domingo, 1 de julho de 2012

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    "Não vou permitir silêncios porque é aí que o meu fundo transborda e a tristeza pode me tomar sem saída. Eu vou continuar deixando a minha cabeça me martelar porque toda essa confusão é ainda menos assustadora do que a calmaria da verdade. 
    A verdade é a frieza do mundo, é a podridão dos desejos, são as mentiras que a gente inventa para os outros e acaba acreditando. A verdade é que mais cedo ou mais tarde você será traído, porque todo mundo tem medo de viver a entrega. A verdade é que ninguém se entrega porque ninguém se tem. A verdade é que não estamos aqui, estamos em algum lugar seguro vivendo nossas vidas medíocres. A verdade é que todo esse perfume é vergonha de nossa essência, todas essas marcas são vergonha do nosso corpo, todo esse charme despretensioso é vergonha de nossas fraquezas. A verdade é que nada é inteiro porque até o inteiro para ser todo precisa ter seu lado vazio. A verdade é que não dá para fugir da dor, e eu continuo correndo, correndo, correndo e não saindo do mesmo lugar."



Tati Bernardi - Para não sentir dor.

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Mas a vontade é te convidar pra sair por aí sem compromisso brincar de tobogã no arco-íris qualquer coisa assim: você topa? 


(Caio Fernando Abreu - Carta a Vera Antoun)




sexta-feira, 29 de junho de 2012

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“Eu com minha tpm, meus livros e meu jeito meio-gato. Ele com seu ciúme camuflado, seus mil projetos e seu jeito de abraçar o mundo…Mas quer saber? Eu olho pra ele e fico pensando sozinha: será que alguém nesse mundo faria o que ele faz por mim? Porque ele me escuta, me aguenta, me mima, me inspira, me faz sentir a mulher mais linda e especial do mundo.”


Fernanda Mello

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Não se concentre tanto nas minhas variações de humor, apenas insista em mim. Se eu calar, me encha de palavras, me faça querer dizer outra e outra vez sobre você, sobre nós, e todo esse amor. Se eu chorar, não me faça muitas perguntas, não precisa nem secar minhas lágrimas. Só me diz que você continuará comigo pra tudo, que tenho teu colo e teu carinho. E ainda que te doa me ver assim, me envolva nos teus braços e diga que eu posso chorar, mas que você não sairá dali enquanto eu não sorrir. Porque é isso que nos importa, não é? O sorriso um do outro. Não é? 


(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

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   "Aconteceu alguma coisa e faz tempo. Eu é que tô atrasado. Uns seis meses, pelo menos? Pode ser. Mas eu preferia ouvir um sermão da montanha do mestre Yoda ou uma previsão quente daquela sua amiga fofoqueira e mal comida, do que essa verdade incompleta sobre nós dois. A gente simplesmente se acostumou com a ausência um do outro. Desistimos de regar o jardim. Deu errado. Tá, caramba. Só que todas essas explicações lógicas parecem contas matemáticas da segunda série pra mim: um processo simples que meu coração já decorou – só não entendeu.
    Porque eu ainda gosto de você, da sua voz, da sua raiva, dos seus tremeliques, dos lóbulos das suas orelhas, do cheiro, da pele, do seu modo de ficar, dos seus pés e coxas, do problema que você me traz e do seu jeito de não fazer nada, até. Eu gosto. Entende?(...)
    Eu queria tudo ou nada. Agora ou nunca mais. Não te abrigar num lugar tão confuso, apertado e cuidadosamente despreparado como a corda bamba do meu coração. Você está lá. Ainda que sem vida ou ordem. Mas, está. E é assim que eu toco o barco. Às vezes com a sensação de que o vento que empurra o meu cabelo pra trás é você."


