Caio Fernando Abreu
sábado, 31 de março de 2012
...
"Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém, então era extraordinário que ele conseguisse perturbar assim os cantos de meus lábios."
quinta-feira, 29 de março de 2012
Fechaduras nem sempre estão trancadas, veja as páginas, por exemplo...
Ela sentia como se um vento fresco de camomila pairasse
daquelas páginas finas. Letras sobressaiam-se daquelas páginas antigas, nas
bordas coloridas, riachos profundos adornados de peixes de mortalhas de ouro,
nas terras verdejantes, corsas peludas, com suas penugens douradas. As árvores
continham frutos suculentos feitos de chocolate, mel, e café. Os cabelos
mudavam de cor ao sol, como também o sol mudava de cor ao longo do dia. A luz
era sempre a mesma, sempre a luz, porém, mudava de cor. Rosa, azul, vermelha.
Tudo era possível quando se abria um livro.
Para ela cada página saía-se como um lindo
mundo. Embainhava sua espada dourada e erguia-a acima da cabeça, lutava contra
leões durante o dia e a noite vestia suas vestimentas de uma cientista maluca,
inventando experimentos seu laboratório equipado de alta tecnologia. De Sherlock Holmes a Romeu e Julieta, também viajava muito pelo espaço. Desdêmona, sua heroína traída e injustiçada, ou Alice, tão esperta e destemida. Que triste às vezes eram os fins. Sensível, gostava
de romances loucos e vezes os mais adornados de aventuras, amores impossíveis e lugares bonitos, como viagens a Paris. O Point
Zero. Por que não?
Abria aquelas páginas,
deitada na cama, numa tarde de outono muito fria, os dedos gelados roçando nas
capas coloridas, os olhos gulosos como um gato observando um peixe no aquário. Duas
órbitas brilhantes cor de mel vagando entre as frases pequeninas que faziam seu
coração transbordar de curiosidade e vezes, de emoção. Não sabia explicar, e
nem tentaria, era preciso sentir a mesma gula para poder entender.
Se estivesse
chovendo iria ser ainda melhor, pensou ávida, se deliciando enquanto encontrava
em meio aos autores antigos um sentido manso para tudo que ela própria vivia no
presente.
Algumas noites
frias, tapada até o pescoço, acendia a luminária ao seu lado e vestia suas
melhores luvas quentes, os braços curtinhos para fora das montanhas de
cobertas, abria um livro. E lia até o sol aparecer lá longe e os pássaros
cantarem no quintal de casa. Vezes, em meio a fustigação nervosa dos dias, das
tardes na escola, abria um livro, e se perdia, vezes era preciso beliscá-la para
que ela soubesse que estava na hora de voltar aos deveres.
Tudo isso
acontecia quase sempre. Perdida entre suas montanhas de livros, guardada como
um lenço branco na sua caixinha pequena, vislumbrava a paisagem do lado de fora
de sua janela, um livro na mão, um lápis na outra, a caneca de café pousada na
mesa, a esperando.
Abria o livro.
E a decolagem
estava feita, seu cabelo já açoitava no vento. Vestida na sua melhor roupa da época que estava sendo
lida, espreitava um lugar e sentava-se esperando o espetáculo começar,
desligando-se de tudo.
E cá entre nós, esses eram os melhores momentos, quando se esquecia de
tudo.
Annabel Laurino.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Enfim se reencontraram.
Ela, caminhando daquele jeito pomposo como uma coruja sábia, em uma manhã inesperadamente muito fria, o vento gélido e arrepiante subindo sobre as mangas do casaco jeans dela, encarapitado e malicioso ele lhe subia pelas orelhas e lhe beijava a face, mordiscava a ponta de seu nariz e deixava aquela pequenina marca avermelhada. Ela, que quando abriu a porta para sair a rua e encontrou seu velho amigo, mal pode acreditar. Era ele, seu velho irmão que lhe inspirava, lhe saudava, e que ela, como sempre, passara os dias ensolarados e quentes esperando.
Até que enfim, até que enfim! Mal podia traduzir aquela sensação. O ar gélido lhe açoitando os cabelos, os passos apressados e curtinhos, as mãos como cubinhos de gelo. Meu Deus, pensou, como seria boa sentar na varanda de casa agora mesmo, a máquina de café ligada, uma caneca quente entre as mãos e abrir um livro. Opa, lembrou-se, foi isso mesmo que recém acabei de fazer...
