Tossiu. Uma tosse que não passava a quase uma semana. Tomava remédios e aquele xarope de nome esquisito e gosto ruim e mesmo assim a tosse lhe vinha pela garganta cada vez mais forte, atacando seus pulmões fracos. Desconfiava que morreria jovem, muito jovem, mas era só uma tosse e sua inclinação ao drama desenfreado. Atravessou a rua. Quase três da tarde e o sol bateu forte em sua cara desmantelada de sono. Agitou os cabelos com as mãos e espalhou os fios ainda mais, deixando-os terrivelmente bagunçados. Não sabia de onde havia saído toda aquela gente. Caminhavam ávidas passando umas pelas outras em tamanha rapidez e se batiam os ombros sem pedir se quer desculpa, apenas seguiam o rumo adiante para as ruas em frente. O que tanto tinham para fazer àquela hora? Sacolas de compras, contas para pagar, algumas saiam de cursos, jovens matando a aula, desempregados sem nada para fazer, não saberia o que mais dizer. Ele mesmo se pudesse não estaria ali aquela hora da tarde, se ainda conseguisse ficar sozinho e ter o poder de filtrar a sua mente que insistia em se sentir tão... Só. Foi ai que sentiu aquele estalo. Um bem forte e que quase lhe deixou surdo. Olhou toda aquela gente, e todas aquelas moças, aqueles cabelos compridos, curtos, pernas de fora e braços e bocas e sentimentos que carregavam como bagagens para todos os lugares. Poderia se apaixonar por qualquer uma delas. Qualquer uma. Entrou em um café e puxou uma cadeira. Café expresso, por favor. Olhou a garçonete que anotava seu pedido, bonitos lábios e rosto angelical, nova, talvez vinte, poderia se apaixonar por ela. Talvez gostassem de algumas bandas parecidas, talvez pudessem ir ao cinema e falar mal de alguns filmes e depois ficarem juntos na cama até o dia amanhecer, qualquer cama, na dela ou na sua. Poderia funcionar. Ou não. Cabelos encaracolados e corpo de violão lhe assaltaram a mente tão rápido quanto uma supernova explodindo no espaço distante. Sorriso de criança feliz e pés gelados, perfume gostoso de sentir e aquela risada, ah, aquela risada. De repente a garçonete sumiu, a cafeteria desapareceu. Já fazia tanto tempo que tudo havia acontecido. A ultima vez que a vira seus cachos que costumavam serem eletricamente felizes e dourados estavam caídos e tristes. A ultima vez que a vira ele havia ido embora e a deixado para trás em um ponto de ônibus qualquer da cidade. Não era o mesmo desde aquele dia. Era mentira. Não conseguiria apaixonar-se por qualquer pessoa. Não naquela hora ou naquele dia ou talvez por um bom tempo. Sentia-se, como era mesmo? Substituindo. E dessa vez seria substituindo algo que fora lindo e que ainda não havia ido dormir, como deve acontecer com os sentimentos ou coisas que terminam porque morrer não, nada morre, ou simplesmente cai-se em esquecimento ou adormece dentro da gente. Sorriso de criança e cabelos encaracolados ainda não estavam dormindo dentro de si. Tomou um gole do café que havia chegado sem que ele percebesse. Tentou admirar a garçonete de longe, tentou gostar dela e tentou se forçar a talvez um flerte, um gracejo na hora de pagar a conta e talvez a convidar para sair. Mas não seria mais possível, não por ora. Olhou seu reflexo no vidro e se viu tão estranho. O rosto magro e com a barba por fazer, as mãos ossudas segurando a xícara e os olhos fundos, mergulhados em olheiras roxas. Ah a vida sempre tão frágil. Mas não foi ele mesmo que decidiu ir embora quando tudo ainda podia ser uma flor ou um jardim ou qualquer coisa linda que pudesse crescer e dar frutos? Não foi ele que virou as costas? Sim, foi. E mesmo assim se encontrava ali, infeliz e vazio. Um vácuo por dentro que nada daria jeito. Pensou em pegar um cinema, em se levantar da cadeira, em ir para qualquer lugar e dar um jeito na vida e fingir pelo menos por alguns segundos ser feliz, mas parecia necessitar de um esforço imenso para que conseguisse operar todas essas ações. E infelizmente, ah sim, infelizmente, sua motivação havia evaporado. Ou melhor, sido deixada para trás. Ser forte não era mais uma opção. Ser forte para quem, para que? Para os seus amigos solteiros e que desacreditavam no que poderia ser o amor? Ou para as cervejadas de sexta e o futebol de quinta quando colocava todo o seu lado homem e viril de se mostrar? Pra quem sabe então as outras mulheres ou a sua colega de trabalho do terceiro compartimento à esquerda. Não, para ninguém mais. Ser forte não era mais uma opção, não era mais possível, não era mais útil. Depois de um longo tempo que não soube dizer quanto, a garçonete retornou a sua mesa e perguntou se poderia retirar a xícara, sim, por favor, e se talvez ele gostaria de mais alguma coisa e então pensou. A língua passou pelos cantos da boca, olhou para cima, para os olhos da moça, escuros, quase negros, negros como o café preto que havia recém tomado. E disse enfim: - Sim, sim, eu quero sim. Eu quero uma máquina do tempo e que seja abril outra vez. Apenas abril outra vez.
