sábado, 11 de julho de 2015

Conto de uma Mulher Neurótica


Elisa estava apaixonada. Isso sim era uma notícia e tanto para ser primeira página do jornal local daquela cidadezinha pacata, mas cheia de marginais. Elisa estava com borboletas espiralantes batendo asas alvoroçadas em seu estômago. O flautista que tocava todos os dias no centro da cidade escolheu Fly Me To The Moon do Sinatra especialmente na hora em que Elisa passava antes de ir para o trabalho naquele dia, e sorriu, mesmo sem receber uns trocados em sua caixinha preta e esfarrapada. Se foi coincidência ou não, não se sabe, mas a música a fez flutuar romanticamente, imaginando cenas perfeitas, beijos estalantes, frases retiradas de filmes antigos, mas que dessa vez, em sua imaginação, saíam de sua própria boca, como uma romântica desenfreada no auge de sua paixão, como em Cinderela em Paris, ela era Audrey Hepburn.
Estava apaixonada há vinte e duas horas, trinta e quatro minutos e vinte e três segundos. Era um recorde. Sentia-se extasiada, era como experimentar uma droga e para ela, que nunca havia provado nada de inovador e exótico, além de um café bem forte e um cigarro amargo, essa droga, a paixão, a fazia sentir-se em êxtase, como se sua mente estivesse fora do ar.
Por isso naquela manhã de uma quarta feira cinzenta e fria, acordou sem se incomodar com o barulho incessante do despertador. Sem se importar até mesmo com sua franja que estava um pouco torta, na verdade parecia até mais bonita assim, meio amassada, julgou-a espontânea e de um visual beirando ao rock 'n roll, combinou perfeitamente com sua saia preta e sua camisa azul royal, com suas meias escuras e charmosas e seu casaco pesado, estilo londrino. Não se importou, ou não deu a devida importância para a sua vizinha parada no portão, que sempre espichava os olhos aguados de uma velha muito velha para a sua saia que fazia questão de dizer bem alto como estava curta, e nesse dia em questão o fez com uma rabugice desprezível, mas que Elisa nem percebeu. Também não ligou para o fato de ter que ir em pé no ônibus, quando deu por si já estava no centro da cidade e todos os passageiros pulavam para fora do ônibus, apressados.
Era maravilhosa aquela sensação. Sentia-se como se tudo ao seu redor fosse dar certo, como ser abraçada por uma gigantesca nuvem de Felix Felicis. Essa sensação aumentou ainda mais com o seu chefe parado em meio ao escritório observando-a entrar, soltando um bom dia alegre e elogiando seu cabelo, havia feito algo? Não, respondeu sincera e feliz, não visitara seu cabeleireiro naquela semana e agradeceu estupefata.
Ah! Como são fervorosas as sensações da paixão. Tão cáusticas e intrepidamente ressonantes no peito daquele que o sente. Elisa não podia evitar, não o pode, nem mesmo quando deu por si e percebeu que havia algo de diferente entre o caminho do coração e da sua mente. Não conseguiu e nem mesmo tentou, para falar a verdade, expulsar aquele intruso de dentro do seu corpo. Era profundo aquele ressoar gostoso de uma onda viva e dourada, cheirando a lavanda e almíscar. Todos os dias podiam ser cheirosos assim, decretou inebriada.
Porém é válido ressaltar de que embora Elisa se encontrasse assim tão ineditamente apaixonada e que essas sensações ludibriantes assolassem seu peito, agora inflado de um amor súbito e ferrenho, ela estava inebriada demais para perceber as causas amargas desse sentimento tão único. Não havia percebido o outro lado da moeda até aquele momento fatídico, não havia se questionado, indagado o desabrochar daquela paixão.
E foi assim, com uma pergunta simples, no momento em que grampeava um documento ao outro, sentada no escritório da rua 24 com carpete marrom e manchado, rodeada de seus colegas, ouvindo o barulho estridente de um telefone que não parava de tocar, que a moça firmou seus pés no chão.
Não sabia como isso tinha começado, como ou em que momento ao certo ela se deu por conta de que estava apaixonada. Não saberia dizer. E por isso perguntou-se: Por que me sinto assim tão feliz? Esse sentimento irá acabar? Eu continuarei feliz assim? Um sufocamento novo e contrário a toda aquela felicidade começou a apertar em seu peito. Sentiu-se tonta com a leve percepção de que tudo isso, todo esse sentimento, toda essa felicidade, poderia ruir em segundos. E se ele não a amasse? Estaria ele feliz como ela? Seus olhos antes tão estalados e amorosos tornaram-se olhos de gato que rumina um rato dentro de um buraco na parede, olhos investigativos e altivos.
Elisa sentou-se estática na sua cadeira de trabalho, ficou fitando o longe, o outro lado da rua através da janela do escritório. Imaginou seu amante naquele exato momento apertando o nó de sua gravata e saindo para o trabalho, parando o carro no sinal vermelho e assim que passasse uma moça bonita ele não resistiria de olhar um bocadinho, só por um esporte costumeiro, então examinaria suas sobrancelhas no espelho retrovisor e voltaria a dirigir.
         E ela ali, toda contente. O gosto que sentiu foi amargo e incisivo na sua boca que antes era só doce. Sentiu-se preenchida por uma nova sensação áspera e surpreendentemente quente, azeda e corrosiva. Imaginou-o com outra logo depois que foi embora, imaginou-o mandando mensagens para essa outra, dizendo para essa mulher o quanto a amava, da mesma forma que dizia para ela, nos momentos de dizer adeus. Se sentiu tonta, magoada, enganada, quase chorou. As perguntas não paravam de rodopiar em sua cabecinha escura, e se ele estivesse fingindo amá-la? E se, e se, e se...
No final do expediente da manhã Elisa estava decidida: iria romper com tudo. Seu sentimento que antes era florescente e feliz agora era algo caótico e destrutivo, sentia-se louca, amarga, desesperada. Não era mais Audrey Hepburn, mas Zelda Fitzgerald no limiar de uma loucura, de um ato insano, iria saltar no Sena, jogar-se no rio. Olhou para todas aquelas mulheres, suas colegas de trabalho, observou-as conversando com os outros homens, a maneira como flertavam e riam para os clientes que entravam no escritório, imaginou se alguma daquelas mulheres seria a biscate, a outra, a que ouvia os elogios amorosos que ele lhe dava.
Quando Elisa saiu para o horário de almoço a música que tocava em sua cabeça era She’s lost Control do Joy Division, muito diferente das melodias harmoniosas e da voz quente de Frank Sinatra. Agora em seu peito um ciúmes doentio incidia acompanhado de uma vontade enlouquecida de descobrir toda a verdade, mesmo que apenas em sua mente ela se fizesse verdadeira.
Ponderou que agora tudo fazia sentido. Quando ele não atendia o telefone ou nos finais de semana em que arranjava uma desculpa de trabalho por não poder vê-la e até mesmo as várias flores que ele lhe dava acompanhadas de presentes caros e bonitos, todos os mimos, tudo parecia um amontoado de pedidos de desculpas por algo que ele vinha fazendo.
Caminhou sem rumo predestinado em direção ao calçadão. Seus passos que antes eram leves e flutuantes, agora eram pesados, com os saltos de seus sapatos batendo retumbantes no asfalto. Passou reto pelo flautista negando seu cumprimento sorridente, deixando-o para trás com um semblante confuso, sem entender nada. Ele que se danasse, pensou Elisa, podia ser mais um desses homens cafajestes e mentirosos, estava farta dessa raça.
Aquela sensação romântica agora era apenas uma lembrança distante em sua mente. Elisa sentiu-se enganada, havia-se deixado preencher por aquele sentimento tão idiota, escapista e burro. Como pode? Caminhou em direção à praça, passou por tantas pessoas, tanta gente, tantas coisas, não viu nada. Foi o medo que bateu no seu rosto junto com o vento gélido, foi o desespero que espiralou seus cabelos ao dobrar a esquina. Elisa estava condenada.
Soube disso no momento em que sentou-se no banco daquela praça. Folhas avermelhadas caíam preguiçosamente no chão junto ao amontoado de folhas secas e quebradas, pisoteadas pelos passantes, uma criança com uma mochila de super herói passou acompanhada de sua mãe e sorriu divertida pra Elisa, pombas aglomeravam-se ao longe, bicando os restos de pão deixados por alguém, um sol de meio dia batia no seu rosto e o aquecia por inteiro, nuvens brancas carregadas de chuva nadavam em um céu cinza e pesado, trabalhadores passavam rápido, apressados e famintos em seus horários de almoço, o fluxo interminável carimbado em uma atmosfera invernal.
Estava marcada por aquele sentimento, não havia como ir embora dele ou manda-lo embora. Aquele sentimento... Sabia que não havia mais volta. Já tinha se entregado. Elisa, 22, recém formada. Agora com o acréscimo de mais uma informação em seu currículo social, estava apaixonada, louca, pirada, provando das duas faces desse sentimento odioso e lindo, como foi tola.   
Respirou fundo e firmou seus ombros em um ângulo reto, levantou o queixo, quis xingar alguém, quis parar os carros que buzinavam na sinaleira mais ao longe e gritar com todos eles, todas as pessoas do mundo, dizer que estava feliz, muito feliz, estava in love, puramente e maravilhosamente in love... Mesmo que doesse encarecidamente. Porém não o fez. Se conteve, aprumou a bolsa no ombro e marchou, como uma soldada que acabasse de receber sua missão.
Alecrim com jujubas coloridas, chá mentolado no inicio da manhã de um sábado fresco, café passado e pão de queijo às cinco da tarde, jasmim e damas da noite, água batendo nas rochas, um vento fresco. Tudo isso acaba no final.


