quarta-feira, 12 de novembro de 2014

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In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah

Lonely

    Alguma coisa se partiu em cacos e algo se perdeu. Depois disso, depois do baque, depois da queda lenta e fria, dura sobre o piso frio e sólido, a coisa, a coisa nunca mais foi a mesma.
    O sol desponta na minha cara fresca matinal, recém lavada com cheiro de sabonete, o gosto de café ainda tão forte na boca quente, o sol das oito da manhã, meu cabelo vermelho reluz forte sobre um raio morno e eu caminho firme de encontro ao ônibus, eu sigo em direção ao rumo certo sem saber que rumo eu devo pegar. 
    O ar é rarefeito nessa cidade de pedras onde encontro sossego atrás das portas de uma livraria. Mas tudo me sufoca agora. Eu lembro de Cecília, eu me pergunto constantemente "em que espelho ficou perdida a minha face?'. E você me ronrona no ouvido quente se eu não penso em você e eu afirmo com a cabeça, sim, eu penso, eu penso em você as sete da manhã enquanto tomo o meu café forte e assisto ao noticiário, eu penso em você. 
    Eu penso em nós?
    Mas nós, quem?
    Você brinca com os meus dedos dos pés e eu tenho vontade de afundar a cara na curva perfeita do teu ombro tão branco, de encontrar teus ossos, te raspar a pele na tua barba. Você me chama de pequenininha e eu só penso em ficar mil anos com você. Mas houve a queda, houve o baque e tudo agora é uma mistura de sol forte, cidade vazia, sons abafados e café forte as sete da manhã. Alguma coisa se perdeu.
    Parece que alguma coisa vai endurecendo com o tempo, é isso mesmo? Parece que tudo tem por obrigação de alguma forma... se perder. 
    E eu penso em algum filme que não vimos, eu penso em algo que ainda não fizemos, em alguma viagem já planejada tantas vezes, planos refeitos mil vezes e lembro de tudo, desde o pequeno começo e vejo o quanto nossos rostos, agora pintados num quadro da memória,  mudaram, o quanto o percurso se tornou diferente e eu me pergunto se você ainda vai continuar brincando com os dedos do meu pé, se vamos ver todos os filmes que queremos ver juntos e se essa coisa quebrada pode ser colada novamente.
    Dói, eu sei que dói, e é por isso que eu caminho em direção ao ônibus procurando um rumo certo as oito da manhã, com gosto de café na boca e pensando em te ligar mas não ligo. Eu quase nunca ligo, nos últimos dias eu não ligo mais. É por isso também que choro, claro que você não sabe de todas as vezes que eu choro sentindo um vazio enorme aqui dentro e uma vontade insana de desaparecer por completo, claro que não. Claro que você não tem ideia da metade das coisas que faço sem você saber. E por conta disso ando me sentindo cada vez mais só.
    Talvez eu tenha sido a pessoa mais doida que você conheceu desde que veio ao mundo. Não me orgulho disso. A gente não pode mesmo mudar o que foi feito para ser. A gente só pode mudar o que somos num conjunto. Mudamos.
    Caminho com a lembrança quente dos meus braços enlaçando teu pescoço, da minha boca encontrando a tua no escuro breu do teu quarto as duas da manhã, você pegando minha mão e dizendo que tudo ia dar certo e eu lembro de tudo e tudo dói, então eu só caminho em direção ao ônibus que agora me espera, eu me pergunto sobre o futuro, eu sinto tudo aqui dentro, eu continuo, mas eu nem sei bem por que. 


