quinta-feira, 25 de abril de 2013

Despedida

    Eu não sentia esse desprezo todo por você, como você pensa. Mas a partir de uma época, não sei exatamente, comecei a sentir um desprezo enorme de nós dois, como um casal. Eu amava você, mas rejeitava o esquema "nós". Você sabe, casais felizes vivem ou de projeções ou de mentiras mútuas ou de condescendências, e não tínhamos uma coisa nem outra.    Quando vi, passei muito tempo sonhando com aquele cara que me apaixonei em princípio, e não enxerguei que estava convivendo com um protótipo, um fantasma, um resquício dele. Eu tinha uma ideia de amor não baseada na nossa realidade, e talvez tenha sido esse meu pecado. O seu foi apenas não me acompanhar, ter descido os pés no chão pouco após zarpar da viagem, não sei se me entende.
    O caso é que passei tempos sendo generosa contigo. Generosa com os dias que você sufocava qualquer manifestação de romance, generosa nas vezes que você comentava do seu trabalho sem prazer nenhum, generosa quando você esquecia de bolar algo novo pra me tocar, generosa com suas décimas ligações no mesmo o dia, generosa te sugerindo formas de fazer as pazes comigo depois de alguma intempestividade, generosa com as vezes que você vinha da rua me trazendo nada, generosa com sua amargura.
    Eu consertava tudo, e você só fazia deixar o mundo de ponta-cabeça. Então decidi que chegara a hora de atroz. Demorei, mas descobri que podia ser cruel, muito cruel. Simplesmente me vi exausta de tentar camuflar minhas expectativas. Ao mesmo tempo que odiei nós, desenvolvi um amor oceânico por todas essas emoções e sentimentos que nunca imaginei que poderia ter de volta. Me apeguei a isso. E foi aí que tudo que você achava saber sobre mim tropeçou e caiu feio. 
    Uma vez ameacei ir embora e tudo que você foi capaz de me dizer foi um "pode ir!" cheio de desprezo. E quer saber? Eu fui. O que eu queria? Apenas converter aquele "pode ir!" idiota, sabe? Eu testei você, e você caiu, trouxa. Medroso, covarde, cagão, não foi homem pra me procurar. Vai ver é por isso que resolvi tomar a iniciativa, como sempre. Para ao menos fingir que tivemos uma despedida.
  

 Gabito Nunes

quarta-feira, 17 de abril de 2013

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"Tá chovendo dentro dela, quase que um temporal."

Rêves Silencieux

    Tem sido aquelas noites em que o sono não chega. Ele simplesmente nega o convite com as portas abertas e cheiro de vela perfumada e cobertores quentinhos. 
    Tem sido do tipo de noites em que a impressão que dá é que o sol se esqueceu de acordar. Tarde ou cedo de mais, tanto faz. E faz um silêncio por aqui. O tipo de silêncio que te faz pensar em tudo, em todas as coisas.
    E eu penso no desejo continuo de não estar mais só um dia. E são nessas terríveis horas que percebo o quão sozinha é possível estar quando a sua unica companhia é você e unicamente, você mesmo. Os pensamentos ficam martelando fundo na cabeça, da uma vontade desesperada de sair dessas entrelinhas e começar a escrever logo com letras maiúsculas e em negrito, para que todo mundo entenda logo o que eu estou querendo dizer. Mas eu não sei bem como fazer isso, as vezes é meio como prender um grito depois de ter batido o pé na quina da cama. Insuportável e doloroso. Mas necessário sobretudo.
    Não estar aqui, só não estar aqui. Fecho os olhos e junto os cílios. Me leve para qualquer lugar que não aqui. Hoje será Paris. Que tal? Então eu me cubro com as cobertas e mudo de lado, abraço o travesseiro, me aqueço, noite fria. Paris. Estamos no Louvre, que típico, dia bonito, batemos uma foto e sorrimos. Tão turistas, todos a nossa volta pensam, mas ninguém liga, é um dia bonito.
    Não importa mais estar sozinha ou não estar. O problema é quando estou aqui, como agora, só comigo mesma e não tenho ninguém para compartilhar esses pensamentos todos que ficam me incitando cruéis. Ninguém para repartir um sonho do lugar favorito sendo visitado hoje antes de tudo virar de fato um sonho. Ninguém para admitir quanto medo. Para olhar nos olhos, abraçar o corpo e dizer que sorte te ter aqui agora enquanto tudo lá fora é só silencio e todos eles esqueceram do que realmente importa. 
    Penso em levantar da cama a essa altura, em fazer um café, em arrumar a sala e esperar o sol nascer e ser a hora de mais um dia de caminhadas e conversas com senhoras desconhecidas de meia idade me contando de como seus netos são maravilhosos e como não entendem quando seus filhos se tornaram tão ingratos.
    Eu não quero chafurdar aqui, nesse silêncio. Mas no final de tudo, tudo será um esquecimento. Não faço mal uso das palavras, eu só não tenho no que me apoiar agora. Eu não levantarei ainda, eu ficarei aqui por mais um tempo esperando a sonolência chegar e quando enfim chegar eu estarei cortando o vento com os meus cabelos, numa avenida qualquer de nome difícil, sentada em um café, do lado de fora, admirando o dia, as pessoas, o céu azul de Paris, comendo um croissant e ouvindo o burburinho animado de um francês fluente e perfeito. As pessoas serão bonitas e perfumadas, tal como manda o figurino. Eu sorrirei enviesado, tomarei café e lerei um livro. 
    E nada mais será só silencio. 
    Exceto o que ainda fica em mim.
  