Annabel Laurino

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Por uma luz mais bonita

A semana acabou. É nesse silêncio condoído em que me encontro agora. Apenas os latidos de alguns cães lá fora e o tilintar gostoso das teclas sendo apertadas cada vez que escrevo. É nesse emaranhado de final de dia em que meu corpo, agora cansado, agora exausto, se sobressai dentre suas veias azuis e respira, lateja, se espreguiça.
Há bagunça por toda parte, todos os lados desse quarto, minha caixinha de fósforos. As roupas jogadas, os sapatos largados num canto, na pressa de me desprender das amarras que se impõem sobre mim todos os dias quando eu saio. Embora eu diga que eu não ligo, eu ligo. Eis um segredo sobre mim, tenho olhos de gato que desafiam tuas verdades mais salientes, que lambo carinhosamente, fingindo que nada sei.
É dessa forma que tenho sobrevivido os últimos dias de junho, fugidio fôlego que vem sobre mim. Finjo que nada sei, mas as verdades estão mais do que conhecidas pela minha mente que registra tudo, em segredo.
Se o cansaço que se apodera de mim é enorme, é tão enorme também a imensa vontade de fugir daqui, mas roubaram-me os sonhos, ou matei todos eles. Assassinei meus próprios colorful dreams tão majestosamente sonhados em uma noite perfumada de verão.
Alguém disse uma vez que matar os próprios sonhos é como matar a si mesmo. Bem, sendo assim, morri uma centena de vezes nos últimos seis meses, mas continuo em pé, porque meu corpo é forte e eu sou fibra, contínuo obstante, nessa insana vontade de viver. Continuo.Porque tudo em mim é fome. 
Te compartilho essas verdades inalcançáveis e corrosivas, quanto nem mesma eu me agrado delas. Queria estar te escrevendo algo sobre finais de semana dançantes, algo elaborado, sabe? Queria te escrever algo majestosamente supimpamente emocionante, algo cheio de purpurina e flores, bem assim.
Mas eu sei, você sabe, saturno está longe e o meu tempo ainda não chegou, ainda não está na fase de abrir-se as rosas. É por esse mesmo motivo que eu continuo.
E quando chegar o momento eu irei parar? Não, eu continuarei, mas a música será outra e eu nem me lembrarei mais disso tudo. Será passado.
Em ultimas estâncias eu espero nesse exato momento que alguma coisa se acerte. Não sei o que, só sei de uma coisa, eu acredito na teoria do caos e em verdade eu afirmo, depois do caos as coisas devem pelo menos tomar seu rumo. E se não as coisas, que pelo menos eu encontre o meu próprio rumo, meu próprio caminho, que a minha estrela brilhe intensamente, sem fim.
Nas noites frias eu procuro um calor humano que não encontro no meu, mergulho nas cobertas geladas, enterro o nariz no cachecol, ligo a luminária e varro o quarto com os olhos assustados de quem ainda não conseguiu dormir, abro um livro e se não consigo me perder nas letras enfileiradas eu desisto, volto a procura do calor humano que nunca encontro e depois de um longo tempo, eu durmo.
Esse céu que não é meu um dia ainda poderá ser azul. E se não for? Que seja cheio de nuvens bonitas, feito algodão, mas que eu nunca perca o riso, que eu nunca perca essa fome, que eu nunca me esqueça do porque eu vim. Se nada disso servir, se tudo for insuficiente, eu sei, que assim como Gatsby eu verei lá longe a minha luz verde e a seguirei profundamente até os confins das páginas desse livro que não acaba, que não termina. Porque eu ainda estou aqui.


