Camila Costa - trechos de nós.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
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"Quando a gente se olha dá uma esperança, sabe? Quando a gente se sente – longe ou perto – e se entende – em silêncio. Quando eu te capto e você me “pesca”, o mundo dá uma volta bonita, ouso dizer que colorida. Os estragos são somente estragos e as dores são somente as dores: o único excesso é amar. Tem exagero melhor? E vem mesmo aquela esperança do olhar, a expectativa de que talvez você me ame tanto quanto eu descobri que te amo em meio às minhas cartas antigas que agora me tiram somente gargalhadas… Porque você é uma carta nova que eu não quero ter que rasgar. Dá aquela esperança de ser feliz e poder te levar comigo."
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
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"E mesmo sabendo que as nossas chances são praticamente nulas, eu gostaria de entender por que a gente ainda se procura."
Gabito Nunes
terça-feira, 30 de outubro de 2012
In: Irreversível
"Eu detesto gente bêbada, eu odeio essa cultura cervejeira e seus comerciais ilusórios e seus cus faturando dinheiro enquanto quatro jovens perdem suas cabeças embaixo de um caminhão após uma festa, ou enquanto dois irmãozinhos se escondem debaixo da cama porque, assim como anteontem, hoje também é dia da mamãe levar surra do papai. Se você bebe por vício, hábito ou ritual – e não pelo sabor e pelo prazer autêntico –, para metamorfosear sua identidade ou aliviar alguma angústia ou remorso, não há argumento racional que me tire da cabeça que você é um idiota. Você pode ser um doente social agora, tudo bem, coitado, mas algum dia já foi um idiota. Na bocada inicial ou quando passou a glamorizar a alegria ou o conforto dos goles seguintes.
Gente bêbada é chata, covarde, prepotente, burra, deprimente, uma personalidade fraudulenta, um prejuízo ambulante, um fardo futurístico, uma estatística lamentável. Quanto de dinheiro você já gastou com destilados, meu amigo, e até onde você foi com isso? E quando você puxa papo e me conta todo empolgado quantas doses variadas você consumiu na noite anterior, achando tudo super legal, silenciosamente eu só consigo te achar idiota. Desculpe, camarada, desdenhar seu mérito. Mas aposto que aquele mendigo na porta da farmácia absorve três vezes mais garrafas do que você. E vai continuar mendigo."
Gabito Nunes
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"Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados."
Caio Fernando Abreu
DESespera
Noites frias aquelas. Levantava do sofá sonolenta e
desperta, entre um cochilo e outro, entre um bocejar e o abrir e fechar de
olhos. Levantava-se, corria até a janela, com os pés pequenos como os de uma
gueixa e afastando as cortinas da janela, olhava com seus olhos de gato branco
a rua deserta. Espichava o corpo macio e pequeno na ponta dos pés em direção a
enorme janela da sala, olhos atentos. Nada dele chegar.
Era quase sempre
assim, nos últimos tempos. Uma espera desesperada que não surtia efeito, só
esmagava. E esmagava cada vez mais. Ela própria se sentia afundar a cada
nanosegundo nas almofadas indianas do sofá. O canal de compras da televisão era
puro tédio, misturado com a energia de um café meio frio, meio quente, a vida
era continuamente estranha, e ele nunca chegava. Noites frias aquelas.
Talvez ele viesse
a chegar um dia, quem sabe. Na hora marcada, se convisse ele marcar uma hora.
Mas ela acabava sempre desistindo. Levantava do sofá, com os pios alegres dos
pássaros lá fora e relutantemente, passava o trinco na porta, indo se jogar
sobre a cama com as lágrimas. Isso sempre quando
amanhecia o dia, quando era obrigada à desistência.
Desde que ele foi
embora era um ritual frívolo aquele. Como afundar a faca na carne bem
devagarzinho, não devagar, mas muito e muito, cada vez mais e sempre, devagar.
Um milímetro a cada longos segundos e a dor sempre aguda, roçando a pele na
faca até sangrar.
