Annabel Laurino.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
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E eu que eventualmente penso que jamais poderia desconsertar qualquer coisa, quando sem querer, desconcerto a mim mesma.
Renovo
Mas to me sentindo tão leve, tão bem, tão feliz. To sentindo
pureza, leveza, despreocupação. Desapeguei de tudo, larguei, corri e esqueci. Não
sei de mais nada. Esvaziei o copo transbordante da minha memória e tudo que
tenho agora é um copo vazio gritando pra ser cheio outra vez, por novas histórias,
novas, tudo novo! Chega de derramar lágrimas e machucar meu coração, chega de
abrir as portas, e escancarar janelas. De agora em diante, só abro as portas e
escancaro as janelas para o sol, para a vida, para o renovo.
Annabel Laurino
domingo, 4 de setembro de 2011
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Hoje é domingo. Um domingo chato e cinzento. São quatro e
meia da tarde. Vou matar esse resto de domingo adomingado á pauladas cruéis.
Vou exterminar essa sede de cavar um buraco e encontrar uma mina de salvação
pra me tirar dessa caverna escura desse dia chato de domingo. Daí eu vou sair.
Vou encontrar outros corpos, em outros corpos encontrar a vontade, motivos e quem sabe alguma
razão pra rir, satisfazer a vontade de que você me deixou no vazio e se
esqueceu de mim. Nenhuma mensagem, nenhuma pergunta se ta tudo bem. To bem, só
pra você saber. To saindo de casa. To indo viver, só pra variar. E não to indo
só.
Annabel Laurino
Certeza
Embora deva-se lembrar: Nunca é tudo, nunca é completo,
nunca é propriamente seguro, propriamente seu. As vezes você tem, sem saber se
tem totalmente. É preciso de muito pra ter alguma coisa. Não basta certeza.
Afinal, certeza é o que mesmo? É só certeza. Vasta e obscura, certeza não vale
de nada. É como uma chave que abre o cadeado, nunca se sabe se pode emperrar na
fechadura ou quebrar no ponto certo. Tem falhas, tem pontas, tem sinais
quebradiços que não se encaixam. A sua certeza válida, invalida, começo a
dizer, é tão nada a ter sobre mim, sobre eu ser sua e estar sempre por perto
quando você precisar que se eu fosse você, partia ou lutava. Mas não me venha
com certezas sobre mim. Não me venha com autoconfiança, com “confiar no próprio
taco”, com “não vou ligar pra ela, ela que me procure, já que ela me ama”. Não,
não faça isso. É melhor. Certezas. Certezas são como descargas d’água
escorrendo sobre mim, passageiras, causam só no impacto do momento, sem serem
permanentes, depois as gotículas úmidas secam, e deu. Passou. Certezas. Nem eu
própria tenho certeza sobre mim, nem eu própria. Imagine só.
Annabel Laurino.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
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"amor é quando você tem
todos os motivos para desistir de alguém, e não desiste."
William Shakespeare
Não me deixe só
Já disse há muita gente que preciso ficar só. E talvez, as
vezes, eu precise mesmo. Mas é uma coisa contraditória minha. Talvez, as vezes,
não seja muito bom me deixar só. Eu não me conheço muito bem, não sei até onde
grita o aperto da solidão e não sei o que se passa na minha cabeça. Horas eu to
deitada na cama, to lendo inocentemente e de repente um sopro de inspiração e
já voei, já fui, já voltei. E de repente as coisas na minha cabeça já se
deslocaram, fluírem, esvaziaram.
Nunca sei se to
querendo muito ou se to desejando muito. É uma cosia louca. Mas to dizendo e
estou sempre avisando, se você me ama, não me deixe só. Me deixe umas horas
apenas, e nem muitas horas também, mas não venha com dias, semanas e tal. Não é legal. To sempre mudando,
eu mudo como mudo de roupa, mudo a cor das minhas unhas e as mechas do meu
cabelo. Eu nunca sei se estou pronta, se estou satisfeita, se estou saciada. Eu
estou sempre precisando e precisando. E me deixar sozinha me deixa á pensar que
estou precisando de alguém, e não ter ninguém por muito tempo me deixa a deriva
de aceitar essa condição de não precisar de ninguém. Ai eu acredito nisso, e
depois pode ser fatal. Eu começo a acreditar que não preciso mais de você.