Annabel Laurino


domingo, 10 de maio de 2015

Desnuda

    Percebo o momento certo antes mesmo dele chegar por completo. É uma excitação firme, sinuosa e transparente, embora insistente. A reconheço e a deixo entrar, toda ela, por inteiro. Venha, venha. Prendo os meus cabelos no alto da cabeça com um lápis roxo brilhante e então me arremesso nesta máquina e dedilho versosamente essas letras que são poucas e ao mesmo tempo são muitas, que dizem tudo e ao mesmo nada dizem de mim. 
    Minha escrita é nua. Nua e pura. Ela não tem medo, nunca tem medo e por isso é felina. 
    Minha escrita é uma mulher de seios desnudos caminhando em meio a multidão de pessoas. 
    Minha escrita é uma mulher de seios desnudos, cabelos negros esvoaçantes, caminhando em meio a multidão de pessoas que a olham, que a vêem, que a julgam. 
    Minha escrita é uma mulher de seios desnudos e cabelos negros esvoaçantes que não tem medo e se joga. 
    Se joga na vida, no asfalto, no muro pichado dessa rua imunda que estampa a capa de um jornal, que grita no meio do trânsito a mil de uma cidade quente. Se joga, se joga. Ela pula de um prédio, ela se joga na frente de um carro, ela pula, ela se entrega. 
    Minha escrita não espera e ela é essa mulher de seios desnudos que te encara sem medo, sem dramas, sem esperar nada em troca. Porque sua arte é desvendar. 
    Desnudo. Desvendado. Desprevenido e só. Minha escrita é o cerne de uma solidão carente que aparece as cinco da manhã de um sábado triste banhado de música melodrámatica, filme ruim passando na televisão e eu imaginando Godard chorando por toda essa arte bosta que hoje em dia só multi-fabricam. Minha escrita é o cerne. Eu sou o centro. Ela não me revela. Eu a deixo ir e ela se joga. 
    Nada pode me alcançar agora. Como o sangue que flui nas minhas veias azuis, eu já fui. Fui embora desse caótico caos ensandecido de uma mente bagunçada que é onde me encontro. O segundo seguinte já passou e o agora não é mais. O agora também já se foi e eu corro, corro contra os ponteiros desse relógio que não para, que parece que não vai parar. Meu medo não é o tempo, meu medo é a minha perda. A perda de mim mesma. 
    E por isso eu fujo. Sou um reflexo estampado num espelho que já ficou para trás enquanto eu corria. Sou o reflexo que estampou nanosegundos na janela daquele prédio na esquina. Eu e o meu casaco preto esvoaçando as minhas costas. Sou a fugitiva de mim mesma, sou o coelho da Alice, mas não tenho rainha e nem rei. Eu obedeço as minhas próprias regras de conduta e por isso não permaneço. 
    Sou fugidia e escorrregadia. A minha escrita me desvenda e me descobre. E por isso a recebo. Deixo-a entrar. Ela, a minha escrita, como uma mulher de seios desnudos e cabelos negros que passa sem medo, sem se preocupar, por uma multidão de pessoas que a olham. Nunca nos olhos, mas sempre para os seus seios. Essa é a minha escrita. Veja. 
    Agora sou só eu, ela se foi. O verbo não é mais suficiente para definir a minha ação, porque estou parada, e eu sei que isso é um verbo, estar, ficar. Mas eu não me movo, não agora, apenas no segundo seguinte que será o segundo onde não estarei mais aqui. 
    Descrevendo fugidiamente, solitariamente azul e só. 