Annabel Laurino 



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre os olhos e as luzes

    Nas conotações azuis dos meus dias, são seus olhos castanhos dourados que salpicam doçura onde antes havia tédio. São teus olhos que eu vejo quando eu fecho os meus, castanhos dourados, brilhando por trás das lentes de teus óculos lascados. São teus olhos que me seguem nas ruas, que lambem as curvas delineadas do meu corpo, que riscam no meu rosto palavras eternas e mais, escrevem os caminhos por onde eu devo ir. Teus olhos.
    Mas eles ainda estarão lá quando eu abrir os meus olhos? Eu já não sei mais, é recém segunda feira, falta muito para a semana acabar. Ontem era domingo, o pior domingo do ano. Sim, o pior domingo do ano. E hoje é segunda, como aponta o calendário. Chafurdo no café quente disposto sobre a mesa, pululo e danço em meio as minhas palavras que não são nem claras e nem doces, dolorosas. Dolorido-só. Já viu coisa mais horrível que essa? Dolorido-só.
    Dessa vez eu não fiz um coque no cabelo com um lápis colorido e nem liguei o som para escrever no embalo de uma musica gostosa, não há intenção de escrita, dessa vez é apenas eu mesma falando por mim, descontando nos dedos a pressão latente de um coração quebrado, amassado. Seus olhos não estão aqui agora, eles sumiram. Quem apagou a luz?
    Dormi a noite inteira, a mão ao lado do corpo, morta por cima do colchão quente procurando qualquer coisa vaga como a tua coxa, o teu braço, o teu peito ou o toque rijo dos teus pelos me roçando a mão. Dormi a noite inteira sem saber se acordava ou dormia um pouco mais, quando acordei era dia, o sol forte batendo na janela ao lado da cama, o telefone tocando, era você. Mas, teus olhos não estavam mais lá.
    Teus olhos. Teus olhos e você. Engraçado, minha avó dizia uma coisa interessante, os olhos são a janela da alma. Poético, clichê, que seja. Eu achava o máximo, eu com uns centímetros a menos, minhas pernas roliças e minha franja de boneca, achava tudo aquilo muito grande de se imaginar. Quer dizer que eu podia espiar uma pessoa por dentro dela mesma só de olhar em seus olhos? Genial.
    Quando olhei seus olhos eles eram tudo, eles eram o mar revolto em meio de um lugar gélido onde não existe calmaria. E se eu quisesse, e se eu fizesse, e eu fiz, eu sou curiosa, eu poderia espiar por dentro deles e ver uma paz amiga e serena, uma coisa muito branda, muito branca, era de uma alma clara e tranquila. Uma alma azul.
    E porque eu falo isso? Eu não sei, não há intenção. Sou só eu e o meu café espiralando sua fumaça aqui, nada mais, não há nada a ser dito e ao mesmo tudo. E eu digo lento, gaguejo no meio de uma frase, escondo nas entrelinhas, sussurro lentamente, eu digo claro que essa coisa ferrenha e estúpida, tão má e bonita, ela dói.
    Não era para doer, era para doar. Sim. O amor deve ser soma. Coisa aberta, fresca, nova, clara. Ah eu quase liguei agorinha mesmo para o meu amigo distante, o Zé. To afim de chorar um pouquinho no ombro de alguém, porque as vezes parece que eu sei lidar, mas eu não sei. As vezes parece que eu sou forte, mas eu nem sei de onde tiro essa coisa chamada força. Eu quase peguei o telefone, mas me veio outra coisa na cabeça e então eu esqueci. Já falei tanto de você para ele, contei de Paris, Gramado, o apartamento próximo a praia. Coisas boas. Dessa vez eu ia só chorar, falar de ontem, falar da dorzinha amarga que fica latejando no peito e que parece que ninguém sabe entender.
    O meu café e eu. Somos só nós dois. Eu lembrei de uma musica agora, uma musica francesa muito bonita, ontem mesmo, ao chegar em casa com um vazio imenso eu devo ter ouvido repetidas e inúmeras vezes e se não fosse tão dramático assim, mas já sendo, o mundo poderia ter acabado e salvado apenas aquela musica. Se esvaído em uma explosão lenta de faíscas douradas e azuis. A musica é linda, mandei para o Zé, tinha algo no meio que eu lembro agora, algo assim ”Balayé les amours avec leurs trémolos. Balayés pour toujours. Je repars à zéro.”.
    Coloco a musica para tocar. E ela toca, meneio a cabeça, penso nas luzes, nas luzes simplesmente. E penso nisso por um bom tempo.
     A unica pergunta que fica, dura e fria, escondida em um canto onde ninguém pode ver é essa "Quem apagou as luzes?".



Annabel Laurino


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Esconderijo, rijo e quente

    Na curva quente do teu ombro é onde eu mergulho o rosto. Mergulho dentre a pele tão quente e branca. Veias azuis, sangue pulsando. Na curva do teu ombro é onde mergulho no teu cheiro tão familiar, meu alecrim. Te cubro de beijos, te deixo uma marca. É nessa curva exata onde perdida nos teus braços eu me encaixo por fim em teu corpo inteiro, selando nosso encontro, repouso meu rosto. Me visto de você, me cobres a pele. Ah, meu amor...



