Caio Fernando Abreu
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
...
"Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
.
"Eles falavam muito pouco do que sentiam um pelo outro: não havia necessidade de frases bonitas e pequenas atenções entre amigos tão experientes."
Thomas Hardy
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Desbotando até o som que mudo grita sem cor. Sem cor.
Os dias parecem tão
pesados. Parecem que chegam sempre se arrastando tendenciosamente, sempre lúridos
de mais. E quando chegam, chegam quentes, com o ar fechado, me sufocando,
colocando-me no tédio profundo, na falta do que ver, quem ver, falar o que, com
quem falar.
Os cafés, ah sim, os cafés escorrem quentes de mais na garganta teimosa. As gotas de umidade escorrendo pelas paredes da minha pequena caixa. Lembram-se? É assim que o chamo.
Os cafés, ah sim, os cafés escorrem quentes de mais na garganta teimosa. As gotas de umidade escorrendo pelas paredes da minha pequena caixa. Lembram-se? É assim que o chamo.
Há uma amargura
nos olhos cansados, uma sonolência grande e gorda, o arrependimento sempre tão
presente, o peso, a angustia, a raiva de si mesmo, a vontade louca de chorar e
não parar mais, de encostar o rosto em algum ombro confortável e acarretar
todos os acontecimentos fáticos da caminhada, esquecer o orgulho, engolir o
medo, a vergonha.
Vergonha. Os dias passam e ela vive estampada na cara como se fosse uma espécie de adesivo com cola Super Bonder.
Vergonha. Os dias passam e ela vive estampada na cara como se fosse uma espécie de adesivo com cola Super Bonder.
E para não falar
nas pessoas. Ah as pessoas! Como me canso delas. Sempre tão pretensiosas,
chatas, vazias, sem risos verdadeiros ou mentes trabalhando direito, parecem
quase sempre incompletas e tão cansativas. Nos últimos dias falar com plantas
tornou-se um novo projeto em mente, sugiro que a minha relação com a fotossíntese
possa ser um tanto mais química do que essa que venho levando com as pessoas. E
falo sério. Me entristeço quase todos os dias. Sei que já disse isso antes,
posso até estar parecendo um tanto mais repetitiva do que possa parecer ser,
mas na verdade, e que é uma verdade todos sabem, ninguém entende ninguém, é possível
que se compreenda. Afinal, ninguém esta na pele do outro para sentir a tamanha
dor, angustia ou tristeza transcorrida, não é mesmo? Se imaginar estar no lugar
do outro é diferente, possível, mas é um ângulo muito diferente de ver as
coisas.
E vou ter que falar como nos últimos dias bateu uma tristeza dessa verdade absurda. Da um desespero, uma incapacidade, uma falta de ânimo, uma falta de ver e ouvir e ler qualquer coisa. Tenho vontade de armar uma barraca no quintal de casa, morar lá para sempre, fazer companhia para as pombas e passarinhos, me alimentar de vegetais e hortaliças, fazer café em bule de ferro batido, deixar o cabelo crescer até os quadris, não ter mais qualquer relação com o mundo exterior.
Falo sério, embora pareça loucura.
E vou ter que falar como nos últimos dias bateu uma tristeza dessa verdade absurda. Da um desespero, uma incapacidade, uma falta de ânimo, uma falta de ver e ouvir e ler qualquer coisa. Tenho vontade de armar uma barraca no quintal de casa, morar lá para sempre, fazer companhia para as pombas e passarinhos, me alimentar de vegetais e hortaliças, fazer café em bule de ferro batido, deixar o cabelo crescer até os quadris, não ter mais qualquer relação com o mundo exterior.
Falo sério, embora pareça loucura.
Qualquer coisa, eu
repito, qualquer coisa, uma saída, uma conversa, um sussurro, um carinho, um “eu
sei o que você ta passando, vai passar, você é capaz”, um ouvinte, uma forma
que não doesse, não cobrasse, que sarasse. Mesmo que a cura durasse dois
minutos e meios, mais seriam dois minutos e meios depois de dias se sentindo tão
só.
Estou começando a achar que posso até enlouquecer. Esse morno quase morto, essa falta de marés altas vem afundando tanto. Não quero mais ouvir falar do quanto foi e sou burra e do que devo ou não fazer.
A vida parece tão dura, tão desesperadora.
Estou começando a achar que posso até enlouquecer. Esse morno quase morto, essa falta de marés altas vem afundando tanto. Não quero mais ouvir falar do quanto foi e sou burra e do que devo ou não fazer.
