sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

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‎-Às vezes sinto falta de mim
-Eu também, menina.
-Sente falta de si?
-Não, de você. E dói.

[Silêncio]

-Me abraça?
-Sempre.

(Caio Fernando Abreu)





Precisa-se de Alguém


    "Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: Precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
    P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar."


Clarice Lispector

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Algo


 Hoje não vi nada em especial... Nada que pudesse... Espere!
    Oh, sim! Sim!
    Eu vi algo!
    Algo subindo a elevação de cores e de sabores que se enchiam dos meus lábios até aos lugares mais alheios de mim. Meu olfato, minha audição.
    E subia e subia. Como se estivesse sendo comandado por um maestro que cheio de suas consternações, dos mais profundos e sórdidos desejos, conduzia o algo.
    Oh! Algo cheio para se ser visto, ouvido, cheirado e ainda saboreado.
    Gostos e gostos.
    Uma explosão de sensações na ponta de minha língua.
    Doce e amargo!
    Que crueldade deliciosa de uma mentira mal contada, mal profanada no encontro firme do osso que se move no beijar.
    Cheio de texturas. Ásperas e lisas. Sedosas e macias.
    Conduzindo pelo corpo.
    Conduzindo num caminho incerto da alma.
    Você vê sem nada ver.
    Você sabe sem nada saber.
    Saber e saber. Nada impede de entender.
    Oh como me encanto. É como notas de piano. Fortes, mais fortes, mais fortes, soando precisas, raivosas, subindo no ar. Tragando o silêncio, tragando a doce e breve inocência.
    Oh sim!
    Hoje, de fato eu vi algo.
    Vi você.
    Em um sonho. Apenas em um sonho.
    Real, por que não, real?
    Você esteve aqui afinal.



Annabel Laurino.




Texto escrito no dia 20/03/11

A Idiota do Pijama de Bolinhas.

    E a noite finalmente caiu. Passei o dia inteiro de pijama. O dia inteiro. Lendo um livro jogada sobre o sofá, bebendo água gelada e roubando balas de chocolate do baleiro de cristal da sala. Passei o dia inteiro fora de nexo, aprofundada em uma história distante da minha realidade. Buscando nada em nada.
    O dia passou lentamente. E só agora que chega perto do fim eu paro e vejo o céu escuro e pastoso, tão negro, tão misterioso, tão nu, que me assombro o quanto na verdade mais um dia se foi. Mais um dia. Um dia a menos. Para que, nem mesmo eu própria sei dizer.
    A verdade, a verdade incorrigível que não sai da minha mente é que não consigo tirar você dela, da minha mente. Não consigo nem ao menos dormir em paz por que me pego sonhando com você, em sonhos loucos, em vontades ardentes de passar meus braços em seu corpo e sentir seu calor perto de mim. São as horas mais contentes e mais vividas do meu dia, quando eu estou dormindo, estou vendo seu rosto, e tudo parece incrivelmente real.
    Não é engraçado? Há um tempo atrás era muito real, tão real, você estava aqui de verdade e eu nem precisava se quer pedir para você estar, você estava, você esteve, até eu ver tudo sucumbir pelas minhas mãos como água sendo derramada pelos meus dedos, tudo, tudo por besteiras, por bobagens, por palavras não ditas, por olhos que não queriam se abrir, os meus olhos. E que visão turva e realmente idiota eu tenho agora. Desperdiçando meus dias, com um pijama ridículo de bolinhas, deitada em um sofá em uma tarde insuportavelmente quente, e tudo por que eu ainda tenho esperanças de que a próxima vez que alguém apertar a campainha, será você. Será você na soleira da porta sorrindo gentil para mim, será você me tomando em seus braços e me reconfortando perto do seu corpo quente. Será unicamente você. E é por isso que eu espero.
   E isso se torna uma tortura. Uma tortura que eu mesma me culpo por passar, por que sou ridiculamente idiota o suficiente para me deixar passar por isso. E o problema é que eu não consigo sair, é como me ver engolfada em uma imensidão de um oceano, ser cercada por ondas gigantescas mais fortes do que mil homens que com facilidade me jogam para o fundo do mar, e rapidamente sou emergida por esse amor, por essa vontade doida de crer todos os dias que você vai voltar.
    Abri os olhos nesta manhã, era ainda muito cedo, a luz no céu era cinzenta, seis e pouca da manhã, descobri que apertava o travesseiro loucamente perto do corpo, e que este suava. Descobri que era um sonho o que recém havia se passado na minha mente, descobri que você não estava no meu quarto e invés disso, todo ele era vasto, vazio. Descobri que sua risada recém escutada fora criada por mim, pela minha memória, era sua risada de fato, mas não recente, como eu gostaria de acreditar. Descobri que você não estava do meu lado e que a matéria pomposa que eu agarrava junto ao meu corpo, em um gesto desesperado, tão pouco e de longe era seu corpo. E então me senti afogar, me senti engatinhar no ar na busca incessante de tentar voltar ao sonho, ao mesmo sonho, onde eu poderia só mais um segundo que fosse, só mais um instante, só para mim passar só mais um instante pequenino do seu lado, mesmo em um sonho.
     E agora sentada em meu quarto, revendo os acontecimentos do dia, pensando no livro que acabei de ler, pensando no ocorrido do sonho, no sonho, em você, pensando que frustração grande senti ao descobrir que você não veio hoje, que você não esteve aqui. Estou pensando quando isso vai mudar, e quem pode mudar para mim.
     Resposta fácil.
     Somente eu mesma.
     E eu quero isso? Começando, talvez á trocar o pijama quem sabe. Um de bolinhas não seja assim tão... Charmoso. Mas trocar minhas esperanças, isso é diferente.
     Eu trocaria pelo que? Por quem?
     Me parece vago e sem sentido desistir agora. Me parece inútil dizer que não te amo mais, quando na verdade está escrito na minha cara, esta nas ultimas silabas de cada palavra que pronuncio. Até um cego pode ver. Que desperdício, que desperdício lamentável de um coração. Em pensar que já estive prestes a entregá-lo para qualquer um, qualquer um que quisesse, e hoje descobri que burrice. Que burrice a minha pensar nisso. Em doar meu coração para qualquer um. Qualquer um quem? Qualquer um não serve e um também. Preciso é de amor, e que não seja qualquer, e que também não de apenas um dia. Por isso, me agarro incontestável á esse amor, mesmo que me destrua e me desfaleça todos os dias. É divertido olhar para mim vestida nesse pijama, pensar nas possibilidades de que eu não precisava estar aqui, assim, vestida dessa forma. Que eu tenho amigos, que eu tenho para onde ir. Mas me faz sorrir, por que mesmo assim, mesmo com diversas possibilidades eu me agarro a só uma. Eu prefiro esperar por você. E isso, isso me faz rir, por que pelo menos eu sei, e gostaria que você soubesse também. Há um alguém no mundo, um alguém pequenino, como uma agulha minúscula em um palheiro do tamanho de um baú, com um bravo e forte coração, mesmo que idiota com seu pijama de bolinhas azuis, mesmo que ridículo com seu cabelo despenteado e seus óculos já um pouco grandes no rosto, mas á alguém que prefere acreditar em você. É esse alguém que também prefere acreditar em si, e sorri, pois sabe que mesmo que as possibilidades sejam enormes á ponto de desviar todas as suas esperanças, ela é forte o suficiente para admitir que é fraca para desistir e forte para continuar, pois o ama incondicionalmente.



