Caio Fernando Abreu
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Ao toque de mim
Flagro a mim mesma dentro de mim, espiando-me. Olhe bem, junto comigo, porque agora eu deixo. Venha, pode entrar. Sinta-se a vontade, óh caro expectador e intruso. Entre e sirva-se de uma xícara de chá de hortelã, sente-se sobre o puf azul marinho e permita-se vislumbrar a mim mesma, dentro de mim. Porque agora, eu te permito.
Eis então, eu mesma, não eu cá como me conhecesses, eu presa nesta forma física que caminha, corre, fala, gesticula e se esconde fácil. Não o meu eu de óculos grande e mãos pequenas. Mas Eu, como não podias ver antes até que fosses convidado a entrar e te sentar comigo a ver então eu mesma por dentro de mim, aquela que ninguém conhece, aquela que está aqui mas ao mesmo tempo não está. Aquela que vos fala.
Na minha imensidão de mim mesma penso constantemente o quanto, bem, o quanto o mundo é gigante. O universo é infinito. Os cosmos são perfeitos, as nuvens, incontáveis e estrelas são brilhantes. O mundo da voltas, todos os dias, o dia inteiro. Enquanto volta e meia um carro quebra, seu cabelo é lavado, alguém morre, você pega o ônibus, bebês nascem e mais bebês são feitos, a vida é dinâmica e nunca para, o universo não para, o mundo não para, o tempo não para.
Foi assim que num frenesi sem fim a imensidão das coisas se tornou evidente de uma forma unica nunca vista por mim, pois diminuiu ainda mais as pequenas coisas insignificantes, que são dadas muito valor.
E desta forma, foi assim, que agora, como podes ver, meu caro expectador, as paredes de onde você se encontra foram pintadas, veja, azuis. Sim, e não só isso, as janelas também. Por sua vez, os rodapés. E todos os móveis foram mudados de lugar, alguns incensos foram acessos, as roupas dobradas, veja, e os livros na estante foram reorganizados de uma forma mais elegante, mais convidativa aos olhos. Como você pode perceber, sim, tudo mudou dentro de mim mesma, dentro de mim. As coisas alteraram-se, muitas delas, foram recicladas, refeitas. Pensamentos antes impensáveis, hoje, são conclusões bem resolvidas, que tiro de letra. Mágoas, tristezas, essas coisas mais que prefiro nem comentar, bom, elas foram colocadas fora, não precisava mais daquilo tudo.
Bilhetes, cartas, fotos e cartões de Natal coloquei fogo em todos, não precisava mais daquilo tudo, a memória é um bom lugar para se guardar coisas e se ela já estava tão congestionada imagina minhas gavetas como não deveriam de estar.
O mundo particular de mim mesma dentro de mim se alterou por toda sua forma, cor, exuberância, essência, maneira de ser. Mudei-me no momento em que me permiti sentir ao toque. Que me permiti recomeçar.
O meu mundo não parou por nem um instante, e assim, enquanto um copo caia no chão, enquanto uma musica era tocada, um cão latia ou uma comida era preparada numa manhã de domingo, eu me refazia em pedaços, como se me construísse novamente para que eu voltasse a caber dentro de mim.
Veja, você que foi convidado para entrar, veja com os seus próprios olhos, até onde eles lhe permitem enxergar. Ou se não, sinta como fluo, sinta como eu falo, sinta apenas.
É no toque que nos encontramos.
Eis então, eu mesma, não eu cá como me conhecesses, eu presa nesta forma física que caminha, corre, fala, gesticula e se esconde fácil. Não o meu eu de óculos grande e mãos pequenas. Mas Eu, como não podias ver antes até que fosses convidado a entrar e te sentar comigo a ver então eu mesma por dentro de mim, aquela que ninguém conhece, aquela que está aqui mas ao mesmo tempo não está. Aquela que vos fala.
