quarta-feira, 1 de agosto de 2012

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Eu gosto de tudo que aperta o laço no eterno, que me instiga, que me prende, e me busca em meus momentos de solidão, mesmo uma parte minha implorando em estar só. Eu adoro as mãos quentes de quem vem até a mim e segura minha mão, sem ser pedido. Que agarra forte meu corpo e ao mesmo tempo implora pela minha essência. Que não tem medo de se entregar, de jogar limpo. E isso, ultimamente, você tem feito muito bem.


Annabel Laurino


Desamparada


    Nada fazia mais sentido. E o grande mal começou a surtir um efeito contraditório e letárgico. Comecei a entrar em um cruel estado de indiferença, do não me importar. Trouxe muitas reviravoltas nesses últimos dias do que nos últimos anos. Comecei a sofrer por dentro e a escamar dores por fora. Talvez tenha sido a época mais dramática de toda essa vida e incrivelmente complicada. Mas com tudo isso me tornei muito simples. Quase nem choro mais. Fico quieta como um ramo de flores envelhecendo ao sol, respirando os últimos golfos de ar que ainda me restam e compreendendo a vida toda muito antes da hora.
    Talvez eu não saia dessa, sei lá. Ou talvez haja mesmo um final feliz nisso tudo, se é que existe essa de final feliz, mas deve ter uma luz no fim do túnel, um brilho, uma coisa que ilumine e acabe com essa situação toda.
    Não posso te contar o que é essa situação toda. Bem que eu queria, cuspir tudo para fora e chorar durante um longo tempo e te dizer com cara de choro e lágrimas úmidas e encharcadas o quanto suspeito que estou ficando louca, que tudo isso é demais para mim. Mas então eu estaria fazendo drama, e estaria deixando com que tudo saísse do controle, e te envolveria nessa minha névoa confusa. Prefiro ficar quieta, chorar e dizer todas essas coisas mas sozinha. Eu e eu somente, ninguém mais.
     Olhando esse sol forte depois de longas horas de chuvas, esses bichos rastejantes fugindo de suas tocas úmidas depois de tanta água, fico vendo esse sol muito forte entrar vivo pelo quarto e me sinto tão grata por poder estar aqui, somente aqui, respirando esse ar, vendo esse sol, e fingindo ser alguém qualquer com seus próprios problemas , não sentindo nada e sentindo muito.

Annabel laurino

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    "Minha vida não daria um romance. Ela é muito pequena. Mas é meio sem sentido ficar pensando em jeitos de escrever se ninguém nunca vai ler. Talvez eles me impeçam até mesmo de contar o que se passou. Mas há dias está tudo escuro e a luz da vela em cima da minha mesa não vai acordar ninguém."

 Caio Fernando Abreu

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Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio (…)
— Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 30 de julho de 2012

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Queria tanto fazer tudo diferente agora, mas não sei por onde começar.

domingo, 29 de julho de 2012

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Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido.  Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer te amo outra e outra vez. 

Caio Fernando Abreu

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Paul – Holly, estou apaixonado por você.
Holly – E daí?
Paul –E daí?! E daí muita coisa. Eu a amo. Você me pertence.
Holly – Não. As pessoas não se pertencem.
Paul – Claro que sim.
Holly – Ninguém vai me pôr em uma jaula.
Paul –Não quero colocá-la em uma jaula. Eu quero amá-la.
Holly – É a mesma coisa.
Paul – Não é não. Holly…
Holly – Não sou Holly. Não sou nem Lula Mae. Não sei quem eu sou. Sou como esse gato. Somos dois coitados sem nome. Não  pertencemos a ninguém e ninguém pertence a nós. Nós nem sequer pertecemos um ao outro
(…)
Paul –Sabe qual é o seu problema, Srta. Quem-quer-que-seja? Você é medrosa. Não tem coragem. Tem medo de encarar a realidade e dizer “A vida é um fato. As pessoas se apaixonam sim e pertencem umas às outras sim, porque esta é a única chance que têm de serem realmente felizes”. Você acha que é um espírito livre, selvagem e morre de medo de ser enjaulada. Bem, querida, você já está nessa jaula. Você mesma a construiu. E ela não fica em Tulip, Texas ou em  Somaliland. Ela está em qualquer lugar que você vá. Porque não importa para onde você corra, você sempre acaba trombando consigo mesma.