Annabel Laurino 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O Retorno da Cidade Caleidoscópica

    Amália retorna. O retorno de Amália. A cidade continua insana, movimentada e acessa. Ela não sabe porque e nem se deve continuar. Ela, a Amália e não a cidade. Porque de todas as formas possíveis a cidade continua, mesmo não podendo ou não querendo, ela será e continuará sendo, todos os dias, a todo gás e vapor.
   Gás e vapor, é disso que a cidade é feita. Dutos e viadutos sujos, vento quente, sinalização errada, buzinas, vozes vindas de todos os lugares, muros pichados, postes de luzes estragados, latas de lixo entupidas, a cidade é selva, gás e vapor. E ela continua.
    Amália não é selva. Não é gás e nem vapor. Então do que é que Amália é feita? É feita de tudo. O tudo, o plasma, o todo, o que está e não está. Embora eu dizendo isso seja muito diferente do que Amália diz para si mesma todos os dias em frente ao espelho. Ela diz que é feita de inverno, cores frias, cheiro de grama seca e uma pitada de sorvete de chocolate. 
    Dez da manhã de um sábado e Amália sai para caminhar pela cidade, experimentar essa coisa flâneur. Vai em direção ao mercado e começa a namorar com seus olhos imensos os discos das bandas que tanto gosta e aprecia devotamente. Mas só os namora, porque ela não tem dinheiro para compra-los e afinal, música é cara. Música boa é cara. E isso entristece Amália. Mas no fim de sua visita ao mercado Amália compra um porta jóias antigo, pequeno e que cabe na palma da sua mão e ela gosta disso, dessas coisas pequeninas e antigas. Custou dez reais apenas, vendido por uma senhora simpática que elogiou os enormes olhos de âmbar que Amália tem. 
    E ela continua. Amália e a cidade. Cada passo em perambulação que Amália da a cidade se estende, sempre em frente e voilá! Olha tudo, gosta de tudo. As calçadas charmosas, as fachadas dos prédios antigos, as pessoas apressadas, inertes, o gaiteiro numa rua estreita, as livrarias pequenas, Amália caminha e analisa tudo, numa ânsia e sede de que nada se perca, de que nada deixe de ser devidamente registrado. 
    É numa cafeteria antiga no final da rua, bem em uma esquina, que Amália se senta e pede um café. Não tão forte e com açucar, sim, como os franceses. Senta-se ao lado da enorme janela e debruçada sobre a xícara de café quente, debruça-se também sobre a vida que se passa lá fora. E registra tudo, o fluxo que não para. As pessoas vem e vão, e voltam sem sentido algum apenas com um destino desconhecido e já determinado. Regarde, regarde!
    Amália observa os senhores de cabelos brancos em aglomerado ao longo da cafeteria. Alguns tomam café, falam de política, riscam palavras cruzadas em seus jornais amassados, engraxam seus sapatos com o simpático jovem do lado de fora do estabelecimento, outros senhores movimentam seus dedos trêmulos e frios em telefones tecnológicos, outros em silêncio apenas lêem e suspiram, tiram dos bolsos de suas calças de alfaiataria caixinhas de remédios onde pescam um e engolem, e fazem como Amália, se deleitam ao que acontece lá fora.
    A cidade é sinfônica, possui seus sons particulares. Nesse âmbito caféico, Amália degusta de uma sinfonia de xícares, talheres e burburinhos de conversas que registra e que se deixa preencher. Como não fazer parte disso quando no segundo em que entrou Amália já fazia parte? Mas entrou onde? Na cafeteria ou na cidade? 
    Na mesa ao lado da sua, Amália ouve uma voz feminina cantarolar uma música que Amália conhece bem e que gosta muito, embora nos ultimos 5 meses faça questão de evitar. Nesse dia particular ela não se importa de ouvir, e por isso sorri. 
    Paga a conta e sai. No lado de fora a sinfonia selvagem da cidade continua. Elevações graves de sons que repercurtem e se distendem. Tudo é bonito, Amália pensa, essas pessoas que eu nem conheço, essas ruas que eu nem sei o nome, esses prédios onde nunca estive, esse fluxo de gente que caminha com um destino, essa brutalidade ferrenha de existir e ao mesmo tempo ser um completo desconhecido, é bonito. É bonito.
     Amália sente-se selvagem pela primeira vez, porque afinal de contas, ela faz parte. Da cidade ou da cafeteria? Não sei, mas ela faz parte.
   Engatilha os pés nas calçadas que tanto gosta, numa cidade de pedras e caminha em ruas charmosas. Caminha sem um destino, mas com a idea em mente de que deve chegar. Chegar onde? Amália não sabe. E isso não é um destino, chegar? É.
     E por isso Amália continua. 




Annabel Laurino 

     
     