Annabel Laurino

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

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"sou egoísta:
faço por mim mesmo
para salvar o que restou de
mim."


Charles Bukowski

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Saudade Parisiense

    Isso não é Paris, eu bem que o sei. Abro as janelas do meu quarto e vejo o céu quase escurecido lá fora, vislumbro a cor amarronzada, com pinceladas de um vermelho quente e o negrume que toma conta agora de todas as árvores do quintal. Não é Paris, mas é algo bom e fico contente, gosto do que vejo, gosto desse lugar, dessa cidade de pedras e água. Gosto do ar que finalmente entra pelo quarto, esse ar gelado e perfumado que agosto trás, esse agosto que recém chegou. Dentro das formas e nuances perdidas lá fora, no mundo que tange através da janela do meu quarto, dessa caixinha azul por onde me perco e me encontro, eu gosto de imaginar que mesmo não sendo Paris, Hemingway tinha razão quando disse que onde estava, no seu quarto, produziria suas palavras sinceras, verdadeiras. Faço isso agora, dou vida as frases perdidas no fundo da minha cabeça congestionada de divagações e sou sincera. Tenho que ser.
    Ontem mesmo, por acaso ou coincidência, tive uma conversa que há muito tempo reservei apenas para as minhas próprias introspecções. E se não habitamos casas e nem lugares e nem cidades e nem países e sim pessoas? E se não importa nada disso, esses tijolos fabricados, essas argamassas endurecidas e essas paredes levantadas para nos abrigarmos se não existíssemos tão fielmente e tão verdadeiramente, de alguma forma, dentro de alguém? O que habita em mim? Eu habito assim em alguém? Pergunto-me isso enquanto vejo a luz refletida de uma janela vizinha acesa e a televisão acendendo e apagando enquanto alguém troca de canal. Eu sei quem habita em mim, eu sei o que habita em mim, ‘tenho em mim todos os sonhos do mundo’. E onde me faço morada?
    É sexta feira e eu nem acredito. Se eu contasse que alguns dias atrás tudo parecia um caos completo. Não que agora tudo esteja completamente bem, mas as coisas caóticas tende por entrarem no eixo de alguma maneira, e acho que é isso, as coisas estão entrando no eixo. Não quero ser esperançosa, não, eu só quero pensar que tudo está bem, que tudo pode ficar bem. Não é como se eu acreditasse nisso, é só que eu quero pensar nisso.
    Você pode me perguntar, e qual é a diferença? Por que você não quer acreditar, por que você não quer ter esperanças? Eu já tive tantas. Tantas esperanças, fragmentadas e profundas, por muito tempo foram minhas balinhas coloridas de açúcar. Hoje eu prefiro só pensar, pensar que tudo pode ficar bem e o que tiver que ser vai ser, não importa. Eu prefiro dessa forma e é assim que tem sido, é assim que tem funcionado.
    Meu som favorito, sempre tem sido desde então, é o da cafeteira gorgolejando, aquele ronco produzindo o melhor aroma do mundo, o de café recém-passado. Agora não que esse não seja mais o meu som favorito, mas possuo outros para a minha coleção, outros sons e aromas favoritos.
    Tenho descoberto pequenos prazeres da vida, pequeninos e pequenos grandes. Caminho pela cidade, compro discos de queijo na livraria do centro, vejo rostos e pessoas, pessoas e seus rostos cansados, ouço as buzinas desesperadas e vejo o desespero em olhos demasiado tristes. Há uma beleza nisso, mesmo que quase melancólica, mesmo que seja loucura admirar a tristeza assim, nos olhos de outrem. Mas não estou mais só, divido qualquer coisa como um sorriso, uma música, uma conversa, as minhas próprias mãos e eu inteira. Se isso me assusta? Muitíssimo. Muitíssimo e latentemente. Ignoro, continuo. A vida é um frenesi sem fim de abocanhar e morder as coisas mais doces, mais gostosas. Como receber beijos e flores azuis.
    Nos dias de chuva eu pulo poças d’água dispostas nas calçadas, me escondo embaixo de um guarda-chuva, vezes compartilhado, vezes sozinha, agora mais do que nunca, sempre compartilhado. Vejo as folhas secas chafurdando na lama, os jovens perdidos de botas compridas tentando desviar dos ônibus ensandecidos e em movimento, sinto frio nas faces geladas e escondo o pescoço no meu cachecol. Como diria o Caio, “na ultima sexta feira eu tive certeza, devo mesmo estar enlouquecendo”. Nas sextas feiras eu deixo para sentir saudade, chafurdo nas águas desconhecidas da qual vou adentrando, com medo, e por isso penso que enlouqueço, mas por gosto porque eu quero e porque eu sei, eu me sinto viva. Nessas saudades eu coloco uma musica para tocar, sento na janela do quarto, vejo o céu de inverno, penso, repenso e trespenso, e repito quase baixinho “Não é Paris, mas podia ser.”.
     Escrevi um bilhete recentemente, o começo tem por inicio algo assim “Nas reentrâncias das minhas entrelinhas misteriosas, tu me descobristes só, fizestes do meu tédio cotidiano o teu tédio também, me vestistes das tuas cores e experimentasses do meu mundo. Se mesclados numa singela mistura ambos os dois, veremos que nos enamoramos bem...”. Não irei contar como prossegue, mas a pouco eu o terminei e sorri ao final.
    Sexta feira. Não é Paris. Sexta feira agasalhada de saudade junto desse céu que agora, no fim dessas palavras já se veste de negro. Ah, sexta feira. Agosto. Quanta coisa mudou de um ano para cá, quanta coisa, quanta coisa já não existe mais e hoje são apenas borrões e lapsos de memória empoeirados num lugar distante dentro de mim. Hoje tudo faz sentido, hoje, nessa sexta feira de saudade, eu penso em rosas azuis, em coisas novas.
    Me vejo não mais refletida nos reflexos de um espelho onde deixei minha face, não. Me vejo pululando, repercutindo e respirando através de cada palavra que escrevo, cada ponto, cada vírgula, cada linha enviesada e cruzada em si mesma numa reentrância mista de sentimentos que não escondo, que não demonstro, que conto baixinho, assim, só para dizer no ouvido quente de quem procuro “Gosto tanto de você.”.
                                                                                                                  

