domingo, 4 de setembro de 2011

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Hoje é domingo. Um domingo chato e cinzento. São quatro e meia da tarde. Vou matar esse resto de domingo adomingado á pauladas cruéis. Vou exterminar essa sede de cavar um buraco e encontrar uma mina de salvação pra me tirar dessa caverna escura desse dia chato de domingo. Daí eu vou sair. Vou encontrar outros corpos, em outros corpos encontrar a vontade, motivos e quem sabe alguma razão pra rir, satisfazer a vontade de que você me deixou no vazio e se esqueceu de mim. Nenhuma mensagem, nenhuma pergunta se ta tudo bem. To bem, só pra você saber. To saindo de casa. To indo viver, só pra variar. E não to indo só.

Annabel Laurino

Certeza


Embora deva-se lembrar: Nunca é tudo, nunca é completo, nunca é propriamente seguro, propriamente seu. As vezes você tem, sem saber se tem totalmente. É preciso de muito pra ter alguma coisa. Não basta certeza. Afinal, certeza é o que mesmo? É só certeza. Vasta e obscura, certeza não vale de nada. É como uma chave que abre o cadeado, nunca se sabe se pode emperrar na fechadura ou quebrar no ponto certo. Tem falhas, tem pontas, tem sinais quebradiços que não se encaixam. A sua certeza válida, invalida, começo a dizer, é tão nada a ter sobre mim, sobre eu ser sua e estar sempre por perto quando você precisar que se eu fosse você, partia ou lutava. Mas não me venha com certezas sobre mim. Não me venha com autoconfiança, com “confiar no próprio taco”, com “não vou ligar pra ela, ela que me procure, já que ela me ama”. Não, não faça isso. É melhor. Certezas. Certezas são como descargas d’água escorrendo sobre mim, passageiras, causam só no impacto do momento, sem serem permanentes, depois as gotículas úmidas secam, e deu. Passou. Certezas. Nem eu própria tenho certeza sobre mim, nem eu própria. Imagine só.

 Annabel Laurino.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

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"amor é quando você tem todos os motivos para desistir de alguém, e não desiste."

William Shakespeare

Não me deixe só


    Já disse há muita gente que preciso ficar só. E talvez, as vezes, eu precise mesmo. Mas é uma coisa contraditória minha. Talvez, as vezes, não seja muito bom me deixar só. Eu não me conheço muito bem, não sei até onde grita o aperto da solidão e não sei o que se passa na minha cabeça. Horas eu to deitada na cama, to lendo inocentemente e de repente um sopro de inspiração e já voei, já fui, já voltei. E de repente as coisas na minha cabeça já se deslocaram, fluírem, esvaziaram.
    Nunca sei se to querendo muito ou se to desejando muito. É uma cosia louca. Mas to dizendo e estou sempre avisando, se você me ama, não me deixe só. Me deixe umas horas apenas, e nem muitas horas também, mas não venha com dias, semanas e tal. Não é legal. To sempre mudando, eu mudo como mudo de roupa, mudo a cor das minhas unhas e as mechas do meu cabelo. Eu nunca sei se estou pronta, se estou satisfeita, se estou saciada. Eu estou sempre precisando e precisando. E me deixar sozinha me deixa á pensar que estou precisando de alguém, e não ter ninguém por muito tempo me deixa a deriva de aceitar essa condição de não precisar de ninguém. Ai eu acredito nisso, e depois pode ser fatal. Eu começo a acreditar que não preciso mais de você.

Annabel Laurino.