terça-feira, 10 de março de 2015

Amália

    Atravessou a rua. O sinal aberto, o vento nos seus cabelos esvoaçantes, o gosto do café amargo latejando ferrenho na boca seca, o calor insuportável, o suor pingando nas curvas dos seus seios cobertos por uma blusa clara e fresca, sol das quatro latejando na pele como queimadura incessante, sem sombra, quase sem ar. Inicio de março, ninguém sabendo para onde ir, aquele caos total, a rua cheia, as pessoas mergulhadas no caótico cotidiano, a vida numa transa louca de situações momentâneas. Sem sentido, corre, corre. Amália atravessou a rua, seus seios de mulher agora em idade adulta, apontando para o futuro inovador de não saber para onde ir. Seus seios como uma marca profunda a destacando naquele mar de gente. Olhe lá, mais uma mulher atravessando a rua, mais uma mulher, uma máquina, um animal, um ser? Uma mulher. Uma mulher?
    Amália era uma moça em recente descoberta da vida. Vida, para Amália, era coisa frágil. Podia acabar a qualquer momento. Por isso Amália enxergava a vida como um objeto quebrável, sem reconciliações com seu antigo estado após a mínima queda, e por isso Amália também tinha medo de dar seus passos em vão. A vida, para Amália, deveria ser intensamente vivida, mas cuidadosamente percorrida.
     Amália observava as multicores facetadas nas pétalas das flores por onde passava, encontrava prazer no primeiro gole de sua primeira caneca de café da manhã, não dispensava um bom livro, gostava de ouvir o ruminar gostoso das páginas se esfregando uma na outra, como se contassem um segredo, após serem viradas durante a leitura, se atentava aos mínimos detalhes, achava belo a feiúra dos outros, gostava de lamber balas de mel, beber chá amargo as onze da noite e ir dormir quando amanhecia o dia, tinha medo do escuro e música boa era aquela que te fazia querer transar.
    Não tinha gato, nem cachorro e nem namorado. Passeava sozinha pelas ruas da cidade numa procura por detalhes desconhecidos, a rachadura de um prédio, a lasca profunda e corrosiva no asfalto, o feio, o tenebroso, a lata de lixo entupida, o cheiro fétido, o mendigo, as roupas feias das vitrines baratas, o amargo e o desgostoso, a sacola de lixo voando como uma borboleta numa esquina pichada, isso tudo encantava Amália. Ela não via como coisa feia, via como coisa bela, a vida como ela é. Frágil, descarada, bruta. 
    A vida bate na cara daquele que não quer ver. Ela esbofeteia, te encobre, te vira do avesso, te enche de porrada, até que numa noite boa ela te acaricia os cabelos com beijos e ternura e te fala manso que tudo vai passar, é só uma fase. Porque a vida, afinal, é cheia de fases. 
    Falar dos seios de Amália é só para demonstrar a sua forma anatômica, seu formato transparente entre formas e gêneros de se viver nessa selvageria humana, nessa cidade quente. Amália não é só seios, não é só mulher, não é só sexo feminino. Amália pensa, respira, colore e descolore o mundo inteiro em mil partículas de átomos que estão juntos. É um corpo, mas também é mais que um corpo. É fruto da mesma árvore, é grito e ponto de exclamação. Amália atravessa a rua, Amália é vida. É coração pela metade, forma tiritante e dor pulsante, Amália vive e é única. 
    Nas curvas do seus seios, num lugar dentro do peito, esconde-se um coração machucado, que ela tenta esconder. Esconde dentre a fumaça do seu cigarro que acende sem parar e os seus lábios pintados de um vermelho disfarçam as marcas dos seus dentes afiados e agudos, numa insana tentativa de segurar o choro ou o impulso de gritar e gritar sem parar nunca. Mas não, não gritava, olhava-se no espelho com freqüência e dizia a si mesma frases como "fique calma" ou "vai passar, sabes que vai passar". Mas não passava. Por isso se escondia nos livros, nos poemas, nos versos, na música, na frase solta, na letra em garrancho grafada na ultima página do seu caderno. 
    Paris hoje, ou amanhã, não sabia. Paris, quem sabe. Estava sedenta por uma vida nova em algum outro lugar, uma paisagem cheia de coisas novas para viver. Essa era Amália, sedenta por vida, sedenta por cores e coisas que nem ela sabia, mas queria tudo, uma colher farta e cheia de tudo que tivesse direito. Para Amália, viver também era fartura, quanto mais soubesse, quanto mais vivesse e vivenciasse, melhor estaria vivendo. Viver, para ela, também era abrir o pára-quedas. Viver é se jogar. 
   E ela atravessava as ruas, passando pelo sinal aberto, seus passos compassados como uma música de jazz. Se você abrir seus ouvidos Ella Fitzgerald estará cantando melodiosamente ao fundo, ouça só enquanto Amália caminha, anda por dentre a multidão. Olhando-a assim é só mais uma dentre tanta gente. Mas Amália sabe do seu eu ferido, carregado e pesado, as vezes feliz, as vezes saltitante, dias leve, dias pesado, que tem por dentro. Sem escolha, por que viver é isso também, é aceitar a lama que te espera. É aceitar que somos o que somos por que somos e não há jeito de mudar isso. Amália aceitava. Por isso atravessava o sinal sem medo, sem olhar para os lados, Amália aceitava viver. 



