sábado, 15 de março de 2014

Bad






I'm wide awake
I'm wide awake, wide awake
I'm not sleeping



U2

Is it Really So Strange?



The Smiths

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Não era um dia melancólico nem o horário pronunciava 
a cena que viria
era um dia inicio de tarde qualquer, dos que não se advinha
a temperatura
não havia temporal, não era feriado nem véspera de
nada
e não há fosfato que me faça lembrar que roupa estava
usando 

pois neste hiato de tempo em que não chovia nem
molhava 
em que as frases arrastavam-se lentamente uma a uma 
é que aconteceu o inesperado de uma vida, um divisor 
de águas 
entre a mulher saudável que eu era e a mulher que eu 
sangraria

não durou nem dois minutos, não houve violência,
parece até que havia música
algo dito em voz baixa calou fundo num ponto ainda
agreste do meu lado esquerdo
não recordo se era quinta ou sexta, se foi há sete ou oito
anos, e os porquês
só sei que fui despida bruscamente e desconfio que já
não usava roupa alguma 



(Martha Medeiros in Cartas Extraviadas; poema 42)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Anônimo

    Só para lembrar que você sempre tem a opção de ser anônimo
     De me deixar ver mas não completamente
     Mesmo que eu saiba de qualquer forma que se trata de você
     Mas só eu vou saber.
     Que você sempre tem a opção de ficar escondido
     Claro, de preferência comigo
     Sem ninguém saber
     Só eu, tocando suas formas no escuro
     Penteando seus cabelos com a mão, desfrutando da sua barba por fazer
     Alfinetando o meu corpo com o teu eu 
     Você sempre tem essa opção
     De anonimato
     Que só eu vou reconhecer 



Annabel Laurino

segunda-feira, 3 de março de 2014

Sem Pertencer

    Sete da noite. Horário de inverno novamente, coisa boa. Eu saio do trabalho e está quase escuro. É uma delicia, eu penso. Não por estar escuro, não pelo horário, é toda a atmosfera que engloba o tudo. É aquele quase breu, as luzes dos postes se acendendo, a livraria da qual eu saio (o meu trabalho, o melhor trabalho do mundo, para mim) com quase tudo apagado, final do dia, vem um vento pela rua, aquela chuva indecisa que não sabe cair e nem ficar, as pessoas abrindo seus guarda-chuva, empunho o meu aberto, firme na mão e me encolho dentro da jaqueta. É tudo tão rarefeito, especial, nostálgico.
    Cada passo que eu dou agora é como um passo marcando algum número em milhão. Para onde vou? Para casa, eu penso. E talvez pudesse existir outro lugar para ir, dentre tantos! Mas não, eu vou para casa. A casa que me espera e que eu conheço, quente, amiga, cama familiar, meus livros, minha caneca favorita, cachorros e violão. Para casa. Cada passo que eu dou eu me perguntou, e se eu não fosse para casa? Não há outro lugar para ir, me convenço, e então eu rumo para casa. 
    Cada passo que eu dou parece tão óbvio, como se estar certo de que é manhã ou tarde. Você não sabe explicar porque exatamente essa ideia é tão fixa na cabeça, você nasceu, cresceu, te ensinaram assim. Ao longo disso, sempre, você sabe quando é manhã ou tarde. Assim como eu sei quando e para onde devo ir e simplesmente vou. Hoje é para casa, como tem sido ha muito tempo. 
    Uma hora ou outra você acorda e é de manhã, sol forte, sol lindo, sol socando sua cara amassada de sono e você deseja que ainda fosse noite, que ainda pudesse dormir mais um pouco. Não, mas é de manhã. Acorda. Acorda. A ideia é insistente, não tem como fugir.
    Um passo a mais e eu desejo fazer a direção contrária, mas não. Não, porque não é para onde eu tenho que ir e eu não tenho outro lugar para estar agora. Para casa.
    A ideia é insistente. 
    De repente eu quero reclamar de tudo, eu quero falar mal do cabelo de alguém, eu quero chutar o poste, derrubar o latão de lixo e falar um palavrão na cara de alguém. Infantil, sem graça, sem motivo, eu quero reclamar. Mas eu não tenho do que reclamar, eu tenho o melhor emprego do mundo, eu tenho casa, família, livros e musica, eu tenho uma vida e ela não é ruim. Mas mesmo assim, eu quero reclamar.
    Porque eu quero me livrar dessa sensação densa, grudenta, essa coisa pesada que não desce e nem sai logo da garganta, fica ali entalada, uma sensação de se sentir só mesmo acompanhada. A sensação de não pertencer a pessoa nenhuma, a coisa nenhuma. E quando eu digo coisa eu não falo a matéria presente, não falo do trabalho, da casa e nem da rua, porque essas coisas assim são muito fáceis de se estar, você senta, abre um livro, opera ações, cumpre tarefas, caminha, é mecanizado. Eu me refiro ao estar, ao pertencer além do material, refiro-me a sensação de estar interligada com as pessoas e seus mundos a parte, de estar ao lado, de se conectar.
    Mas quanto mais eu tento mais a repulsão é forte, é como os átomos. Eu não me atraio. 
    E lá se foram mais passos, passos e passos, logo ali na frente é a minha casa, veja. Eu entrarei, tomarei café e ficarei ali, pertencendo. Até que depois de amanhã eu volte a me sentir assim, sem pertencer. E isso não para, não termina. 
    "Aceitação é o primeiro passo", eu lembro. Mas não consigo aceitar.





Annabel Laurino 
   
   

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

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"[...] Viver é feito de instantes, e não vive quem hesita por muitos segundos, sob pena de colocar a perder tudo que não ganhou. O que poderia ser uma nova história, não passou da continuação de algum capítulo enrolado e chato. Então quem sabe um dia. Vou continuar esperando alguma coisa dos meus dias, rezando contra essa minha inércia. Os dias vão passar, mas não vou me esquecer de ainda querer escutar aquele riso.”

 Gabito Nunes 


Sentir é muito lento

Os olhos da ingrata que nunca nos beija, 
a luz de um corpo que apaga os caminhos,
 os seios submersos da sereia. 
Todas as velocidades e vacilos do coração que, de tão lento, 
quase pára; ou solta faísca e incendeia o horizonte.
De quantas maneiras se diz o desejo?



Cacaso 

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Quando você quis eu não quis
Quando eu quis você não quis
Pensando mal quase que fui
Feliz.



Cacaso