Fico repetindo na cabeça, em voz alta não, não traz harmonia, fico repetindo e repetindo, procurando entoação, fixação. The really problem. E fico, minutos, segundos. Até que decido, subitamente, em um momento de tamanha alegria e satisfação, o peso diminui a nada. A desistência de pessoas na vida da gente, descobre-se, é reconfortante muitas vezes. Lembra, fecha-se uma porta, abre-se outra. Outra porta, sempre se abre. Don't worry.
Annabel Laurino
terça-feira, 19 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Vigas amadeiradas rompem-se para uma reflexão curiosa. Assombrosa.
O teto do quarto continua intacto. Quer dizer, como um teto
normal deve ser. Não sei se o seu é assim. Mas o daqui, a essas horas da
madrugada, continua completamente apático em sua pintura branca de madeira
antiga. Não entendo de tetos. Mas olho para cima a um bom tempo como se
entendesse. Ou como se visse algo de especial estampado nele. Não há. Apenas
ideias flutuando no fundo da retina, brilhando e refulgindo, sem parar.
Sou só eu que perco
o sono? Tenho certeza que não. Mais uma leitura de um livro completada, Stand
by Me toca nos fones de ouvido e eu tenho uma vontade louca de chorar, mas é
uma vontade mais próxima de morder os travesseiros, abraçar as cobertas, saber
que to viva, que alguém me toca, aperta meu braço. Mas não toca, não aperta. Tenho vontade de saber que
alguém ta perto, mas não tem nada, ninguém. Sou só eu, afundada em meio a um
amontoado de cobertas, com kilos de livros em cima da minha cabeça, nas
prateleiras, e um livro de um tamanho imenso, ao lado.
Entorpecida, é ai
que começo a olhar para o teto. Não sei, jogada na cama, afundada na vontade
voraz de sentir qualquer coisa, sem ter como sentir, entro na aceitação.
Aceitação é o primeiro passo.
Então o que vem
depois?
Você nunca se
perguntou o que você esta fazendo da sua vidinha rapaz?
Eu me pergunto a
respeito todos os dias.
A resposta, quase
sempre decepcionante.
As vezes eu penso
que posso morrer a qualquer segundo. Me pergunto: Então se tudo acabasse agora, nesse exato instante, eu estaria deixando o que de bom para trás? E o que eu estaria levando de bom?
O que eu teria construído realmente de importante, e o que eu estaria levando
de lição?
Não se trata de
auto reconhecimento, mantra cântico de yoga, salvação ética ou moral, papo
cabeça de psicólogo mal formado, não se trata de auto-ajuda, momento inspiração
divina. Trata-se apenas de uma verdade daquelas que é como se olhar no espelho
e ter que encarar que querendo ou não, você não acorda como as mulheres dos
filmes, incrivelmente maquiadas e lindas. De cabelos penteados e prontos.
É a verdade que
assusta. Você é um humano. Você não é perfeito. Ponto.
Fico pensando, às
vezes, tão perdida na insensatez da carne, quanto egoísmo meu! Mas às vezes, na
minha forma humana e carnal de encarar as coisas, da vontade de viver tudo de
uma só vez. Usar os esmaltes, um de cada cor, cada dia da semana, todos os
batons, mudar de estilo cada dia da semana, ir picotando o cabelo e tingindo,
ler todos os livros, o máximo que puder, ouvir todas as musicas, visitar todos
os lugares, conhecer o máximo possível de coisas, aprender, etc. Da vontade de abraçar
o mundo e ficar segurando ele e dizer no final que vivi.
Tão fútil.
Você morre e leva
que esmalte, que cor de cabelo, quem vai lembrar de você falando de livros como
uma neandertal em uma época tecnológica?
Egoísmo minha
cara, não convém.
Repentinamente da vontade de salvar alguma
coisa que não seja eu mesma, da vontade de sair porta afora e abraçar qualquer
morador de rua. O mesmo sangue que passa pelas minhas veias, passa nas veias
sangrentas dele também. Da vontade de chorar só de imaginar o quanto de tempo
se perde pensando em uma única pessoa, o dia inteiro, 24 horas por dia, e essa
pessoa sou eu mesma.
Não é como jogar uma mochila nas costas e ir
para a África, fazer uma rebelião, arrecadar fundos para os carentes, Madre
Teresa de Calcutá, ao estilo John Lennon e Yoko Ono, não é isso. Não é nadica disso. É
mais ou menos como se sentir viva irmão, viva, entende? Mas sem me fazer viva,
é a graça pura de tocar uma pele que não é a sua, um desconhecido, olhar
aqueles olhos vagos de quem já percorreu tanto, caminhos tão diferentes do seu,
e não se importar com etnia, cor da pele, cor do cabelo, fundo bancário, carro
do ano, roupa da moda, sapatos caros. É estender a mão e dizer: Vem irmão, vem,
eu você e todo mundo estamos no mesmo barco, vamos morrer um dia, e sabe lá
Deus quanto tempo ainda me sobra, mas além das estrelas ou do Universo, nesse momento
crucial eu te ajudo, me ajudas também.
O teto ainda
parece branco, em tinta, em cor, em apatia total, sem nada me dizer. Mas há uma
voz clara, uma candes completamente quente que pulsa, dentro, fora, dos lados
embaixo, muito além de mim. De repente um caminho começa a se formar, uma ideia
quase pronta na cabeça, uma vontade no coração e não pareço mais estar
sozinha. Solidão é quando não temos capacidade de amar, amar, amar.
Quanto
necessário seria repetir para entender que amar é quando não pensamos mais em nós
mesmos?
