
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 3 de março de 2014
Sem Pertencer
Sete da noite. Horário de inverno novamente, coisa boa. Eu saio do trabalho e está quase escuro. É uma delicia, eu penso. Não por estar escuro, não pelo horário, é toda a atmosfera que engloba o tudo. É aquele quase breu, as luzes dos postes se acendendo, a livraria da qual eu saio (o meu trabalho, o melhor trabalho do mundo, para mim) com quase tudo apagado, final do dia, vem um vento pela rua, aquela chuva indecisa que não sabe cair e nem ficar, as pessoas abrindo seus guarda-chuva, empunho o meu aberto, firme na mão e me encolho dentro da jaqueta. É tudo tão rarefeito, especial, nostálgico.
Cada passo que eu dou agora é como um passo marcando algum número em milhão. Para onde vou? Para casa, eu penso. E talvez pudesse existir outro lugar para ir, dentre tantos! Mas não, eu vou para casa. A casa que me espera e que eu conheço, quente, amiga, cama familiar, meus livros, minha caneca favorita, cachorros e violão. Para casa. Cada passo que eu dou eu me perguntou, e se eu não fosse para casa? Não há outro lugar para ir, me convenço, e então eu rumo para casa.
Cada passo que eu dou parece tão óbvio, como se estar certo de que é manhã ou tarde. Você não sabe explicar porque exatamente essa ideia é tão fixa na cabeça, você nasceu, cresceu, te ensinaram assim. Ao longo disso, sempre, você sabe quando é manhã ou tarde. Assim como eu sei quando e para onde devo ir e simplesmente vou. Hoje é para casa, como tem sido ha muito tempo.
Uma hora ou outra você acorda e é de manhã, sol forte, sol lindo, sol socando sua cara amassada de sono e você deseja que ainda fosse noite, que ainda pudesse dormir mais um pouco. Não, mas é de manhã. Acorda. Acorda. A ideia é insistente, não tem como fugir.
Um passo a mais e eu desejo fazer a direção contrária, mas não. Não, porque não é para onde eu tenho que ir e eu não tenho outro lugar para estar agora. Para casa.
A ideia é insistente.
De repente eu quero reclamar de tudo, eu quero falar mal do cabelo de alguém, eu quero chutar o poste, derrubar o latão de lixo e falar um palavrão na cara de alguém. Infantil, sem graça, sem motivo, eu quero reclamar. Mas eu não tenho do que reclamar, eu tenho o melhor emprego do mundo, eu tenho casa, família, livros e musica, eu tenho uma vida e ela não é ruim. Mas mesmo assim, eu quero reclamar.
Porque eu quero me livrar dessa sensação densa, grudenta, essa coisa pesada que não desce e nem sai logo da garganta, fica ali entalada, uma sensação de se sentir só mesmo acompanhada. A sensação de não pertencer a pessoa nenhuma, a coisa nenhuma. E quando eu digo coisa eu não falo a matéria presente, não falo do trabalho, da casa e nem da rua, porque essas coisas assim são muito fáceis de se estar, você senta, abre um livro, opera ações, cumpre tarefas, caminha, é mecanizado. Eu me refiro ao estar, ao pertencer além do material, refiro-me a sensação de estar interligada com as pessoas e seus mundos a parte, de estar ao lado, de se conectar.
Mas quanto mais eu tento mais a repulsão é forte, é como os átomos. Eu não me atraio.
E lá se foram mais passos, passos e passos, logo ali na frente é a minha casa, veja. Eu entrarei, tomarei café e ficarei ali, pertencendo. Até que depois de amanhã eu volte a me sentir assim, sem pertencer. E isso não para, não termina.
"Aceitação é o primeiro passo", eu lembro. Mas não consigo aceitar.
Cada passo que eu dou agora é como um passo marcando algum número em milhão. Para onde vou? Para casa, eu penso. E talvez pudesse existir outro lugar para ir, dentre tantos! Mas não, eu vou para casa. A casa que me espera e que eu conheço, quente, amiga, cama familiar, meus livros, minha caneca favorita, cachorros e violão. Para casa. Cada passo que eu dou eu me perguntou, e se eu não fosse para casa? Não há outro lugar para ir, me convenço, e então eu rumo para casa.
Cada passo que eu dou parece tão óbvio, como se estar certo de que é manhã ou tarde. Você não sabe explicar porque exatamente essa ideia é tão fixa na cabeça, você nasceu, cresceu, te ensinaram assim. Ao longo disso, sempre, você sabe quando é manhã ou tarde. Assim como eu sei quando e para onde devo ir e simplesmente vou. Hoje é para casa, como tem sido ha muito tempo.