Na minha imensidão de mim mesma penso constantemente o quanto, bem, o quanto o mundo é gigante. O universo é infinito. Os cosmos são perfeitos, as nuvens, incontáveis e estrelas são brilhantes. O mundo da voltas, todos os dias, o dia inteiro. Enquanto volta e meia um carro quebra, seu cabelo é lavado, alguém morre, você pega o ônibus, bebês nascem e mais bebês são feitos, a vida é dinâmica e nunca para, o universo não para, o mundo não para, o tempo não para.
Foi assim que num frenesi sem fim a imensidão das coisas se tornou evidente de uma forma unica nunca vista por mim, pois diminuiu ainda mais as pequenas coisas insignificantes, que são dadas muito valor.
E desta forma, foi assim, que agora, como podes ver, meu caro expectador, as paredes de onde você se encontra foram pintadas, veja, azuis. Sim, e não só isso, as janelas também. Por sua vez, os rodapés. E todos os móveis foram mudados de lugar, alguns incensos foram acessos, as roupas dobradas, veja, e os livros na estante foram reorganizados de uma forma mais elegante, mais convidativa aos olhos. Como você pode perceber, sim, tudo mudou dentro de mim mesma, dentro de mim. As coisas alteraram-se, muitas delas, foram recicladas, refeitas. Pensamentos antes impensáveis, hoje, são conclusões bem resolvidas, que tiro de letra. Mágoas, tristezas, essas coisas mais que prefiro nem comentar, bom, elas foram colocadas fora, não precisava mais daquilo tudo.
Bilhetes, cartas, fotos e cartões de Natal coloquei fogo em todos, não precisava mais daquilo tudo, a memória é um bom lugar para se guardar coisas e se ela já estava tão congestionada imagina minhas gavetas como não deveriam de estar.
O mundo particular de mim mesma dentro de mim se alterou por toda sua forma, cor, exuberância, essência, maneira de ser. Mudei-me no momento em que me permiti sentir ao toque. Que me permiti recomeçar.
O meu mundo não parou por nem um instante, e assim, enquanto um copo caia no chão, enquanto uma musica era tocada, um cão latia ou uma comida era preparada numa manhã de domingo, eu me refazia em pedaços, como se me construísse novamente para que eu voltasse a caber dentro de mim.
Veja, você que foi convidado para entrar, veja com os seus próprios olhos, até onde eles lhe permitem enxergar. Ou se não, sinta como fluo, sinta como eu falo, sinta apenas.
É no toque que nos encontramos.
Annabel Laurino
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
sábado, 7 de dezembro de 2013
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
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“Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Quero que você nunca mais deixe de pensar em mim.”
Tati Bernardi
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
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Não posso descansar da viagem: beberei
A vida até a ultima gota; todo tempo gozei
Imenso, sofri imenso, tanto com aqueles
Que me amaram, como sozinho; em terra e quando
Por correntes arrastadas as Híades chuvosas
Agitavam o mar sombrio: tornei-me um nome...
(O Chamado do Cuco - Robert Galbraith)
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
;
“Já passou, já passou. Se você quer saber, eu já sarei, já curou. Me pegou de mal jeito mas não foi nada, estancou.”
Chico Buarque
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Mr. Woody
Na ultima terça feira eu tive certeza, devo mesmo estar enlouquecendo. Melhor dizendo, eu tive um sonho esquisito na noite passada. Bem, daqueles em que quando acordamos só o que nos resta é desconfiar da tamanha loucura guardada em nossa mente por ter recriado um imaginário tão extenso para um sonho tão sem lógica.
De forma alguma que eu não tenha me agradado muitíssimo do tal sonho. É só que, bem, quantas vezes na minha vida o próprio Woody Allen em pessoa poderia estar presente na minha sala de estar tomando uma xícara de café comigo enquanto me aconselhava calmamente a respeito de Freud? Desde a ultima vez que eu chequei, nenhuma, é claro.
Mas é isso mesmo, Woody Allen, o próprio resolveu surgir nos meus sonhos recriado de uma forma completamente característica e real de como sempre imaginei. Descabelado, com pequenos tufos de cabelos mal espalhados sobre uma futura careca em vista, óculos de grau altíssimo com armações escuras, baixinho, nariz grande, suéter bege e calças cáqui claras, desengonçado, frenético, um humor irônico transbordante.