(Breakfast at Tiffany's - Bonequinha de Luxo)




Garoto lindo e sua pipa estimada


    Fico me perguntando por que você não foi embora ainda. Quer dizer, eu não quero que você vá. Francamente, eu quero que você fique. Sim, fique. Você sabe, eu gosto muito quando você está por perto. Me sinto leve, solta, desinibida, como se a vida fosse um punhado de pó colorido e seus bilhares de grãos desfacelando pelo ar, como se eu estivesse numa daquelas cenas de filmes antigos, como Bonequinha de Luxo, com Holly sentada na janela com um violão nos braços cantando para a Nova York lá embaixo.
    Fica vai. Quero estender minhas pernas sobre teu colo, tirar os sapatos e te permitir me tocar, se você quiser, então só então eu vou ver aquela sua face de menino tímido todo com cuidado para me fazer um simples carinho. E vou te pedir que encha a minha caneca de mais chá, e você vai levantar e vai dizer “Com certeza”. Sei que eu dou o maior trabalho, esse jeito de menina mimada com manias, trejeitos, frescurinhas, minha independência e auto-suficiência que irrita, mas você me atura. E eu não entendo como.
    Por que você não abandonou o barco ainda meu amigo? Quer dizer, o barco já tava furado quando você chegou, não tinha pé, tava inundando. Mas você todo louco não quis nem saber e começou a arremessar as mangas e tirar a água fora, tapar os buracos, aprumar as velas, dar sinal de comando, você que nunca tinha dado partido num barco antes. As vezes eu penso que você tem problemas de infância, sei lá. Vai ver eu sou para você uma pipa que quando pequeno você perdeu no céu e nunca mais conseguiu pegar, uma pipa estimada e diferente que só você dentre seus amiguinhos possuía, e agora você vê em mim essa bendita pipa que por um estranho motivo você não quer deixar fugir. E fica me segurando, me agarrando entre essas mãos grandes que são maiores que os meus pés. Aceitando os meus defeitos como se fossem normais, como se eu merecesse todos os seus cuidados, todo esse amor sem medidas.
   Ah eu sei, fui eu que disse que queria que você ficasse. E eu quero mesmo. Você me acostumou mal, não tenho culpa, ou tenho, sei lá. Eu só preciso te ligar, dizer que preciso muito, muito de ti, ou nem usar do muito, só do preciso e você já esta na minha porta com os bolsos cheios de boas palavras e de sua boa educação. Eu amo isso, acho que nem mais gosto de você, eu amo muito você. Mas não me peça nada, por favor. É sabe, não me peça aquela coisa séria que não vamos utilizar de nome. Ta tudo bem assim na verdade. Cargas leves por que somos muito pirados para qualquer loucura séria. Mas eu quero te pedir, muitas coisas aliás. Sim eu tenho uma lista de todas as coisas que eu quero te pedir. São todas boas e bobas, mas são coisas. E eu não quero ouvir um não. Eu quero seu sim, sims. E sei que você me daria qualquer coisa.
    Lá vem eu e meu lado mimada que você só piorou depois que chegou aqui. Mas não posso fazer nada. A não ser te telefonar daqui a pouco e te contar que comprei uma meia calça nova, que eu to cheirosa, que o domingo ta lindo e tem uma penca de coisas que podíamos fazer e que eu to te esperando. Sei que no começo da frase você já estaria abrindo a porta e vindo pra cá. Sabemos.
    Garoto lindo, já disse como eu amo seu sorriso ultimamente?


Annabel Laurino

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Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. 






 Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quando eu deixei Anna


    Ficou parado no meio do corredor durante aqueles longos segundos pesarosos. Não lembrava como tinha ido parar ali. As pessoas passavam som suas bagagens cheias de seus vícios consumistas. Seu corpo não se mexia. Seus pés retesados no chão, paralisados por todo o peso árduo de seu corpo, como uma areia úmida e densa, quase como um cimento solidificado. Estava paralisado. As únicas coisas que se moviam para ele eram seus pensamentos dentro de si, como bilhares de flechas, setas contorcidas e confusas, se direcionando para todos os lugares da mente.
    Forçou um movimento. Seus olhos se ergueram. Viu uma placa amarela acima de sua cabeça, era grande, amarelo forte. O que tinha escrito nela? Forçou a vista, mas não fazia sentido, as letras não se uniam. Abaixou um tanto os olhos e havia um amontoado de batatas fritas em diversos sabores empilhadas organizadamente a sua frente. Ergueu novamente os olhos e conseguiu ler, estavam na promoção. O slogan da marca remetia que o produto era saborissíssimo e que o consumidor não se arrependeria de sua escolha. Mas ele sabia que se arrependeria sim, que assim que comprasse as benditas batatas e abrisse o pacote só para então colocar a primeira dita cuja batata oleosa, escamando em seu óleo industrial e a arremessasse dentro da boca daria por si do quão horrível eram, mesmo que valessem quase nada.
    Sentia fome. Ali parado, em meio a um supermercado cheio, era sábado, tarde de sábado. As pessoas sempre resolvem fazer compras aos sábados à tarde, quando saem dos seus serviços e precisam saber o que irão fazer de almoço no domingo e então se abastecer de compras, comida e suprimentos para uma semana toda.
    Uma velha, muito velha, de pantufas e cabelos grisalhos passou por ele com seu carrinho do supermercado raspando rente ao seu corpo fazendo-o balançar para frente e depois para trás. A velha continuou o rumo, ele apressou-se em manter o equilíbrio. Olhou suas costas virando o corredor adiante e sentiu todo o ódio que podia sentir jorrando como coisa velha e suja. Teve vontade de gritar com a velha e suas pantufas patéticas. Mas não o fez. Voltou sua atenção para as batatas. Há quanto tempo estava ali? E se comprasse um pacote e provasse uma e fossem boas? Se caso comprasse o dinheiro que tinha daria para uma garrafa de Gatorade? Que horas eram?
    Mas a pergunta essencial de por que estava ali, aquela hora da tarde, de cabelo oleoso, pele escamando e oleiras roxas não parava de pairar em sua mente desconjunta. A mais importante.
     Desistiu das batatas. Danem-se as batatas. Começou a caminhar para fora do supermercado lotado, todos aqueles corpos cheios de si, seguindo todas aquelas direções desordenadas e confusas, será que toda essa gente percebe o quão idiota são, com suas vidinhas cheias de afazeres, seus relacionamentos arrumadinhos, questionou-se.
   Quando chegou a porta, o sol forte golpeou seu rosto e sentiu arder todo aquele calor em sua pele tão branca. Semicerrou os olhos. Que peso duro que sentia dentro de si. A noite passada encheu sua mente com um golpe violento.
     Era tarde da noite. Tinha se atrasado. Não queria ter se atrasado. Em recompensa trazia embaixo do braço a comida chinesa favorita dela. Podia dar uma desculpa qualquer. Era sexta feira. Não era verdade que a cafeteria tinha estado lotada o dia todo. Tinha dado muito movimento. Mas não tinha estado lá o dia todo. Então não seria verdade. Daria uma desculpa. Uma convincente.
    Abriu a porta. Parou de chofre no marco da porta, a mão congelada na maçaneta da porta assim como seu cérebro paralisado tentando absorver o que via. O sofá da sala era apinhado de roupas, roupas e roupas. Sua camisa do flamengo, seu boné do clube do futebol, sua jaqueta de couro preta, suas calças jeans rasgadas, seus tênis de esporte, tudo estava jogado pelo apartamento. Tudo era uma confusão. Parado na porta com a chave de chaveiro estranho, e como odiava aquele chaveiro estranho com um maldito porco que devia ser rosa, mas com o passar do tempo e de mão e mão o porco que seria rosa mas agora preto e sujo, pendido pela sua mão.
      Não, pensou. Como se um freio tivesse sido acionado na sua mente. Não. Não. Não pode ser.
      Ela estava sentada na poltrona ao lado da TV. A TV que não ligava e que ele já havia prometido milhares de vezes que daria um jeito.
      O corpo acentuado vestindo um vestido de algodão azul bebê, muito transparente, a linha curva dos seios, parecia que não usava nada por baixo, ele percebeu, os cabelos molhados, segurava o queixo com a mão olhando para fora da janela pensando, ou chorando, mas quieta. Era uma quietude gritante aquela.