Descobriu-se feliz demais. Uma ligação no meio da rua fria lhe interrompeu os pensamentos e junto ao encontro de seu amigo estava a voz dele, do outro lado da linha, em algum lugar um tanto longe dela ele degustava do mesmo sentimento, dizia que sentia saudades dela, e ela sentia dele, claro. Acima de tudo, nada poderia ser mais perfeito. O outono enfim havia mesmo voltado. Seu velho amigo voltara. E ela tinha um amor quente no peito que pela primeira vez na vida, não batia voluntariamente.
Em pensar que passamos uma vida inteira para descobrir o que é felicidade, sem saber que ela nasce em dias, dias como esses.
Annabel Laurino.
:
"Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver . Não me faz ser assim tão absurdamente feliz, só porque tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso . Mas admito que estou conhecendo (Num gerúndio de gostar sem fim), essa coisa maluca de gostar de verdade . Eu com minha TPM, meus livros e meu jeito meio-gato . Ele com seu ciúme camuflado, seus mil projetos e seu jeito de abraçar o mundo … Mas quer saber ? Eu olho pra ele e fico pensando sozinha : Será que alguém nesse mundo faria o que ele faz por mim ? Porque ele me escuta, me aguenta, me mima, me inspira, me faz sentir a mulher mais linda e especial do mundo ."
Fernanda Mello
segunda-feira, 26 de março de 2012
Euforia
Gorda. Sua espaçosa. Chegou mansa passando seus bracinhos curtos e nervosos pelo meu corpo quente logo pelo inicio da manhã. Assim que abri as janelas do quarto, aquela chuvinha rasante se espalhando pelas telhas avermelhadas dos telhados vizinhos, o ar gélido, o céu cinza, as folhas das copas das arvores desbotando em um verde pálido, algumas secas, despencando no chão. Um grupo de pássaros rasgou no céu branco acinzentado. O gosto de café amargo estalou nos lábios e a lingua a procura sedenta rastejou na boca degustando do sabor. Ela já estava aqui assim que conclui o dia perfeito, ela sorriu para mim como uma irmã destrutiva e gentil, seus dentinhos pequenos e curtos esboçado na boca larga e risonha, de maças do rosto coradas até as - pobrezinha - suas roupas tão extravagantes e coloridas, um terror, imagine. Euforia disse: "Bom dia pequena, vim lhe saudar". Sua voz gentil pareceu.... Bem... Eufórica. Não pude resistir àqueles olhos tão grandes e vibrantes de tanta energia e gostei muito de como ela me fazia sentir. De como a Euforia, em um dia como esse, que para muitos é um péssimo dia, me deixou tão bem. Como se eu tivesse usado algum tipo de droga calmante, mas era apenas a Euforia. Sentada ao meu lado, ela me depositou um beijo no rosto, meu coração quentinho tal como o corpo recém desperto. Eu tive tantas certezas depois daquele beijo de Euforia que não sei nem como explicar. Acima de tudo, eu só consigo dizer, que tudo daqui para diante dará certo. Sim, dará certo. É só isso que consigo dizer.
Annabel Laurino.
Você não precisa mais de chocolate. Agora, você tem um cidadão que te causa o mesmo efeito. Que te dá uma sensação boa pelo corpo inteiro. Que te dá energia e que te dá gosto. Que dá gosto de olhar, de tocar, de sentir, de beijar. Ele dirige bem seu corpo e, se sua vida fosse um filme, ele poderia ser o diretor. Ou o personagem principal. Ele escreve as coisas mais lindas que você já leu e, mesmo assim, ele consegue ler seus textos cheios de clichês. E ele é meio clichê do seu lado. Ele fala que te adora. Te chama de linda. Diz que te quer pra sempre. Mas enquanto o pra sempre não chega, você quer aproveitar cada segundo do lado dele. Você queria não ter hora pra ir embora. Você queria que ele não fosse embora. Você só queria rir com ele à noite inteira. E queria que a noite inteira não tivesse fim. Pra vocês falarem besteiras. Pra jogar conversa fora. Pra você falar das coisas fúteis sem parecer estúpida. A noite é sempre perfeita. Ri porque se diverte com ele. Ri porque ele consegue ser mais bobo que você. Ri porque não entende como pode ser tão gostoso estar do lado daquele cara que nada sabe sobre você e gosta da sua companhia mesmo assim. Está feliz de estar ali. E queria estar ali pra sempre. Você ri porque ele não é nada daquilo que você imaginou pra sua vida. Mas ele te convence, sem palavras, de que é o cara perfeito pra você. E faz com que tudo que você viveu antes dele pareça tão morno. Faz com que os outros caras que já passaram pela sua vida pareçam tão pouco. Ele admira seu sorriso. Diz que seu corpo é lindo. Adora seu cabelo. Suas pernas. Beija sua mão. Beija seu rosto com um carinho ingênuo. Ele te abraça e muda o ritmo da sua respiração. Porque, na verdade, ele mudou sua vida. Ele não fez nada pra isso, mas te faz a pessoa mais feliz do mundo. Quer ele te abraçando com aquela mão macia. Com aquele corpo quente. Aqueles olhinhos brilhando do seu lado. Aquele olhar que fala sem palavras. Aquele sorriso mais do que fofo. Aquele cara que chegou e te rendeu sem o mínimo esforço. Por quem você abandonaria todos os outros caras interessantes que te ligam sábado à noite. Deletaria do seu celular todos os números de telefone. Por quem você largaria todas as outras propostas. Arriscaria começar tudo de novo. Ele é o cara pra quem você olha e pensa: fica na minha vida pra sempre?