Annabel laurino



ô, Ana


Mallu Magalhães

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cigarra desaventurada nas entranhas da solidão

    Não me recordo a primeira vez que a avistei. Não, não. Agora tudo são nuances cinzas dentro da minha massa cefálica, tudo é uma nuvem esfumaçada do que existiu e eu não me recordo com avidez de todos os mínimos detalhes. Por exemplo esse, de quando foi a primeira vez que a vi. Porque, bem o sabe, poderia ser em qualquer época de minha vida, em qualquer esquina ou cruzamento, na padaria ou no metrô e eu, bem, eu não lembro.
    Mas eu me recordo muito bem quando eu a avistei de fato pela primeira vez. Quando a reconheci de uns desses cruzamentos da vida em que não me lembrava em meio as nuvens cinzentas e esfumaçadas de minha memória. Tão tentadoramente ela mesma que repercutia como o som de uma mordida em uma fruta, suculenta, deliciosa.
    Fumava seu cigarro tão distraidamente, tão perdidamente sozinha em meio a fumaça que subia sobre o alto de seus cabelos brilhando ao sol, que podia-se até pensar que tragava a vida, ou quem arriscaria também, que o tédio a tragava copiosamente através daquele único cigarro.
    Antes que você, leitor, queira a invejar ou sinta-se atraído, eu aviso: não o faça. Não se atraia por aquelas pernas, por aquele tom branco condensado no rubi de seus lábios bem desenhados, pois ela tem escondido no céu de sua boca ferina um desejo inabalável. O desejo de te devorar.
    Ah mon Cher, ela é uma devoradora, destruidora de corações. Vai mastigar você. Vai repartir você. Vai distroçar em mil pedaços todas suas esperanças construídas em anos, seus sonhos filosóficos que ditou a si mesmo em frente ao espelho do banheiro todas as manhãs, com as olheiras protuberantes de noites mal dormidas. Vai acabar com seu coração másculo e empedrado, isso não irá existir. Sentirás vontade de cantar um mantra, de chorar, de se entregar e depois partir. Não conseguirás. Ela plantará em ti o mais terrível dos sentimentos, a melancolia.
    Possui um riso cômico, meio infantil é verdade, meio histérico também, mas isso se deve ao fato de quão surpresa se sente com o ato de sorrir. Raramente sorri. É como a Senhora Darling de Peter Pan, que escondia o beijo secretamente, assim era essa dama, que escondia o sorriso, enviesado em meios aos lábios contornados de vermelho, raramente os curvava, e quando o fazia parecia sempre uma mesura, por simples educação.
    Dentinhos brancos e afiados se escondem atrás de seus lábios, fininhos e cortantes como pequeninas navalhas genuínas que vão devorar você, mastigar suas carnes. E adorarás. Implorarás em júbilo por mais uma mordida, por mais um corte sereno na tua pele acalorada. Pois ela te morde, mas no fim acaba por te beijar, acaricia tua cara desmantelada de cansaço, massageia teus ombros de pesos fartos. Ouvirá seus dramas como uma mãe, te amará como uma santa, se entregará a ti como uma puta. Te restará apenas a tentação. E não resistirás.
