terça-feira, 12 de julho de 2011

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As vezes a água vai fluindo do meio de seus dedos
Escorregando
Caindo gelada pela sua pele crespa
Fazendo cócegas lentamente
Caindo e caindo
Você não consegue pega-la
Entre pingos vai caindo
Vai explodindo no chão
Você já não pode mais saber
Mas nem um pingo mais lhe resta em mãos
Nem uma gota qualquer que possa ter sobrado
Nem um vestígio
Nada, que possa ser lembrado.


Annabel Laurino.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cicatriz

    Um brilho. Pequeno, muito pequeno, mas é nítido mesmo assim. Ele sai da pontinha redonda e achatada da sua caneta dourada refletindo na luz acima de sua cabeça e dançando no ar denso e quente e remotamente limpo. Que coisa engraçada! Eu nem o conheço.
    Mas seus olhos me olham assim e eu sorrio.
    Que coisa pare de fazer isso, eu penso.
    Eu não iria embora, se não precisasse ir.
    Mas eu preciso.
    Sua pele é branca, quase cinza, seus olhos são castanhos claros quase verdes. Suas mãos são compridas, brancas e gélidas e eu me pergunto por que você rói as unhas, por que seu cabelo é tão bagunçado e se a cicatriz no lado esquerdo de seu pescoço é seu único defeito.
    Não é uma cicatriz grande, é pequena, branca da cor de sua pele e ela nem parece uma cicatriz, parece uma distorção na sua pele perfeita, como se alguém houvesse lhe beliscado forte e puxado a pele para cima até marcar.
    E você me olha.
    Meus olhos estão marcados pelos seus.
    E agora nós dois fomos marcados por alguma coisa. Minha cicatriz é invisível. Branca e reluzente, apesar de que ninguém possa vê-la. É uma idéia apenas, compartilhada da lembrança de te ver.
    E eu guardo aqui.

 
Annabel Laurino.




Todo mundo tem.

    Todo mundo tem medo de alguma coisa. Todo mundo, eu também.
    A pergunta espiralasse no ar, assim: “O que, que eu to fazendo?”
    Enquanto eu lambo delicadamente a ponta da colher suja de sopa instantânea de frango, ainda quente por que fora recém tirada da tigela, e fico olhando o filme em preto e branco passando no canal de filmes antigos e vendo aquelas cenas tão remotamente vividas mesmo pela falta de cor penso que as coisas estavam indo bem, eu estava indo bem... Mas...
    Há algo em mim, algum caminho suntuoso e singelo, secreto que nem mesmo eu conheço que diz “venha” quando eu já não posso mais resistir, me impedindo de caminhar até o ponto certo do modo mais fácil.
    Eu tenho medo só de pensar em estragar com tudo, sabe como é, perder as chances quando elas estiverem bem na minha mão. Daí, dez anos depois eu vou me tornar uma idiota amargurada parada na fila da padaria fumando um cigarro barato que amarela até os últimos fios de cabelo, vestindo uma calça de abrigo suja há semanas e um moletom de magas puídas esfarrapado e sujo de manteiga com a frente escrita “você sabe que me ama”, gritando com as pessoas e odiando a mim própria por ter sido estúpida e não ter feito as coisas certas enquanto ainda tinha tempo de fazê-las. Até mesmo a menção do pensamento em escrito faz a idéia parecer ainda mais aterrorizante.
    Eu tenho medo de um turbilhão de coisas.
    Tenho medo de passar a idéia errada, daí afastar. Tenho medo de caminhar por caminhos que não deveria caminhar pensando serem certos. Tenho medo de acordar em um dia pela manhã quando eu já tenha feito de tudo e me sentir... vazia.
    O medo paralisa. Esse é o problema. É aquela droga de matéria que você tem que estudar, aquele encontro para ir com aquela pessoa que você estava cuidando a mais de semanas, aquele emprego novo que surgiu, aquela chance de mostrar que você é capaz, aquele negócio pra fazer, aquela música nova para aprender... Então você sente que não é capaz.
    Mas, que droga, quem foi que disse afinal? Quem disse o que é errado? Quem disse que não? Quem disse pra parar? Quem?