Lucas Simões

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   Achei que devia casar contigo. Montar uma família, colecionar pratos, ficar bonita e feliz durante um bom tempo. Tsc. Não sei o que me faz falta: só sei que no meio de tantas buscas e abismos e desencontros vazios, eu tropeço quase sempre em você. No fundo e com uma pontada de saudade, preciso apenas que você mostre que ainda esta aí. Manda um sinal de fumaça, um telegrama, uma interrupção em rede nacional na programação televisiva do país inteiro em minha intenção, ou um alô genérico qualquer. Quero saber se você ainda existe, daquele jeito meu ou de qualquer um. Não importa tanto como você vai aparecer. Eu vou gostar, saiba disso apenas.[...]
    Você é minha esperança em fitinhas coloridas ao vento com as melhores mensagens que alguém pode desejar a alguém. Minha pessoa favorita, eu poderia dizer. Te quero junto e perto, contrariando nossos desconhecidos limites geográficos e sentimentais. Bem me quer, mal me quer, me aceite. [...] Não quero perder nada. É o meu pedido.


Lucas Simões

terça-feira, 26 de junho de 2012

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Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos (…) Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.



— Caio Fernando Abreu


domingo, 24 de junho de 2012

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Então a vida era quase sempre a mesma. Uns casos de amor aqui e acolá. Nada surtia mais efeito. Como vacina de gotinha para quem já havia furado o braço de lado a lado. Como arranhar o braço para quem já havia quebrado a perna. Tudo repetitivo, um script inteiro decorado. Sabia as falas. Sabia o fim. Não se surpreendia. Olhava em volta e até mesmo as cinzas de um final de domingo eram as mesmas. Repousada na cama quente, um livro aberto no meio das pernas grossas, um café ao lado e se perguntando por que a vida não tomava jeito de lhe surpreender. Criticava-se constantemente e procurava elogios para receber. Seus amores platônicos sofriam porque não sabia ser platônica. Sua sorte não recobrava-a de lucros porque ela não sabia ter sorte, adivinhava constantemente o futuro. Não sabia viver. Era chato. Tudo parecia vago. Até esses pensamentos meio que bifurcados, sempre aos finais de domingo, repousada na cama do quarto tentando saber o que fazer assim que o dia acabasse. Ou o novo dia começasse. Enfim.

Annabel Laurino.

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     E novamente eu penso que não tem nada aqui. Não tem nada nas páginas da internet abertas esboçando seu perfil. Não há nada nas fotos antigas. Nada nas musicas que escutávamos. Que intitulávamos como nossas. Nas frases do Caio Fernando Abreu para que eu possa me segurar, nada nas roupas, nenhum cheiro seu. Nada na carta, nos bilhetes. Nada nos livros nas prateleiras. Não há nada em lugar algum. A não ser a saudade, que ainda esmaga forte no peito como milhares de apunhaladas que doem de verdade. Eu passei dias chorando sem saber que estava chorando, só agora, transbordando em lágrimas quentes eu sei que chorei de verdade, durante dias, e nem sabia.
    É difícil saber, mas dói todo esse afastamento, essa coisa de se fazer de durona, puxar as próprias rédeas e não se permitir estender a mão para te tocar. Como uma criança levando um tapa na mão por querer o doce, não toque no doce, alerta a mãe. E eu sofro como uma criança, por que eu não entendo essa proibição. Quando irei entender?
    Sou eu mesma que me proíbo. Nos proíbo. Só para não me doer, te doer, me arder.
    Mas me doou mesmo assim.
    É difícil olhar suas fotos e não entender por que eu ainda gosto tanto de você.
    Gosto mesmo?
    Não sei.
    Mas se dói tanto, difícil achar que não.
    Quando alguém te faz sentir tantas coisas assim, esmagadoras, vorazes, é difícil achar, mesmo que por um segundo, que é mera bobagem.
    Sem mover um músculo, eu não me movo na minha divagação solitária, faço cara de paisagem, choro baixinho, caminho até a cama e me escondo embaixo das cobertas. O coração? Um cactos retorcido, aspinhaçado, cheio de espinhos, de buracos verdes, queimaduras do sol, um vegetal dolorido. Chorando pela proibição do sentir.

Annabel Laurino.

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Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam  sempre sede no fim. 




 Caio Fernando Abreu