sábado, 4 de maio de 2013

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    "Olhe, não fique assim, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai aguentar mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai aguentar mas aguenta as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás.Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traqueia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo - é difícil de acreditar, eu sei - vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o único jeito de deixá-la pra trás é continuar andando. Você vai ser feliz. Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar."




Caio Fernando Abreu


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sexta-feira, 3 de maio de 2013

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 E talvez seja isso então. Talvez seja assim mesmo. Somos nós os solitários que colorimos o mundo para aqueles que sabem viver. 



Annabel Laurino

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Winter Lady

   Sei que você sabe que eu começarei falando que está chovendo lá fora e eu estou aqui novamente em mais um dia chegando ao fim junto com a rapidez que esfria o meu café preto do meu lado. Sei que você sabe exatamente o que eu penso enquanto olho para um lugar qualquer através das janelas e fico suspirando devagarzinho enquanto ouço aquela musica que fala de um ultimo beijo. 
   Eu não posso evitar. É toda essa energia que fica no ar, essa atmosfera compressora, nostálgica e etc, você sabe, aquela minha inclinação para ser poética, eu simplesmente não consigo evitar. São essas tardes que escurecem rápido, as filas nas praças para pegar o ônibus, o cheiro do café com o frio assomando lá fora e a chuva caindo fraca, as pessoas e suas roupas novas para a estação que chega. Tudo isso toca, sabe, toca que nem uma musica lenta.
   Mas eu estou tentando não ser mais nostálgica, e eu sei, é quase impossível dando-se minha natureza por si já conhecida, mas eu tenho tentado. Nos últimos dias provei de um sabor antigo e que eu nem lembrava mais, o da solidão. Pela primeira vez depois de muito tempo eu fiquei completamente só comigo mesma e você não vai acreditar, mas eu me senti feliz depois que o susto foi embora. Porque claro que teve um susto, foi como se eu fosse jogada numa piscina de água fria, de repente todas aquelas relações sendo cortadas sem quase nenhuma explicação que me confortasse. E nada e nada. Foi um susto daqueles. Dormi mal durante algumas noites e em outras eu fiquei completamente acordada tentando entender o que tinha acontecido.  
    Não que eu entenda completamente agora. Na verdade eu arrisco dizer que o entendimento de tudo isso nunca virá ao meu alcance, e acho até melhor assim, já doeu uma vez e não quero que doa novamente, então prefiro que fique um silêncio absoluto sobre isso e que o caso de-se como decretado. Você sabe, certas coisas é melhor não se saber. 
    Então depois que o drama mexicano passou, eu me acostumei, veja só. Criei em mim aquela antiga doçura de estar só consigo mesmo e gostar dessa sensação. Comecei a curtir cada segundo novo e que antes eram desperdiçados em vão, comecei a amar essa sensação renovada que não veio com sol forte e nem tempo de verão. Você sabe, eu sempre fui do contra então a minha fase renovada tem folhas secas e tempo frio com direito a chuva e cachecóis bonitos e cabelos esvoaçantes num vento gelado de final de tarde. Meu tempo renovado tem gosto de café com direito a novas descobertas que só o tempo irá dizer.
    Entendi que não valia a pena todo aquele drama, entendi que tudo passa porque tem que passar e é assim que sempre vai ser. É como eu disse, algumas coisas não servem para serem entendidas, servem apenas para você se conformar, porque é assim que é. E eu me conformei, com a falta de tudo que poderia simplesmente ter faltado, me conformei com tudo que aconteceu e deixou de ser e então morreu. Mas isso não quer dizer que foi o fim, não, para mim pelo menos não. Foi apenas o meu impulso vital do que eu chamaria de regresso de mim mesma. 
    Como se eu acabasse de fazer uma viagem longa e cansativa, meus pés ainda doem mas é realmente ótimo ter voltado para casa finalmente. Para a minha casa, que é aqui onde eu realmente estou agora, dentro de mim mesma, porque ainda não tenho um outro lar para o qual eu possa me esconder, eu ainda não encontrei a minha outra casa além de mim mesma. Mas não importa. Não importa que eu esteja absolutamente só e que meu coração simplesmente se negue a confiar novamente até mesmo na sombra de uma árvore ou num projeto de luz que se encaminhe adiante, não importa porque eu finalmente reaprendi a respirar sem tubo de oxigênio auxiliar, mesmo que seja doloroso as vezes, é necessário sobretudo.
    Regressar é sempre bom e sentir as cobertas macias da minha cama me confortam toda noite, porque mesmo com as marcas que eu fiquei depois que tudo aconteceu, eu sei que toda manhã quando o sol fustigar na minha cara desmantelada de sono será um dia a mais, um dia a mais que eu estarei esquecendo, um dia a mais que eu estarei ficando melhor, um dia a mais que tudo isso estará ficando para trás e as feridas cicatrizando. Até que um dia eu esteja realmente pronta para respirar fundo, quem sabe num inverno adiante, quem sabe nesse mesmo, com chuva ainda, e olharei para fora da janela, você saberá o que eu estarei pensando, você sempre saberá. Soltarei um suspiro, dessa vez de satisfação e pensarei com meus botões que 'sim, eu estou pronta para outra até mais adiante ou agora. Eu estou pronta.". E esse dia, você sabe, vai chegar. 