.
Crise produtiva, fabrica parada, produção esquecida, acordem maquinários!
O final de semana acabou.
Acorde.
O final de semana acabou.
Acorde.
domingo, 25 de março de 2012
Os tais 5 minutos sagrados
Normal sabe, esses momentos tão normais. Descansar a caneca de café sobre a mesa, descansar o pulso, descansar a mente, descansar as vistas, o coração. Descansar. Nem que seja cinco minutos. Os sagrados cinco minutos depois de um banho quente. Senta na beirada da cama, solta o disco, bebe café, - sim, antes de dormir - e repensa na vida como se folheasse as páginas de uma revista sobre paisagismo. Tudo bem, que clichê! Mas é, amigo, é assim mesmo. Os cinco minutos sagrados de todos aqueles que se preocupam com o tal dito Amanhã.
E o que farei, o que vestirei, o que comerei, o que beberei, o que... Amarei? Onde estarei daqui a... dois meses. Sim, por isso é sim e claro, obviamente, uma pergunta um tanto sã para quem à alguns dias atrás não era nada além de partícula solta no ar e logo alguém sendo lembrado pela vida e colocado em altos acontecimentos inesperados.
Me preocupo muito, de certa forma, em querer planejar sabe? Só quero um pouco mais de garantia. Quero ter amor de sobra nos bolsos, e uma viagem para bem longe, logo daqui a um ano. Por que um ano? Não sei, mas tem que ser um ano. Ano que vem.
Parece sempre que eu exijo que a vida mude, que ela traga coisas boas, que ela se reinvente, que não fique no marasmo pessimista e chato de sempre. E isso é errado? Não sei, não sei.
Os 5 minutos sagrados chegam ao fim, penso em estar em algum outro segurando a mão dele, olhando para o Empire States e respirando fundo um aroma denso de cidade grande adentrando os poros da pele muito branca. Frio, folhas secas. Outono.
Sem perceber, os cinco minutos chegam ao fim e a realidade é como uma alavanca sendo puxada ringindo a seco.
Annabel Laurino.
E o que farei, o que vestirei, o que comerei, o que beberei, o que... Amarei? Onde estarei daqui a... dois meses. Sim, por isso é sim e claro, obviamente, uma pergunta um tanto sã para quem à alguns dias atrás não era nada além de partícula solta no ar e logo alguém sendo lembrado pela vida e colocado em altos acontecimentos inesperados.
Me preocupo muito, de certa forma, em querer planejar sabe? Só quero um pouco mais de garantia. Quero ter amor de sobra nos bolsos, e uma viagem para bem longe, logo daqui a um ano. Por que um ano? Não sei, mas tem que ser um ano. Ano que vem.
Parece sempre que eu exijo que a vida mude, que ela traga coisas boas, que ela se reinvente, que não fique no marasmo pessimista e chato de sempre. E isso é errado? Não sei, não sei.
Os 5 minutos sagrados chegam ao fim, penso em estar em algum outro segurando a mão dele, olhando para o Empire States e respirando fundo um aroma denso de cidade grande adentrando os poros da pele muito branca. Frio, folhas secas. Outono.
Sem perceber, os cinco minutos chegam ao fim e a realidade é como uma alavanca sendo puxada ringindo a seco.
Annabel Laurino.
sábado, 24 de março de 2012
...
"Esse sim, esquenta as suas mãos e escuta os seus impropérios e gracinhas com o mesmo apego (...) Você sabe que seriam bons amigos, bons parceiros, bons inimigos, mas você prefere ser a garota dele."
Tati Bernardi
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