    Você a acha cruel? Eu não a acho. Falando assim, eu sei, bem que parece. Lembrando-me agora de quando a vi pela primeira vez, parada no meio do comício de um dia cheio, tantas pessoas passando em sua volta e ela era a única que parecia se destacar no meio daquele trânsito, daquela loucura. De vestido branco e os cabelos assim, caindo-lhe a tez. Eu quis perguntar seu nome, me aproximar, tocar seu rosto, saber se era real. Mas eu a conhecia bem, pois desenvolvia em seus atos um trejeito que eu bem já sabia e a reconhecia. Não precisava de informações que eu sei, ela me mentiria. Só iria ludibriar-me para depois me mastigar como sempre e como todas. Me atrevi aos detalhes, aos fundamentos. 
    Você não sabe como eu sei, mas assim como a dama escondia nos seus lábios o seu sorriso, escondia também embaixo da sua pele embebida de branco marcas profundas de solidão. Perdida demais em ser ela mesma. Perdida demais que repetia sempre os mesmos rituais, indo a livrarias e cafés, conversando distraidamente com os jovens nas boutiques e cinemas, embora não se recordasse depois dessas conversas, as esquecia de imediato. Preferia a solidão de seu próprio ser. Ninguém entendia o porque, tinha uma inclinação ao drama, ao romance, ao perdido e ao acaso.
    Acostumou-se em ser uma marca no asfalto, uma coisa corriqueira, um alguém, simples ninguém sem voz. Por isso a dama não possui nome, deste eu não sei nem se quer a primeira letra. Seu rosto eu vislumbrei apenas uma vez, que me recordo. Não me lembro se em uma avenida movimentada, em um final de março talvez. Não era ruiva nem loira, morena muito menos. Não defino sua idade pois poderia ser jovem, muito jovem, com aquele corpinho pequeno e de ombros estreitinhos. Mas seu ar teatral a denunciava e parecia mais velha, sua malícia a entregava, eu não saberia dizer.
    O que me chamou a atenção naquela pobre dama? Seus olhos, ah sim, seus olhos. Não a cor e nem a forma, mas a maneira voraz como ao mesmo tempo distraída, devorava o mundo ao seu redor, como se buscasse entre a apatia diária algum tipo de salvação.
    E por que te conto sobre essa dama? Para que tenhas cuidado, meu caro. Caso a encontres em meio as vielas dessas ruas noturnas, caso a aviste nos recônditos escondidos dessa cidade de pedras. Eu mesmo não esperava, agora convivo com a solidão da sua imagem presa na minha memória meio gasta, estarei sempre a espera de a reencontrar, eu sei.
    De toda forma, se a encontrar, cuidado. Sei que não resistirás ao vícios, ao olhar, as pernas e nem aos cabelos perfumados de sândalo quem sabe, ou patchouli talvez. Escutarás uma música e se sentirás vivo. Te aviso. Comprarás um terno novo, será como ir a missa de domingo. Te sentirás salvo, embriagado, embebido, bêbado de ilusão. 
    Nunca mais a vi depois daquele dia de sábado, vestida de solidão.




Annabel Laurino

domingo, 27 de julho de 2014

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    [...]Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
    No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
    (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)
    Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
     Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. [...] Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.






Caio Fernando Abreu 

(Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)


terça-feira, 22 de julho de 2014

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"Olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no seu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa - gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você."


Caio Fernando Abreu