segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sensível

    Eu não queria parecer assim tão frágil. Fico dizendo para mim mesma o tempo inteiro "seja forte, empine o queixo, seja forte", mas ando assim, meio sensível ao menor dos toques e quando percebo o risco de um tom de voz elevado ou um movimento brusco que possa se quer me ferir eu corro para dentro da minha toca, escondo-me, porque já doeu tanto e as minhas marcas de guerra ainda continuam expostas, incuráveis. 
    Quase como se eu não quisesse mais me dar ao luxo de mais alguns arranhões. Me deixaram como um gato arisco, fico com os meus olhos enormes de raposa astuta observando a minha volta e com o menor dos gestos de risco eu me escondo. Porque já doeu demais. 
    Tenho chorado por qualquer coisa. Isso não me orgulha e nem faz de mim uma pessoa melhor, pelo contrário, eu me sinto fraca por isso. Mas as vezes dói tanto essa solidão amarga com gosto ruim no fundo da boca. Leio um trecho bonito e choro, trago aquilo para dentro de mim como se alimentasse a alma, mas não alimenta. E choro como se chorasse a mesma dor de Caio Fernando Abreu ou Clarisse Lispector, como se de repente eu sentisse tudo e mais um pouco do que já foi escrito. Escuto uma musica e choro, porque fala tanto de mim e de repente eu só queria um abraço para confortar forte mas é só a musica que fala  então eu choro por um tempo e depois que passa parece que fiquei mais leve. Só que eu não sei se fico, é como um ciclo. Volta e meia vejo um filme e choro, porque acho lindo algumas coisas que todos parecem ter esquecido tão de repente, abruptamente. 
    Eu não queria mais ser assim, sensível. Mas estou e sou. Sinto-me como uma rosa obrigada a fechar-se depois de ter florescido. Como você obrigada uma rosa a desflorescer? Ande logo, feche-se, ninguém vai olhar para você, ninguém irá achar bonita essa sua cor rubra e suas pétalas macias de nada valem, feche-se e esqueça. 
    Mas não consigo mais. Por isso ando reprimindo qualquer interação com o mundo exterior. Leu muito, ouço musica, sento na janela, escrevo, falo com um amigo pelo telefone e depois choro baixinho quando a noite cai. Porque o mundo as vezes fica cinza e ninguém percebe, tem dias que tudo é lindo e também ninguém percebe. 
    Acho que um abraço agora me colocaria em prantos e talvez eu me desmanchasse em choros novamente. Por isso também ando dispensando abraços. Ninguém entenderia isso tudo e por isso eu me calo. 
    Um casal apaixonado, um frase profunda, uma melodia gostosa de ouvir, tudo isso me emociona. Acho que não conseguiria mais ser aquela pessoa fria e calculista de antes, que não pensava nos outros e não tinha medo de arriscar qualquer passo involuntário no escuro, que se atiraria no mar revolto sem medo e que partiria qualquer hora sem mágoas ou saudade no peito. Desconfio que essa pessoa já não existe mais dentro de mim, porque ando tão perspectiva ao mundo a minha volta, e entendo tudo e compreendo e não consigo mais julgar. De repente sinto-me tão frágil e como se essa minha humildade toda tivesse criado em mim uma fome imensa, a de ser compreendida também.



Annabel Laurino 


;



“A gente escuta um Beatles enquanto você desenha corações deitado na cama e eu escrevo “oh, you don’t realize how much I need you.” E nesses dias em que eu me sinto só, é só pensar que em algum lugar você deve estar pensando em mim. E nesses dias em que a gente briga, fica tudo meio cinza. E nos dias em que a gente faz as pazes, eu deito do seu lado e canto no seu ouvido “oh, I could never really live without you.”

 

Caio Fernando Abreu

;

;

“Se Amélie prefere viver no sonho e ser uma moça introvertida, é direito dela. Pois, estragar a própria vida é um direito inalienável!”


