Annabel Laurino
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
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É essa minha mania de mergulhar de cabeça nas coisas que me deixa tão pirada. Uma hora eu estou tão sozinha, quieta, esquecida, colocando uma massa de bolo no forno e esperando a massa crescer, esquematizando minha lista de estudos e ouvindo uma musica, bebendo um chá gelado de pantufas e pijama, e em outra hora eu estou nos braços de alguém, nadando num passado e me afogando num futuro que eu nem sei de onde veio, sendo acertada em cheio pelo inesperado presente. Faz sentido? Eu sei que não faz. Até agora não sei bem onde estou e como vim parar aqui. Não é ruim, essas situações loucas de que me coloco sempre. Da a impressão de que sou uma fugitiva, sempre em fuga de alguma coisa que me persegue e me faz correr para todos os lados e abrir todas as portas, ou uma caçadora de um tesouro escondido, vasculhando novas ilhas misteriosas. Não sei se é ruim, se mata, se engorda. Não faz sentido, não diminuiu, quem sabe, acrescenta. "Não sei se me levo ou se me acompanho." Sabe como é? Eu também não.
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"As coisas só começam a fluir, quando a gente permite que isso aconteça. Eu to confiando em mim de novo, me permitindo, porque eu sei que posso muito, mereço muito! É muito bom finalmente me dar essa segunda chance, depois de ter dado tantas pra quem nem valia à pena."
Tati Bernardi
Tati Bernardi
Reflexo
Sua queda foi não saber que o meu olho mágico não ficava na minha testa, nem na minha boca que te contava histórias para te distrair, ou nos meus ouvidos que ficavam atentos em cada delonga sua, de horas e virgulas e respostas afiadas, não perdendo nem um ponto que despencava no abismo dos teus lábios. Meu olho mágico que registrava tudo, até suas transformações de cores que se alternavam em dias, seu humor sempre nublado, sua felicidade sempre mista e mesclada, difundida em nostalgia, suas máscaras de sorrisos acompanhados de olhos tristes, tudo isso amor, tudo isso eu registrei na minha retina imperceptível, meus dois radares de alta voltagem e sensoriais. Tudo isso porque de alguma forma sua essência passou a ser refletida não mais nos meus olhos, mas em mim mesma, quase como um reflexo de espelho, uma imagem completamente familiar, intocável, mas ainda assim familiar, e você nem se quer percebeu. Sua queda foi essa, pensar que distraidamente se distraindo me distrairia pelo caminho distorcido que andavas. Alteração alguma eu poderia fazer para te transformar em uma peça ajustável e mais bonita, brilhante, finés. Mas eu reconhecia, dolorosamente te reconhecia. E não mais que ninguém, sabia quando os vincos da sua boca estavam para baixo e uma lágrima invisível despontava dos teus olhos, mesmo que tentasses esconder. Mesmos que tentasses se esconder.
Annabel Laurino
Mais uma crônica qualquer
Fiquei muito
irritada com você. De verdade. Eu quase senti que ia sair fora do corpo de
tanta raiva. Vontade era de socar você e sua cara de sono, sua língua grossa e
seus olhos desmantelados. Cansei. Chutei o pau da barraca.
Passei duas horas
me arrumando em frente ao espelho, arrumei o cabelo, pintei as unhas, coloquei
seu perfume preferido e tava com saudade! Olha só, eu, com saudade! Todas as
peripécias perfeitas de quem gostaria de ser notada e se importando um pouco
com a situação. E olhe o que você fez!
Você todo
desligado, me chega todo desfeito, despreparado, despreocupado. Garanto que nem
notou na minha felicidade cantante de quando te abri a porta, te mandei entrar,
com um ar meio diferente, alegre, entusiasmada por te ver, porque era domingo,
tinha sol e eu queria muito sair, pegar da tua mão e rir feito doidos como de
costume, porque isso sempre foi e seria ainda melhor em mais um domingo como
aquele. Só que você tava com cheiro de cerveja, descabelado, desarrumado,
tonto, perdido, com chiclete de menta para disfarçar a promessa assídua do que
não iria fazer e acabou fazendo, com os bolsos recheados de desculpas
esfarrapadas e perdidas de sempre.