O sonho começa assim, alguém bate na porta, mas eu não escuto porque estou ocupada em tentar desentortar livros amassados que estão espalhados por toda a casa, não sei por qual motivo os livros estão tortos e tão amassados, mas volta e meia eu tento arrumá-los, página por página, então apertam a campainha, que é uma imitação bem fiel de Jingle Bells Rock numa versão anos 30. Dessa vez eu me separo dos livros e vou até a porta, mas a chaleira começa a ferver e eu volto e a tiro do fogo servindo uma xícara cheia de café até que resolvo preparar mais uma xícara, então, ao som da campainha novamente tocando, eu me encaminho até a porta e a abro.
Sim, ele mesmo, o tal, o senhor Woody em pessoa me sorri do batente da porta com seu sorriso irônico e pergunta "Fez o café?", eu não digo nada, meneio a cabeça em afirmação e o deixo entrar, da minha altura, magricela, uma maneira de andar como se a sua forma frenética estivesse em conflito com suas pernas bamboleando.
Woody se senta e toma em mãos sua xícara de café que eu nem tive tempo de oferecer, pega o jornal e começa a lê-lo, por um longo tempo, até que salta do sofá deixando o jornal cair e diz "Sabe aquela galeria de arte nova de que te falei? Então, é hoje, inaugurou!". Sem perder tempo ele pega da minha mão e me arrasta porta a fora. Juntos, nós andamos por ruas de calçadas sujas, passamos por cães de raças em coleiras coloridas, guimbas de cigarros e árvores de folhas alaranjadas e desbotadas, outono, eu penso.
Woody Allen acende um cigarro e como se recriando a cena de Manhattan, porém desta vez numa rua de um sol fraco ao fundo e dentro do meu próprio sonho, ele diz:
- Sei que não deveria estar fumando isso, dá câncer. Mas eu fico tão sexy com ele nas mãos, não acha?
- Sim, sim. De toda forma. - respondo. E ele sorri, contente pela minha resposta.
- "Sabe Nova York era sua cidade, e será para sempre." - ele recita olhando-me por trás de suas lentes de fundo de garrafa.
- Amo esta parte, amo este filme. É a minha frase, esta que acabou de dizer.
- Não, é a nossa frase, menina.
Caminhamos e caminhamos enquanto dividimos cigarros e vemos esquilos no Central Park. Tudo que se passa depois são flashes esquisitos. De repente estamos numa galeria toda branca e enevoada, com sofás/pufts dispostos no meio onde as pessoas se deitam e conversam e riem de qualquer coisa, mas obras de arte em exposição não há alguma. Logo, estou deitada nas pernas do senhor Woody Allen, no tal puf gigante, ouvindo-o me dizer que tudo nessa vida é natural "Natural, natural' ele repete, como se estivesse me apresentando a tal palavra pela primeira vez. E por fim, ele diz "Sabe, bem, eu nunca faria parte de um clube do qual aceitassem pessoas como eu. E sabe por que? Porque prefiro fazer parte de um lugar do qual não posso ser aceito. Quem não, não é mesmo?"
E o sonho termina com a imagem de eu e o senhor Woody rindo enlouquecidamente sobre os pufs gigantes de uma galeria cheia de pessoas e ao que parece, numa rua qualquer da Times Square.
Acordei com a sensação esquisita de que mesmo ludibriada pelo sonho eu queria que fosse verdade. Ah sim, claro que queria. Quem não?
E embora sabendo que nada se passou de um sonho, desejei secretamente que uma réstia dele fosse uma lembrança de algo verdadeiro. E assim, Manhattan me veio à mente, e num impulso sedento por algo palpável, eu revivo o filme por mais um milhão de vezes, incontavelmente.
De forma alguma que eu não tenha me agradado muitíssimo do tal sonho. É só que, bem, quantas vezes na minha vida o próprio Woody Allen em pessoa poderia estar presente na minha sala de estar tomando uma xícara de café comigo enquanto me aconselhava calmamente a respeito de Freud? Desde a ultima vez que eu chequei, nenhuma, é claro.