Coitada dela,
diziam os vizinhos que sempre viam as luzes acessas da casa. As amigas
insistiam que deveria seguir em frente, quem sabe tentar Yoga, pilates, jump,
viajar para o Quênia e cuidar de elefantes órfãos ou Dubai então? Um pouco de ouro
não faz mal a ninguém. Mas nenhuma pessoa viva sentia o seu
sofrimento. Depois de muitos naufrágios, abandonar o barco era como a
desistência de uma longa jornada, era o fracasso de uma vida. Uma vida que aos
poucos deixava de existir.
Claro que se
perguntava as vezes, entre a mordida de uma bolacha Bonno e um gole de
coca-cola, que se afinal ele havia ido embora então era por fim o terrível
ponto da história. Mas, e sempre havia o mas, havia a esperança.
Branca e
reluzente, a acompanhava nas noites longas.
Noites que até o
podia ver com muita nitidez abrindo a porta, então com a barba por fazer, meio
castanha, meio ruiva, os cabelos desgrenhados do vento frio da noite, a jaqueta
de couro preta e as calças meio folgadas nos joelhos, os olhos de tigre
desesperado, meio verdes, meio negros, afundados pelo cansaço. Não haveria
palavras para serem ditas, a pegaria no colo e a levaria para a cama, o resto
era a sua imaginação febril que a acompanhava.
Eis que teve uma noite em que
desistiu, não ficou na sala, sentou na porta, com chinelos havaianas e cabelos
presos em um rabo de cavalo despenteado. Ele não chegou, claro. Ela fechou a porta e
saiu caminhando pelas ruas. Cinco horas da manhã. A visão dele indo embora
pelas calçadas era vivida. Se soubesse que era a ultima vez que ele tinha ido
embora, que o estaria vendo, enfim, não sabia, não tinha como saber, isso só
provava que a vida era inútil, injusta, malvada.
Mas antes de sair pela porta, subiu até o quarto e abriu o guarda roupa. Pegou o calção
negro que ele sempre usava para dormir. Sua mente protestava com a aproximação
da dor, agora quase familiar, e seu coração gritou por um pouco de piedade. Mas
não resistiu. Levou a roupa até as narinas e aspirou o cheiro. Era só o aroma de guardado e umidade. Quanto tempo fazia agora desde que aquela roupa estava
ali? Cinco meses? Quatro anos? Calçou a peça e desceu as escadas, o calção bamboleando nos quadris. Não era assim tão magra antigamente, mas agora, com sua alimentação virada em bolachas doces na madrugada e nada mais do que isso, os ossos dos quadris eram nitidos. Não comia como antes, quando ele fazia o café da manhã e preparava os jantares, sempre tão deliciosas as massas e os sorvetes caseiros.
As luzes matinais
de uma manhã fria de verão reluziu vermelho lá longe no céu, só as luzes, pois a
estrela grande estava escondida ainda. Ao longo da caminhada silenciosa podia
ter jurado que ouviu seus passos lentos ao seu lado, mas ele estava longe, não era
possível, compreendeu enfim. Caminhou entre os muros pixados e desbotados e jurou tê-lo ouvido
sussurrar seu nome, mas era impossível, ele havia partido. Olhou uma nuvem
crespa, branca e enevoada lá acima e jurou tê-lo visto debruçado sobre uma pluma de nuvem, sorrindo,
flutuando entre as nuances prateadas e arroxeadas de uma manhã prestes a nascer.
A dor de uma partida as vezes é tão viva quanto a morte. E ele já não vivia
mais ali. Era uma dor que não aceitava a compreensão dos fatos, o desespero de uma espera sem sentido, afogada em saudades.
Annabel Laurino
sábado, 27 de outubro de 2012
Molejo
Vou te confessar uma
coisa, ando com muita preguiça. Não, pera ai, não é preguiça de viver, de pegar
o controle da TV que ta do outro lado da sala, de secar o cabelo, de levar o
copo pra pia, de sair com o cachorro ou até mesmo preguiça de fazer
literalmente tudo. É preguiça social mesmo.