Pensei em chorar
no meio daquela musica do Bon Jovi, sentada em frente ao computador pensando no
que te disser, mas eu não tinha mais nada pra dizer e mesmo o que eu acabei dizendo
foi tudo da boca pra fora, foi tudo tipo engasgo desengasgado. Não foram
palavras prontas ou pensadas. Eu fiquei mesmo foi triste, decepcionada. Nossa,
você foi tão cruel.
Já parou pra
pensar o quanto esse coração aqui era frio até você chegar? Eu nem se quer
sabia a diferença de uma borboleta marrom para uma folha enegrecida caindo de
uma árvore. Minha percepção aos detalhes era difusa. Você mudou tanta coisa. Me
trouxe tantas musicas, sons, cores, sabores e me mimou tanto. Faz aquele cafuné
gostoso, aquele café doce e aquece os pés de alguém como ninguém. O que foi que
houve rapaz? Não me diga que você é esse tipo de jogador confuso que quando ta
no final do Time, nos acréscimos do segundo tempo, pronto pro desempate da
vitória, ganhando na casa, você entrega o gol pro time adversário? É isso
mesmo?
Tinha desmarcado
todos meus compromissos na agenda pra te ver. E olha o que você faz. Acho que
assim não segue, sei lá. Já foram tantos ‘agora pode fluir, agora vai, o vento
sopra, a coisa firma’ que eu to desanimada demais. Desanimei. Desiludi. Coisa
mais chata você e sua áurea desorganizada, negra e cheia de mesmices. Já disse
que odeio gente molenga? Que não sabe se vai, se vem. Que fica se atirando nas
paredes, que anda meio que se empurrando pra frente, esperando alguém aparecer
para dar um sacodes e ajudar no ‘vamo lá!’. Já fui esse tipo de gente, que
parava com a maior paciência do mundo. Que te ajudei, que te dei os maiores
sacodes do Universo e que te disse as maiores delongas de uma vida inteira. Mas
hoje, hoje meu rapaz, não mais.
Fui. Já chega. Já
era. Deu. Acho que se você me ouviu direito eu disse muito bem, eu até recitei
um verso da querida Tati Bernardi do seu lado, enquanto você jogava e nem me
dava ouvidos, “Quando a gente se importa, ainda é um sentimento, ainda é alguma
coisa, raiva, ódio, essas coisas. Quando a gente não se importa mais, vira
apatia, indiferença.”.
Acho que é isso que
você quer de mim, minha total e completa indiferença, só para que eu pare então
de falar, lavar, esfregar paredes, fazer sinais de fogo pra te chamar a
atenção, eu e meu lado certo, correto, organizada e chata. Mas to nem ai, você
que é burro, você que me perde sempre e sempre, e por coisas tão banais que
você julga tão legal e cool e tal.
Tchau. Já fui. A segunda feira já começou, minha
sintonia desentronizada de você também. Um beijo.
Annabel Laurino.
sábado, 8 de setembro de 2012
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“A partir de hoje, só o que for muito, muito leve, bonito e fácil. A grande maioria desiste. Eu, só estou abrindo mão. Concordo contigo, também aconteceu comigo: o meu coração partiu. Para outro lugar.”
Gabito Nunes
Translúcida
Sou um espírito impaciente, por natureza sóbria e consciente.
Se você diz que chegara as dez, e se as dez e um ainda não tiver chego eu
estarei fechando as janelas, passando o trinco na porta, pelo lado de fora, e
tomando um rumo qualquer sem deixar bilhete grudado no batente. Sou criança,
mimada, manhosa, mas sei quebrar vidros, queimar fotos e me esquecer do passado
com um estalar de dedos, friamente calculável. Eu sei, eu tenho minhas manias,
beber café antes de dormir, ficar indecisa com qual leitura irei iniciar e
ficar cheteada por não me decidir, cheirar livros, falar sozinha, beber chá
depois do almoço, falar com os animais como se fossem gente, ouvir musica alta, comer doce antes do almoço ou da janta e pedir meus
momentos de solidão, para que eu possa desfrutar da minha leitura, ou da minha
escrita, que vezes me ferem agudas.