A vida parece tão dura, tão desesperadora.
Fico procurando
nos retalhos dessa colcha colorida e descolorida um retalho salva vidas que
possa me socorrer, como abrigo, como manto para aquecer, não tem importância,
mas algo de verdade. De verdade.
De verdade.
De verdade.
Annabel Laurino.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Gesticulando fios de luz, amanhecendo como se não houvesse amanhecer
Acordei seis horas da manhã como se seis horas da manhã nunca tivessem existido.
Fiquei olhando para o céu, através das frestas da janela do quarto, cinza escuro que foi clareando ao poucos com a chegada do sol.
Parecia que não havia dormido nada e continuou parecendo mesmo depois de ter bebido café e visto os ponteiros do relógio chegarem se arrastanto até as nove da manhã.
Estou mais certa do que nunca que escrever utiliza uma grande e imensa e desfavoravel e revigorante, porém quase insignificante, se você quer saber, força de vontade. Brutal. Estou mais certa disso agora, já que acordei com o olho direito meio inchado, como se tivesse cheio de areia, levado um soco, respingado de limão, sido beliscado e todas as atrocidades que você quiser pensar que possa recriar uma cena bem idiota, e que eu com essa lentidão toda me recuso a pensar, e que resulte num olho feio e machucado.
Mesmo assim me obrigo a estar aqui agora parafraseando tudo isso como se fosse uma incrivel aventura de acordar, beber café, mosquiar dormente vendo as horas passarem e depois anotar tudo isso como se Peter Pan tivesse me visitado ou eu tivesse entrado por um buraco mágico até o País das Maravilhas.
Não sei, acordei com uma sensação estranha. Como se tivesse muitas coisas retidas dentro de mim, talvez seja esse livro comovente que ando lendo, talvez seja essa áurea auspiciosa que me toca lentamente com as suas mãos brancas e frias, e me tomando, me engolindo, me fazendo rever milhares de valores e acertos, que antes eu havia decretado como encerrados.
Não é estranho como o dia as vezes amanhece e parece que muda tudo a sua volta muito rápido, como num piscar de olhos?
Estou tentando pensar direito, mas acho que a minha mente oscila entre o incomparável e detestavel sono e preguiça.
Daqui a pouco estarei saindo de um banho gelado, entrando dentro de roupas macias e finas e perambulando pelo centro da cidade com um óculos imenso de sol no rosto, um olho direito machucado e milhares de pensamentos sonolentos e contraditórios no bolso.
Tudo bem, ta tudo bem, talvez seja o efeito do sol, do dia, do calor, do café, da preguiça, do sono, da lentidão, da falta de vento, ou do livro até mesmo. Não sei.
E acho que nem quero descobrir.
Annabel Laurino.
Fiquei olhando para o céu, através das frestas da janela do quarto, cinza escuro que foi clareando ao poucos com a chegada do sol.
Parecia que não havia dormido nada e continuou parecendo mesmo depois de ter bebido café e visto os ponteiros do relógio chegarem se arrastanto até as nove da manhã.
Estou mais certa do que nunca que escrever utiliza uma grande e imensa e desfavoravel e revigorante, porém quase insignificante, se você quer saber, força de vontade. Brutal. Estou mais certa disso agora, já que acordei com o olho direito meio inchado, como se tivesse cheio de areia, levado um soco, respingado de limão, sido beliscado e todas as atrocidades que você quiser pensar que possa recriar uma cena bem idiota, e que eu com essa lentidão toda me recuso a pensar, e que resulte num olho feio e machucado.
Mesmo assim me obrigo a estar aqui agora parafraseando tudo isso como se fosse uma incrivel aventura de acordar, beber café, mosquiar dormente vendo as horas passarem e depois anotar tudo isso como se Peter Pan tivesse me visitado ou eu tivesse entrado por um buraco mágico até o País das Maravilhas.
Não sei, acordei com uma sensação estranha. Como se tivesse muitas coisas retidas dentro de mim, talvez seja esse livro comovente que ando lendo, talvez seja essa áurea auspiciosa que me toca lentamente com as suas mãos brancas e frias, e me tomando, me engolindo, me fazendo rever milhares de valores e acertos, que antes eu havia decretado como encerrados.
Não é estranho como o dia as vezes amanhece e parece que muda tudo a sua volta muito rápido, como num piscar de olhos?
Estou tentando pensar direito, mas acho que a minha mente oscila entre o incomparável e detestavel sono e preguiça.