Annabel Laurino 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Darshan

    A cena era como uma fotografia distinta, dessas em preto e branco, muito em foco, pouca luz, tudo muito claro e usual, sensual também. A luz de fora entrava como um golfo de vida, mas sem iluminar o quarto inteiro, deixando com que os cantos daquele pequeno espaço ainda não soubessem da existência da fraca e pouca luz que entrava sorrateiramente, assim como o calor daquela noite de verão entrava, sem permissão.
    O lugar era o quarto. E o quarto era o lugar. O verão insidia e batia insistentemente. E eles, as pessoas na fotografia, os corpos, eram Alice e Pedro.
    Beijavam-se os dois naquela cama perdida no centro do quarto, como se a cama fosse um barco em meio ao mar. Ele passava a mão sobre o corpo dela como se a sentisse inteira através de um único toque, como se tocar suas costelas, seu queixo, o nódulo da orelha ou a sola de seus pés incrivelmente pequenos fosse como senti-la inteira naquele pequeno e único toque e nada mais, nada mais. Mas um toque não era suficiente, por isso precisava tocá-la mais e em mais lugares e mais rápido antes que o mundo lá fora resolvesse entrar em combustão espontânea, antes que Saturno colidisse com Marte, antes que algum meteoro caísse. E ela sentia o mesmo, ali deitada ao lado dele, o corpo tão próximo que os pelos se eriçavam ao se tocar, passava sua pequenina mão por aquele rosto familiar e quente, perpassava suas perninhas pelas pernas dele e o olhava, mesmo no escuro daquele quarto, meio mar meio oceano, onde o enxergava apenas pela pouca e fraca luz.
    Você não entenderia o amor daqueles dois, nem mesmo eu ou qualquer um. Mas eles se encontraram e se perderam, um dentro da cabeça bagunçada do outro e exatamente por isso sabiam onde estavam sem se perguntarem o lugar exato o tempo inteiro. Aliás, por falar em lugares, já haviam estado naquele quarto outras vezes, se é isso que você quer saber, mas daquela vez era diferente, pois tinha gosto novo e o fundo era azul e lilás, multifacetado de lembranças alegres.
    Livros ao redor se empilhavam na estante. Uma vitrola e um disco, o disco rodando e rodando, ressoando seu som reverberante a 33rpm e a vitrola em trabalho frenético de reprodução. Havia uma máquina de escrever a espera, a espreita. Tudo era som, sabor e música, e literatura também. Tudo trabalhando incessantemente como uma reverencia aqueles dois seres, aqueles dois corpos, duas almas, encontrando-se e se perdendo naquele quarto de pouca luz.
    Alice tinha gosto de café enquanto beijava Pedro. Por isso o beijo tinha gosto de café e era, como pode-se imaginar, tão bom. E Alice estava tão bonita, os olhos piscando caleidoscopicamente naquela fraca luz, olhos de cigarras verdejantes e fugazes, sorriso alegre e infantil, mãozinhas pequenas e quentes, passeando nuas por um corpo completamente nu. Tocando-o com suas mãos sentia como se o encontrasse pela primeira vez, como se o salvasse de um naufrágio, de uma fuga, de um momento, do mundo e de tudo. Cada toque era como o primeiro toque. E tocaram-se os dois.
    Pedro já conhecia aquele corpo minusculo colado ao seu tão bem quanto saberia o caminho exato para chegar em casa, podendo faze-lo de olhos fechados e tranquilamente. Mas sempre havia algo novo a se descobrir naquele corpo pequeno e macio. Por isso passava as mãos pelos cabelos de Alice tão carinhosamente, descobria seus seios desnudos, pequenos seios brancos. Divertia-se com seu nariz, com os cílios compridos e assoprava sua orelhinha para arrepiar-lhe a nuca. Gostava da curva e o contorno de suas coxas, o leve delineio de seus quadris e a curvatura de suas nádegas como maçãs.
    Tocavam-se ao toque perfeito, descobrindo-se ambos numa dança rítmica ao som do disco e da vitrola a 33rpm, sem parar. Poderia ter chovido naquela noite, mas não choveu. Alice gostava tanto de chuva como Pedro gostava de trovões. Mas tudo bem, eles não se incomodaram com isso e por isso continuaram a se beijar, um encontrando o outro, um tocando o outro. Como tem de ser. 
    - Hum...
    - Por que parou de me beijar? – perguntou Alice, de repente. Uma voz fraca ao fundo do quarto escuro junto da música tocando, os grilos lá fora dançando e pulando, o cheiro de noite quente misturado a hortelã e dama-da-noite, refrescando o aroma pungente do ar.
    - Eu tive uma ideia súbita de algo genial e você está tão bonita que eu precisava olhar.
    - Ah, oras... – depositou-lhe um beijo no rosto quente e corado – Que ideia?
    - Eu pensei em algo para escrever.
    - Escrever agora?
    - É, agora. É tão...tão... Eu preciso colocar para fora. – Pedro levantou-se rapidamente, tão rápido que a assustou. – Preciso escrever.
    - Nossa, parece urgente.
    - E é, meu amor.
    Pedro caminhou até a sua escrivaninha e se pôs em frente a máquina, sentando-se nu na cadeira. O disco ainda girava, a música ressoava a toda pelo quarto. Alice caminhou até ele, colocando as mãozinhas em suas costas.
    - Sobre o que você vai escrever?
    - Sobre dois planetas que colidem, sobre... Um casal apaixonado beijando-se no escuro de um quarto, uma vitrola e uma fraca e pouca luz entrando de algum lugar que ninguém sabe qual é. E sobre os olhos, os olhos dos dois, café e então...
    - Essa luz será verde?
    - Verde?
    - É, como em Gatsby... A luz verde de Gastby, você sabe.
    - Não pensei nisso, meu amor, mas pode ser... ou eles são um para o outro a luz verde. Você é minha luz verde. Vem, senta aqui enquanto eu escrevo.
    Pedro aconchegou sua pequena Alice em seu colo, acendeu a pequena luminária e depois um cigarro.
    - E sobre o que mais você vai escrever sobre esses dois?
    - Ah Alice, meu amor, eu não sei. Mas a cena é clara como uma fotografia, eu preciso falar sobre.
    - Fale sobre, então. E não se esqueça de dizer que era inverno, nada de corpos suados ou calor. E fale sobre maçãs, gosto de maçãs.
    - Maçãs... Sim, também gosto de maçãs - um sorriso se desenhou em seus lábios. - Mas definitivamente a cena é clara, precisa ser verão.
    - Entendo, tudo bem. Vou mudar o disco.
    Alice se levantou. O disco foi trocado, algo como uma trilha sonora já tão reconhecida por aqueles dois começou a tocar. Pedro de sua cadeira, com seu cigarro acesso, sorriu como um vaga-lume feliz numa noite escura e densa. Alice, ao lado da vitrola, com os dedinhos carinhosos em contato com o mundo, sorriu também. E aqueles dois respiraram fundo e tão claramente que seus pulmões encheram-se de uma mista paz e coisa nova e bonita e cheia de flores e música. E era novo e era bonito e Pedro não parou de escrever até o dia pintar-se em cor lá no céu com Alice toda sonolenta ao seu lado, dividindo a over e a libido, dividindo a insana vontade de viver. 




