sábado, 4 de fevereiro de 2012

é.


    Vasculhando um espaço dentre a tampa do pote de água que preenche lívido o vasto novo dia que amanhece sozinho, preguiçosamente deleitando-se na janela do meu quarto. Atirando-se sobre as almofadas de corpos vazios como vasos cheios de teias de aranha, poeira negra, crosta suja. Cansaço profundo. Falta. Sinto uma falta e não sei bem do que. Alguém me diz?
    São quatro da manhã. Quem disse que trabalho de escritor é mole, esta enganado. Meu amigo, é doloroso. Depois que você se entrega para essa vida, parece que não pode mais sair. Não tem como ir dormir, não da. As idéias ficam titubeando na mente como uma goteira num canto sorrateiro da casa. E de pingo em pingo vai incomodando a gente. Então eu levanto, tomo aquele café, prendo o cabelo, e vou sangrando os dedos nas margens de linhas dolorosas que vão esculpindo uma vida muito longe de ser a minha. Pinto um cenário, invento, uso a mente, choro junto, sorrio, acho graça e depois parece que um vácuo vai me sugando aos poucos. E quando acaba? Quando acaba rastejo até a cama e me jogo.
    Sinto falta de um braço quente envolto do meu corpo pequeno, acariciando minhas dobras, moldando gentil nas minhas curvas. Sinto falta de alguém sentado a minha frente, completo e total disposto a ouvir e entender todas as minhas idéias mais insanas. Mas, vou te contar que ta difícil ein. Parece que essa corrida contra a dor não tem fim. A saudade de coisas não para nunca. Lembro de pessoas que de certo nem lembram mais de mim. E é duro, sabe? Da uma vontade de voltar no tempo, de forma que se fosse possível eu até me jogava dentro de uma janela mágica, recém programa para dois anos atrás. Pronto. Eu estaria plena e lívida. Mas, pensando bem, talvez não. Eu gosto muito do que eu sou agora. Só não gosto muito de como eu fui ficar tão só. Daquele tipo de solidão que é por minha livre escolha. Eu escolhi essa solidão. Eu sei que vivo melhor assim. Me conheço também. Sei o quão destrutiva eu acabo sendo quando tenho alguém.
    Vezequando é bom beijar na boca de um desconhecido, bonito, nunca vi, nem ouvi falar, dou meu número de telefone errado, digo até logo e vou embora. Não me leve a mal, não sou promiscua. Porém, não sei, tem um cimento aqui dentro. Acho que me dediquei a uma vida que não é minha por tempo de mais. Acho que agora a realidade é um véu que eu só enxergo por trás deste. Enquanto todas as pessoas não, enxergam apenas o que vem.
    Tudo bem, faz parte. Um dia a gente se acostuma.




Annabel Laurino.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

FIXING A HOLE


Estou consertando um buraco onde a chuva entra
E bloqueia minha mente de viajar
Onde ela irá.
Estou fechando as rachaduras que apareceram pela porta
E bloquearam minha mente de viajar
Onde ela irá
Estou pintando um quarto de uma maneira colorida
E quando a minha mente está viajando
Lá eu irei
Estou tirando o tempo para um monte de coisas
Que não eram importantes ontem
E eu ainda vou
Estou consertando um buraco onde a chuva entra
E bloqueia minha mente de viajar
Onde ela irá


The Beatles 

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"Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo. Deixa o vento soprar... Let it be."


Caio Fernando Abreu

Alvo

    O amor? O amor é traiçoeiro menino. Pior que veneno, pior que qualquer chama ou brasa, pior que marca, lâmina afiada, arma ou até mesmo que um exército inteiro. É pura dor, é aflição no peito, é tipo marca, que não desmarca, dor que não passa, aflição que não alivia. É duro, mas é coisa que não se esquece.
    Já pensou ser marcado na pele, daquela marca com o nome da criatura e levar isso para o resto da sua vida? Pode até parecer que vezes ou outra aquela marca estaria a ponto de desbotar, mas é mentira, não desbota, não vai embora. E você lembra todo dia, como se fosse ontem. E ri e chora. E não passa.
    Calma menino. Amor é bom. Do tipo bom, daquele tipo que se você for esperto você vê e sai correndo. Mas, se for a grande maioria você fica tipo mosca morta estaqueado e capturado, indefeso. 
    Pensa só na pessoa que você mais ama. Esta pensando em esquece-la? Já fez milhares de promessas de nunca procura-la, não é mesmo? Já apagou o telefone dela da sua agenda um trilhão de vezes? Já disse que a odiava? E depois disse que não sentia mais nada? E depois disse que era só amizade? Quem sabe então você também deve ter se dito que nunca mais iria voltar atrás, que a vida sem ela é muito mais fácil, sim? Interessante. É, pois é. Se sim, se é fato que sim, sinto muito, você acaba de ser a mosca. Alvo difícil esse, bem vindo ao clube, não, não há instruções no rótulo dessa porcaria toda e não, não tem como esquecer. Engole o choro, quem se apaixonou foi você. Ninguém disse que amor era fácil, e sim bonito portanto é abuso querer que seja simples, não é mesmo?