Em questão física,
eu sou quase imperceptível, mas sou macia como um lençol d’água, flexível e dobrável,
olhos, cabelo, boca, tal como você também tem. Dias eu acordo tão transparente
e dias eu acordo cinzenta, como um céu nublado cheio de nuvens carregadas de
tempestade.
Procurarei nos seus
braços um abraço de conforto e nas suas coxas um colo para que eu possa me
deitar e no seus ombros um ombro para que eu possa reconfortar meu rosto e
pedir alento, ou amor, ou carinho, tanto faz. Procurarei na tua boca um beijo,
mas não qualquer beijo, um beijo de verdade, que desperte sentidos, que acorde
da mesmice diária como uma injeção de ânimos.
Não acredito em
meio termo, mais ou menos é pior ainda. Não existe amor mais ou menos, carro
mais ou menos, casa mais ou menos, as coisas são ou não, de mais ou de menos,
mas são. É tudo ou nada. Não quero que você segure a minha mão se tem a intenção
de solta-la amanhã, você tem que segurar a minha mão acima da incerteza do
futuro, porque você quer segura-la e ponto. Não importa se você não pensa em
passar o resto dos seus dias comigo, mas que você quer passar o próximo momento
mais duradouro da sua vida ao meu lado.
Eu não vou te ligar
no meio da noite implorando para que salve a minha vida, porque eu descobri que
a única pessoa que pode salvar minha vida sou eu mesma, independente de alguém. E
também não irei mentir, eu não minto. Quase sempre, ou sempre, responderei uma
de suas perguntas com tanta sinceridade que te surpreenderás, engasgarás
magoado ou ferido pelo golpe no estomago que não esperavas e depois pensaras
que é melhor assim, no meio do vicio, do comício, da dor, do desespero, da
perda, dos olhos fatigados e das noites agourentas de madrugadas insandecidas,
pensarás que melhor mesmo é ter alguém que diga sim ou não e que te olhe dentro
desse teu olho marejado de saudade todas as coisas que ninguém ainda teve
coragem de te contar. E talvez, só talvez, essa seja uma das minhas, se não a
maior, qualidade. Não te escondo nada, firo, mas sou sincera e nua como a
verdade incontestável.
Annabel Laurino
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
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"Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem, entre todos vocês, estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia?"
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
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Voltei a escrever! Não vou parar nunca, por mais inútil que seja (e talvez não seja).
(Caio Fernando Abreu, carta a Nair Abreu)
Ensopados
Have You Ever Seen The Rain - Creedence
- Vai Ju, me deixa entrar! Por favor!
- Vai embora, vai embora!
- Jujuba, para com isso amor.
- Não me chama de jujuba!
- Amor...
- Nem de amor, Mauricio.
- Não me chama de Mauricio, Ju.
- Juliana! Meu nome é Juliana!
- Para com isso...
- Para você! Vai embora!
- Ta chovendo pra caramba Ju... Juliana, deixa eu entrar, to todo molhado.
- Pega um taxi.
Continuou a bater na porta, a porta de madeira grossa com uma janela longa e retangular no meio, conseguia vê-la do outro lado, as costas grudadas na porta, de certo escorando o corpo e empurrando a porta para que abafasse as batidas insistentes dele. Via sua camisa cor de rosa de botões encharcada.
A chuva ficou mais forte, cada vez mais densa, os pingos gelados ensopando-o, a valeta ao lado da calçada corria com pressa, para o final da rua. Transeuntes apressaram o passo, seguindo suas direções de final de dia.
- Ju...
Dessa vez ela não respondeu. Ouviu-a suspirar pesadamente, seu tamanho pareceu diminuir refletido pelo vidro, imaginou-a dobrando as pernas e escorregando cansada pelo chão.
- Vai Ju, vamos acabar com isso amor, abra a porta, me deixa entrar. Vamos lá pra cima, te faço um café quente, a gente toma um banho, conversa melhor.
Ela continuou a não responder. Estaria chorando? Bateu três vezes mais na porta dura e sentiu uma fincada na mão, olhou-a e estava vermelha, de tanto bater.