Annabel Laurino 





sábado, 10 de janeiro de 2015

O Som que a Chuva tem

Choveu quase toda a semana. Choveu enquanto eu dormia, mas não fui capaz de perceber as gotas de chuva tamborilando nos vidros da janela ao lado da cama. Choveu quase todos os dias, uma chuva que lambeu as ruas com poças espalhafatosas de água, uma chuva que há dias não caía, ensopou as calçadas, os calçados dos passantes despercebidos e apressados, e estampou gotículas nos guarda-chuvas aglomerados na rua central.
            A chuva oscilava em suas cheganças, principalmente nas tardes quentes desse verão abafado e denso, quase claustrofóbico. Quando parecia que ia cessar, lá estava ela, espalhando-se vivaz, acompanhada de nuvens carregadas e gordas, anuviando o sol.
            Mas o resto você já sabe, muito aguado. O que importa é que por segundos apenas, quando a janela era aberta, podia-se ter um vislumbre faceiro daquele tempo cinza e fechado, daquelas nuvens carregadas, daquela brisa contente e um tanto gelada brincando na ponta do nariz, uma lembrança quase próxima dos tempos invernais. Saudade, saudade. Faz uma caneca de café e senta na soleira da sua janela, menina, veja a chuva escorrendo pelas telhas e por tudo, levando todas as partículas de poeira embora. Nada melhor.
            Nos noticiários, a semana inteira nada foi bom, teve um ataque terrorista do outro lado do mundo, teve gente afundando nas próprias mentiras e você sabe, todos nós sabemos, é a mesma coisa de sempre, aquela coisa ideológica/hipócrita e hostilizada com todos no fim da história tentando salvar seus calções. Mas não estamos nós todos tentando salvar nossos próprios calções? Não importa, reflito, o mundo está escorrendo pelas nuvens nesse exato instante, não importa. E volto a pensar, mastigar, sentir o amargo ferrenho e doce dessa incrível incapacidade de compreensão do porque existir enquanto tudo lá fora só chove, e chuva e chove, pingo que não para de cair, e cai aqui, na minha cabeça confusa e descabelada, cara amassada de dormir mal a noite inteira, cara com olhos dissimulados de cigana oblíqua.
            Minha escrita não é clara, eu sei. Eu falo com pressa, como quem não sabe aonde chegar, não sabe onde estacionar o carro no meio da estação lotada de tantos outros carros. Mas eu insisto, eu quero uma vaga sem nem saber por que. E falo mesmo assim, escrevo nessas linhas que não existem, parafraseio nesse instante que já passou. Minha escrita tem como forma uma existência de peso que se eleva em sua própria leveza. Levo meus dedos em direção dessa máquina que tem por tarefa me deixar entrar, para escorrer calma e precisa, como a chuva lá fora.
            Se você vem ou não eu já não sei mais, mas venha. Aparece no meio da noite e para ser dramática logo, me salva. Me salva desse importuno desesperado de não saber onde estou, se eu já fui ou se já cheguei. Me salva dessa pressa, desse desesperado desaparecer de faces que me tem por inteira. Vem e abraça meu corpo, se cubra comigo nas minhas próprias cobertas e aquece esses braços seus. Canta para mim, o violão ta logo ali, ao lado da porta, dedilha ele como se dedilhasse a mim e depois dedilhe-me também, por que não? Eu te espero e tenho urgência na minha espera desesperada em desesperar.
            Do outro lado da cidade eu sei que um pingo acabou de cair sobre sua face rubra e feliz. Um ônibus acabou de dobrar a esquina e levantar água de uma poça no meio da rua, uma música toca alto dentro de um apartamento do outro lado da praça principal, nossa música favorita. O universo sussurra canções harmoniosas. Te procuro na imensidão vasta dessa chuva que não para de cair sabendo que do outro lado da cidade você me procura em qualquer coisa como um livro, uma frase solta, uma lembrança vaporosa, um café sem açúcar ou chuva, porque eu sou toda chuva, toda temporal. Do outro lado da cidade ou do outro lado do mundo, o universo abraça tudo e ele conspira a meu-seu-nosso favor.
            Agora você já sabe, foi por isso que choveu quase todos os dias. Até mesmo a chuva tem seu próprio e particular som, sua maneira de se comunicar. Ouvi atentamente. Logo, tive a delicadeza de não me silenciar. 




Annabel Laurino



 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Em nome de nós

    Você dormiu. Virou para o lado, deixando as cobertas cobrirem docemente seu corpo nu, moldando sua forma de ossos, carnes e pele tão translucida que agora, eu já não conseguia mais ver. Você dormiu, ouvi seu ressonar baixinho, fiquei ouvindo, escutando você dormir, você e a chuva, caindo os dois sobre o espaço tempo de algum lugar mágico do universo. Embora a chuva só batesse, firme e decididamente, sobre as nossas cabeças naquela noite.
    Você dormiu, sem vigilância alguma. Eu espiei você, gravei seus detalhes, entrei na sua mente sorrateiramente e descobri seus sonhos. Tudo isso enquanto você dormia, mas você nem viu, nem percebeu. Você dormia. E eu fiquei ali, no escuro, querendo alguém para abraçar. Fiquei ali no escuro querendo um calor humano para envolver o meu calor humano também. Fiquei ali ruminando formas de te acordar e te trazer daquele sono tão tranquilo, tão sereno, mas que no fundo eu invejava.
    Chorei no escuro do quarto, perdida entre as quatro paredes simétricas e perfeitas de cor azul. Chorei sobre aquele colchão que já tinha a forma do meu corpo desenhada no canto, próximo a parede. Chorei lágrimas duras e frias, sem você ver. Porque você dormia. Você nem sabia, nem desconfiou, você não me vigiou mais.
    Você não acordou nem mesmo quando eu abracei meu corpo e disse “eu preciso tanto, eu preciso tanto de um abraço agora, eu me sinto só, só nesse imenso quarto, nesse imenso azul, nessa condensação lenta que me desgasta, nessa coisa copiosa e dura em que me perco”. Você não acordou com os meus soluços, meus lamentos. Chorei por muito tempo, pedi paz, falei baixinho pedindo muita paz. Queria algo bem doce e depois sentir cheiro de alecrim, pensei em Paris, chorei mais um pouco e me senti só, mas depois o coração encontrou alento. E você dormia.
    Nesse sono só eu fui me perdendo naquele escuro condensado daquele quarto tão simétrico e perfeito. Você nem percebeu. Você estava ali, deitado ao meu lado, ressonando baixo como um anjo perdido em sonhos, perdido em fábulas, perdido de mim, perdido em nós ou de nós mesmos, sem se quer acordar. Qualquer movimento brusco era incapaz de te tirar dali, daquele sono tão rarefeito. E por isso eu chorei, não existia o que eu pudesse fazer, eu só queria teu corpo, eu precisava de você inteiro e acordado, olhando nos meus olhos, os teus olhos tão limpos e claros e cheios de luz e cor, olhando para mim assim, bem aberto. Eu precisava do teu sexo, do teu abraço apertado, da tua mão enroscada nos meus cabelos, dos teus passeios com a boca sobre o meu ventre. Precisava das caminhadas de sol no domingo, do café amargo numa mesa perdida da cidade, de uma aventura cheia de Flâneur. De um ônibus para lugar nenhum, de um destino, de um rumo, um mergulho, uma direção, você e eu, nós dois, no escuro do teu quarto, sobre a claridade do meu, na luz ofuscante de uma manhã de sexta feira ou no final de uma segunda feira cheia de chuva, cheia de apagão. Eu precisava, eu precisava. Eu muito precisei.

