichês que fossem, um café feito, uma conversa construtiva, alguém que me ouvisse também, um colo, um afago no cabelo, e tudo ia ficar bem.
As vezes parece que a gente entra para essa guerra só e sai só sem mais nem menos. Parece até que tem alguém que fica nos chutando pelas costas nos empurrando para seguir em frente mesmo que tudo pareça tão desesperador.
Acho que posso estar só com medo, ou talvez arrependimentos. Não sei, é um misto de coisas. Só sei que meu telefone não toca, que ninguém liga, que meu velho amigo novamente me esqueceu. Fico tentada a procurar alguém, fico tentada e discar os números e sei lá, puxar conversa. Mas até isso se torna cansativo.
É aquele velho sentimento de querer ser salvo, entende?
Annabel Laurino.
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Às vezes eu penso em desistir, eu acho que
não agüento essa aprendizagem toda outra vez — fico tentado a desistir. Não sei
bem por que insisto, posso dizer apenas frases feitas sobre isso, mas na
verdade não sei.
(Caio Fernando Abreu)
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