segunda-feira, 14 de maio de 2012

Manhã Emudecida


    Acordei sozinha em uma confusão muda.
    A casa estava vazia, somente eu e mais ninguém. Um silêncio quase que arrebatador emudeceu meus ouvidos e aglutinou em todos os cantos da casa.
    As montanhas de cobertas pesavam sobre meu corpo quente, afundando-me ainda mais sobre a cama. Lutei com elas para me libertar e quando enfim sai de seu agarro, um frio latente golpeou minha pele, me dando a tentadora vontade de voltar para dentro das cobertas quentinhas. Mas não o fiz.
    A cabeça dando voltas e pensamentos meio embaralhados. Parecia que minha mente havia se tornado uma espécie de liquidificador, batendo tudo, misturando tudo. E nessa mistura toda, nessa confusão de dentro para fora, desde as cobertas bagunçadas, o cheiro de sono, o cheiro de sol matinal lambendo o carpete, o cheiro do café na cafeteira que alguém deixou pronto antes de sair, tudo isso me afundando em um só entendimento. Compreendi o que Caio Fernando Abreu disse certa vez sobre que assim como os cabelos os pensamentos acordam bagunçados e em pé. Algo assim.
    De repente eu queria pegar o telefone, eu queria entrar dentro dele e romper com toda a distância que me separava dele. Eu queria cessar toda e qualquer dor que eu fui capaz de criar nele, em seu coração ingênuo e indefeso. Eu queria enfiar a primeira roupa que visse, pegar a carteira e entrar no primeiro ônibus para encontrar-me com ele no outro lado da cidade, onde ele se esconde.
    Uma vontade mordaz de dividir com alguém essa estranha dor de desamparo.
    De repente os livros apinhados nas estantes tornam-se apenas livros, com histórias emocionantes que eu não tenho com quem compartilhar. Porque de certa forma, muito dolorosa, havia com ele uma forma muito mais especial de compartilhar as histórias do que com as outras pessoas.
    Será que não era por que ele realmente gostava delas? Por que ele as ouvia atentamente e com satisfação? Será que não era por que ele também as lia, as devorava? Por que ele entendia por completo todo o meu mundo e mais todos os outros que eu criava na ponta do papel?
    Sim, sim, sim e sim!
    Então pergunto-me por que dessa ruptura. Por que em mim não há dor alguma e nem vontade de reatar os laços. Não compreendo. Serei eu assim tão cruel?
    De qualquer forma fico pensando nele enquanto um programa de culinária começa na televisão. Lembro-me dele cozinhando para mim, me fazendo pão de ervas doces que por sinal fora delicioso.
    A apresentadora usa uma roupa que julgo horrível levando em conta a idade dela, que de certa forma ela tenta esconder em roupas joviais ao estilo 25 anos. Idade que ela já passou a muito tempo. Então lembro dele falando sobre roupas de forma engraçada e desajeitada, penso nele falando de idosos, penso nele falando sobre culinária, sobre musica, me ensinando a tocar bateria com suas baquetas esfarrapadas. Lembro-me dele me contando milhares de suas histórias de terror.
    Uma dorzinha no peito, latente e incomoda.
    Perdida, afundei-me mais no sofá e com meus próprios braços abracei meu próprio corpo, e permaneci assim por um longo tempo, abraçando-me. Sentindo o calor do meu próprio corpo que de alguma forma não era bem o que eu queria, eu queria era o calor de outro corpo. Mas aquiesci e satisfiz-me com o pouco. E fiquei só, perdida no sofá da sala, abraçando-me, perguntando-me por que motivos há de querer ser assim tão só.
    A manhã rugiu em bilhares de raios de sol que antes não dispunham no céu. E passou, as horas passaram.
    Permaneci só.




Annabel Laurino.

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Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: As vezes apenas um segundo.




Lewis Carroll

Diálogo


- Mas... Aquela pergunta que você me fez na mesa, aquele dia, não sai da minha cabeça.
- Qual?
- Se eu via futuro com ele...
- Hum. É, você me disse que não.
- Sim. Essa foi a minha resposta
- Mas não senti firmeza naquele não.
- E era mesmo um não cheio de incerteza. Tanto que eu ainda fico me perguntando.
- E sabe a resposta?
- Não. Não sei. E talvez seja assim, um tipo de resposta.
- Não faz sentido...
- Eu sei.
- Pois então como não ter certeza pode lhe responder alguma coisa?
- Você não vê?
[silêncio]
- Quando se tem certeza, se sabe. É fato, consumado. Quando não se tem...
- É complicado.
- Sim. Complicado. Não vejo melhor palavra para definir.


