Como velhos desconhecidos, eles nem se olhavam mais.
annabellaurino
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Beijo Invernal
É agora que os nós dos dedos tornam-se esbranquiçados no dorso
da dobra que articula em volta da camisa de inverno sendo repousada na cama. É
agora que o vento frio encarapita-se dentro da camisa de inverno, como bolhas
de ar gelado brincando de entrar e sair da roupa enquanto ela repousa macia em
cima da cama. É agora, nesse momento eterno e especial, que os finos pelos
erguem-se de um sono caloroso, despertando-se para o frio invernal. Na pele do
pescoço que se arrepia, viva, ela e seus pequeninos poros rugindo de uma
sensação lenta e mordaz que escorre pela coluna, ergue aos ossos dos cotovelos
e pela lombar, beija a coluna. É agora que a maciez da pele reflete no espelho,
que o corpo delgado esconde-se nas camadas quentes das lãs e que o corpo busca
refugio no outro corpo ou na caneca fiel do café amargo. Ou doce. Para matar os
dias briguentos em que nós mesmos somos adornados pela santa preguiça de querer
a cama e nada mais. Mas penso eu, que se é agora que essa mágica eterna
acontece, e quem pode nos garantir que acontecerá novamente, o que quero eu com
a cama, a apatia a vida ou ao drama melancólico e banal?
É agora irmão, é
agora que os versos nascem como filhos luzidios, que as folhas secam e que tudo
transmuta-se em uma ternura lenta, como o alentar de um beijo quente decaindo
frio nos lábios do mundo. É agora. É agora.
Annabel Laurino
segunda-feira, 23 de abril de 2012
...
Ando concluindo por ai, em meio aos tropeços e solavancos, em meio aos engasgos e quedas diárias, que ser forte tem sido cada vez mais difícil do que eu poderia imaginar. Mas graças a Deus, não mais do que eu possa suportar.
Annabel Laurino.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Olhos de Gato, saudades de você minha doce senhora
Aqueles pincéis eram tudo para ela. Via-a organizando-os sobre a mesa depois do almoço, ou como sempre ocorria nos dias chuvosos - e me lembro de chover muito naquele tempo - antes do chá das três. Havia sempre uma xícara de chá ao lado dos pinceis, todos manchados de inúmeras cores, suas hastes descascadas, mas ela não parecia se importar. Os olhos eram como olhos de gato, incrivelmente perceptivos, anotavam mentalmente o tamanho da tela e vagueavam sobre o espaço branco e genuíno, como se descifrasse a si mesma no que seria feito.
Nunca falei sobre ela. Nunca consegui escrever sobre ela. E nem mesmo agora, nesse impeto momento de coragem para expurgar essa avalanche de lembranças as palavras me parecem insuficientes para descrever ela, olhos de gato, a senhora dos pinceis manchados.
Ela passava as tardes ali, pintando flores e frutas, de telas em alto relevo a linhas delicadas, recheadas de uma realidade transbordante que vezes eu me pegava duvidando se a realidade mesmo não seriam suas pinturas e não mais o momento presente em que vivíamos. Quando ela entrava para seu ateliler, fazendo crochês tranquilamente sentada no sofá desbotado, ela levantava os olhos de gato incrivelmente verdes sobre seus óculos moderninhos e sorria displicente quando me via chegar, as maças do rosto coradas e cheias de bluch rosado erguidas sobre o rosto anguloso e clássico. O nariz fino sem se mover, os lábios delineados como os de Monalisa, em um sorriso nada aberto, nada sensível.
Ela não era uma pessoa sensível. Apesar de todas aquelas cores em que tinha de conviver todos os dias. Tinha um ar ferino, resguardado e durão. Mas era de certa forma uma porta não trancada, porém sem maçaneta alguma, você só tinha que dizer as palavras certas para poder entrar lá dentro e descobrir o seu lado mais obscuro. E eu tinha medo disso, de descobrir ele, o lado obscuro, que quase ninguém conhecia. Sei hoje, pois entendo tudo muito melhor.
Fico me perguntando se ela teria como saber disso que escrevo agora. Sei que não, tudo bem. Mas talvez, se houvesse alguma maneira, eu gostaria de saber como ela mantinha toda aquela calma pintando e de onde ela encontrava tanta força para conseguir ser ela mesmo em seu próprio mundo. Que cores eram aquelas que ela via sobre as flores e que ninguém mais conseguia enxergar? Como exatamente ela via o mundo?
Não obterei respostas. Aqui nesse silêncio mudo, o tilintar das palavras não expressam minha gigantesca saudade. E aqui, ruminando lembranças me delicio sorridente em momentos felizes em que olhos de gato me ensinou tanto em seu formoso silêncio sem nem desconfiar que enquanto a observava com meus olhinhos brilhantes como as lentes de uma máquina fotográfica, registrava tudo.