 Le fabuleux destin d’Amélie Poulain

domingo, 28 de abril de 2013

;



"Diário de uma epilética:
entrego-me ao que sou,
tudo que vejo repousa nas pálpebras da minha alma."


- moscou, 1821

sábado, 27 de abril de 2013

.


No more

    Não sofrer mais. Nada, nem um pouquinho. E nem chorar. Nada de choros e chorinhos, de madrugada principalmente, depois que você percebe que o dia realmente acabou e não aconteceu nada de lindo ou fantástico ou memoravelmente cativante. Nada de tapar a cabeça com as cobertas e abafar o soluço com os travesseiros e ouvir musica triste e sentir dó de si mesma porque tudo vai mal. Chega.
    Eu não quero mais isso. O meu 'não querer mais' vem também acompanhado de muitas outras restrições. Além de não querer mais sofrer chega de irritamentos bobos, coisas fúteis que me tiram do sério, chega de entristecer-se por quem quer ir embora ou por quem não sabe o que quer. Chega, além de tudo, de relações pela metade e expectativas frustradas completamente enviadas a uma emergência na UTI.
    Existe uma frase de um filósofo francês em que ele diz que não importa de fato o que as pessoas fazem com você, importa o que você faz com isso. Ou seja, você se importa, você chora, você grita ou você fica triste ou então você pira de vez e acaba passando a vida cortando relações com o mundo exterior que ainda chamamos de sociedade. 
    Decidi que não vou mais sofrer. Até porque não estou pronta para morar numa casa pequena, trancada, abastecendo comida e ter uma crianção de gatos para me fazer companhia junto dos meus livros atulhados em todo lugar. 
    Não estou falando que isso será para o resto da vida. Deus sabe que você não tem como passar ileso de tudo isso depois que você cresce e descobre que tem um coração. Mas pelo menos por enquanto ou quem sabe por um longo tempo. Não há mais como ficar pelos cantos choramingando pedacinhos de vida que deixaram de ser. 
    Não sofrer mais pela indiferença alheia e nem pela falta de carinho e afeto. Não chorar e não gritar por fome de algo que ainda não veio.
    Tratasse de aceitar com o queixo erguido que as pessoas, a vida, as situações são como tais elas são e não sou eu querendo mudar tudo isso que de fato irão mudar. Eu não irei fazer de um soco no estomago o fim de um país ou a aproximação da Terceira Guerra Mundial. Não criarei em cima de uma decepção um caos e nem de uma indiferença um motivo para chorar depois que o dia acaba. Chega disso baby, ta na hora de fazer nascer flores onde não tem e de criar coisas boas, sair colorindo por ai, espalhando sorrisos e evitar, sim, evitar esses encaretamentos que nada me servem. 
    Ser paz, ser luz, desejar paz, enviar luz. Ir indo, como sempre se vai e de repente tropeçar em algo bom, em algo que direcione um caminho mais firme, com terra mais plana. 
    Enquanto isso nada de tristezas, nada de sorrisos enviesados. É hora de sorriso aberto e peito estufado de amor. 