Um homem calvo e baixinho estava parado ao seu lado, usava um casaco pesado e preto e o olhava de esguelha. Quando o olhou, o homem disfarçou e pareceu balançar a cabeça para os lados, jogou um papel de bala na valeta e continuou olhando os carros como se esperasse algo, ou alguém.
- Que que foi?
- Que que foi o que? – indagou o homem calvo relativamente surpreso.
- Sei lá, vi você balançar a cabeça e tal, ta com problema? Estou incomodando?
- Não balancei a cabeça.
- Balançou sim, eu vi.
- E se tivesse balançado, e daí?
- E dai nada, tem a ver comigo.
- A cabeça é minha, balanço a hora que eu quiser.
Irritado, chutou a porta da qual não havia parado de bater desde que iniciara a discussão com o tal homem. Olhando através do vidro viu Juliana se surpreender dando um passo a frente, afastando-se da porta.
- Eu vi vocês dois vindo desde lá a esquina, vou te dizer, a moça tem razão em não te abrir a porta.
- Você não sabe de nada.
- Você fez ela chorar cara, nenhum homem que faça uma mulher chorar daquele jeito merece desculpas. E ela tem razão, você parece um viado.
- Eu não sou viado... Eu não fiz ela chorar... Olha quem é você afinal? Defensor das mulheres ou o que?
- Mauricio para de discutir!
- Então abre essa porta Ju!
- Eu ouvi ela diser que é pra você não chamar ela de Ju...
- Meu Deus! Cuida do seu problema ai, poluindo as ruas.
- O que você tem com isso, é algum defesor ambiental?
- E se fosse?
- Mas não é. Então eu jogo o lixo onde eu quiser.
- Então cuida da sua vida e vai embora!
- To indo, estou só esperando o taxi.
- Ju! Abre a porta!
- Se eu fosse ela não abria porta nenhuma pra você, e coisa mais, aliás.
Fingiu não ouvir e continuou as batidelas na porta, insistentemente.
O Homem deu de ombros e puxando a gola do casacão pra cima correu para o meio fio e entrou num taxi que passava abrindo a porta e sumindo lá dentro.
- Até que enfim. – suspirou Mauricio aliviado.
- Eu vou subir.
- Não Ju! Por nós! Eu fui um babaca, eu sei, mas abre a porta.
- Acabou, já chega.
- A gente ta tendo essa discussão através de uma porta, sacramento! Eu to encharcado! As pessoas tão me olhando, acham que eu sou louco Ju!
- E você é!
- Você também, sua louca!
- Você não me chamou de louca...
- Chamei sim, pirada, não me deixa entrar, eu não tenho culpa que eu não sei a diferença de azul para lilás e que eu não percebi que você cortou o cabelo! Droga.
- Tem culpa sim, ainda disse que gostou do vestido daquela loira.
- Era um vestido bonito.
- Não, não era!
- Era sim, pensei que ia ficar lindo em você.
- Conta outra Mauricio.
- Não me chama de Mauricio.
- Vai embora. Mauricio.
As gotas da chuva começaram a escorrer por dentro da boca enquanto a abria, como se estivesse embaixo de um chuveiro em alta potência. Fechou os olhos de cílios encharcados e tentou decidir se ia embora agora ou pedia para que abrisse a porta mais uma vez. Mas não soube, não saberia. Era difícil depois de tanto tempo e tantas brigas e seria por mais um longo tempo, não conseguia largar mão dela, assim, tão fácil. Mesmo que a situação não fosse fácil, que a chuva gotejasse na sua cabeça encharcada, que raios começassem a trovejar lá longe, o céu estivesse negro e que a mão doesse e o pé gotejasse pelo chute na porta. Era difícil simplesmente ir embora e esquecer de tudo, se trancar em casa e sobreviver com o “se ela ligar..”.
Não. Não posso ir embora assim.
‘Você foi um idiota’
Sim sim sim sim! Eu fui, eu sei, eu sou. Mas quem não é?
Quando levantou a cabeça não a viu parada através do vidro, como estava há dois minutos atrás. Teve vontade foi de gritar, de derrubar a porta como nos filmes e subir as escadas do prédio em três e três degraus e agarrá-la pelos braços como se fosse uma criança birrenta, que na verdade era.
