quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Bolso das dores.

- Amigo, tome.
- O que é exatamente isso?
- Minha dor.
- Ah claro, como pude esquecer? Dê-me logo aqui. Isso, muito bem, guardarei-a aqui dentre do bolso de minhas vestes e não precisarás mais lembrar que sentes dor alguma.
- Promete mesmo? Por que me sinto tão só, é tanta dor que quase nem cabe em mim. São tantas histórias e tantas e tantas coisas que se passam aqui dentro que eu..
- Calma menina, calma. Estou aqui. Já guardei sua dor. Agora vamos, sente-se pois me contarás sobre teus sonhos ou teus pesadelos e todas as coisas mais que te pertubam. E acredite, passará.
- Mesmo?
- Mesmo menina, mesmo.

  bebellaurino.



Entenda

    Desta vez, dentre todas as outras, é completamente diferente.
    Entenda, esta sendo muito difícil para mim agora. E esta sendo duro fechar as portas da casa e trancafiar as janelas jogando a chave fora e arrastando comigo o vazio ininterrupto que é o de aceitar o fim.
    Por isso, por isso você não vai ouvir um se quer gesto meu, nem mesmo qualquer ruído que seja. Por que seria impossível. Sinto-me como os gerânios de Caio Fernando Abreu. Adormecidos, parados, observam e não sentem mais coisa alguma.
    Espero que entendas. Já que não acerto mais seu coração, já que minhas palavras doces pra ti tão amargas e tão cruéis não surtem efeito ou indiferença, digo, entenda. Seria cruel de mais ter de desenterrar as chaves no quintal e com as mãos tremulas e com o peito palpitante e com as vestes sujas de terra abrir a casa outra vez. Me esbaldaria na vontade insana de me jogar outra vez nos teus braços, de tomar um banho, de lavar as vestes, e de te contar minhas histórias e de chorar a minha dor. Não conseguiria mais sair. Faria um café forte para nós dois e sentaria na varanda admirando o sol, ou a chuva. E se outra vez uma ruptura cruel ameaçasse a aparecer eu teria que novamente abandonar a casa, apagar o fogo na lareira, fechar as janelas, jogar fora as fotos, esquecer os cheiros, lembranças e partir. De novo. E de novo.
    Não parece cruel de mais para você?
    Entenda.


Annabel Laurino.

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"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido."

                                                        Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vai Passar.

    Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
    Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
    Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
    Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
    Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
    - ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...
 
 
          Caio Fernando Abreu
 
 

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  -  E você acha isso bom?
  - Não sei... Deve ser, não é mesmo?
  - Bem, você não me parece muito bem. Então não sei aonde a parte boa se encaixa nisso tudo.
   (silêncio)
   - Acho que você tem razão. Não ando bem.
   - Eu sabia...
   - ... Ainda espero alguém ou algo que me cure.
    (silêncio)
   - Eu te curo.


bblaurino.

domingo, 4 de dezembro de 2011

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    Vou lembrar de você sempre... As vezes. Quando eu não puder aglutinar lembranças, como em um domingo á tarde, no inverno talvez. Quando minha mão fria tocar minha pele, e no toque, na sensação gelada, talvez, me venha tudo em um reflexo muito bonito do que vivemos. Sem mágoas. Vou lembrar da gente, das tardes frias, das folhas do outono, dos beijos quentes, dos carinhos, os cafunés, os sorrisos, e todas as coisas bonitas que crescem devagarzinho quando se começa a construir algo, com alguém.
    Mas é verdade que as coisas mudaram. Mudamos. E talvez você nem lembre mais das mesmas coisas que lembro quando fico só. Talvez você nem sinta mais as mesmas coisas que sentia antes quando meu nome lhe vem a mente e o tom da minha voz lhe aperta na saudade. E se tudo mudou mesmo, e se nada conservou-se apesar da luta, das noites tempestuosas e das mudanças de temperatura, e nem mesmo os sentimentos bons restaram, então, bem, então obtivemos a resposta com o mais glorioso grito de vitória de quem arremata um fim com um ponto final ao longo da história.
    Amor. Nunca acaba. Nem quando se tem um fim. E se acaba, não era amor. Nunca foi então. E não há do que se envergonhar disso. Tudo bem. Essas coisas acontecem. E são sentidas. E são lembradas. Mas o mundo gira. A vida se renova. E quem sabe um dia a gente se encontra e ria de tudo que passou.
    Quem sabe.


  Te guardo para sempre.
Annabel Laurino.
 

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O médico perguntou: — O que sentes? E eu respondi: — Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.


Caio Fernando Abreu

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"Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais."


                         Caio Fernando Abreu