sábado, 7 de julho de 2012

;


    

Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.
Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.
Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.




(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Apatia Encharcada


    Lá fora a chuva açoita com o vento a mais de uma hora. Fico me perguntando, a essas alturas na quarta caneca de café, quando ela poderá parar e se irá parar. Não me importo que chova, mas todo esses pingos pingados no vidro sempre tendem a me deixar um bocado nostálgica.
    Olho as pessoas lá fora, meros transeuntes na rua, seguindo seus rumos cotidianos, decisões feitas no café da manhã, com seus compromissos marcados, lista de afazeres, compras por fazer, trabalho para prestar.
    Enquanto isso, estou aqui dentro dessa minha caixinha de fósforos, como quem se esconde, quem foge de alguma coisa.
    Na verdade já nem sei se fujo, por que afinal desisti de me proteger. É fugindo que as coisas mais te devoram. E me devoram, devorarão, ainda estão a devorar. Não espero, mas fico em repouso, como quem não se importa. E ainda assim a vida sempre encontra um jeito de surpreender.
    Tentei arrumar os armários, lavar a louça acumulada na pia, limpar a mesa, tirar os lixos, arrumar a cama, mas não consegui. Não me veio forças. O que me veio foi uma irritação, uma irritação pela tentativa de arrumar tudo, de deixar sempre as coisas em ordem.
    Tendo a pensar que estou deprimida, não sei. Ou então algum tipo de esvaziamento de emoções. Queria tanto algo bem bonito servido no jantar com uma sobremesa gostosa e quentinha, chocolate quente com marshmallows, brownie com calda de chocolate.
    Queria alguma surpresa, presente envolto de fita branca com laço gracioso. E nesse querer, que nem sei se é certo, eu acumulo uma raspa, resto, vestígio recíproco, de esperança.
     Claro que eu me pergunto pra que, por que, de que adianta. Claro que eu não sei, não faz sentido, quase nunca sei. Mas essas minhas ações tendenciosas são o que me deixam viva, mas não vivendo. Não ando vivendo nada, vivo o básico, respiro o básico, sinto o básico. O que eu queria mesmo, de verdade, nunca vem.
     Fico sentada na cadeira do quarto tentando fazer um filme na cabeça, montando personagens, figurinos, tudo muito chato. Out. 
    Mas não importa agora. Não me permito chorar, não me permito entristecer. Não estou triste, só não sinto mais nada. É isso.
    Talvez, ah que cansaço só de pensar, seja a hora de trocar o disco. Sim, tirar as roupas velhas dos armários, limpar a vida, sacudir a poeira, talvez seja hora de morrer por dentro e nascer por fora, deixar a vida se renovar.
    Não sei, é só uma ideia. Seria difícil, teria que decodificar tudo, refazer, excluir pessoas, gestos, lembranças, sabores antigos, saudades amenas, ser forte, não tenho forças, ignorar, levantar o queixo, estufar o peito, e já quase nem tenho ar.
    Uma porção de coisas que hoje, com essa chuva lá fora, essa apatia por dentro, não tenho certeza se seria capaz de fazer.

Annabel Laurino.

;

Talvez seja esse o problema. Uma vida sem manhãs. Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi. Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando. Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente, se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita. Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, o problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer. 




 Caio Fernando Abreu

;


Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

Caio Fernando Abreu 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

;


‎"Eu reconheço que certas coisas era melhor eu não ter sentido, procurado, visto, guardado. Mas tem sempre alguma coisa em você que me faz descer da vida pra olhar com mais atenção. Desculpa meu mal jeito de atropelar nossas placas de permissão: nunca tive tato para não tropeçar em você quando estamos perto, respirando o mesmo canal de ar entre dois lábios".

Lucas Simões

;


O tempo desperta pela manhã, da boca do leão ele ruge junto e lambe o sol, como lagarto espreguiçando-se sob a pedra quente do deserto. Nos pássaros batendo asas contra o vento gélido invernal. O tempo parece espiral, grunindo em uma lambareda de fogo que engole o papel, que pinta as chama de cores. Que desenvolve ao longo das fases daquele nome que chamamos de dia. O tempo recria o passado em nosso presente, ele trás a saudade, as lembraças, quadros pintados pelas mãos enrugadas do tempo. O luzidio futuro que nos espera daqui uma hora, trinta segundos. Todas as manhãs repetindo para que o dia, o dia seja diferente. Não reunimos forças, esperamos, ficamos no mesmo lugar. Afundamos no tédio. Reclamamos de tudo. O lagarto, o leão, renascem todos os dias. Precisamos acordar. Renascer. Como fogo crepitante, chama viva brilhante. Precisamos nos fazer.

Annabel Laurino.

terça-feira, 3 de julho de 2012

;


(…) Porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira.
”
— Caio Fernando Abreu

;

"Deixei morangos perdidos na geladeira. Isso nunca acontece por acaso ou descuido e eu sei bem que eles estavam lá apodrecendo. E deixei, vi, senti: uma parte boa e bonita indo embora de mim".



Lucas Simões