Annabel Laurino.
O sopro desesperado do Destino
“- Esta tudo bem meu amor, - ela dizia – esta tudo bem. Tudo
isso vai passar.
Embora suas palavras fossem doces e resvalassem em seus lábios secos e brancos. E embora sua vontade fosse de gritar e chorar, seu medo de transparecer na dor, como há uma mascara estampada em seu fino rosto angelical, decidiu por não dizer nada. Por guardar seus sentimentos em uma caixa rasa e vazia, atulhada de já tantos sentimentos que ela colocava lá dentro, todos os dias. Por ora, resolveu partir, e por ora resolveu não mais escutar. Largou a mão do homem que amava, amarrotou os scripts bem bolados nas noites de insônia e partiu, não deixou rastros e nem pistas. Partiu deixando a dor. A dor das brigas, da opulência exagerada da perfeição, da irritação dos motivos de não darem certo, da raiva por não terem saída, se não, partir. Cada qual para um lado só da vida.
Embora suas palavras fossem doces e resvalassem em seus lábios secos e brancos. E embora sua vontade fosse de gritar e chorar, seu medo de transparecer na dor, como há uma mascara estampada em seu fino rosto angelical, decidiu por não dizer nada. Por guardar seus sentimentos em uma caixa rasa e vazia, atulhada de já tantos sentimentos que ela colocava lá dentro, todos os dias. Por ora, resolveu partir, e por ora resolveu não mais escutar. Largou a mão do homem que amava, amarrotou os scripts bem bolados nas noites de insônia e partiu, não deixou rastros e nem pistas. Partiu deixando a dor. A dor das brigas, da opulência exagerada da perfeição, da irritação dos motivos de não darem certo, da raiva por não terem saída, se não, partir. Cada qual para um lado só da vida.
Até que a manhã
tardia chegou sem demora, mostrou no calendário mais um dia desde aquele dia
triste em que partiu, e a moça jovem arruivada de sua memória fresca já sabia,
fazia um tempo em que ambos haviam ido embora. E por isso não esperou o escurecer da
manhã e nem a chegada da canção dos pássaros e muito menos do sol aguardando
contente na soleira de sua janela. Abriu a porta de sua casa e partiu pelo
trajeto de sempre, acompanhando seus passos aos seus medos e suas lembranças que
aguardavam cozinhando lá dentro de si, pareciam borbulhar em passos e outros,
mas ela não ligava, sabia para onde estava indo e contente por isso, também
conhecia aquela sensação tão... desesperada de o querer tanto de volta. Estava
acostumada com aquela sensação. Com a vontade insana de o arrancar de seus
pensamentos e o colocar na sua vida real, lhe abraçar contra o corpo sozinho e
quente e encharcar seu ombro de lágrimas de saudade.
E por isso na chegada daquela manhã ela
contente e descontente ponderava a felicidade crua como um objeto macio e frio,
sem saber como pegar e manejar. Sabia até mesmo como tê-la, a felicidade, mas
por oras de seu orgulho e de sua falta de fé, não sabia, e nem podia, manejar a
felicidade, como todas as outras pessoas normais que conhecia, e que invejava.
Porém o que ela não
sabia, o que ela não desconfiava, é que em um átimo de segundos poderia mudar tudo de uma vez. Talvez, ela podia pensar depois, se houvesse se
demorado mais em frente ao espelho naquela manhã, amaciando seus cabelos, ou
escovando os dentes, ou se tivesse emperrado a sola do sapato em uma calçada
esburacada, se houvesse perdido o ônibus, atendido ao telefone e parado para conversar,
se houvesse visto um conhecido na rua e parado para cumprimentar. Qualquer
coisa. Qualquer coisa sem sentindo e insignificante, naquela manhã poderia
transformar todo e qualquer acontecimento do destino. O inigualável e inegável
destino.