O sopro desesperado do Destino


    “- Esta tudo bem meu amor, - ela dizia – esta tudo bem. Tudo isso vai passar.
     Embora suas palavras fossem doces e resvalassem em seus lábios secos e brancos. E embora sua vontade fosse de gritar e chorar, seu medo de transparecer na dor, como há uma mascara estampada em seu fino rosto angelical, decidiu por não dizer nada. Por guardar seus sentimentos em uma caixa rasa e vazia, atulhada de já tantos sentimentos que ela colocava lá dentro, todos os dias. Por ora, resolveu partir, e por ora resolveu não mais escutar. Largou a mão do homem que amava, amarrotou os scripts bem bolados nas noites de insônia e partiu, não deixou rastros e nem pistas. Partiu deixando a dor. A dor das brigas, da opulência exagerada da perfeição, da irritação dos motivos de não darem certo, da raiva por não terem saída, se não, partir. Cada qual para um lado só da vida.
    Até que a manhã tardia chegou sem demora, mostrou no calendário mais um dia desde aquele dia triste em que partiu, e a moça jovem arruivada de sua memória fresca já sabia, fazia um tempo em que ambos haviam ido embora. E por isso não esperou o escurecer da manhã e nem a chegada da canção dos pássaros e muito menos do sol aguardando contente na soleira de sua janela. Abriu a porta de sua casa e partiu pelo trajeto de sempre, acompanhando seus passos aos seus medos e suas lembranças que aguardavam cozinhando lá dentro de si, pareciam borbulhar em passos e outros, mas ela não ligava, sabia para onde estava indo e contente por isso, também conhecia aquela sensação tão... desesperada de o querer tanto de volta. Estava acostumada com aquela sensação. Com a vontade insana de o arrancar de seus pensamentos e o colocar na sua vida real, lhe abraçar contra o corpo sozinho e quente e encharcar seu ombro de lágrimas de saudade.
   E por isso na chegada daquela manhã ela contente e descontente ponderava a felicidade crua como um objeto macio e frio, sem saber como pegar e manejar. Sabia até mesmo como tê-la, a felicidade, mas por oras de seu orgulho e de sua falta de fé, não sabia, e nem podia, manejar a felicidade, como todas as outras pessoas normais que conhecia, e que invejava.
    Porém o que ela não sabia, o que ela não desconfiava, é que em um átimo de segundos poderia mudar tudo de uma vez. Talvez, ela podia pensar depois, se houvesse se demorado mais em frente ao espelho naquela manhã, amaciando seus cabelos, ou escovando os dentes, ou se tivesse emperrado a sola do sapato em uma calçada esburacada, se houvesse perdido o ônibus, atendido ao telefone e parado para conversar, se houvesse visto um conhecido na rua e parado para cumprimentar. Qualquer coisa. Qualquer coisa sem sentindo e insignificante, naquela manhã poderia transformar todo e qualquer acontecimento do destino. O inigualável e inegável destino.
    E sem saber como, um sopro de sentidos lhe aguçou a mente, e de repente era ele á sua frente. Ele a figura inestimável se seu sofrer, ele que ela havia negado e querido tanto, muito mais do que tudo que pudesse imaginar, ele que a entendia e que a compreendia, e que mais que tudo, ele a amava. Ela olhou seus olhos sem saber e nem ver cor alguma, enxergando apenas a si própria por reflexo deles na sede insana de encontrar qualquer sentido naquele vasto momento inexplicável, e viu um sorriso brotar nas faces brandas daquele homem que tanto amava. E de repente não havia mais roupas que lhe mantivessem vestidas como a uma armadura fechada e nem caixas que sobrepujassem sentimentos negados ou vazios. De repente tudo fez sentindo e como numa comédia, dois bobos incrivelmente apaixonados que se machucavam até o fim, tomaram-se em seus braços, agarrados na fome do beijo, na sede escapista de encontrar noutro um caminho, uma explicação. E a realização fixa de que tudo, mas qualquer tudo que ela havia dito antes, podia fazer sentido agora.
    Ah sim, agora sim, tudo ficaria bem, a jovem pensou.

Annabel Laurino.

O caminho da vontade sempre sentida


    As vezes me falta fôlego e depois passa. As vezes me falta ar, me falta comida, me falta sede. E isso nunca passa. To sempre arranhando as paredes. O muito pra mim é pouco e pouco pra mim nunca basta. To sempre afim de sentir. Sentir dor, sentir amor. Tanto faz. To sempre afim de sentir qualquer coisa nova, surpresa, vazio e que depois passa. Só não quero ficar presa nessa coisa, nesse ciclo, nessa vida, nesse rio. Não quero nadar sem encontrar nada. Quero sempre ter a certeza que estou mesmo assim em qualquer caminho, seja perdida, seja achada, ou seja achando alguém também, quero saber se to fazendo algo, e se não tiver, invento algo, não sei.
    Só não suporto que entrem na minha vida e que não me façam sentir. Tem que ter alguma coisa, tem que ser alguma coisa, não pode ficar nesse vazio, nessa coisa cabisbaixa de deixar a monotonia te engolir, tem que ter sede, fome, paixão, tem que ter mordidas na pele, suor, vontade. Tem que ter vontade pra sentir.
E isso meu bem, não me falta.

