Annabel Laurino.
sábado, 17 de março de 2012
...
Talvez a coisa mais terrível de se escutar de alguém, ou não escutar, já que essas palavras podem muito bem serem pronunciadas no silêncio de um ato, ou da falta de um, simplesmente porque funcionam bem quando supostamente usa-as no esquecimento, no silêncio, na falta da procura. Terríveis e tenebrosas, eu mesma sugiro que seja-se forte para ouvir, pois é cruel, talvez as palavras mais cruéis que alguém pode dizer para outra pessoa. Quando pronunciadas, ou não pronunciadas, arrastam-se no silêncio de uma lacuna que fica no ar, pesadas e duras, não escorregam pelos ouvidos facilmente, são frias e amargas, tão difícil de engolir. Dita-as assim: Desisto de você.
quarta-feira, 14 de março de 2012
.
"Temos tão pouco tempo para dizer as coisas que queremos. Temos tão pouco tempo para qualquer coisa."
Inquietos
...
"Enquanto
escrevo esta carta a brisa do mar refresca a minha pele, esse mesmo mar logo será
meu tumulo. Me dizem que morrerei como um herói, que a segurança e a honra do
meu pais serão a recompensa pelo meu sacrifício, espero que estejam
certos!
Meu único arrependimento na
vida é nunca ter falado como me sinto. Eu queria estar em casa, eu queria estar
segurando a sua mão. Queria estar dizendo que te amei, só você, desde menino…
Mas não, agora vejo que a morte é fácil! É o amor que é difícil.
Quando meu avião mergulhar eu não verei a
face dos meus inimigos, eu verei os teus olhos, como pedras negras congeladas
na água da chuva.
Dizem
para gritar Banzai quando mergulharmos no nosso alvo, só que eu vou sussurrar o
seu nome. E na morte, assim como na vida, serei sempre seu."
(Inquietos)
...
"Existe um pássaro que acha que morre sempre que o sol se põe. De manhã ao acordar ele fica chocado de ainda estar vivo.. Então, canta uma canção linda.
- Eu canto todas as manhãs desde que te conheci"
- Eu canto todas as manhãs desde que te conheci"
(Inquietos)
terça-feira, 13 de março de 2012
Primitividade a flor da pele
Não é que você precise de alguém. Não é que você queria que se importem com você, que te liguem, que te procurem, que queiram saber pelo menos se você está viva. Não é bem isso. Não é de atenção em si que se precisa. Por que no fundo você entende que, na verdade, não tem importancia mesmo que alguém esteja te ligando e te procurando porque, por experiência própria, você sabe que isso tudo não conta depois, quando te abandonam, quando as pessoas decidem por elas mesmas se mostrar quem são e colocar as cartas na mesa. E você já desacreditou das pessoas, a muito tempo.
Mas embora isso, embora isso tudo, você bem que se sente um tanto sozinha, perdida entre aquela linha fina e solitária, esperando que o telefone toque ou que alguém bata na sua porta de surpresa trazendo uma caixa de bombom embaixo do braço e pedindo, com carinho, para ser sua companhia da tarde. Bem que você queria sentir o calorzinho de outro corpo embaixo do edredom em uma tarde chuvosa, ou ter uma mão para segurar no dia em que tudo vai mal que o choro simplesmente se desprende da garganta e você parece uma criança prestes a tomar uma injeção. É natural, todos precisamos de alguém. É primitivo, você pensa.
Mas logo tanto faz. O telefone não toca, a campainha esta intacta, intocável. A caixa de e-mails somente cheia de anuncios e promoções de livros, uma unica caneca de café ainda pousa em cima da mesa, mais um capitulo escrito e mais uma vez, desiludida, cheia de si, você se fecha em sua cabaninha de idealizações e pensa: Não preciso mesmo de nada disso.
Mas embora isso, embora isso tudo, você bem que se sente um tanto sozinha, perdida entre aquela linha fina e solitária, esperando que o telefone toque ou que alguém bata na sua porta de surpresa trazendo uma caixa de bombom embaixo do braço e pedindo, com carinho, para ser sua companhia da tarde. Bem que você queria sentir o calorzinho de outro corpo embaixo do edredom em uma tarde chuvosa, ou ter uma mão para segurar no dia em que tudo vai mal que o choro simplesmente se desprende da garganta e você parece uma criança prestes a tomar uma injeção. É natural, todos precisamos de alguém. É primitivo, você pensa.