E sem saber como,
um sopro de sentidos lhe aguçou a mente, e de repente era ele á sua frente. Ele
a figura inestimável se seu sofrer, ele que ela havia negado e querido tanto,
muito mais do que tudo que pudesse imaginar, ele que a entendia e que a
compreendia, e que mais que tudo, ele a amava. Ela olhou seus olhos sem saber e
nem ver cor alguma, enxergando apenas a si própria por reflexo deles na sede
insana de encontrar qualquer sentido naquele vasto momento inexplicável, e viu
um sorriso brotar nas faces brandas daquele homem que tanto amava. E de repente
não havia mais roupas que lhe mantivessem vestidas como a uma armadura fechada
e nem caixas que sobrepujassem sentimentos negados ou vazios. De repente tudo
fez sentindo e como numa comédia, dois bobos incrivelmente apaixonados que se
machucavam até o fim, tomaram-se em seus braços, agarrados na fome do beijo, na
sede escapista de encontrar noutro um caminho, uma explicação. E a realização
fixa de que tudo, mas qualquer tudo que ela havia dito antes, podia fazer sentido agora.
Ah sim, agora sim,
tudo ficaria bem, a jovem pensou.
Annabel Laurino.
O caminho da vontade sempre sentida
As vezes me falta fôlego
e depois passa. As vezes me falta ar, me falta comida, me falta sede. E isso
nunca passa. To sempre arranhando as paredes. O muito pra mim é pouco e pouco
pra mim nunca basta. To sempre afim de sentir. Sentir dor, sentir amor. Tanto
faz. To sempre afim de sentir qualquer coisa nova, surpresa, vazio e que depois
passa. Só não quero ficar presa nessa coisa, nesse ciclo, nessa vida, nesse
rio. Não quero nadar sem encontrar nada. Quero sempre ter a certeza que estou
mesmo assim em qualquer caminho, seja perdida, seja achada, ou seja achando
alguém também, quero saber se to fazendo algo, e se não tiver, invento algo,
não sei.
Só não suporto que
entrem na minha vida e que não me façam sentir. Tem que ter alguma coisa, tem
que ser alguma coisa, não pode ficar nesse vazio, nessa coisa cabisbaixa de
deixar a monotonia te engolir, tem que ter sede, fome, paixão, tem que ter
mordidas na pele, suor, vontade. Tem que ter vontade pra sentir.
E isso meu bem, não me falta.
Annabel Laurino.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Argamassa misturada, sentida, mundo mudo do... viver
Na noite escura e
silenciosa,
o roçar da pele
crespa de meus dedos quentes
crepitam no papel do
livro velho e bolorento
o arranhar do vento
no galho seco, o leva até o vidro
chama e grita
baixo como um
ronronar nervoso,
e a chama escura que
alumia ao passar das horas
descompassa do
relógio da sala e tictacteia sem parar.
A minha pele quente envolta na roupa de dormir se aconchega,
desdobrando as
dobraduras do tecido e se acomodando aqui e ali,
reconfortante meu
corpo procura um melhor modo para dormir.
A xícara vazia em cima da mesa resta somente o vapor do café
quente
que antes ocupava o
recipiente,
a tevê desligada, a cadeira vazia, as roupas esquecidas,
desdobradas
E tudo mais aqui dentro se aglutinando com o lado de fora,
Em um silêncio ininterrupto,
ninguém fala,
nem boceja e muito menos chora.
Guardei meu caderno de poesias embaixo do colchão
pra ninguém achar, e quem sabe nem eu mesma.
Amarfanhei meus
sentimentos no poste mais alto da rua
e como as lâmpadas antes acessas foram piscando até se
apagar.
Logo tapei o rosto pelo edredom macio e fechei os olhos,
nada mais a ouvir ou ver, somente a acompanhar.
Comecei a imaginar teu corpo, tua pele coberta de pelos e tuas
pernas,
teus músculos, tuas
coxas, teu pescoço, teu cabelo
e fui girando em um mundo mudo que ninguém podia ver,
nem ouvir e nem falar,
somente sentir, sentir sem parar.
Annabel Laurino.
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