“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
Clarice Lispector, (último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, 7/12/1977.)
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Acostumar
Mas se tudo isso fosse ensaiado, só que não é. Até agora depois de todos os momentos nunca foi. Nada combinado, nada programado. Você só chegou bem perto de mim enquanto a musica começava com suas nuances de acordes e me tomou nos braços carinhosamente, como sempre faz e faz tão bem.
Não há gestos obrigados ou trejeitos que insinuem algo que não está realmente lá. E eu sei disso enquanto olho no seu olho e me deixo ser pega por você até que quando me dou conta já estamos dançando.
Lá estávamos nós, ao som da letra que nos embalava, e você pôs suas mãos na minha cintura e eu te envolvi com os meus braços no seu pescoço, não resisti e te cantei um verso enquanto te beijava a boca. "Dava tudo por amor, eu vim de longe, dava pra sentir você dançando só pra mim". Nunca nada foi tão bom e nós ficamos nos embalando em meio ao meu quarto até a musica acabar. A musica dizia sobre se acostumar e eu já tão acostumada com o cheiro do seu suéter em mim, com seu cabelo enroladinho e seus olhos sinceros aquecendo os meus dias mais frios. Eu que já me acostumei com os nossos encontros sobre luas e sóis, praias com vento fresco e noites de chuva no carro do seu pai e Roberto Carlos tocando ao fundo. Com a comida da sua mãe, o seu gato Fredie, seu quarto arrumadinho e nós dois juntos trocando conspirações fajutas e tomando qualquer coisa no sofá da sua sala num domingo qualquer.
Me acostumei à essa mudança cósmica sobre o plano espetacular do meu mundo escondido. Você veio e trouxe o sol enquanto eu dava tudo por amor. Acostumei com os cantos dos meus lábios se curvando em reverência à essa vida boa que levo agora com você, porque me acostumei da gente se divertir sem me preocupar se lá fora o mundo pode ou não mudar e o que as bocas estranhas irão falar.
Estarei segura enquanto você segurar a minha mão, ou me embalar assim nos seus braços até a musica acabar, até a gente não cansar de se acostumar.
Annabel Laurino
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Sobre escrever, você sabe
Algo dentro de mim rimbombava num frenesi constante de uma história que queria ser contada, mas que ainda nem tinha sido vivida. De uma história com muitos nomes para a classificar mas que não fazia sentido próprio se não tivesse ela uma... vida.
Porém ela existia. E voltava a dormir e acordar em todas as vezes em que eu abria um livro ou assistia aos créditos finais de um filme rolando na tela da televisão. Ela se recriava constantemente nos recônditos mais secretos de mim mesma, vinda de um imaginário múltiplo, era uma história cheia de dores e amores e as coisas mais fantásticas que se pode pensar. Ela era pura como um fio branco de nuvem cortando o céu e tão, tão escura quanto o mais negro breu.
Uma vez num certo dia essa história pediu-me com muito carinho para que eu a contasse, para que eu a transcrevesse em algum lugar. Escrever não, transcrever, de tal forma qual já existia e eu não pude negar. Pediu-me para que tivesse calma e muita, muita delicadeza. Disse-me: "O mais fácil é lembrar dos amores que já trazes no peito.".
Lembrar. Ela me fez lembrar como era ser criança outra vez, como então eu poderia de uma hora para outra provar o gosto bom de um doce que fora mordido lá quando criança. Foi pura mágica, como também foi muita dor, e todas as lembranças tinham seus gostos de favos de mel acompanhados de um tormento ameno de cicatrizes agora já curadas e saudade. Saudade. Ela me fez tomar pequenas doses disso.
Foi assim que fui trilhando meu caminho passo a passo, seguindo meu próprio trajeto em escrever sorrateiramente nas paredes de prédios abandonados da cidade onde todos passavam em frente mas poucos percebiam suas rusticas rachaduras do tempo ou seus destroços remoídos pela destruição, janelas quebradas, poeira a dentro.
Amor. Algo tão antigo, algo tão épico, findável, duvidoso. Que palavrinha essa que me vem e me atormenta. Durante séculos passando de boca em boca pela humanidade e essa palavra ainda nos causa tanta contradição. Foi sobre isso que eu tive que escrever, várias e repetidas vezes mas sem me cobrar além do fator máximo que se chama sinceridade. Tive que ir nos lugares mais escuros de mim mesma e me buscar diante a uma incredulidade que muitas vezes me espantava, me dava desgosto. E logo após isso eu aprendi muita coisa, entendi muita coisa.
Não, as páginas dessa história não estão prontas ainda, palavra por palavra é escrita com a precisão e a lentidão da alma, do sossego. E é por isso que eu ando sem pressa, que todas as manhãs eu descubro o sabor doce que o outro amanhã sempre pode ter.