Mas logo tanto faz. O telefone não toca, a campainha esta intacta, intocável. A caixa de e-mails somente cheia de anuncios e promoções de livros, uma unica caneca de café ainda pousa em cima da mesa, mais um capitulo escrito e mais uma vez, desiludida, cheia de si, você se fecha em sua cabaninha de idealizações e pensa: Não preciso mesmo de nada disso.
Annabel Laurino.
Rasteiros e dormentes
Existe sempre aqueles dias silenciosos, rasteiros, que nada é pronunciado, parece que tudo tira umas férias, e tudo dorme tranquilamente. Um tipo de injeção de dormência, para ver se ficamos quietos, por que até mesmo a loucura as vezes precisa se reinventar, descansar. Mas quem disse a você que esses dias são produzidos para dormirem para sempre? Não mesmo menino, esses dias dormem tranquilos mas despertam vorazes, com fome, engolindo a gente e mastigando devagarzinho depois.
Annabel Laurino.
Annabel Laurino.
La Ciderela
Ela lambeu os lábios e o avistou bem de perto, o nariz quase
que grudado na vitrine. Lindo, quanto mais se visto em uma vitrine na época de
Natal. Sim, na promoção, liquidação, 80% de desconto, para levar, sem juros. Acessível.
Ela havia namorado ele muitos dias, todos em que passava diante da vitrine e o
via ali, exposto, tão caro e reluzente. Nunca pensara em comprar um calçado
daqueles, por que não era assim confortável. E ela tão prática, finês e
pomposa, do estilo as clássicas, vezes gastando no vermelho e no rock, gostava
de algo mais sensual e ao mesmo tempo discreto, nada tão trabalhado, tão cheio
de voluptuosas. Mas naquele dia em si, não resistiu. Claro, estava ali, era só
passar a mão e levar, não tinha como resistir naquele momento. Ele todo pronto,
ela toda querendo. Era para ser.
Entrou na loja, e
pediu com toda a pompa para que a vendedora o trouxesse, sentou-se na cadeira
ao lado do espelho, ajeitou o cabelo, piscou os cílios repuxados, passou batom
e cheirou o pulso, perfumado. Tudo bem, parecia até que esperava pelo o
encontro da sua vida, e de certa forma era. “É agora, vou experimentar o
bendito”, pensou. Nossa, queria tanto ele que sentia seu coração se apertar,
queria mais do que muita coisa, era capaz até de sair correndo da loja com o
par calçado nos pés. Não entendia por que raios de motivo havia esperado tanto
tempo para decidir.
Cinco minutos e a
vendedora veio, saltitando em suas sapatilhas blasé, com a caixa dos sapatos
no colo, sorrindo feliz.
- Aqui – disse-lhe
a vendedora. Estendeu a caixa redonda, de laço vermelho do qual puxou a ponta e
abriu a caixa.
- É lindo! –
irradiou ela, tão cheia de perplexidade
- É mesmo. –
concordou de imediato a vendedora.
- Bem, vamos
provar!
Sorridente e
feliz, tirou suas sapatilhas confortáveis dos pés pequeninos e pegou o primeiro
pé do par de sapatos que tanto queria. O toque foi explêndido, maravilhoso,
melhor... melhor do que sorvete, melhor que cheiro de roupa limpa, melhor que tudo...
Não, não para tanto. Mas era incrível.
“Lá vamos nós.”,
pensou.
E calçou, logo, calçou
o outro.
[Silêncio]
Oras, mas que estranho.
-Então, ficou bom?
- Ahã?
- O sapato, ficou
bom? Ah, caminhe, caminhe com ele e veja se é confortável.
Obedeceu.
[Mais silêncio]
Sentou-se tonta na
cadeira, meu Deus era trágico. A tragédia das tragédias. O calçado era
horroroso, ridículo, feio, feinho. Grotesco. Cor de rato, era de um tecido
ruim, daqueles que marcam no pé, e sabia que era grosseiro falar assim, mas era
feio mesmo, muito feio. Ficara horroroso em seus lindos pesinhos pequenos. Era o efeito abóbora passada à mágica, só que acontecia com os sapatinhos, que não eram de cristais.
- E então?
- Não.
- Não?
- Não, não é para
mim.
- Não seja boba, é
para qualquer uma, ficou lindo em você. Ele é lindo.
- Não somos compatíveis.
- Oras...?