Daqui a pouco estarei saindo de um banho gelado, entrando dentro de roupas macias e finas e perambulando pelo centro da cidade com um óculos imenso de sol no rosto, um olho direito machucado e milhares de pensamentos sonolentos e contraditórios no bolso.
Tudo bem, ta tudo bem, talvez seja o efeito do sol, do dia, do calor, do café, da preguiça, do sono, da lentidão, da falta de vento, ou do livro até mesmo. Não sei.
E acho que nem quero descobrir.
Annabel Laurino.
.
Mas na maior parte do tempo se sente como uma personagem de um romance de Muried Spark - independente, aficionada por livros, inteligente e secretamente romântica.
(Um dia - David Nicholls)
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
.
Dentro de mim há uma sede amarga e dolorosa, porém, precisa. Ela dita assim: "Agora."
Annabel Laurino.
Rarefeito, perfeito
Hoje o mundo pareceu encoberto por uma camada fina, quente, espaçosa.
Pareceu um tanto quanto rarefeito.
Ele disse assim: - Eu estou amando como você sorri.
Nunca tinha ouvido dizer assim, como se a pessoa estivesse aos poucos amando cada coisa da outra pessoa. E entendi que não se ama por conjunto, inteiro, tão de repente. Se ama aos poucos. É como se para gostar de um edifício inteiro, você tivesse que gostar de cada tijolinho da obra, cada detalhe auspicioso das janelas, portas, corrimãos de entrada, etc. e afins.
Ele, com suas sobrancelhas grossas e olhos firmes concluiu assim: Não, não só isso. Acho que estou amando simplesmente tudo em você. Sabe, é, a forma como você levanta o cenho quando fica desconfiada ou como caminha, como se não fosse dessa época, ou nem desse planeta. Como se não existisse. Sei lá. Eu amo tudo.
Ficou tudo mais absolto, o que geralmente costumamos chamar, silêncio. As vertigens nervosas do estomago tremeram, a casa que sustenta a gente e a lareira em chamas começou a incendiar. Faces rubras e febris.
Depois veio as ondas, o aconchego dos braços e o mundo começou a ficar rarefeito/perfeito, quase isso, só para não estragar. O sol indo embora, disse ele: Lá se vai Apolo, logo vem Ártemis.
Era verdade, o sol vermelho dando adeus, brilhava como uma bola de fogo no final do dia, era como um rosa avermelhado lá longe, no horizonte. A areia encobrida de cinza arroxeado.
Perguntei-me: Quando foi mesmo que você passou a gostar tanto de praia?
Olhei para o lado. Sobrancelhas grossas, olhos firmes, "Eu amo tudo".
Ah sim... Acho que não importa.
Pareceu um tanto quanto rarefeito.
Ele disse assim: - Eu estou amando como você sorri.
Nunca tinha ouvido dizer assim, como se a pessoa estivesse aos poucos amando cada coisa da outra pessoa. E entendi que não se ama por conjunto, inteiro, tão de repente. Se ama aos poucos. É como se para gostar de um edifício inteiro, você tivesse que gostar de cada tijolinho da obra, cada detalhe auspicioso das janelas, portas, corrimãos de entrada, etc. e afins.
Ele, com suas sobrancelhas grossas e olhos firmes concluiu assim: Não, não só isso. Acho que estou amando simplesmente tudo em você. Sabe, é, a forma como você levanta o cenho quando fica desconfiada ou como caminha, como se não fosse dessa época, ou nem desse planeta. Como se não existisse. Sei lá. Eu amo tudo.
Ficou tudo mais absolto, o que geralmente costumamos chamar, silêncio. As vertigens nervosas do estomago tremeram, a casa que sustenta a gente e a lareira em chamas começou a incendiar. Faces rubras e febris.
Depois veio as ondas, o aconchego dos braços e o mundo começou a ficar rarefeito/perfeito, quase isso, só para não estragar. O sol indo embora, disse ele: Lá se vai Apolo, logo vem Ártemis.
Era verdade, o sol vermelho dando adeus, brilhava como uma bola de fogo no final do dia, era como um rosa avermelhado lá longe, no horizonte. A areia encobrida de cinza arroxeado.
Perguntei-me: Quando foi mesmo que você passou a gostar tanto de praia?
Olhei para o lado. Sobrancelhas grossas, olhos firmes, "Eu amo tudo".
Ah sim... Acho que não importa.
Annabel Laurino.
,
Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredom lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?"
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?"
Tati Bernardi
Assinar:
Postagens (Atom)