To cheia de ter que
ficar espezinhando todas as informações mentais que passam no meu cérebro e
entregar de bandeja para os outros, por que assim fica mais fácil de me
entender, da menos trabalho, não precisa pensar.
Oh que triste,
assim são os homens. Nunca explicaram pra eles que mulher gosta de ser
surpreendida? Ok, então lá vai. Eu gosto de ser surpreendida. De ser entendida
sem ter que me explicar, de ser observada sem perceber, de receber mimos sem
nem ter dado a intenção de que os queria.
Não tem nada mais
gostoso do que você receber de alguém uma surpresinha nem que seja, um programa
a dois todo pronto sem nem ter um dedo seu no meio do cronograma, um agrado, um
afago, uma ligação feita fora de hora sem a intenção de falar nada além de
“precisava dizer que te amo’.
As vezes eu sou
muito dura com as coisas, mas dentro de mim mora uma velha e dengosa romântica
das mais antigas. Daquelas pessoas que escrevem cartas, acordam com café da
manhã na cama, cafuné com beijinho, presente embaixo do travesseiro depois que
acorda, ligação pela manhã, flores e cartões sem motivo, data ou comemoração.
Acho que deixa a
vida mais bonita, mais cheirosa, mais brilhosa. Da a sensação de que tem sempre
algo novo e assim, nada se desbota. É muito triste quando as relações passam a
fatigar com mensagens eletrônicas de má vontade e discussões onde um pretende do outro o que
aquele nunca dá.
Não nasci para
sentar e esperar atitudes, eu gosto de tudo pronto. Principalmente quando minha
urgência por coisas bonitas é uma fome que não cessa nem em dias de muito frio.
Tenho preguiça de me explicar, de dizer tantas e tantas vezes o que eu espero.
Na verdade, é mais como se eu quisesse que você começasse a ler nas
entrelinhas, nos meus olhos, nas palavras que eu não falo, no que eu não
mostro, no que eu escondo. Só para então, talvez, alguém decifrar o segredo por
trás dos meus silêncios.
Annabel Laurino
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Avalanche
Eu não sei o que me feriu mais, a sua indiferença ou a
facada no estomago ao ver tudo ruir ladeira a baixo, diante dos meus olhos. Ambas
as coisas desconexas, mas me machucaram frivolamente, tudo com uma pontinha de
minha culpa.
Nunca aprendi a
lidar com decepção, com desespero, com coisas quebradas e relacionamentos
estranhos, nunca entendi o fracasso embora tenha fracassado um milhão de vezes.
Então eu sentei aqui e comecei a fazer o que eu sei fazer melhor nesse mundo e
o que muitos dizem que não me levará a nada, escrever.
Comecei a escrever
coisas desconexas mesmo, tudo o reflexo de coisas presas e entaladas no peito. Mas
não saiu nada, no começo foi a destruição do quadro mais feio e mal pintado que
já se viu e depois, ficou pior. Eu respirei fundo, tomei um gole de café e
continuei sentada, rabisquei no caderno, desenhei um gato de óculos, prendi o
cabelo, escrevi umas mentiras esboçadas em frases e depois chorei.
Não sei como
consegui chorar, não foi um choro de verdade, não houve lágrimas. Foi só uns
soluços abafados que eu fiquei ruminando enquanto mantinha o travesseiro
afundado no peito.
Pensei que esse ano
tudo seria diferente, pensei que estava condunzindo minha própria vida mas as
vezes bate um desespero de simplesmente não estar. Entende? É como se tivesse
uma outra pessoa no controle de tudo isso decidindo as coisas por mim, e por incrível
que pareça, parece que essa pessoa louca, esse psicopata idiota adora ver um
drama na minha vida, uma história repetitiva e ultrapassada, ele simplesmente
ama uma reprise.