- É, nada a ver. Ele
não combinaria com nenhuma roupa que eu tenho, e olhe para ele, não valoriza em
nada com o meu pé. – tirou o calçado dos pés, os ombros caídos, parecia ter sido
vencida pela 1° e 2° Guerra em massa.
- Não diga isso,
ficou realmente bom. Ele combina com tudo, veja bem, com calças sociais a
vestidos clássicos, como esse que está usando.
Olhou-se no
espelho, ainda com um único pé do calçado.
Não.
Sabia que não
fazia sentido, mas realmente não era bonito. Não nela.
- Com licença, mas
vai levar esse calçado? – perguntou uma moça esguia chegando-se de repente.
- Não, pegue. –
respondeu ela.
A moça esguia
sentou-se ao lado dela e calçou o bendito sapato.
[silêncio]
- Vou levar. – sentenciou
apressada, antes que a vizinha ao seu lado mudasse de ideia e levasse o sapato.
A vendedora
saltitante pegou a moça e encaminhou-a até o caixa.
Muito bem, foi
melhor assim, pensou, agora não preciso mais me perguntar o que aconteceria se
eu não o tivesse experimentado.
Feliz, ajeitou os
cabelos, juntou a bolsa, e aprumou-se para sair da loja. Quando no final do
corredor, veja lá, um lindo par de
sapatos salto agulha, pretos, divinos de lindos, em veludo, revestido de couro,
magnífico.
Não sei, não
combina comigo...
Mas não sabia
explicar, queria mas não queria. E por fim, sabia, queria muito.
Sussurrou uma voz: Experimenta.
Outro dia...
Experimenta.
Tudo bem.
Annabel Laurino.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Cruel de Cruela
Se você me encontrar caminhando sozinha pelas ruas da cidade, onze horas da noite, perambulando entre os postes e gritando amor como se o mundo estivesse acabando, não se assuste.
Eis que se sente agora algo estranho que paira e sobrepaira como se tivesse recém nascido dentro de mim. Um sentimento que nunca esteve aqui, desconhecido por minhas pequeninas células escandalosas. Ele - o sentimento - gostou do meu corpo, alojou-se dentre esse vaso corporal adornado de cafeina e gostou. Gostou das paredes enfeitadas de fotos antigas, retratos felizes, gostou dos bilhares de livros arrumados nas prateleiras, do cheiro de folhas velhas, páginas impressas, dos meus escritos, gostou da cama arrumada e cheirando a macadâmia, adorou as roupas organizadas no roupeiro, das minhas poesias, do cheiro de helianto entrando pela janela aberta. Esse sentimento me amou, me adotou. Não consigo resistir ao seu encanto tão doce, me parece certo. O que posso fazer?
Como uma criança olhando suplicante para sua mãe quando quando se encontram em um Pet Shop, e dão de cara com aquela criatura fofa e macia, de olhos amanteigados, pedindo atenção:, atráz de uma gaiola, completamente, aparente, indefeso. "Podemos ficar com ele?", a criança pergunta.
Dai vem todas aquelas responsabilidades de sempre. Oras, custará muito, tempo, dedicação, carinho, abrir mão de algumas coisas, dinheiro gasto, você terá que organizar a casa, separar um espaço para ele morar e se alojar confortável, terá que cuidar dele todo os dias e levá-lo para passear, e terá de ser paciente acima de tudo, por que ele destruirá muitas coisas, talvez até mesmo aqueles sapatos mais caros e que você tanto ama. E depois todas aquelas idas ao mercado, veja bem, comprando sustento. Sim, por que ele pedira para que cada vez mais você o alimente. E logo ele ira crescer, sim, e ficará gigante, isso vai doer tanto, e olhe só, ele morrerá um dia. Sim, eles sempre morrem.
Não, não podemos.
Expurgo esse sentimento com maldade mesmo. Olho para a pilha de revistas em cima da mesa, todas marcadas com marca-textos para todos os lugares que eu desejo ir, olho para a pilha de sonhos nas prateleiras, olho para tudo planejado, pelas viagens por fazer, por tudo. Não, não da. Pego a criança, puxo-a da mão bruscamente, tapo os ouvidos diante de seu choro histérico e saio correndo, a puxando sem dó. Ou melhor, puxando a mim mesma, criança, pequena, iludida e frágil, apenas desejando um pouquinho de amor, um pouquinho de carinho, desejando pegar o celular em cima da mesa e te chamar aqui, dizer para você bem claro, como nunca disse, "Sou sua, me tome, me pegue, me cuide. Eu aceito. Vamos esquecer os antes, eu esqueço tudo, tudo bem, não me importo com seus defeitos, mas me carregue, me puxe."