Annabel Laurino.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Argamassa misturada, sentida, mundo mudo do... viver


  Na noite escura e silenciosa,
 o roçar da pele crespa de meus dedos quentes
 crepitam no papel do livro velho e bolorento
 o arranhar do vento no galho seco, o leva até o vidro
 chama e grita
 baixo como um ronronar nervoso,
 e a chama escura que alumia ao passar das horas
 descompassa do relógio da sala e tictacteia sem parar.
A minha pele quente envolta na roupa de dormir se aconchega,
 desdobrando as dobraduras do tecido e se acomodando aqui e ali,
 reconfortante meu corpo procura um melhor modo para dormir.
A xícara vazia em cima da mesa resta somente o vapor do café quente
 que antes ocupava o recipiente,
a tevê desligada, a cadeira vazia, as roupas esquecidas, desdobradas
E tudo mais aqui dentro se aglutinando com o lado de fora,
 Em um silêncio ininterrupto, ninguém fala,
nem boceja e muito menos chora.
Guardei meu caderno de poesias embaixo do colchão
pra ninguém achar, e quem sabe nem eu mesma.
 Amarfanhei meus sentimentos no poste mais alto da rua
e como as lâmpadas antes acessas foram piscando até se apagar.
Logo tapei o rosto pelo edredom macio e fechei os olhos,
nada mais a ouvir ou ver, somente a acompanhar.
Comecei a imaginar teu corpo, tua pele coberta de pelos e tuas pernas,
 teus músculos, tuas coxas, teu pescoço, teu cabelo
e fui girando em um mundo mudo que ninguém podia ver,
 nem ouvir e nem falar, somente sentir, sentir sem parar.


Annabel Laurino.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

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Você se cansa de amores incompletos, de amores platônicos, de falta de amor, de excesso disso e daquilo. Se cansa do "apesar de". Se cansa do rabo entre as pernas, da sensação de estar sendo prejudicado, se cansa do "a vida é assim mesmo". Você se cansa de esperar, de rezar, de aguardar, de ter esperanças, cansa do frio na barriga, cansa da falta de sono.
Você se cansa da hipocrisia, da falsidade, da ameaça constante, se cansa da estupidez, da apatia, da angústia, da insatisfação, da injustiça, do frenezi, da busca impossível e infinita de algo que não sabe o que é. Se cansa da sensação de não poder parar.
(PC Siqueira)


domingo, 28 de agosto de 2011

Minha casa aberta te afasta de tanta luz


Agora é pra valer. Se antes eu estava aberta, abria as minhas portas e deixava com que toda a minha luz pairasse por todos os lados chamando quem quer que quisesse se aproximar para ver, para com coragem abrir seus olhos diante das minhas facetas brilhantes e nítidas de luz, de como sou, transparente em luz. Agora me fecho. Estou entrando pra dentro da minha concha crua e nua e não estou respondendo a mais nada. Sou um ser tão individualista agora, quanto sempre fui. Achei que podia ter encontrado alguém que me fizesse largar dessa idéia egoísta e que tocasse lá no intimo de mim, mas esse alguém não ta afim. Ta afim de fugir de mim, das minhas luzes, do meu ser. Por isso que agora que troquei o certo pelo duvidoso to me achando incrivelmente idiota e não há mais nada a dizer. To indo embora. Já deu pra mim. Cansei de ficar esperando algo que nunca vai chegar, algo que eu nem sei se posso esperar. Deixei de ser uma pessoa por a minha incrível capacidade de amar incondicionalmente. To amando você até dizer chega. Deixei meu ser individualista de lado e feri a todos por você, feri a mim e a minha capacidade de ser eu. E agora chega. Você foi covarde de mais. E eu, lutei de mais.

Annabel Laurino.

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