Mas é isso mesmo, Woody Allen, o próprio resolveu surgir nos meus sonhos recriado de uma forma completamente característica e real de como sempre imaginei. Descabelado, com pequenos tufos de cabelos mal espalhados sobre uma futura careca em vista, óculos de grau altíssimo com armações escuras, baixinho, nariz grande, suéter bege e calças cáqui claras, desengonçado, frenético, um humor irônico transbordante.
O sonho começa assim, alguém bate na porta, mas eu não escuto porque estou ocupada em tentar desentortar livros amassados que estão espalhados por toda a casa, não sei por qual motivo os livros estão tortos e tão amassados, mas volta e meia eu tento arrumá-los, página por página, então apertam a campainha, que é uma imitação bem fiel de Jingle Bells Rock numa versão anos 30. Dessa vez eu me separo dos livros e vou até a porta, mas a chaleira começa a ferver e eu volto e a tiro do fogo servindo uma xícara cheia de café até que resolvo preparar mais uma xícara, então, ao som da campainha novamente tocando, eu me encaminho até a porta e a abro.
Sim, ele mesmo, o tal, o senhor Woody em pessoa me sorri do batente da porta com seu sorriso irônico e pergunta "Fez o café?", eu não digo nada, meneio a cabeça em afirmação e o deixo entrar, da minha altura, magricela, uma maneira de andar como se a sua forma frenética estivesse em conflito com suas pernas bamboleando.
Woody se senta e toma em mãos sua xícara de café que eu nem tive tempo de oferecer, pega o jornal e começa a lê-lo, por um longo tempo, até que salta do sofá deixando o jornal cair e diz "Sabe aquela galeria de arte nova de que te falei? Então, é hoje, inaugurou!". Sem perder tempo ele pega da minha mão e me arrasta porta a fora. Juntos, nós andamos por ruas de calçadas sujas, passamos por cães de raças em coleiras coloridas, guimbas de cigarros e árvores de folhas alaranjadas e desbotadas, outono, eu penso.
Woody Allen acende um cigarro e como se recriando a cena de Manhattan, porém desta vez numa rua de um sol fraco ao fundo e dentro do meu próprio sonho, ele diz:
- Sei que não deveria estar fumando isso, dá câncer. Mas eu fico tão sexy com ele nas mãos, não acha?
- Sim, sim. De toda forma. - respondo. E ele sorri, contente pela minha resposta.
- "Sabe Nova York era sua cidade, e será para sempre." - ele recita olhando-me por trás de suas lentes de fundo de garrafa.
- Amo esta parte, amo este filme. É a minha frase, esta que acabou de dizer.
- Não, é a nossa frase, menina.
Caminhamos e caminhamos enquanto dividimos cigarros e vemos esquilos no Central Park. Tudo que se passa depois são flashes esquisitos. De repente estamos numa galeria toda branca e enevoada, com sofás/pufts dispostos no meio onde as pessoas se deitam e conversam e riem de qualquer coisa, mas obras de arte em exposição não há alguma. Logo, estou deitada nas pernas do senhor Woody Allen, no tal puf gigante, ouvindo-o me dizer que tudo nessa vida é natural "Natural, natural' ele repete, como se estivesse me apresentando a tal palavra pela primeira vez. E por fim, ele diz "Sabe, bem, eu nunca faria parte de um clube do qual aceitassem pessoas como eu. E sabe por que? Porque prefiro fazer parte de um lugar do qual não posso ser aceito. Quem não, não é mesmo?"
E o sonho termina com a imagem de eu e o senhor Woody rindo enlouquecidamente sobre os pufs gigantes de uma galeria cheia de pessoas e ao que parece, numa rua qualquer da Times Square.
Acordei com a sensação esquisita de que mesmo ludibriada pelo sonho eu queria que fosse verdade. Ah sim, claro que queria. Quem não?