Annabel Laurino.

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Você nunca teve aquela sensação de que as pessoas certas sempre acabam com as erradas, quando as certas estão, tipo assim, dez centímetros delas?



Annabel Laurino.



domingo, 3 de julho de 2011

Infinitas Possibilidades

    Eu gosto de pensar nas infinitas possibilidades de me tornar tudo aquilo que posso querer ser. Como mudar, me transformar, me reinventar. Gosto dessa idéia. De pensar que posso ser tudo, tudo que der vontade de ser.
    Mas enquanto penso isso, nas infinitas possibilidades do que me tornar, gosto de lembrar-me baixinho que dessa forma humana, física e emocional, está muito bem por agora. Está calmo e tranqüilo, está cabível aos meus olhos, uma forma confortável, uma forma que me agrada, que em aquieta.
    Mesmo sabendo que eu poderia mudar para qualquer coisa que eu decidisse ser, pensar que está bom assim, desta forma que me agrada, deixa a idéia de me transformar fora de questão. Por que me inquietaria olhar no espelho e ver um rosto brando que já não estampa mais o meu. Vislumbrar meu corpo e ver que dentro dele emoções antigas e segredos gostosos já não estão mais por lá.
    Seria como jogar as chaves no mar e não ter mais como entrar em casa.
Annabel Laurino.

Eu adoro.

    Adoro a forma como seu corpo magro afunda na cadeira quando você esta impaciente. Como seus olhos negros ficam distantes enquanto sua mente divaga, e como suas sobrancelhas ficam sérias e seus olhos circunspectos ao mesmo tempo que sua boca fica uma linha fina e reta quando você se irrita. Eu adoro seu cabelo e não entendo por que você vive o cobrindo. Adoro a forma que você fala e como você enxerga a alma das pessoas olhando lá no fundo dos olhos de uma maneira que posso me ver refletida neles.
    Adoro como você aumenta os olhos quando afirma uma idéia ou como seu rosto fica inundado de expressão quando você se sente entusiasmado com alguma coisa. Adoro suas mãos, são grandes e finas, e sempre geladas. Adoro quando você pega as minhas mãos, mesmo que de uma forma inocente, mas elas ficam lá, sobre as minhas impulsionando a minha pele na sua em um toque que somente eu mesmo reconheço. Adoro como você meche o corpo enquanto caminha e como você me olha quando acha algo completamente absurdo no que falei. Quando você ri seus dentes retos aparecem e uma gargalhada em floreios forte e viril perpassa sua boca perfeita e rosada. Adoro seu cheiro, é como um cheirinho de lar que da vontade de repousar o rosto em seu peito e roubar suas roupas para mim, um cheiro que me faz querer te abraçar, que me faz pensar loucuras sobre dizer o que não devo dizer. Adoro seus defeitos, que me irritam e me causam coceiras sobre o corpo, como quando você teima com alguma coisa que eu digo ou quando você ignora e vira o rosto pra fingir que não ouve. Eu adoro seu modo infantil, que me irrita, e adoro o modo como penso que um dia você possa amadurecer.
    Adoro seu modo “eu não ligo”. Como também adoro quando você se estressa e fica louco. Adoro deitar na cama e chutar as idéias de você pra longe e sorrir quando elas insistem em voltar. É como uma coisa abstrata que eu guardo sozinha sentada no chão do meu quarto.
    Ninguém precisa saber.
    E eu adoro isso em você.

      Annabel Laurino.

A vida é Frágil e Absurda...