Uma hora ou outra você acorda e é de manhã, sol forte, sol lindo, sol socando sua cara amassada de sono e você deseja que ainda fosse noite, que ainda pudesse dormir mais um pouco. Não, mas é de manhã. Acorda. Acorda. A ideia é insistente, não tem como fugir.
Um passo a mais e eu desejo fazer a direção contrária, mas não. Não, porque não é para onde eu tenho que ir e eu não tenho outro lugar para estar agora. Para casa.
A ideia é insistente.
De repente eu quero reclamar de tudo, eu quero falar mal do cabelo de alguém, eu quero chutar o poste, derrubar o latão de lixo e falar um palavrão na cara de alguém. Infantil, sem graça, sem motivo, eu quero reclamar. Mas eu não tenho do que reclamar, eu tenho o melhor emprego do mundo, eu tenho casa, família, livros e musica, eu tenho uma vida e ela não é ruim. Mas mesmo assim, eu quero reclamar.
Porque eu quero me livrar dessa sensação densa, grudenta, essa coisa pesada que não desce e nem sai logo da garganta, fica ali entalada, uma sensação de se sentir só mesmo acompanhada. A sensação de não pertencer a pessoa nenhuma, a coisa nenhuma. E quando eu digo coisa eu não falo a matéria presente, não falo do trabalho, da casa e nem da rua, porque essas coisas assim são muito fáceis de se estar, você senta, abre um livro, opera ações, cumpre tarefas, caminha, é mecanizado. Eu me refiro ao estar, ao pertencer além do material, refiro-me a sensação de estar interligada com as pessoas e seus mundos a parte, de estar ao lado, de se conectar.
Mas quanto mais eu tento mais a repulsão é forte, é como os átomos. Eu não me atraio.
E lá se foram mais passos, passos e passos, logo ali na frente é a minha casa, veja. Eu entrarei, tomarei café e ficarei ali, pertencendo. Até que depois de amanhã eu volte a me sentir assim, sem pertencer. E isso não para, não termina.
"Aceitação é o primeiro passo", eu lembro. Mas não consigo aceitar.
Annabel Laurino
domingo, 2 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
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"[...] Viver é feito de instantes, e não vive quem hesita por muitos segundos, sob pena de colocar a perder tudo que não ganhou. O que poderia ser uma nova história, não passou da continuação de algum capítulo enrolado e chato. Então quem sabe um dia. Vou continuar esperando alguma coisa dos meus dias, rezando contra essa minha inércia. Os dias vão passar, mas não vou me esquecer de ainda querer escutar aquele riso.”
Gabito Nunes
Sentir é muito lento
Os olhos da ingrata que nunca nos beija,
a luz de um corpo que apaga os caminhos,
os seios submersos da sereia.
Todas as velocidades e vacilos do coração que, de tão lento,
quase pára; ou solta faísca e incendeia o horizonte.
De quantas maneiras se diz o desejo?
Cacaso
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
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"No que depender de mim (…) enquanto tiver saúde vou rolando até encontrar qualquer coisa (ou pessoa) tão fantástica que me dê vontade de ficar ali para sempre. Cá entre nós, se for só a morte, também não me importo nem um pouco."
Caio Fernando Abreu
oui, la marge de la vie
Sobretudo eu me sinto muito só. E isso faz parte, quase todos os dias, de uma rotina de caminhadas melancólicas e o fato de admitir isso para mim mesma. E caminho, claro, para todos os lugares durante o dia, arrastando comigo essa sensação. O que é um peso, obviamente. Todos os dias me convenço de que já estou farta de me sentir assim, sobretudo só.
Me perguntaram porque eu adoço o meu café e eu respondi 'somente quando a vida está amarga demais'. Tenho adoçado o meu café todos os dias ultimamente. Meio quilo de açúcar para cada caneca bem servida e me sirvo bem. Bem doce, quente, como a vida deveria ser. E não é.
O que me falta mesmo eu nem sei te dizer, talvez falte um pouco mais de mim em mim mesma, coisa e tal. Tem gente ai procurando Pilates, massagens terápicas para relaxar o corpo, ioga para tranquilizar a mente, e eu só queria um pouco mais de segurança humana, corpo quente, pra dividir o espaço junto comigo.