     Soltou a comida chinesa na mesa de entrada. Como um robô. Como se fosse um sonho. Não teve coragem de acender a luz, de dizer oi, nem mesmo de largar o chaveiro imundo para não provocar ruído algum. Mas não se conteve.
   - Anna, o que aconteceu?
    Silêncio.
    Ela se levantou, calma e lentamente e ficou parada diante da janela, com os pés fundos no chão, no tapete chinês ao lado do abajur de conchas. Ele estava certo, não vestia nada por baixo do vestido azul bebê. Como se tivesse saído de baixo do chuveiro e apenas colocado o vestido, nada mais. Os cabelos negros pendiam sobre as costas delgadas a brancas.
    - Anna...
     Ela não respondeu. Continuava quieta como uma folha seca.
    Começou a caminhar pelo apartamento. Tudo revirado do avesso. Suas roupas, suas coisas, o banheiro era uma desordem de toalhas úmidas, desodorantes, pasta de dentes, escovas, cremes, espalhados pelo chão.
    - Anna o que está havendo?
     Mas Anna não se mexeu, Anna continuava a não se mexer. Então ele chegou bem perto, se aproximando devagar e lhe tocou com o dedo, como uma criança curiosa cutuca um objeto estranho com muito cuidado, para ter certeza que ele não vai lhe machucar, lhe ferir.
   - Anna, me responde. Anna, amor, me responde.
    Seus olhos negros eram tão negros, brilhavam pela luz da cidade que entrava sorrateiramente.
    Ela abriu os lábios de botão agora muito cinzas e secos, abriu lentamente como se os descolasse um do outro. Ficou com eles entreabertos, os dentes curvos e brancos transparecendo na linha dos lábios. Os olhos fitando lá longe algo sem importância.
    - Vai embora. – conseguiu dizer – Pega suas coisas, vai embora.
     Mas ele não entendeu. Ou entendeu e não queria entender. Anna se afastou, a mão dele pendeu no ar como coisa morta e perdida. Ele entendia sim, lá no fundo da memória, lá no riozinho perdido da retina, ele entendia completamente.
     Foi só um caso, duas semanas. Apenas duas semanas. Duas semanas confusas em que seu corpo não se satisfazia de nada, e não era água, não era comida, não era bebidas, festas, futebol com os amigos, um xaveco no bar, uma curtida com uma puta qualquer, ele tinha que ter um caso. E hoje tinha sido o ultimo dia. Tinha se prometido que hoje iria ser o ultimo dia. Droga. Tinha comprado comida chinesa. Esperava chegar em casa e ver aquele filme com o Tom Hanks que Anna gostava. Ele não gostava. Mas era o mínimo. Droga. Tinha sido a ultima vez.
     - Anna... – Não sabia como começar. Se falasse que sabia do que ela estava sabendo conseqüentemente ele admitira o erro. O maldito erro.
    - Eu sei de tudo. Eu to sabendo Fernando, mas vai lá, pega suas coisas, rápido, vai embora, sai daqui, vai pra casa daquela... Vai embora.
    Quando olhou para ele seus olhos ardiam, ele não pode não dar um passo para trás. Suas palavras eram tão frias, tão duras. Então resolveu se calar, porque sentiu foi a vontade de se jogar no chão por baixo daqueles olhos negros e tão cheios de desgosto, de decepção. Ele podia ver todas as viagens, as conquistas deles juntos sendo jogadas pela janela ao seu lado, cada uma, uma a uma, e logo tudo que eles fariam dali a um ano. Tudo por um casinho, por sua sede detestável e suja.
    Caminhou com as mãos na cabeça até o quarto e pegou uma mochila velha preta de lona empoeirada, começou a juntar tudo. Suas camisas, suas calças, seus tênis, seus... Não, não pegaria mais nada. E as fotos? Os CDS de musica, deveria pegar? Que desgraçado, cachorro, imbecil, um relacionamento de dois anos e ele preocupado com os CDS e as fotos.
    Pegou o essencial. Saiu para a sala, pegando o resto. Anna tinha sumido.
    Sentou-se no banco próximo a porta. Começou a se desesperar. Era o fim. Tinha acabado. Anna não ia lhe perdoar.
    De repente ela apareceu, os cabelos molhados, o rosto longo com o nariz fino e as sardas sobre as bochechas fazendo uma envergadura sexy pelo rosto de pele macia e branca. Teve vontade de pular sobre a mesa da sala e sair jogando tudo longe, alcançá-la e agarrá-la nos braços, apertar aqueles braços, sentir aquele seu cheiro, então tudo voltaria ao normal, eles ririam, foi só um caso, sentariam na varanda, a noite tava linda lá fora, Anna faria aquele seu chá de flores e frutas que fazia tão bem, e então sentariam sobre o sol, Anna com sua pele transparente, com uma flor no cabelo servindo de presilha, seus chinelos coloridos e seus vestidos hippie com Féris, o gato, em seu colo para que alisasse seu pelo cinza desbotado em meio ao seu ronronar.