Annabel Laurino

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Preciso

    Eu preciso de alguém carinhoso e compreensivo, que não vá entrando na minha vida e chutando tudo longe e querendo mudar os centímetros quadrados de pensamentos que eu levei a vida inteira para reagrupar. Que me ajude quando a mesmice diária bater e eu tiver vontade de prender a cabeça no vão da janela e fechá-la com uma só batida. Que me abrace forte e prometa que tudo vai ficar bem, mas que não seja uma promessa dessas que exija prazo para ser cumprida, apenas dessas que se cumprem progressivamente ao longo que a sua mão for pegando da minha e os seus beijos forem beijando-me e tudo for ficando doce ao longo do tempo. E então tudo ficará bem.
    Uma pessoa que me faça esquecer dos dias escuros e me lembre que sempre haverá um sol lindo e se ele demorar a nascer, bem, subimos no telhado e admiramos a luz da lua e a brilho essência das estrelas. 
    Alguém que dê um jeito de me fazer sorrir e não me deixe ser tão bruta com os sentimentos e tão fria com as emoções, em outras palavras, alguém que me toque. É, lá fundo e profundo de um jeito que se vai aos poucos e com cuidado que é para não me assustar de repente e fazer meu lado medrosa sair correndo. Que me dedique musicas, me dê flores e me faça cafuné, que me deixe ser e estar. Que tenha o abraço mais gostoso do universo e que simplesmente mate minha sede de mundo numa só fisgada de beijo, que passe segurança como se a noite não fosse fria e os dias não fossem terrivelmente longos, apenas pelo fato de estar ali, naqueles braços longos que façam voltas no meu corpo. Alguém que não me abandone por ser doida, cheia de manias, com compulsões por livros e roupas e que fale o tempo todo. 
    Alguém que entenda tudo isso e realmente queira ficar, porque sabe que aqui nesse coração vasto, comprido, remendado, há uma casa bonita, humilde é verdade, mas que tem luz e jardim bem cuidado, varanda perfeita, torta de maça refrescando na janela, lareira acessa e canecas de chocolate quente servidas, sofás com almofadas fofinhas e bordadas a mão, um cheirinho de lar, uma vontade de ser lar para alguém e de abraçar um mundo que não é meu e fazer logo alguém feliz. Sabe, alguém que vai saber que do lado de fora dessa casa irá eventualmente chover sim e o jardim ficará meio sem cuidados vezes ou outras, mas sempre tudo terá um jeito especial de ser. E esse alguém realmente cuidará disso, para que seja especial.
    Para que seja doce.