Mas não, eu sou a má adulta, a Cruel, amarrei a criança pequena na cadeira do quarto, amordacei sua boca, dei-lhe remédio para dormir por mais ou menos, quase sempre. Logo, fiquei aqui sentada, respirando pesadamente diante dos utensílios utilizados na cena do crime. Fico pensando o quanto tudo seria fácil e bom, e maravilhoso, se quem sabe, só quem sabe, se eu admitisse esse sentimento, se eu o deixasse entrar... Não nem pensar, olhe os sonhos, olhe tudo pela frente, não da...
Eis que se sente agora algo estranho que paira e sobrepaira como se tivesse recém nascido dentro de mim. Um sentimento que nunca esteve aqui, desconhecido por minhas pequeninas células escandalosas. Ele - o sentimento - gostou do meu corpo, alojou-se dentre esse vaso corporal adornado de cafeina e gostou. Gostou das paredes enfeitadas de fotos antigas, retratos felizes, gostou dos bilhares de livros arrumados nas prateleiras, do cheiro de folhas velhas, páginas impressas, dos meus escritos, gostou da cama arrumada e cheirando a macadâmia, adorou as roupas organizadas no roupeiro, das minhas poesias, do cheiro de helianto entrando pela janela aberta. Esse sentimento me amou, me adotou. Não consigo resistir ao seu encanto tão doce, me parece certo. O que posso fazer?
Como uma criança olhando suplicante para sua mãe quando quando se encontram em um Pet Shop, e dão de cara com aquela criatura fofa e macia, de olhos amanteigados, pedindo atenção:, atráz de uma gaiola, completamente, aparente, indefeso. "Podemos ficar com ele?", a criança pergunta.
Dai vem todas aquelas responsabilidades de sempre. Oras, custará muito, tempo, dedicação, carinho, abrir mão de algumas coisas, dinheiro gasto, você terá que organizar a casa, separar um espaço para ele morar e se alojar confortável, terá que cuidar dele todo os dias e levá-lo para passear, e terá de ser paciente acima de tudo, por que ele destruirá muitas coisas, talvez até mesmo aqueles sapatos mais caros e que você tanto ama. E depois todas aquelas idas ao mercado, veja bem, comprando sustento. Sim, por que ele pedira para que cada vez mais você o alimente. E logo ele ira crescer, sim, e ficará gigante, isso vai doer tanto, e olhe só, ele morrerá um dia. Sim, eles sempre morrem.
Não, não podemos.
Expurgo esse sentimento com maldade mesmo. Olho para a pilha de revistas em cima da mesa, todas marcadas com marca-textos para todos os lugares que eu desejo ir, olho para a pilha de sonhos nas prateleiras, olho para tudo planejado, pelas viagens por fazer, por tudo. Não, não da. Pego a criança, puxo-a da mão bruscamente, tapo os ouvidos diante de seu choro histérico e saio correndo, a puxando sem dó. Ou melhor, puxando a mim mesma, criança, pequena, iludida e frágil, apenas desejando um pouquinho de amor, um pouquinho de carinho, desejando pegar o celular em cima da mesa e te chamar aqui, dizer para você bem claro, como nunca disse, "Sou sua, me tome, me pegue, me cuide. Eu aceito. Vamos esquecer os antes, eu esqueço tudo, tudo bem, não me importo com seus defeitos, mas me carregue, me puxe."
Mas não, eu sou a má adulta, a Cruel, amarrei a criança pequena na cadeira do quarto, amordacei sua boca, dei-lhe remédio para dormir por mais ou menos, quase sempre. Logo, fiquei aqui sentada, respirando pesadamente diante dos utensílios utilizados na cena do crime. Fico pensando o quanto tudo seria fácil e bom, e maravilhoso, se quem sabe, só quem sabe, se eu admitisse esse sentimento, se eu o deixasse entrar... Não nem pensar, olhe os sonhos, olhe tudo pela frente, não da...
Annabel Laurino.
...
“Mesmo assim, bem no fundo, há coisas que são só minhas. E embora me assustem às vezes, é delas que mais gosto. Como essa vontade de acabar com tudo, que me dá de vez em quando.”
Caio Fernando Abreu
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