Annabel Laurino 




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domingo, 13 de maio de 2012

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Quando você sente saudade demais de uma pessoa, então começa a vê-la nas outras, em todos os lugares. 






 Caio Fernando Abreu.





sábado, 12 de maio de 2012

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"Contradigo-me em passos de dança invisíveis, enlaçando pernas e prendendo bocas, querendo muito e gostando tão pouco."

Verônica H.

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"ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, quase duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essa história de que atraiçoamos todos os nossos ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara."

CaioF.

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Sempre é melhor reagir, partir pra outro do que arrastar, arrastar. 






Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 11 de maio de 2012

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    "Será que eu te conto? Depois disso e até hoje, no final de todo beijo tem a saudade do seu. No final de todo abraço tem a saudade do seu. No final de toda conversa tem a saudade da sua voz, sempre entre o genial e o tradicional, o menino artista e burocrático. O menino louco e ponderado. Você não tem ideia, você não imagina, essas noites sozinha aqui, com Jens Lekman, Feist e Magnetic Fields. Nem temos uma música, todas emprestamos das suas outras relações. Nem temos uma história, todas eu imaginei, todas a gente só pensou. Nem tenho você, mas você não imagina. A falta que faz o que você podia ser. É isso. A falta que faz o que a gente podia ter sido.[...] 
    Cansei do meu orgulho cheio de ocos e ecos e secos. Então eu queria dizer como era enorme isso tudo dentro de mim. E como ainda é. [...] Eu não consegui gostar de você de tanto que eu gostava e isso não merece chances ou palmas. Cansei de só sentir se for maior do que eu justamente pra dar a desculpa que, por ser maior do que eu, não posso sentir. É o jogo macabro que faço comigo pra nunca sair do mesmo lugar mas me dizer romântica. Eu não sou romântica, eu sou burra. Medrosa. Só isso.
    As coisas que eu amo são como uma borboleta que eu acho tão linda, tão linda, tão linda que quero engolir as asas e apertar contra o peito e lamber as cores e pegar carona com meu peso e tudo acaba sem ar, sem voo, sem cor, sem ser borboleta."




Tati Bernardi 

Bomba Relógio


     Novos punhos de aço aprisionam meu peito. Ah sim, esses punhos fortes e destemidos, envoltos firmes de mim, na esperança bruta e cega de me manter sobre vigília constante. Oh, mal sabe ele o quanto esse coração se faz por livre. O quanto de espaço minha alma leve necessita para que possa respirar todo esse ar solitário, esse punhado de solidão que me agrada muito manter em minha dieta balanceada.
    Não, eu não gosto de não poder respirar. Sim, eu odeio seus jogos banais. Eu odeio perder tempo com coisas fúteis, eu odeio as amarras no peito, eu odeio o nojo que eu sinto quando me encobrem de infantilidades e cinismo desnecessário.
    Eu prefiro a velha moda do à seco, do que ao temperado e docinho de mais.
    Para que? Eu me pergunto.
    Não posso sobreviver com os tique-taques de um relógio programado para parar de trabalhar em algum instante próximo, eu prefiro a entrega inteira do que viver com esse pé atrás. Então, novamente, eu odeio pessoas que me fazem ficar com um pé atrás.
    Na minha mente ingênua a mostra das reais faces facilitaria uma vida inteira. Para que mostrar aquilo que você não é? 
    E então essa retidão. Eu não gosto de ser retida, de não poder me soltar. Eu, que em minha vida toda passei por recatada, desligada, quietinha e justo quando encontro um complemento carnal para dividir as dores do mundo eu tenho que ser recatada? Tenho que guardar toda a minha arte, todo o meu amor, todo o meu fulgor? Tenho que me fingir branca e sem vida?
    Não gosto, não suporto.
    Um cansaço além do físico sobressai meu corpo, umas dores, um vazio, uma fome além. Não gosto do que sinto, não gosto do que vejo.
    Umas sensações que não entendo. Ou no mínimo quero fingir que não entendo.
    E me pergunto quando é que a bomba desse relógio programado irá estourar.
    Claro, não sei.



Annabel Laurino