sábado, 3 de março de 2012

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"Minhas obviedades possuem mapas complexos."




Caio Fernando Abreu

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"— Que quer dizer "cativar" ?
— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
— Criar laços ?
— Tu és ainda para mim um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim ÚNICO no mundo. E eu serei para ti única no mundo. E a raposa continuou:
— Minha vida é monótona. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! 
Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo. Por favor, cativa-me! - disse a raposa.
— Bem quisera, disse o principezinho. Mas tenho pouco tempo e amigos a descobrir e coisas a conhecer.
— A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa - . Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo pronto na lojas. Mas como não existem lojas de amigos, eles não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
— Que é preciso fazer?
— É preciso ser paciente. Sentarás primeiro longe. Eu te olharei e tu não dirás nada. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Mas cada dia sentarás mais perto. E virás sempre na mesma hora.
Se tu vens às 4, desde às 3 eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às 4 horas, então, eu estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade. Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração. É preciso ritos!
Assim, o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
— Ah! Eu vou chorar.
— A culpa é tua - disse o principezinho - . Eu não queria te fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
— Quis.
— Mas tu vais chorar !
— Vou.
— Então não sais lucrando nada!
— Eu lucro, por causa da cor do trigo.
— Vais rever as rosas e volta. Tu compreenderás que a tua é ÚNICA no mundo.
— Eis o meu segredo: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."



O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

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Here Comes The Sun !

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    Que nossas estradas não se desfaçam, que nossos caminhos sempre se entrelaçam. Não quero perder você. Minha força com a sua torna-se acima de qualquer força, torna-se invencível. É necessário que eu veja seu sorriso pintado sobre seu rosto tão familiar todos os anos, até o sempre, quem sabe eterno, dos dias, não sei bem. Mas preciso. Sempre e sempre.
    Que nossas vidas sejam amigas, ou irmãs, e que se enamorem todos os dias, para até o longo sempre.

Annabel Laurino.

sexta-feira, 2 de março de 2012

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 Cada dia que amanhece sozinho levanta-se sóbrio. Você sente seus ossos estalarem quando se levanta do colchão quente e sai do meio das cobertas fofas, você pensa que a vida por mais gostosa, por mais fofinha, e que por vezes parece viver em meio a tragédia fatal de um ponto que se enrosca nu em meio a beleza cotidiana. Pode parecer nostálgico eu sei. Mas dou graças todos os dias assim que acordo, olho o sol e penso que um novo dia está prestes a se desenrolar da tecelã mágica que se chama vida. Pode ser que ao final do dia eu fique sentada no mesmo lugar remoendo pontos faialíticos ou tecelando belezas nas pontas dos dedos e murmurando: "que lindo, que lindo", sem ninguém mais ouvir.


Annabel Laurino.

quinta-feira, 1 de março de 2012

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  Se eu largar sua mão que você sobreviva são, que você viva bem, leve, feliz. Que quando eu soltar sua mão você se desprenda vivo como um fio de luz que se sobressai sozinho do globo central e viaja pela atmosfera encontrando outros fiozinhos. Que você não sinta falta, que você saiba sempre porque soltei sua mão. Sem dor, sem mas, sem arrependimentos. Sem choros, sem velas, sem nada mais do que saber, eu soltei sua mão.


Annabel Laurino.

We're just two lost souls, swimming in a fish bowl, year after year

 Se você fechar os olhos por um instante, colocar uma musica ou quem sabe, se você for daquele tipo um tanto mais sentimental você queira ouvir o próprio som da chuva e do vento que lá de longe vem arrastando os pingos de chuva, os debatendo contra o vidro frio do quarto. Quem sabe. Mas também não faz muita diferença o que ao certo você vai estar ouvindo, vamos direto ao assunto, por que em geral o importante é que você não se preocupe mesmo com o que ouve mas sim com o que sente. Vamos voltar para a parte em que se fecha os olhos... Sim, feche os olhos e silenciosamente imagine a imagem daquela pessoa, pense nela, mas não como algo impossível ou como uma possibilidade até mesmo, pense nela real, lembre-se do cheiro, do gosto, do riso, dos olhos, do brilho dos cabelos, dos gestos, lembre-se de tudo como se fosse não uma forma imaginativa em sua cabeça mas real e pura. Lembre-se de um momento. Ah sim, você já não se lembra? Então lembre-se de cheiros, sei que nessa parte tudo pode parecer um tanto doido, mas tente. Sim, quadro velho, madeira puída e envelhecida, sol de inverno, garotos gritando no pátio por uma partida de futebol, o sol entra e jorra em seu rosto, a porta esta trancada, e ele vem em sua direção como um leão pequeno, manso, como se suas patas fossem feitas de luvas brancas e delicadas, sem produzirem som. No rosto um sorriso nervoso, o cabelo despenteado e fora do lugar, porém bonito, do jeito que você gosta, você se lembra. E há também as cortinas velhas azuis estranhas, há uma atmosfera densa e tensa, e você se lembra de que tudo passa quando vocês se beijam, como se não fosse mais um beijo, mas sim algo muito mais intimo do que isso, 'só um beijo'. Como se fosse uma espécie de aliança, uma ligação formosa.
    Ah sim, você consegue mesmo se lembrar de tudo. De volta ao presente, a musica toca viva e nítida nos ouvidos embalada pelo som da chuva numa manhã de quinta-feira.
    I wish you were here.
    É claro que sim, claro que deseja.


Annabel Laurino.

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Mas o que houve — o tropeço, o solavanco, o esbarrão, a tosse no meio da área lírica —, o que houve foi um pensamento impiedoso e exatamente assim: não faço parte disso.
Não uma dúvida, mas uma certeza. Absoluta.
Sem inveja nem mágoa, revolta ou vontade furiosa de que pudesse ser de outra forma. Secamente, definitivamente, eu não fazia parte daquilo. (…) Por razões que não sei explicar; e nem precisariam tentar ser explicadas porque eram e, pior, continuam sendo completamente indiscutíveis. Eu não fazia parte, e pronto. 

(Caio Fernando Abreu)

it's a beautiful day, raining day

É o pingo que pica na poça
que explode no ar
É o pingo que pinga no caminho
do bico do sapato 
ao canto do tijolinho
É o pingo que pinga
na cabeça careca
na tinta avermelhada
dentro do olho vizinho
É o pingo de chuva
que pinga não mais sozinho
e que caiem os pingos
todos molhadinhos
 Vão pigando sem parar
encharcando tudo
pingando aos pouquinhos
vezes bravos, vezes devagarzinho
Vão costurando a água no ar


Annabel Laurino.