    Onde foi que eu li isso?
    Eu não lembro.
    Mas que seja...
    Você acorda, você dorme, as coisas seguem, os relógios acompanham o passo da pressa do dia a dia, você não vê as coisas passarem, é inverno, é verão o cenário muda você está sempre lá, sentado sobre uma cadeira gelada, desligando-se das folhas que apinham-se no chão a sua volta, as crianças brincam no parque, o som das falas se misturam as batidas se seu coração solitário e frio, a desenvoltura do momento morreu e um botão que antes era ligado á uma luz que pendia a vida, a noção das cores e dos sentimentos está empoeirado dentro de você. Sem nunca mais ter sido tocado, nunca mais ter sido visto.
    Mas a vida é frágil. Porém absurda.
    Você está lá sentado sobre a cadeira fria, o céu nublasse acima de sua cabeça cheia de pensamentos perdidos e sem nexo, o céu gira com rabiscos de frio e granizo, daí uma coisa absurda acontece.
    O botão dentro de você é arremessado longe, muito longe, para onde seus olhos não podem ver. Ele é cruelmente apertado, instigado por mãos puras e destinadas a isso, você corre e corre e não alcança. Nos relógios, os ponteiros parecem correr mais rápidos mais dessa vez no sentido certo e favorável. As cores explodem no ar como pequenas balinhas de multicor sendo misturadas ao sol. Daí é assim, as mãos puras possuem um corpo, incríveis olhos brilhantes e afáveis, e um coração tão mais solitário que o seu.
    Eu digo absurdo por que é incrível o caminho que a coisa vai.
    Sua mão possui outra mão agora, quente sobre o calor das cores que lhes envolvem, e mesmo que um dia um borrão cinza transpasse o céu, você terá um corpo tão mais sedento e cheio de sabedoria tal igual ao seu, e já não se sentira mais tão só.


   Annabel Laurino

quinta-feira, 23 de junho de 2011

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"Há um passeio em mim que não me permite fazer certas coisas pelo caminho mais facil."
 [Johnny Depp]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

é...

São tantas coisas para contar. Tantas histórias. Vão muito além de contar estrelas, números, os fios de pontas duplas ou os dias encanada em uma dieta maluca. São coisas mais fundas, como descer em um poço e descobrir um mundo fantasticamente inesperado. Colorido, musical, e limpo.
    Coisas como o seu novo corte de cabelo, aquele beijo inesperado que você recebeu na semana passada, as notas que estão indo bem, os dias das provas que estão se aproximando, o número do novo telefone que você recebeu, o número do telefone dele, as invariáveis horas que você andou gastando no espelho esperando ver quantos centímetros mais você perdeu, os amigos novos que você conheceu, as risadas que você andou dando sozinha no quarto quando ninguém estava vendo, o lugar que você mais sonhava ir agora tão próximo...
    Tudo em uma contagem louca, boba, que talvez não tenha sentido algum, mas que para você, foram dois meses gastos, dois meses que voaram no calendário velho da cozinha. Dois meses se sentindo uma pessoa diferente que você não imaginava ser. Com amigos novos, com coisas novas para contar assim que você chega da escola, com pessoas novas para telefonar e rir sobre coisas bobas, coisas engraçadas, conversar sobre assuntos importantes, e discutir opiniões que antes você não pensaria em formar.
    É como um quadro colorido e lindo que estivesse sendo, dia após dia formado à sua frente. Um quadro cuja pintura, minuciosamente vai sendo formada, um contorno por uma pincelada. Tudo muito além de cortes de cabelo, e beijos roubados.
    É um futuro brilhante. Uma pintura surpreendente.
    Um quadro que você mesma, há muito tempo atrás, deitada na cama sozinha, em uma calada da noite, formou e nem se lembrava mais.
    Não é engraçado como as coisas acontecem? Não é surpreendente não saber como elas chegam a acontecer?

Annabel Laurino.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

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Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer

Eu acho tão bonito isso de ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fulgaz...

(Lulu Santos)