“A gente escuta um Beatles enquanto você desenha corações deitado na cama e eu escrevo “oh, you don’t realize how much I need you.” E nesses dias em que eu me sinto só, é só pensar que em algum lugar você deve estar pensando em mim. E nesses dias em que a gente briga, fica tudo meio cinza. E nos dias em que a gente faz as pazes, eu deito do seu lado e canto no seu ouvido “oh, I could never really live without you.”
Tudo no mundo pode ser alterado muito bem sem a minha ajuda. Tudo pode entrar e sair de um ciclo sem que haja influência minha. Tudo é contornável e as ações são reações de fatos já existentes na atmosfera terrestre. Tudo existe por alguma razão e tudo deixa de ser por algum motivo. Sem a minha ajuda. As coisas fluem. A vida é fluido das veias do tempo. Tudo acontece em questão de segundos. E é só preciso um segundo para que tudo deixe de existir. Eu vi o tempo brincar na gangorra com o amor. Eu vi muitas coisas. As pessoas indo e vindo e eu ficando sentada no mesmo banco da estação enquanto o trem nunca vinha. Eu vi o sol renascer inúmeras vezes e contei gotas de chuva escorrendo frias pela janela de um quarto. Conheci o que é saber deixar ir e deixar ser e let it be, let it be. Foi difícil, difícil como ensinar para uma criança que ela não pode sonhar com super heróis, papai noel, princesas e castelos com dragões imensos. Veio da minha essência acreditar em tudo, não querer me despedir daquilo que eu amo, não querer deixar passar. Mas uma hora dessas a gente vai aprendendo com os socos que a gente ganha e uma dessas a gente aprende a ficarmos quietos e distantes. Respira irmão, respira. Deixa estar. Não me entristeci mais por ver muita gente indo embora e deixando de gostar de mim pelo o que eu realmente sou. Não me entristeci porque aprendi que quem te ama de verdade segura tua mão até o fim e nunca vai deixar de te amar por qualquer coisa como uma avalanche deslanchando ou um temporalzinho de verão. Então eu só fiquei quieta e deixei que eles fossem, deixei que não gostassem mais de mim, deixei. Alguns erros foram desnecessários, outros sobretudo em vão. Mas eu aprendi com eles, aprendi até mesmo a nunca mais comete-los. Foi o que restou para pensar nas noites sem o sono vir. Sonhos eu tenho alguns, desejos eu tenho sempre. Mas não te contarei todos. Te direi apenas que me faz falta alguém por aqui, alguém firme e estável, espalhando flocos de luz e me deixando provar uma réstia de gosto bom do que é compartilhar a vida e dividir momentos, segredos, coisas assim. Ouvir e contar histórias. Ser e dar o bem. Não, eu não chorei mais. De vez em quando somente, quando vejo algo bonito, eu choro. Algo que me emocione a alma. Um casal feliz, uma família bonita, um filme romântico, uma musica, um cheiro, uma lembrança e alguns momentos introspectivos. É mentira quando eu disse que continuava a mesma. Não continuo. Na vida tudo flui, como disse Heráclito, tudo é ciclo. Eu sou um ciclo pensante e que me altero conforme as conotações da vida. Tive que mudar, foi preciso. Mas não vi e nem sei quando me ocorreu essa mudança, quando foi que me dei por mim mudada. Aconteceu como acontece de uma árvore perder suas folhas secas e depois em outra estação estar cheia delas, lindas e verdes. Não sei qual das árvores eu sou agora, a seca ou a exuberante árvore primaveral. As vezes penso que sou a seca, com meus ramos desnudos sobre um sol de inverno, esperando o cantar dos pássaros, o calor da estação próxima, e então eu poderei me encher de ramos e folhas e me cobrir de luz, novamente. Tudo flui, e fluirá uma hora de eu ser outra coisa além dessa e de novamente não estar mais como era antes. Perdendo folhas secas ao vento, ganhando novas quando a próxima estação chegar.
“Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.”