   - Anna. – pediu. Era um chamado, um pedido, uma súplica.
   Ela não respondeu, sentou-se no sofá agora vazio, isento de todas aquelas tralhas que agora estavam todas amontoadas dentro de suas malas na porta. A coluna ereta. Não se mexia. Cruzou as pernas, acendeu um cigarro, um cigarro com a baga vermelha, meu Deus, teve vontade de se atirar sobre ela e arrancar aquilo de suas mãos, estava louca, sabia que era para irritá-lo. Então soprou a fumaça, lentamente, o cheiro enjoou seu estomago, entranhou nas suas vísceras e ele teve nojo, da fumaça, de Anna apática de sua presença, nojo das suas coisas nas malas, do caso de duas semanas. Era um nojo inexplicável, uma vontade parecida com a de não fazer mais nada, enfiar a cabeça dentro da terra e se esconder.
    Não tinha mais o que dizer. Se dissesse iria chorar. Iria gritar. Ela não o escutaria. Conhecia Anna. Ele podia fazer uma cena se quisesse. Fingir um ataque cardíaco no meio da sala e ela ficaria ali, sentada, fumando aquele maldito cigarro, mergulhada no seu ódio.
   Começou a sair do apartamento, fechou a porta atrás de si todo sem jeito, as bolsas de roupas pesando mais do que na verdade pesavam.
    Sem rumo, foi para a casa do amigo, o Pedro, que morava no centro. Ficou no sofá. Não dormiu. O Pedro só falava de pegar umas garotas loucas que moravam a duas quadras, coisas nojentas, seu cérebro não assimilava. Onde estava com a cabeça? Por que teria feito aquilo?
     Então Pedro trouxe as garotas loucas para casa. Duas loiras, uma alta com cara da Zooey Deschanel e a outra com corpo de atlética com luzes prateadas e voz de menina de quinze. Não tava com paciência. A garota com a voz de menina de quinze tentou conversar. Não respondeu. Ficou sentado no sofá preocupado em ver o programa do Jô Soares e segurar o telefone como se Anna fosse ligar.
     Até que a garota com voz de quinze desistiu e foi para o quarto de Pedro se sumindo lá dentro com o próprio e a cópia da Zooey Deschanel.
     Quando o primeiro raio de sol de sábado brilhou lá fora, jorrando-se sobre os prédios das ruas, vestiu uma calça qualquer, e saiu sem rumo. Pedro não estava em casa, não o vira sair. Não vira ninguém sair.
     Desde que Anna me deixou, esse seria seu novo monologo que deveria escrever, pensava enquanto descia as ruas sem rumo. Mas Anna não havia o deixado. Anna havia o mandado embora. Com todas as suas coisas. Ou ele que se mandou embora? Era isso então que queria? Se ver livre? Mas livre de que?
    Teve uma saudade imensa de Anna, de seus vestidos de algodão, dos seus pés gelados, das suas sardas, seus chás, suas musicas indianas, seus amigos gays, suas unhas vermelhas, sua pinta minúscula sobre a omoplata, seus olhos sérios e distantes, sua voz ronronando no seu ouvido no domingo de manhã implorando que buscasse o jornal. A forma como lia o jornal com os óculos pendido na ponte do nariz, as mãos de boneca segurando firme o papel em tom sério e compenetrado.
    Horas depois, sem rumo foi no supermercado que encontrou sua fuga.
    Fora lá, naquele supermercado fedorento da cidade que conhecera Anna. Ou que reencontrara Anna. Depois de seis meses que não se viam desde uma festa estranha na casa de um cara também estranho na praia, no verão, foram destinados aquele supermercado batido de final de bairro, todo velho. Se olharam na fila do caixa, Anna sorriu com seu riso de dentes ondulados e brancos, aquela suas sardas parecendo dançar no rosto fino, os cabelos negros e compridos presos como uma onda em uma fita vermelha, uma mancha de tinta amarela na profundidade do queixo com o pescoço. Duas semanas depois e estavam apaixonados. Duas semanas depois e Anna dormia nua na sua cama, a omoplata branca com uma pinta minúscula e sexy, de bruços sobre seus travesseiros de fronhas desbotadas. Dois meses depois e ele havia lhe entregue a chave do apartamento. Uma semana a mais e descobriram que o apartamento de Anna era melhor, tinha uma sacada e ela tinha espaço para trabalhar. Mais dois meses e haviam comprado Féris, ou ele havia lhe dado com uma fita azul marinho envolta do pescoço. Por que Anna havia amado o gato. Por que ele fazia tudo por ela.
    O sol rugiu na sua cara desmantelada e branca. Sentiu o gosto de ferro na boca, não havia comido nada ainda. Começou a caminhar falsamente pelas calçadas.
    Passou a mão na franja loira.
    Desde quando deixei Anna.
    Seria assim seu monólogo. Um longo monólogo sem solução.
    E não é da mesma forma a vida?
    Questionou-se sem parar de caminhar.
  
   
Annabel laurino.