Vou te dizer que
não ta fácil. Nunca fui de muitos amigos, nunca me encaixei de verdade. Eu
sempre fui a estranha socada no fundo da sala olhando todo mundo com um ar de “quem
são vocês e de onde saíram todos?”. Juro que já tentei entendê-los, mas são
eles que não me entendem. Aos olhos vagos eu não passo de uma garota com a cara
enfiada nos livros que escreve e é chata de morrer. Aos olhos vagos eu só sou
mais um alguém meio assim, por ai.
Eu queria que a
nossa amizade tivesse durado, juro. É difícil encontrar pessoas que a gente se veja
tanto, nem que seja em um pontinho aqui e ali, mas que a gente se veja. E eu me
vi em você, em algumas nuances meio borradas, mas eu me vi, e foi tão bom até a
gente começar a misturar tudo. Olha agora, que indiferentes, momentos estranhos
e deslocados, transbordando o nosso
orgulho.
Há também as outras
coisas, que eu sempre abro mão quando está prestes a acontecer. É que eu ando tão
triste, comigo, com tudo. Não faz mais sentido entender, eu sei. Mas eu sempre
me deixo por vencida. Eu acho que não acredito mais em mim em ninguém ou em qualquer coisa. Sem perspectivas
a vida vira uma droga e eu ando completamente sem saber para onde ir, que rumo
tomar. O que eu sei é que as coisas que eu faço e tudo que eu tenho que fazer não
me dão prazer, e eu fico sentada olhando aquela gente chata, cada qual um molde
idêntico da outra, aqueles gritos, aqueles berros, eu sei que não preciso estar
ali todas as tardes, mas eu devo, e eu me sento, ouço aquelas informações serem
despencadas em cima de mim, me encho de força, me encho de esperança, penso que
se Einsten teve que aturar isso, se Jane Austen teve que aturar isso, se Van
Gogh teve que aturar isso, então eu consigo.
Mas não consigo. Eu
queria muito conseguir, mas me desmotivei. To desmotivada. É uma vontade de não
estar mais aqui, de nunca ter estado.
Falando tudo isso,
não resolve nada. Eu ainda ouço os pedaços de gelo da enorme avalanche ruir lá
do alto, vindo ao meu alcance, vindo sobre mim. E não sei se terei forças para
impedir, para segurá-la, não sei se encontrarei nos meus braços, os únicos braços
que podem impedi-la, a força que preciso para manter tudo no seu devido lugar, intocável.
Annabel Laurino
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"Eu sabia do seu amor porque nas noites que eu queria saltar do mundo, você me sossegava com os lábios na minha nuca gelada, misturando duas ou três palavras de abrigo. Vai ficar tudo bem. E ficava. Ou já estava. (…) só queria que você soubesse: eu amo você demais e foi preciso nada mais que cinco voltas ao redor do meu mundo pra perceber que não existe mais alguém capaz de me tocar com a ponta dos dedos como se de mim saísse música, sempre que meu corpo estremece de algum medo ridículo de que aquele amor quieto não fosse real."
Gabito Nunes
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
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Então, claro, você se acostuma. Obviamente ninguém é de
ninguém, e eu não posso ter a posse sobre você e sobre todas as outras pessoas
do mundo. As pessoas são livres, completamente livres, e o são mais ainda sobre
circunstâncias que não as permitem ficar juntas. Elas voam sobre o paralelo do
mundo em direções diferentes, se encontram, se reencontram. Para mim, agora,
tudo bem, sinceramente. Uma hora a gente tem que se acostumar que não podemos
ter tudo, todo mundo. Uma hora eu ia ter que entender que sobre todas as circunstâncias,
que não fomos feitos para estarmos
juntos. Mas como eu disse, tudo bem. É uma daquelas fases que a gente sempre
tira o coelho da cartola, sempre da um jeito de se divertir, de ser feliz. E
para mim, ver seus sorrisos nas réstias de tardes colado nos lábios e seus
olhos infantis criando risos na minha boca, lembrando da velha infância, ta
tudo bem, tudo bem. Estamos todos muito bem.
Annabel Laurino
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