Teto branco, caminhos brancos. Pensamentos genuínos.
Annabel Laurino.
sábado, 16 de junho de 2012
Repetitivos e Repentinos
Passou a mão pelos cabelos. Gesto repetitivo ultimamente. Tomou
um gole de café. Um vicio repetitivo ultimamente. Olhou, dispersa, através do
vidro da janela do quarto. O peixe preto nadava notoriamente, de lado a outro,
pelo aquário. As arvores, apáticas pelo frio repentino. Aliás, tudo parecia
repentino naquela hora. Uma mistura de sentimentos que eclodiam dentro de si
mesma, sem saber decifrá-los individualmente. Sentou-se no peitoril da janela e
jogou as pernas para fora, os pés mal alcançando as telhas velhas da varanda
abaixo. Contou, entediada, quantos pássaros voavam no céu, rumo a norte. Contou
quatro. O mesmo número de dias que não se falavam mais. Incentivada pela
contagem, contou mais algumas coisas. Quanto tempo fazia desde a primeira vez
que o vira. Fácil. Tentou, inutilmente, contar todas as brigas, não conseguiu.
Eram muitas.
Não entendia ao
certo por que tanto brigavam. Complexo? Eram tão diferentes? Tão iguais? Tão egoístas?
Tão explosivos? Tão dramáticos? Não entendia. Fazia parecer que não podiam se
suportar mais do que algumas horas sem que alguma coisa saísse voando pelos
ares, estilhaçada em cacos.
Perguntou-se, assim
como todas as outras vezes, se nesta em especial, haveria como fazerem as
pazes. Sorriu ao se perguntar isso, fazia parecer que ainda estava no jardim de
infância e que acabara de puxar o cabelo da sua coleguinha ao lado, tendo logo
que lhe pedir desculpas antes que ficasse sem sua merenda.
Desta vez, sabia
que não teria a merenda, recusava-se veementemente a reclinar-se e ceder. Não
cederia. Já havia cedido tanto... Não regressaria a sua fase deprimente de
quase um ano atrás. Aquele maldito tempo em que sua cabeça havia saído do
lugar. Não se machucaria novamente. Estava decidida a deixar com que as coisas fluíssem,
nem que para isso, ficasse sem sua merenda.
Decaiu em
lembranças fortíssimas, uma saudade, quase esqueceu de sua certeza, quase se
esqueceu de tudo, quase pulou por cima do telefone, se jogando longe da janela,
e discando os números freneticamente, sem pensar. Quase. Não o fez, não o
faria. Sabia profundamente que o tempo havia passado, que a hora havia passado,
que os dias haviam passado. Que algo dentro de si havia mudado. Não correria
atrás, não se pronunciaria.
Pegou a caneca de
café no peitoril da janela e bebeu de dois longos goles. Sentiu o corpo quente,
por dentro, apenas por dentro. Fechou os olhos, inspirada na injeção múltipla de
cafeína, fechou os olhos.
Gestos
repetitivos.
Sorriu.
Annabel Laurino.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
.
"Dormir sozinha dá aquela sensação de que o frio existe mesmo quando o termômetro marca 30 graus, de que os travesseiros são insuficientes e o espaço é infinito. Por dentro e por fora."
Verônica H.
Verônica H.
:
“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”
Carl Sagan
terça-feira, 12 de junho de 2012
Heart Galaxy
- Uma hora, um dia ou outro, você vai se apaixonar por alguém.
- De onde você tirou essa ideia estúpida?
- Oras, é a verdade.
- Verdade?
- Sim, a verdade. Todos nós vamos nos apaixonar um dia.
- Se o problema trata-se da falta de se apaixonar, saiba que já me
sinto apaixonada.
- Mesmo?
- Sim, apaixonadíssima, musica, livros, roupas, café, chás, planetas distantes, vida em marte...
- Não seja tola...
- O que foi?
- Falo de se apaixonar por alguém.
- Você fala disso, se apaixonar, como se fosse algo tão
necessariamente preciso, como uma regra.
- Não é uma regra... É só que todos nós amamos alguém um
dia.
[silêncio]
- Talvez eu não queira amar ninguém.
- E por que?
- Não sei.
- Você já amou?
- Talvez, mas também não sei. As vezes penso que não poderia
encontrar ninguém aqui nesse planeta. Talvez um planeta distante, uma forma de
vida diferente e então, eu me apaixonaria.
- Por que correr toda a galáxia para se apaixonar? Você
parece louca.
- Tenho a esperança de que a forma de amar lá, muito distante,
ser outra.
- Lá vem você...
- Penso que talvez pudesse existir um conceito melhor sobre
amar.
- Então amar é um conceito?
- Não sei bem se um conceito.
- Me explique.
- Essa coisa de amar errado, de esquecer, de machucar. Não
entendo como isso pode ser amor.
- Acho que ninguém entende...
- Então por que tanta admiração no amor?
- Não sei, faz bem amar. Parece que nos faz mais vivos.
- Vivos e eternamente dilacerados.
- Que visão mais negativa.
- Não tenho culpa, é o meu conceito.
- Você fala de amor apenas como um maldito conceito, sem nunca se quer ter sentido
antes. Como se soubesse. Uma cientista falando de suas fórmulas descobertas.
Acho que o melhor lugar para você é mesmo em outro planeta.
- ETs e morças alienígenas sempre me atraíram.
- Insana.
- Só penso sobre.
- E pensa que sabe.
- O amor, quem liga?
- Todos ligamos. O amor é tudo.
- O amor nem se quer sabe que existo.
- Eu sei que você existe.
Annabel Laurino.
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