E embora sabendo que nada se passou de um sonho, desejei secretamente que uma réstia dele fosse uma lembrança de algo verdadeiro. E assim, Manhattan me veio à mente, e num impulso sedento por algo palpável, eu revivo o filme por mais um milhão de vezes, incontavelmente.
Annabel Laurino
sábado, 23 de novembro de 2013
Marina
Sua boca tinha a cor de um m&m's cor de rosa. Seus olhos, de um marrom escuro, quase negro. Ela fitou ao longe e permaneceu ressentida na sua própria forma de pensar. A cor do mar era de um cinza sujo, quase que um marrom desbotado, coisa esquisita mesmo. Hoje os peixeiros não estavam em seus postos, cortando os peixes e falando coisas avulsas e sem nexo. Hoje o dia era vazio.
Marina ficou aqui, encostada na base de um lampião todo pichado e sujo enquanto analisava o outro lado do porto. Acendeu seu cigarro, calma e lentamente e depois vislumbrou um homem alto vir em sua direção. "Me empresta o fogo ai, moça?". Claro que não iria dizer para ele que não tinha como lhe emprestar fogo algum, mas contendo as palavras lhe entregou na mão enorme e cheia de calos seu isqueiro, esperando ele acender seu cigarro e lhe devolver, e o homem se foi.
O vento subia e descia lentamente sobre o mar e fazia cócegas no seu rosto, dançava com os seus cabelos, encarapitando-o para todas as direções, prendeu algumas poucas mechas, as que podia, atrás das orelhas e continuou ali, encostada, como se não tivesse nada para fazer, como se por algum motivo do acaso tivesse caído exatamente ali, naquela posição, naquele minuto e horário do dia. Vinda de lugar nenhum.
Se fechasse seus olhos e os abrisse novamente poderia ver a cena de ontem como se não fosse a protagonista da própria e sim uma telespectadora. Marina e ele sentados lá naquele banquinho cor de creme, do outro lado do porto, sua bolsa entre os dois. Perto por centímetros, separados por quilômetros invisíveis e ao mesmo tempo tão visíveis aos seus próprios olhos. Separados para sempre pensou.
Sabia exatamente o que o tempo havia feito com eles, pois ele havia os separado, uma distância absurda um do outro, como uma crosta se abrindo sobre a terra em bilhares de rachaduras e vincos, assim tinha sido, até que de repente ficou-se um abismo, irrefutável, irreparável. Irremediável.
Sentiu saudade, sua mente vagava exatamente como a visão de um telespectador ali, a observar tudo. Podia vislumbrar os dois, a ela mesma e a ele, sentados. A diferença abrupta de tamanho dos corpos um do outro, ele tão imenso, ela tão pequena. Podia vislumbrar ele acendendo o seu cigarro e a fumaça sucumbindo no ar, o cão vadio passando atrás deles, ela mesma secando o rosto e encurvando os ombros como se sentisse frágil, como se tentasse sumir dentro de si mesma e se auto desligar, sumir dali.
O tempo é ladrão. Ele rouba a nossa juventude, nossas lembranças, ele assalta os momentos mais genuínos e se você tiver sorte, talvez ele esqueça de vasculhar embaixo da sua cama ou por dentro da sua gaveta alguma coisa que você deixou escondida, na esperança de pelo menos aquilo não pudesse ser tirado de si, talvez você tenha sorte se ele não quiser levar tudo consigo, seus bibelôs e quadros na parede, seus livros e seus beijos roubados.
Sentia-se profundamente amargurada e a maresia trouxe um gosto amargo à sua boca cor de rosa, agora já meio desbotada. Quis ter algum poder sobrenatural, como nos filmes ou nos livros, quis salvar alguma coisa que não podia ser salva, como aquela cena agora já fundida na sua memória. Teria a escrito novamente e mudado o seu rumo para todo o sempre. Teria dramatizado eloquentemente em alguns pontos e posto ali um final digno, uma coisa bonita e rara, e por que não feliz?
Mas agora o tempo já havia entrado e roubado seus últimos restos de coisas guardadas, escondidas. E ele já havia partido, como sempre, rápido. Marina era assim, maresia a solta, saudade branda, cheia de amores não desfrutados e memórias guardadas.
