sábado, 27 de outubro de 2012

Molejo


    Vou te confessar uma coisa, ando com muita preguiça. Não, pera ai, não é preguiça de viver, de pegar o controle da TV que ta do outro lado da sala, de secar o cabelo, de levar o copo pra pia, de sair com o cachorro ou até mesmo preguiça de fazer literalmente tudo. É preguiça social mesmo.
    To cheia de ter que ficar espezinhando todas as informações mentais que passam no meu cérebro e entregar de bandeja para os outros, por que assim fica mais fácil de me entender, da menos trabalho, não precisa pensar.
    Oh que triste, assim são os homens. Nunca explicaram pra eles que mulher gosta de ser surpreendida? Ok, então lá vai. Eu gosto de ser surpreendida. De ser entendida sem ter que me explicar, de ser observada sem perceber, de receber mimos sem nem ter dado a intenção de que os queria.
    Não tem nada mais gostoso do que você receber de alguém uma surpresinha nem que seja, um programa a dois todo pronto sem nem ter um dedo seu no meio do cronograma, um agrado, um afago, uma ligação feita fora de hora sem a intenção de falar nada além de “precisava dizer que te amo’.
    As vezes eu sou muito dura com as coisas, mas dentro de mim mora uma velha e dengosa romântica das mais antigas. Daquelas pessoas que escrevem cartas, acordam com café da manhã na cama, cafuné com beijinho, presente embaixo do travesseiro depois que acorda, ligação pela manhã, flores e cartões sem motivo, data ou comemoração.
    Acho que deixa a vida mais bonita, mais cheirosa, mais brilhosa. Da a sensação de que tem sempre algo novo e assim, nada se desbota. É muito triste quando as relações passam a fatigar com mensagens eletrônicas de má vontade e discussões onde um pretende do outro o que aquele nunca dá.
    Não nasci para sentar e esperar atitudes, eu gosto de tudo pronto. Principalmente quando minha urgência por coisas bonitas é uma fome que não cessa nem em dias de muito frio. Tenho preguiça de me explicar, de dizer tantas e tantas vezes o que eu espero. Na verdade, é mais como se eu quisesse que você começasse a ler nas entrelinhas, nos meus olhos, nas palavras que eu não falo, no que eu não mostro, no que eu escondo. Só para então, talvez, alguém decifrar o segredo por trás dos meus silêncios.



Annabel Laurino

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Avalanche


    Eu não sei o que me feriu mais, a sua indiferença ou a facada no estomago ao ver tudo ruir ladeira a baixo, diante dos meus olhos. Ambas as coisas desconexas, mas me machucaram frivolamente, tudo com uma pontinha de minha culpa.
    Nunca aprendi a lidar com decepção, com desespero, com coisas quebradas e relacionamentos estranhos, nunca entendi o fracasso embora tenha fracassado um milhão de vezes. Então eu sentei aqui e comecei a fazer o que eu sei fazer melhor nesse mundo e o que muitos dizem que não me levará a nada, escrever.
    Comecei a escrever coisas desconexas mesmo, tudo o reflexo de coisas presas e entaladas no peito. Mas não saiu nada, no começo foi a destruição do quadro mais feio e mal pintado que já se viu e depois, ficou pior. Eu respirei fundo, tomei um gole de café e continuei sentada, rabisquei no caderno, desenhei um gato de óculos, prendi o cabelo, escrevi umas mentiras esboçadas em frases e depois chorei.
    Não sei como consegui chorar, não foi um choro de verdade, não houve lágrimas. Foi só uns soluços abafados que eu fiquei ruminando enquanto mantinha o travesseiro afundado no peito.
    Pensei que esse ano tudo seria diferente, pensei que estava condunzindo minha própria vida mas as vezes bate um desespero de simplesmente não estar. Entende? É como se tivesse uma outra pessoa no controle de tudo isso decidindo as coisas por mim, e por incrível que pareça, parece que essa pessoa louca, esse psicopata idiota adora ver um drama na minha vida, uma história repetitiva e ultrapassada, ele simplesmente ama uma reprise.
    Vou te dizer que não ta fácil. Nunca fui de muitos amigos, nunca me encaixei de verdade. Eu sempre fui a estranha socada no fundo da sala olhando todo mundo com um ar de “quem são vocês e de onde saíram todos?”. Juro que já tentei entendê-los, mas são eles que não me entendem. Aos olhos vagos eu não passo de uma garota com a cara enfiada nos livros que escreve e é chata de morrer. Aos olhos vagos eu só sou mais um alguém meio assim, por ai.
    Eu queria que a nossa amizade tivesse durado, juro. É difícil encontrar pessoas que a gente se veja tanto, nem que seja em um pontinho aqui e ali, mas que a gente se veja. E eu me vi em você, em algumas nuances meio borradas, mas eu me vi, e foi tão bom até a gente começar a misturar tudo. Olha agora, que indiferentes, momentos estranhos  e deslocados, transbordando o nosso orgulho.
    Há também as outras coisas, que eu sempre abro mão quando está prestes a acontecer. É que eu ando tão triste, comigo, com tudo. Não faz mais sentido entender, eu sei. Mas eu sempre me deixo por vencida. Eu acho que não acredito mais em  mim em ninguém ou em qualquer coisa. Sem perspectivas a vida vira uma droga e eu ando completamente sem saber para onde ir, que rumo tomar. O que eu sei é que as coisas que eu faço e tudo que eu tenho que fazer não me dão prazer, e eu fico sentada olhando aquela gente chata, cada qual um molde idêntico da outra, aqueles gritos, aqueles berros, eu sei que não preciso estar ali todas as tardes, mas eu devo, e eu me sento, ouço aquelas informações serem despencadas em cima de mim, me encho de força, me encho de esperança, penso que se Einsten teve que aturar isso, se Jane Austen teve que aturar isso, se Van Gogh teve que aturar isso, então eu consigo.
    Mas não consigo. Eu queria muito conseguir, mas me desmotivei. To desmotivada. É uma vontade de não estar mais aqui, de nunca ter estado.
    Falando tudo isso, não resolve nada. Eu ainda ouço os pedaços de gelo da enorme avalanche ruir lá do alto, vindo ao meu alcance, vindo sobre mim. E não sei se terei forças para impedir, para segurá-la, não sei se encontrarei nos meus braços, os únicos braços que podem impedi-la, a força que preciso para manter tudo no seu devido lugar, intocável.