Annabel Laurino


Tumblr_lvylgthvio1r5ope1o1_500_large

Você deixou de ser

    Acabei de ouvir aquela musica que te gravei num CD uma vez e lembro que eu adorava ouvir ela várias e várias vezes repetidamente porque me lembrava tanto da gente. Talvez você nem lembre, foi no terceiro mês, e eu te entreguei ele toda feliz, o CD, com as quatro musicas gravadas, devidamente escolhidas, uma para cada semana que se passou nos trinta dias. E estava lá, a primeiríssima da lista, a que eu escutava sozinha logo depois que te conheci e nunca tive coragem de te mostrar ela porque a achava um tanto boba, tão diferente das musicas que tu gostavas de ouvir. Mas ela tava lá, a primeira faixa. Us. 
    Lembro de tudo isso porque eu sei do tempo que gastei escolhendo as musicas e me preocupando o que irias achar. Mas você não achou nada. Você só disse obrigada, sorriu, me deu um beijo no rosto e colocou o CD em cima da mesa da sala sem nem me perguntar do porque das musicas, o por que elas estavam ali. 
    Tocou November Rain hoje no aleatório do meu telefone e eu não selecionei a opção 'próxima'. Eu escutei até o fim, até a musica acabar. E quer saber? Eu cantarolei junto, eu sorri, eu fiquei contente, eu não chorei. Eu ouvi de novo e mais uma vez e tudo que restou no final de cada repetição da musica foi que você não estava mais lá na lembrança dela. 
    É verdade que o dia cinco de novembro do ano passado ainda ta aqui na minha memória. Choveu horrores naquele dia. Noite quente e depois chuva. Muita chuva. E você me entregando as rosas com cartão escrito com letra bonita e meio transparente com teu nervosismo. Você reservando aquela mesa daquele lugar bacana para me pedir de uma vez o que já vinhas tentando a um ano. Depois cheguei em casa contigo, ficamos juntos e quando fosses embora eu escutei November Rain e cantei e cantei e fiquei feliz porque era a nossa musica. A musica que tocou no carro da tua mãe enquanto a gente voltava da praia, que tocou no teu quarto enquanto a gente ficava juntos, que tocou quando a gente brigou e eu fiquei mal e depois quando fizemos as pazes e tava tudo bem. 
    A promessa era que nada dura para sempre baby, nem mesmo a fria chuva de novembro. 
    E não durou, é verdade. Não durou.
    Por isso que quando ela começou eu deixei que tocasse só pra ver o que eu sentia depois de tanto tempo sem nem querer pronunciar o nome dela logo quando tu sumiu daqui. E tudo o que eu senti foi saudade de um tempo antigo e que não existe mais. E se existiu um dia, vai saber, foi só na minha cabeça. Porque eu não senti mais nada depois que a musica acabou.
    Só para testar os meus sentidos eu ouvi Patience, ouvi This I Love e Street of Dreams. Nada. Nadinha. Só aquela emoção maravilhosa que a voz incrível do Axl e os solos alucinantes do Slash sempre me causam. Só isso. 
    Vi nossas fotos, li os seus raros cartões, um ou dois. Reli de novo. Eu não achei mais nada além daquilo que estava ali. E nas fotos só o que a gente deixou de ser um dia e que ficou lá atrás e nunca mais voltará a ser. 
    Eu me perguntei até que ponto a gente era feliz juntos ou era só eu que achava que éramos incríveis feito uma dupla dinâmica que foi feita para dar certo. Eu me perguntei em que ponto foi que você deixou de ser o que eu acreditava que você era e passou a ser o que você é hoje ou você sempre foi isso e eu nunca percebi. Não sei. Só sei que você deixou de ser. E quando eu ainda olho pra você e te vejo falar, do outro lado da mesa, daquele jeito seu de sentar, eu percebo tanta coisa sua que não é mais minha e que ficou agora só na minha memória. Aquele jeito todo de que eu gostava sumiu e foi substituído por algo novo, uma cobertura estranha e de que eu não saberei jamais identificar.
    Ficou tantas coisas suas por aqui. Tem tanto de você em qualquer lugar que eu vou ou qualquer musica que eu escuto ou qualquer roupa que eu coloque, porque eu ouvi aquelas musicas com você, estive naqueles lugares contigo e vesti minhas roupas nos nossos encontros. Mas tudo isso continua firme, o que passou de verdade foi a emoção. Não existe mais. A gente deixou de existir que nem pintura com tinta a guache. Facilmente e numa só lavada. 
    Eu sei que poderia ter sido eterno e podia ter ficado com toda a força. Mas não ficou, não durou. E a unica certeza que eu tenho é que a culpa não foi minha e ainda continua não sendo mais minha. Foram suas incertezas e suas inconstâncias que colocaram tantos pontos finais nas nossas delongas gostosas de curtir. Eu que sempre fui de certezas, eu que sempre fui de saber o que eu quero. 
    Você deixou de ser, meu caro. Você não está mais lá e não estará nem mesmo depois de amanhã. Você deixou de ser o cara que eu comparava com o meu Beatle favorito. A sua barba já não é mais a barba que eu gosto e seus dentes já não são mais tão perfeitos assim. Seu cabelo nem se quer mais me chama a atenção. Eu esqueci como tu caminhas, eu não lembro mais como tudo começou e como foi que você chegou aqui. Você deixou de ser o amigo querido e suas partidas se tornaram tão decoradas e cheias de roteiros já lidos e scripts falhados. Todo mundo sabe que você é o cara confuso e meia duzia de gente se levanta da poltrona antes do filme acabar, ninguém suporta um cara que não sabe o que quer. Ninguém quer um mocinho perdido e que não agarre logo a protagonista e a puxe forte pelos braços mesmo que ela queira partir. Ninguém gosta de gente encharcada de incertezas e paralisadas de medo.
    E eu sei. Eu sempre soube o que eu queria. A diferença é que agora não é mais com você. Não é mais com você que eu sei, e nem de você que eu já soube. De você que agora já deixou de ser e nunca mais voltará à imagem daquela foto nossa em que você sorri ao meu lado e congelado na cena, você é o que parece, exatamente como já foi um dia e não será mais.
    





Annabel Laurino




Bd_zyzscqae8q_8_large