As histórias se criam sem alardes, sem promessas. Elas só precisam de alguém que as conte.
Eu contarei algumas.
Tantas mais quanto eu puder.
Porém ela existia. E voltava a dormir e acordar em todas as vezes em que eu abria um livro ou assistia aos créditos finais de um filme rolando na tela da televisão. Ela se recriava constantemente nos recônditos mais secretos de mim mesma, vinda de um imaginário múltiplo, era uma história cheia de dores e amores e as coisas mais fantásticas que se pode pensar. Ela era pura como um fio branco de nuvem cortando o céu e tão, tão escura quanto o mais negro breu.
Uma vez num certo dia essa história pediu-me com muito carinho para que eu a contasse, para que eu a transcrevesse em algum lugar. Escrever não, transcrever, de tal forma qual já existia e eu não pude negar. Pediu-me para que tivesse calma e muita, muita delicadeza. Disse-me: "O mais fácil é lembrar dos amores que já trazes no peito.".
Lembrar. Ela me fez lembrar como era ser criança outra vez, como então eu poderia de uma hora para outra provar o gosto bom de um doce que fora mordido lá quando criança. Foi pura mágica, como também foi muita dor, e todas as lembranças tinham seus gostos de favos de mel acompanhados de um tormento ameno de cicatrizes agora já curadas e saudade. Saudade. Ela me fez tomar pequenas doses disso.
Foi assim que fui trilhando meu caminho passo a passo, seguindo meu próprio trajeto em escrever sorrateiramente nas paredes de prédios abandonados da cidade onde todos passavam em frente mas poucos percebiam suas rusticas rachaduras do tempo ou seus destroços remoídos pela destruição, janelas quebradas, poeira a dentro.
Amor. Algo tão antigo, algo tão épico, findável, duvidoso. Que palavrinha essa que me vem e me atormenta. Durante séculos passando de boca em boca pela humanidade e essa palavra ainda nos causa tanta contradição. Foi sobre isso que eu tive que escrever, várias e repetidas vezes mas sem me cobrar além do fator máximo que se chama sinceridade. Tive que ir nos lugares mais escuros de mim mesma e me buscar diante a uma incredulidade que muitas vezes me espantava, me dava desgosto. E logo após isso eu aprendi muita coisa, entendi muita coisa.
Não, as páginas dessa história não estão prontas ainda, palavra por palavra é escrita com a precisão e a lentidão da alma, do sossego. E é por isso que eu ando sem pressa, que todas as manhãs eu descubro o sabor doce que o outro amanhã sempre pode ter.
As histórias se criam sem alardes, sem promessas. Elas só precisam de alguém que as conte.
Eu contarei algumas.
Tantas mais quanto eu puder.
Annabel Laurino
terça-feira, 27 de agosto de 2013
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"Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos os carinhos, todas as atenções. Quero colo, quero beijo, quero cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores, quero doces, quero música, vento, cheiros …"
Caio Fernando Abreu
sábado, 24 de agosto de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Forever
Você precisa destapar os ouvidos
Para ouvir a chuva
O tempo que se perdeu, já foi achado
No fundo do teu bolso escondido
O tempo não se perdeu
Nem foi perdido
E cai agora a chuva
Que respinga na minha blusa azul
Que respinga no mundo frio
E nós nos damos as mãos
Entrelaçados pelo tempo
Este tempo que não se perdeu
O mundo gira devagar
A fria névoa vem nos alcançar
Mas nós fugimos
Aves cortando o céu a noite
Você precisa ouvir a chuva
Como flui
E dança
Maybe nothing lasts forever
Talvez, talvez
Somos infinitos gritantes
E chove lá fora
Para ouvir a chuva
O tempo que se perdeu, já foi achado
No fundo do teu bolso escondido
O tempo não se perdeu
Nem foi perdido
E cai agora a chuva
Que respinga na minha blusa azul
Que respinga no mundo frio
E nós nos damos as mãos
Entrelaçados pelo tempo
Este tempo que não se perdeu
O mundo gira devagar
A fria névoa vem nos alcançar
Mas nós fugimos
Aves cortando o céu a noite
Você precisa ouvir a chuva
Como flui
E dança
Maybe nothing lasts forever
Talvez, talvez
Somos infinitos gritantes
E chove lá fora
Annabel Laurino
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"Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. "
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
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"Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé — não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre."
Caio Fernando Abreu
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Tenho aprendido coisas que ainda estão vagas dentro de mim, mal comecei a elaborá-las. São coisas mais adultas, acho. Tem sido bom.
Caio Fernando Abreu
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