Annabel Laurino


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“Sou um ser do tipo sanguíneo que oscila muito. Tenho momentos de extrema alegria e momentos de profunda depressão. Não obedeço a uma agenda: hoje vou sentir isso, amanhã vou sentir aquilo. Reajo aos acontecimentos à medida em que o ambiente reage sobre mim. Mas como sou hipersensível, as coisas têm às vezes um valor que a maioria das pessoas acham ridículo. Mas eu sou assim mesmo. Por exemplo, às vezes fico furiosa com uma pessoa cujo problema talvez, você contornasse com um simples puxão e orelha. Ao mesmo tempo, tomei agora consciência de que essa não é uma atitude lógica e estou procurando me reestruturar.”



- Elis Regina em entrevista a Clarice Lispector

quarta-feira, 1 de maio de 2013

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"É estranho quando as coisas simplesmente têm de terminar. É o estágio onde todos os sentimentos já evoluíram para um nada. É o nada que você optou para parar de sentir dor. No início você briga, chora, faz drama mexicano. Então percebe que é cansativo demais manter esse jeito de levar as coisas. Acostuma-se… Não que pare de doer, mas que cai no seu entendimento que às vezes perdemos algo e não há solução. No fim você coloca um sorriso no rosto e finge que é sincero, até que a vida o faça realmente ser. Talvez os amores eternos sejam amenos e os intensos, passageiros. É isso."


Caio Fernando Abreu

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terça-feira, 30 de abril de 2013

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Lost but now I am found
I can see but once I was blind
I was so confused as a little child
Tried to take what I could get
Scared that I couldn’t find
All the answers, honey


          Born To Die

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sensível

    Eu não queria parecer assim tão frágil. Fico dizendo para mim mesma o tempo inteiro "seja forte, empine o queixo, seja forte", mas ando assim, meio sensível ao menor dos toques e quando percebo o risco de um tom de voz elevado ou um movimento brusco que possa se quer me ferir eu corro para dentro da minha toca, escondo-me, porque já doeu tanto e as minhas marcas de guerra ainda continuam expostas, incuráveis. 
    Quase como se eu não quisesse mais me dar ao luxo de mais alguns arranhões. Me deixaram como um gato arisco, fico com os meus olhos enormes de raposa astuta observando a minha volta e com o menor dos gestos de risco eu me escondo. Porque já doeu demais. 
    Tenho chorado por qualquer coisa. Isso não me orgulha e nem faz de mim uma pessoa melhor, pelo contrário, eu me sinto fraca por isso. Mas as vezes dói tanto essa solidão amarga com gosto ruim no fundo da boca. Leio um trecho bonito e choro, trago aquilo para dentro de mim como se alimentasse a alma, mas não alimenta. E choro como se chorasse a mesma dor de Caio Fernando Abreu ou Clarisse Lispector, como se de repente eu sentisse tudo e mais um pouco do que já foi escrito. Escuto uma musica e choro, porque fala tanto de mim e de repente eu só queria um abraço para confortar forte mas é só a musica que fala  então eu choro por um tempo e depois que passa parece que fiquei mais leve. Só que eu não sei se fico, é como um ciclo. Volta e meia vejo um filme e choro, porque acho lindo algumas coisas que todos parecem ter esquecido tão de repente, abruptamente. 
    Eu não queria mais ser assim, sensível. Mas estou e sou. Sinto-me como uma rosa obrigada a fechar-se depois de ter florescido. Como você obrigada uma rosa a desflorescer? Ande logo, feche-se, ninguém vai olhar para você, ninguém irá achar bonita essa sua cor rubra e suas pétalas macias de nada valem, feche-se e esqueça. 
    Mas não consigo mais. Por isso ando reprimindo qualquer interação com o mundo exterior. Leu muito, ouço musica, sento na janela, escrevo, falo com um amigo pelo telefone e depois choro baixinho quando a noite cai. Porque o mundo as vezes fica cinza e ninguém percebe, tem dias que tudo é lindo e também ninguém percebe. 
    Acho que um abraço agora me colocaria em prantos e talvez eu me desmanchasse em choros novamente. Por isso também ando dispensando abraços. Ninguém entenderia isso tudo e por isso eu me calo. 
    Um casal apaixonado, um frase profunda, uma melodia gostosa de ouvir, tudo isso me emociona. Acho que não conseguiria mais ser aquela pessoa fria e calculista de antes, que não pensava nos outros e não tinha medo de arriscar qualquer passo involuntário no escuro, que se atiraria no mar revolto sem medo e que partiria qualquer hora sem mágoas ou saudade no peito. Desconfio que essa pessoa já não existe mais dentro de mim, porque ando tão perspectiva ao mundo a minha volta, e entendo tudo e compreendo e não consigo mais julgar. De repente sinto-me tão frágil e como se essa minha humildade toda tivesse criado em mim uma fome imensa, a de ser compreendida também.



Annabel Laurino