Annabel Laurino

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Repara bem no que não digo.

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"Eu sabia do seu amor porque nas noites que eu queria saltar do mundo, você me sossegava com os lábios na minha nuca gelada, misturando duas ou três palavras de abrigo. Vai ficar tudo bem. E ficava. Ou já estava. (…) só queria que você soubesse: eu amo você demais e foi preciso nada mais que cinco voltas ao redor do meu mundo pra perceber que não existe mais alguém capaz de me tocar com a ponta dos dedos como se de mim saísse música, sempre que meu corpo estremece de algum medo ridículo de que aquele amor quieto não fosse real."


Gabito Nunes

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

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Então, claro, você se acostuma. Obviamente ninguém é de ninguém, e eu não posso ter a posse sobre você e sobre todas as outras pessoas do mundo. As pessoas são livres, completamente livres, e o são mais ainda sobre circunstâncias que não as permitem ficar juntas. Elas voam sobre o paralelo do mundo em direções diferentes, se encontram, se reencontram. Para mim, agora, tudo bem, sinceramente. Uma hora a gente tem que se acostumar que não podemos ter tudo, todo mundo. Uma hora eu ia ter que entender que sobre todas as circunstâncias,  que não fomos feitos para estarmos juntos. Mas como eu disse, tudo bem. É uma daquelas fases que a gente sempre tira o coelho da cartola, sempre da um jeito de se divertir, de ser feliz. E para mim, ver seus sorrisos nas réstias de tardes colado nos lábios e seus olhos infantis criando risos na minha boca, lembrando da velha infância, ta tudo bem, tudo bem. Estamos todos muito bem.



Annabel Laurino

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Que a gente tenha: Astral bonito. Prece nos lábios. Saudade mansinha. Fé no futuro. Delicadeza nos gestos. Conversa que cura. Cotidiano enfeitado. Firmeza nos passos. Sonhos que salvam.

- Caio Fernando Abreu.

domingo, 21 de outubro de 2012

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"E então eu tocava as suas costas calculadamente com a ponta dos dedos e você se encolhia no colchão como uma criança e brincávamos de nada mais importa no mundo."

Lucas Simões



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Às vezes o que parece um descaminho na verdade é um caminho inaparente que conduz a outro caminho melhor. As vezes não. O que a gente pode fazer é dar crédito ou não à pessoa. Freqüentemente não vale a pena. Freqüentemente, vale. 


Caio Fernando Abreu

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Eu não tinha muito a oferecer, eu sei… Mas tudo o que eu tinha, era seu. 


 Caio Fernando Abreu

sábado, 20 de outubro de 2012

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“Eu sou desse tipo de silêncio, boca fechada e olhares cheios de intenções.”



Anita Lossi