 Annabel Laurino.




 Texto escrito no dia 04/02/11

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  Eu ia escrever sobre você.
  De novo.
  Desisti.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

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Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: Pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: Pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: Existe algo mágico entre vocês. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O amor. Por isso, preste atenção nos sinais e não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O amor!


(Carlos Drummond de Andrade)

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Você tem cheiro de roupa limpinha com mente suja e eu quero te rasgar inteiro. Mas apenas te dou um beijinho no rosto. Preciso me comportar.




Tati Bernardi



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"Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: Pra viver eu precisava perdê-lo..."


Tati Bernardi

Questions

  Dizem que as duvidas movem o mundo.
  Tenho uma porção delas abarrotando meus bolsos. Pesadas, são muitas.
   E no entanto, me sinto sempre no mesmo lugar.

bebellaurino.

?

   Bem, então foi como se eu visse agente. Não, não era a gente. Mas no entanto, na minha cabeça, pareceu como se fosse, entende? Foi como se eu dormisse enquanto assistia aquela cena, e no momento logo se formava um sonho, sonhando de olhos abertos, assistia aquele momento do filme e imagina nós dois nele. Foi muito real, e eu não consigo explicar o que aconteceu, eu nem mesmo pensava em você naquele momento, mas tudo pareceu tão bonito e me perguntei se seria possível que estivesse acontecendo aquilo mesmo. Senti como se afundasse no lugar e mergulhasse naquela cena tão bonita.
   Eu e você olhávamos uma para o outro dentro de um cúpula invisível que rodeava-nos, era brilhante para nós, completamente mágico, o tipo de coisa que é puramente simples e explica até mesmo as maiores duvidas de uma vida inteira. Em pé, estávamos em uma altar todo branco, flores coloridas cintilavam á volta, os aromas cítricos e harmônicos, tudo perfeito, a música, o tom, a luz, a paisagem, você, eu, eu e você. E acabávamos de dizer sim, sim, sim! Nos olhávamos como se não acreditássemos naquilo, era mágico! Depois de tanto tempo, eu esperando por você e você esperando por mim, era como algo muito surreal. Quem poderia imaginar?
   Sei que parece loucura. Mas foi exatamente isso que aconteceu. E foi lindo, uma daquelas coisas que acontecem raramente, mas que costumam acontecer com frequência comigo agora. Um sentimento muito antigo se apoderou de mim e eu me perguntei do por que disso. Eu não sabia, não tinha como explicar. Senti-me saindo da cena do filme, sentada na sala do cinema, rodeada de pessoas a minha volta, um tom apavorado no rosto.
    Será possível então?


bebellaurino.