Saudades. Muitas saudades de olhos de gato, minha majestosa senhora de lábios de Monalisa.
Encerro mansa essa lembrança, lembrança fiél que o tempo não poderá apagar.
Annabel Laurino.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
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"Podia esperar de qualquer um essa fuga,
esse fechamento. Mas não de você, se sempre foram de ternura nossos encontros e
mesmo nossos desencontros não pesavam, e se lúcidos nos reconhecíamos
precários, carentes, incompletos. Meras tentativas, nós. Mas doces. Por que
então assim tão de repente e duro, por que?"
Caio Fernando Abreu
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“Me enfiei em casa e não saí. Um desgosto.
Leio o tempo todo. Sento no jardim. Ouço música. Tento escrever, mas não sei se
quero ou se preciso, e não consigo. Umas carências.”
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Caio Fernando Abreu
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terça-feira, 17 de abril de 2012
...
Para os caros e raros leitores que acompanham minhas linhas neuróticas de raciocinio vezes diário, vezes lá que outra, comunico que me sinto só. Que me sinto triste, não estou legal ou feliz ou momentaneamente perto de me sentir plena. Que todas as frases e letras de musicas e textos mirabolantes foram ilusões feias de uma mente declinada a se iludir. Não liguem para isso, ou para aquilo outro ou qualquer outra coisa que seja. Não liguem e ponto. Apenas me sinto terrivelmente só, uma solidão que se faz quando mesmo acompanhada do mundo inteiro em uma corrente de corpos entrelaçados e mesmo assim algo dentro de você insiste em se sentir sozinho e mortalmente vazio. Não sei ainda o que é, não descubro. Quem souber, avise. Manifeste-se por favor. Não cobro nada. Sou mansa. Embora vezes não pareça.
Annabel Laurino.
Annabel Laurino.
...
Uma sofreguidão lenta se apossa de mim nesse momento. Como
um pedaço de alguma coisa grande da qual entala na garganta, estranha. Minuciosa
e mansa, seus dedinhos finos e pequeninos dedilham minha face na tentativa de
descobrir até mesmo minhas feições mais secretas, para destruir-me aos poucos.
Tenho muito medo de toda essa sensação. Pois é incrivelmente familiar,
uma tristeza funda que se instalou no peito, um choro engasgado, entalado e
aperfeiçoado dos mais profundos soluços.
Desistência.
De tudo, de tudo
que se pediu, que se quis e não veio ou se veio não foi como o esperado.
Vontade de chorar e chorar, de pedir que o
tempo pare só para refletir melhor.
A sensação é quase a mesma de comprar uma
roupa nova e quando chegar em casa vesti-la e perceber que ela não era tão
bonita assim, talvez nem mesmo servisse tão bem assim. Enganada e triste, sinto
vontade de me jogar na cama e chorar horas a fio e tentar retroceder esse medo
de mim mesma, essa angustia. Sou cruel, já disse, tenho medo disso, desse
alento todo de podar relações da qual me sufocam sem a maior piedade, e então
afundar em uma fossa de dar gosto durante, digamos assim, meses.
Por favor, repito
constantemente, haveria como só por um momento que alguém acendesse a luz desse
coração escuro e me mostrasse à direção?
Dizem que quando tomamos uma decisão ela deve
ser seguida até o fim, que se deve passar por cima de todas as dificuldades e
tentar, com todas as forças.
Mas não sei se
encontro isso agora dentro de mim, é difícil dizer. De tudo que eu esperava
fazer, lutar era o menor item da minha lista no momento. Não por preguiça ou
por incapacidade, mas chega um momento que você já lutou de mais, que você
esbravejou de mais, que você não quer mais promessas não cumpridas, não quer
mais sair por ai carregando ninguém nas costas ou esperando o melhor de tudo e
alguém. Chega um momento que você automaticamente quer e pronto, quer agora,
quer o bom, o melhor. Claro que você quer lutar. Eu quero lutar. Mas não
sozinha, de novo. Não dessas maneiras tortas que sempre acabo mal.
Não quero ver o
mesmo filme novamente. Posso estar errada, sei que posso. Mas não correrei o
risco de jogar tudo para cima e vendar os olhos, de novo não. Nem mesmo que eu corra
o risco de passar semanas em uma terrível tristeza, nem que eu me perca
novamente dentro de mim mesma, nem que eu chore até me acabar, nem mesmo que eu
tenha que me sentir tão terrivelmente só a ponto de me ferir, nem que seja
triste e lamentavelmente angustiante.
Não
correrei o risco.
Annabel Laurino.
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