Vou embora. Decidiu no engasgo de um choro que vinha lento e que não se lembrava como era chorar, não lembrava como era chorar desde que a conhecera, era difícil saber novamente agora.
Recomeçou a caminhada friamente, a passos tropengos, a sola dos calçados fazendo uma melodia estúpida enquanto grudavam nas lajotas da rua, chegou ao meio fio e estendeu a mão, esperando um taxi que dificilmente iria passar.
- Mauricio !
Olhou pra trás e lá estava ela. Os cabelos loiros platinados despenteados em um coque bagunçado feito de ultima hora, alguns fios caindo pelo rosto anguloso de boneca, o nariz vermelho e os olhos inchados. O pescoço comprido e branco, de pele macia que ele tanto amava. As bochechas coradas.
Não pensou. Para que pensaria? Caminhou feito um bêbado apressado em sua direção, a água nos calçados fazendo força para baixo, a cada passo.
- Juliana... – falou enquanto chegava perto, o coração desparatado no peito.
- É ju, jujuba, amor.
Agarrou-a pelos braços, subindo o degrau dos prédios, ela tinha cheiro de baunilha, café, doce de morango. Era ótimo estar do outro lado da porta agora.
Meu Deus pensou enquanto olhava aqueles olhos claros cor de sol e mel, o quanto me custaria ter ido embora, quantas noites, quantos dias eu iria passar sem dormir.
- Me desculpa ju, me perdoa vai.
- Shh, ta tudo bem. Vem, entra.
Entrou desajeitado, saindo da chuva que agora, ali dentro, parecia ainda mais pavorosa.
Ela pegou suas mãos e quando fez isso aproveitou, puxando-a para mais perto, abraçando-a até que a erguesse do chão, não queria mais largar. Tascou-lhe um beijo na boca pequena, um beijo longo, demorado, queria que todos os beijos fossem assim, daquele gosto e jeito. E era sempre assim depois das brigas, dos estranhamentos, sempre tão doidos, feridos, vadios de amor. Era preciso uma bagunça dessas para sentir falta do que tinham a cinco segundos atrás.
- Você ta todo encharcado.
- Então vamos subir.
- Para aquele café quente...
- E aquele banho...
Annabel Laurino
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Sei que to descabelada, vai não ri, é só um cabelo, um ninho
bagunçado, minhas ideias camufladas de sentimentalismo nervoso, mas e daí? Você
nunca ligou pra isso mesmo. Eu só queria que nesse dia nubladissimo que o sol
nem se quer veio dar a cara a tapa, o dia que o sol resolveu se esconder nas
nuvens densas e cinzentas sabe-se lá em que altitude acima de nossas cabeças
malucas, te queria aqui do lado, respirando o mesmo ar, olhando as mesmas
paredes, espiando a casa dos vizinhos e as arvores densas dos fundos da minha
casa, no meio dos meus livros e musicas, e cheiros costurados em lençóis, eu te
queria aqui sentado na minha cadeira puída verde para que eu sentasse no teu
colo e ajeitasse minha cabeça no teu ombro, descansando depois de uma maratona
de horas decorridas lambendo no relógio.
Mas mesmo nos dias cinzentos, por mais perfeitos que sejam, desejos são só desejos. Você já ta longe baibe, e eu também. Parece que o mundo lá fora te interessa muito mais do que a minha cabeleira bagunçada, minhas ideias confusas, meus discos arranhados e minhas musicas antigas, parece que nem mesmo minhas mãos frias podem te manter congelado sentado aqui por mais do que alguns minutos. E minutos, quem vive de minutos meu bem?
Mas mesmo nos dias cinzentos, por mais perfeitos que sejam, desejos são só desejos. Você já ta longe baibe, e eu também. Parece que o mundo lá fora te interessa muito mais do que a minha cabeleira bagunçada, minhas ideias confusas, meus discos arranhados e minhas musicas antigas, parece que nem mesmo minhas mãos frias podem te manter congelado sentado aqui por mais do que alguns minutos. E minutos, quem vive de minutos meu bem?
Annabel laurino
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