    E agora? E agora? A pergunta bate como um pingo de chuva que estivesse caindo sobre a minha cabeça. E agora? Esperamos a chuva parar, esperamos o dia amanhecer? Esperamos pelo sol? Here comes the sun... 
    Ou aceitamos? Aceitamos que o disco arranhou e que a vitrola perdeu a sua agulha. Aceitamos que a vida é assim, independente da musica, ela simplesmente toca, aceitamos o duro, no duro, nessa coisa chamada engolir em seco, sem piedade. Aceitamos o 'sem você e eu'. Corredores vazios, livros mofados, ônibus lotado, café frio, música ruim, gente estranha, tudo isso, sem você e eu. E sem as conversas, claro, longas e intermináveis, até as quatro no telefone. Meus pés roçando tuas pernas, minha boca pedindo pela tua, meu corpo pequeno vestido num pijama bobo, perdido no meio do teu quarto esperando você chegar de algum outro canto da casa. E tudo e tudo e nada e nada. E vamos indo, como quem há muito tempo já se esqueceu de que horas são.
    Então você dormiu. Assim, como quem gradativamente vai caindo num lugar onde não se tem mais como sair. Você foi indo e eu fiquei aqui, puxando as cobertas sobre meu corpo, tentando a custo e a fio, a choro e desespero, salvar qualquer coisa como um sou de ser, de como era antes, desse desgastado nós.


 Annabel Laurino 




quarta-feira, 12 de novembro de 2014

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In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah

Lonely

    Alguma coisa se partiu em cacos e algo se perdeu. Depois disso, depois do baque, depois da queda lenta e fria, dura sobre o piso frio e sólido, a coisa, a coisa nunca mais foi a mesma.
    O sol desponta na minha cara fresca matinal, recém lavada com cheiro de sabonete, o gosto de café ainda tão forte na boca quente, o sol das oito da manhã, meu cabelo vermelho reluz forte sobre um raio morno e eu caminho firme de encontro ao ônibus, eu sigo em direção ao rumo certo sem saber que rumo eu devo pegar. 
    O ar é rarefeito nessa cidade de pedras onde encontro sossego atrás das portas de uma livraria. Mas tudo me sufoca agora. Eu lembro de Cecília, eu me pergunto constantemente "em que espelho ficou perdida a minha face?'. E você me ronrona no ouvido quente se eu não penso em você e eu afirmo com a cabeça, sim, eu penso, eu penso em você as sete da manhã enquanto tomo o meu café forte e assisto ao noticiário, eu penso em você. 
    Eu penso em nós?
    Mas nós, quem?
    Você brinca com os meus dedos dos pés e eu tenho vontade de afundar a cara na curva perfeita do teu ombro tão branco, de encontrar teus ossos, te raspar a pele na tua barba. Você me chama de pequenininha e eu só penso em ficar mil anos com você. Mas houve a queda, houve o baque e tudo agora é uma mistura de sol forte, cidade vazia, sons abafados e café forte as sete da manhã. Alguma coisa se perdeu.
    Parece que alguma coisa vai endurecendo com o tempo, é isso mesmo? Parece que tudo tem por obrigação de alguma forma... se perder. 
    E eu penso em algum filme que não vimos, eu penso em algo que ainda não fizemos, em alguma viagem já planejada tantas vezes, planos refeitos mil vezes e lembro de tudo, desde o pequeno começo e vejo o quanto nossos rostos, agora pintados num quadro da memória,  mudaram, o quanto o percurso se tornou diferente e eu me pergunto se você ainda vai continuar brincando com os dedos do meu pé, se vamos ver todos os filmes que queremos ver juntos e se essa coisa quebrada pode ser colada novamente.
    Dói, eu sei que dói, e é por isso que eu caminho em direção ao ônibus procurando um rumo certo as oito da manhã, com gosto de café na boca e pensando em te ligar mas não ligo. Eu quase nunca ligo, nos últimos dias eu não ligo mais. É por isso também que choro, claro que você não sabe de todas as vezes que eu choro sentindo um vazio enorme aqui dentro e uma vontade insana de desaparecer por completo, claro que não. Claro que você não tem ideia da metade das coisas que faço sem você saber. E por conta disso ando me sentindo cada vez mais só.
    Talvez eu tenha sido a pessoa mais doida que você conheceu desde que veio ao mundo. Não me orgulho disso. A gente não pode mesmo mudar o que foi feito para ser. A gente só pode mudar o que somos num conjunto. Mudamos.
    Caminho com a lembrança quente dos meus braços enlaçando teu pescoço, da minha boca encontrando a tua no escuro breu do teu quarto as duas da manhã, você pegando minha mão e dizendo que tudo ia dar certo e eu lembro de tudo e tudo dói, então eu só caminho em direção ao ônibus que agora me espera, eu me pergunto sobre o futuro, eu sinto tudo aqui dentro, eu continuo, mas eu nem sei bem por que. 


Annabel Laurino