Annabel Laurino

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Feeling

    Eu tive um sentimento enquanto caminhava pela rua aquela hora da noite. Foi um feeling forte e que ficou grudado no peito. Sim. Tudo começou a chafurdar junto como uma massa toda sendo misturada, como se fosse de repente um filme. Toda aquela cena, a luz dos postes, a calçada, os ladrilhos do meio fio meio gastos e manchados, iluminados pelo alaranjado das lampadas acima de nossas cabeças e aquele frio repentino subindo pela meia calça, roçando nas pernas, pinicando gélido. 
    Foi vendo aquelas casas todas, uma empilhadinha ao lado da outra, tão organizadas que eu pensei em tudo. E eu pensei em tantas coisas. Pensei nas pessoas chegando perto de seus lares ao final do dia. O que elas sentem quando estão próximas daquela tão reconhecida porta? Elas sabem o que vão encontrar lá dentro. Sim, elas diferem aquela unica e em especial porta de todas as outras daquela rua, daquele bairro. E sentem uma familiar sensação de conforto, porque é algo que elas conhecem tão e maravilhosamente bem. A chave que elas seguram em suas mãos é por ventura a chave que abrirá aquela porta e não todas as tantas outras, apenas aquela. E por isso ao entrar por aquela porta o sentimento é completamente diferente de quando entraram em algum outro lar que não o delas mesmas, não é um sentimento familiar e confortável. Não é 'a porta'.
     O que vem depois é só um conjunto ainda mais singular e perfeito, uma junção de familiaridades. A pessoa com a casa em si já conhece a rachadura da parede ao lado do vaso de flores que fica ao canto da sala e próximo ao tapete de cor extravagante comprado em um lugar qualquer por uma pechincha unica. Ela sabe de cada detalhe. A cor da geladeira que não é branca nem bege e nem cinza, talvez um gelo meio empoeirado. A pia com lascas de arranhões de facas. A toalha de mesa, presente da avó. A cama com cobertas indianas e cheiros de cremes e loções de banho. A janela em cima da cama por onde gosta de admirar o lusco-fusco do dia, aquele momento de introspecção querido e que desconfia não encontrar em mais nenhum lugar do mundo a não ser ali. O forno velho do fogão quase dando adeus cujo assa os melhores bolos de aniversários e o guarda-roupa lustroso com ares de anos 60. Da pilha de revistas à estantes de livros adorados. 

    Tudo isso registrado na mente de uma pessoa enquanto se aproxima de sua casa. Ela a reconhece por inteiro, cada centímetro quadrado, a adora e a odeia, dos dias de limpeza até aqueles concertos indesejados que são necessários serem feitos. Mas ela a adora. 
    Pensei nisso enquanto caminhava pela rua. Cheguei a conclusão de que nós pessoas somos como casas. Sim, eu pensei nisso enquanto via um casal de amigos se aproximarem de seu aconchegante lar e eu refleti na familiaridade de um para o outro, daquela coisa toda que une duas pessoas, de como tudo isso funciona ou deixa de funcionar, e essa intimidade adentro que poucos conhecem. E pensei que você mora em alguém de qualquer jeito, de alguma forma. Que depois que você adentra a vida de alguém você será a casa para esse alguém entrar quando quiser, nos dias de chuva, de raios e trovões, ou nos dias de sol, emprestando a varanda arejada para um chá gelado e protetor solar. E consequentemente tudo isso é um ciclo, eu viro morada, mas moro em alguém também. 
     Tudo isso é lindo, mágico e fiquei tão triste por pensar nessas coisas todas.
     De repente você pensa no que temos e como temos com as pessoas todas de nossas vidas e você julga isso tão especial, mas depois, parando para pensar, dentro de mim, com essas roupas todas jogadas por todos os lados, cama por arrumar e louça suja para lavar, quem gostaria de morar aqui numa hora dessas? Quem seria feliz por chocalhar as chaves ao se aproximar perto da minha porta e saber que é aquela chave que abre essa unica porta aqui? Quem ficaria contente de entrar e passar os pés no tapete de entrada e se deparar com essa bagunça toda e ainda assim querer limpar, arrumar e depois por um café para passar quente e cheiroso?
     Teria que ser quem realmente quisesse ficar.
     Fiquei horas pensando sobre isso. E achei engraçado essa introspecção toda, mas achei lindo, tão lindo. É mágico quando de repente você para para pensar que pode ser muito bonito morar assim dentro de alguém, e de repente ser um lar para essa outra pessoa e não compartilhar só poses, sorrisos enfeitados e cílios batendo firmes com a ajuda de um rímel, mas que pode-se repartir dor, tristeza, saudade, carinho, afeto. Que você não está sozinho, que você tem onde passar a noite caso o mundo se vire contra você. Você terá uma cama quente e uma companhia para te abraçar e te prometer conhecer Paris ano que vem, mesmo que não conheçam. Você passa a ter tudo isso e de repente nada mais é tão só. De uma hora para outra você começa a repartir aquela coisa antiga também, meio esquecida, causada e querida, sim, o amor. 