Então eu pensei, 'já basta, assim não dá, vamos mudar isso ai. Até porque meio quilo de açúcar para cada caneca que se tome é muito, e a vida não está fácil'.
Em um momento revolucionário, final do dia, me pego surpresa, tomando café num copo de isopor, sentada em frente ao posto de gasolina em uma rua caótica de carros. Penso, se eu não estivesse aqui, onde gostaria de estar? Não precisei pensar mais do que um segundo.
Prometi para mim mesma, eu vou para Paris.
É ambicioso, mas a ideia não é tão nova assim. Já faz muito tempo que esse sonho está guardado dentro de uma caixinha embaixo da cama, e de uma vez por todas a ambição e a vontade de fazer falaram mais alto. Vou me concentrar nisso, juntarei dinheiro, trabalharei como uma louca e no próximo verão, 'Paris, ai vou eu."
Segundo os estudos viajar faz bem, abre a alma. Pois bem, expandirei a minha alma tão longe que não haverá mais espaço para tanto sentimento de solidão. Abraçarei o corpo e a vida com o inesperado, farei acontecer. Porque uma coisa dessa vida a gente tem que levar, recordações. E eu quero me recordar de coisas que valham a pena, coisas que eu fiz acontecer, que eu busquei.
Abri meus braços tão largamente e me inclinei para alçar voo. E agora eu vou.
Me perguntaram porque eu adoço o meu café e eu respondi 'somente quando a vida está amarga demais'. Tenho adoçado o meu café todos os dias ultimamente. Meio quilo de açúcar para cada caneca bem servida e me sirvo bem. Bem doce, quente, como a vida deveria ser. E não é.
O que me falta mesmo eu nem sei te dizer, talvez falte um pouco mais de mim em mim mesma, coisa e tal. Tem gente ai procurando Pilates, massagens terápicas para relaxar o corpo, ioga para tranquilizar a mente, e eu só queria um pouco mais de segurança humana, corpo quente, pra dividir o espaço junto comigo.
Então eu pensei, 'já basta, assim não dá, vamos mudar isso ai. Até porque meio quilo de açúcar para cada caneca que se tome é muito, e a vida não está fácil'.
Em um momento revolucionário, final do dia, me pego surpresa, tomando café num copo de isopor, sentada em frente ao posto de gasolina em uma rua caótica de carros. Penso, se eu não estivesse aqui, onde gostaria de estar? Não precisei pensar mais do que um segundo.
Prometi para mim mesma, eu vou para Paris.
É ambicioso, mas a ideia não é tão nova assim. Já faz muito tempo que esse sonho está guardado dentro de uma caixinha embaixo da cama, e de uma vez por todas a ambição e a vontade de fazer falaram mais alto. Vou me concentrar nisso, juntarei dinheiro, trabalharei como uma louca e no próximo verão, 'Paris, ai vou eu."
Segundo os estudos viajar faz bem, abre a alma. Pois bem, expandirei a minha alma tão longe que não haverá mais espaço para tanto sentimento de solidão. Abraçarei o corpo e a vida com o inesperado, farei acontecer. Porque uma coisa dessa vida a gente tem que levar, recordações. E eu quero me recordar de coisas que valham a pena, coisas que eu fiz acontecer, que eu busquei.
Abri meus braços tão largamente e me inclinei para alçar voo. E agora eu vou.
Annabel Laurino
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
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Queria lembrar do dia em que a chuva caia fria e molhava os meus cabelos
E eu sem medo, caminhava pra te encontrar
Queria te falar o que ficou para ser dito
Mas eu não pude
Naquela sexta feira 15 (por que não?)
Eu queria ter dito que eu fui mais rápido que o tempo
Que eu vi dois sóis beijarem as estrelas
E no espaço-tempo eu nos reencontrei
Roubei uma foto sua e colei cravada no meu espelho
No tempo presente, agora, eu não te esquecerei
Mas já passou, já foi
O relógio da cozinha só me diz que ainda é cedo
A musica do Renato me diz que ainda é cedo
Mas eu só enxergo desespero no quão cedo é
Para te encontrar, tomar um café
Despir teu corpo quente das tuas roupas desnecessárias
beijar tua nuca, te fazer um cafuné
Dizer assim, calado, que o tempo é rápido
Mas que eu sou mais, já que eu te roubei pra mim
Que te colei assim, cravado no meu espelho
Tua pele em mim
Eu disse assim
Meu bem,
Te gravei em mim
Annabel Laurino
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