Como se batesse os vãos de uma claquete, ela fechou a cena da memória dentro de sua cabeça e se resignou a só sentir saudade. Apenas isso. Até que o tempo retornasse mais uma vez e lhe roubasse isso.
Se tivesse sorte.
Marina ficou aqui, encostada na base de um lampião todo pichado e sujo enquanto analisava o outro lado do porto. Acendeu seu cigarro, calma e lentamente e depois vislumbrou um homem alto vir em sua direção. "Me empresta o fogo ai, moça?". Claro que não iria dizer para ele que não tinha como lhe emprestar fogo algum, mas contendo as palavras lhe entregou na mão enorme e cheia de calos seu isqueiro, esperando ele acender seu cigarro e lhe devolver, e o homem se foi.
O vento subia e descia lentamente sobre o mar e fazia cócegas no seu rosto, dançava com os seus cabelos, encarapitando-o para todas as direções, prendeu algumas poucas mechas, as que podia, atrás das orelhas e continuou ali, encostada, como se não tivesse nada para fazer, como se por algum motivo do acaso tivesse caído exatamente ali, naquela posição, naquele minuto e horário do dia. Vinda de lugar nenhum.
Se fechasse seus olhos e os abrisse novamente poderia ver a cena de ontem como se não fosse a protagonista da própria e sim uma telespectadora. Marina e ele sentados lá naquele banquinho cor de creme, do outro lado do porto, sua bolsa entre os dois. Perto por centímetros, separados por quilômetros invisíveis e ao mesmo tempo tão visíveis aos seus próprios olhos. Separados para sempre pensou.
Sabia exatamente o que o tempo havia feito com eles, pois ele havia os separado, uma distância absurda um do outro, como uma crosta se abrindo sobre a terra em bilhares de rachaduras e vincos, assim tinha sido, até que de repente ficou-se um abismo, irrefutável, irreparável. Irremediável.
Sentiu saudade, sua mente vagava exatamente como a visão de um telespectador ali, a observar tudo. Podia vislumbrar os dois, a ela mesma e a ele, sentados. A diferença abrupta de tamanho dos corpos um do outro, ele tão imenso, ela tão pequena. Podia vislumbrar ele acendendo o seu cigarro e a fumaça sucumbindo no ar, o cão vadio passando atrás deles, ela mesma secando o rosto e encurvando os ombros como se sentisse frágil, como se tentasse sumir dentro de si mesma e se auto desligar, sumir dali.
O tempo é ladrão. Ele rouba a nossa juventude, nossas lembranças, ele assalta os momentos mais genuínos e se você tiver sorte, talvez ele esqueça de vasculhar embaixo da sua cama ou por dentro da sua gaveta alguma coisa que você deixou escondida, na esperança de pelo menos aquilo não pudesse ser tirado de si, talvez você tenha sorte se ele não quiser levar tudo consigo, seus bibelôs e quadros na parede, seus livros e seus beijos roubados.
Sentia-se profundamente amargurada e a maresia trouxe um gosto amargo à sua boca cor de rosa, agora já meio desbotada. Quis ter algum poder sobrenatural, como nos filmes ou nos livros, quis salvar alguma coisa que não podia ser salva, como aquela cena agora já fundida na sua memória. Teria a escrito novamente e mudado o seu rumo para todo o sempre. Teria dramatizado eloquentemente em alguns pontos e posto ali um final digno, uma coisa bonita e rara, e por que não feliz?
Mas agora o tempo já havia entrado e roubado seus últimos restos de coisas guardadas, escondidas. E ele já havia partido, como sempre, rápido. Marina era assim, maresia a solta, saudade branda, cheia de amores não desfrutados e memórias guardadas.
Como se batesse os vãos de uma claquete, ela fechou a cena da memória dentro de sua cabeça e se resignou a só sentir saudade. Apenas isso. Até que o tempo retornasse mais uma vez e lhe roubasse isso.
Se tivesse sorte.
Annabel Laurino
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