Annabel Laurino

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domingo, 14 de abril de 2013

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"Parece perder um pouco a pose, e precisa olhar fixamente para a parede, concentrando-se para não chorar."



Gabito Nunes


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    “Querida Kitty,
Você pode me dizer por que as pessoas se esforçam tanto para esconder seu eu verdadeiro? Ou por que sempre me comporto de modo muito diferente quando estou perto dos outros? Por que as pessoas confiam tão pouco nas outras? Sei que deve haver um motivo, mas algumas vezes acho horrível não poder confiar em ninguém, nem mesmo nas pessoas mais próximas.”

 O Diário de Anne Frank

sábado, 13 de abril de 2013

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“Parecia que tinha sido, tipo, há uma eternidade, como se tivéssemos vivido uma breve, mas infinita, eternidade. Alguns infinitos são maiores que outros.”




A Culpa é das Estrelas.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Código indecifrável

    Então era só isso?
    Eu ficava me perguntando, a ideia e as perguntas pululando na mente revoltada de uma bagunça estranha.
    Se era só isso eu me atiraria pela janela e desistiria de vez. Chega de acreditar no amor.
    Sei lá, se era só isso eu preferia ficar em casa de pijama todos os dias sem esperar mais nada acontecer, se era só isso para mim então tudo bem, eu desisto logo de acreditar no amor e que existem homens de verdade por ai no mundo. Ta, eu desisto então se é isso que o universo está tentando me dizer e eu ainda não entendi porque sou teimosa.
    Desacreditei. Isso mesmo. Desacreditei de vocês homens, vocês ai. Desacreditei. Acho que ninguém hoje em dia quer mais ser amado. Acho que todo mundo cansou, na verdade. E é isso, ninguém quer estar de verdade com alguém e fazer realmente alguém feliz. Porque ninguém se esforça para ser gostado!
    Ah vamos lá, a grande lei ta atração está nisso, você mostrar seu potencial e diferencial dentre a selva de loucos lá fora e fazer algo de útil, algo que te mostre alguém interessante, alguém que valha a pena ser notado. Não adianta só bater no peito e gritar bem alto que esse é você e goste quem gostar porque as únicas pessoas que vão ficar por perto de fato são a sua mãe e o seu gato de estimação.

    Parece que os homens por ai estão mais é querendo alguém para levar para cama e que fiquem com eles até a chuva passar. De resto tudo bem, depois vocês se jogam numa mesa de bar com os amigos e reclamam que mulher nenhuma no mundo presta.
    Será que vale a pena ficar sentada e esperar? Palavras não me convencem mais, eu quero é atitudes. É isso. Eu quero o melhor. Passei quatro longos meses intermináveis tentando montar um quebra-cabeça que jamais consegui terminar e que depois só se mostrou ser tão insignificantemente previsível. Esses longos quatro meses foram os meses que fiquei esperando coisas que eu sempre quis e sempre sonhei e nunca tive e sempre tão simples, mas nada. Nada em cima de nada. Esse foi o resultado obtido. 

    Olha eu sei que sou exigente, mandona, chata, cheia de manias e mimada e coisa e tal. Mas eu nem se quer sou ciumenta ou aquele tipo de mulher que implica com tudo até com a própria sombra da outra pessoa. Eu sou tranquila, eu sou da paz e eu só queria amor. 
    Mas acho que chega mesmo de acreditar que o cara legal vai passar por aquela porta e vai me por na sua vida e me fazer feliz como ninguém mais poderia fazer. Chega de acreditar que existe essa coisa de companheirismo, romantismo, cavalheirismo e todos os outros 'ismos'. É como o Caio escreveu certa vez, "Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis. ".
    E ando, ando mesmo.


Annabel Laurino

quinta-feira, 11 de abril de 2013

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“Não quero um amor rasgado, remendado, pela metade. Demorei tanto tempo pra encontrar essa paz, acho que mereço uma coisa inteira, intensa, indestrutível.”

Caio Augusto Leite