Annabel Laurino.

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"Não sei por que todos me adoram se ninguém entende minhas idéias."


Albert Einstein


Revérbereo

    Sensação reverberada essa. Meio que uma coisa tênue. Fruto pendido do galho da arvore, por uma liga fina quase fracamente e somente que se sustenta. Estava quieta aqui, pendendo dentre as bilhares de duvidas que assomam dentro da minha mente, e convicta de que uma razão simples poderia de fato existir. Tornar assim as coisas mais fáceis, ou simples, ou simplesmente simples, mas não simplificadas, por que ao todo perderiam a graça.
  O que eu quero mesmo dizer, é que eu estava aqui, parada, ouvindo a reverberação tênue do ar, do vento solto no cabelo, brincando de cambalhota entrementes com os meus fios dourados até que de repente uma coisa pesada, um fruto da arvore caiu sobre minha crista e eis que bati a porta da vida, tão alegre e mansa como um  filhote de leão perdido, porém sedento de sua inevitável e real natureza. Então, abri a porta e entrei no mastro espetáculo de acontecimentos, e abri um livro e mais milhares de livros, e eis que me perdi como não esperava me perder, porém descobri coisas, e possuo segredos, e tenho medos constantes. Suspeito quase sempre que se começasse a falar, ou escrever, sobre todos eles, ninguém acreditaria e me diriam como louca, e eu não ligaria, não importa afinal, são apenas fatos.
     Nada que passe de uma reverberação nervosa titubeando no mastro do navio em alto mar, ou como queira pensar, do peitoril da janela em uma triste e azeda manhã de março. Tanto faz. Há coisas que são para serem vistas, sentidas, e assim acreditadas, porém, poucas são vistas que se dirá sentidas ou de fato creditadas de um pouco de fé.
     Eis que sou uma delas.


Annabel Laurino.

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Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.



Albert Einstein


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Não ir, ir, ficar, sair, desistir. Tentar.

- Então se é para ser assim, me desculpe, eu desisto.
- Desiste? - perguntou atônito.
- É isso mesmo, eu desisto. Com prudência ou não, mas como pode ver estou indo embora.
- Peço-lhe, não vá.
- Eu vou.
Tristemente um retumbante silêncio se fez dentre eles.
- Espero que se lembre de que mesmo indo embora a história não acaba aqui.
- Ora, seja especifico que o tempo branda.
- Digo, a história, nossa história, viverá acessa dentro de você todos os dias.
- Como podes ter certeza disso?
- Eis que se for de verdade viverá, mesmo que se passe dias frios e chuvosos, ainda assim, como chama quente no inverno rigoroso ela acenderá brilhante, e no verão úmido descobrirás que ela não de desfalecerá pelas imensas inundações. Saberás disso, se for verdade. Agora, pode ir.
[silêncio]
- Me deixas ir?
- Não, nunca.

Annabel Laurino.

Ardência pura. Ciumes cruel, falta insana. Jaz aqui.

    E o que te dizer? Se tenho ciumes só de pensar que guardas tua fala mansa para outro alguém que não eu? Que ligas teu telefone não pensando mais em me ligar, mas ligar para outras pessoas? Pessoas novas ou velhas que do nada rechearam a tua vida no lugar do espaço que eu ocupava antes. Não sei, pode ser bobagem. Tenho medo de parecer pra você alguém insignificante. Em parte por que necessito desse espaço vital na sua vida, em parte por que quero ser para você na mesma medida de importância que você é para mim. Não quero ser o seu 'era e não é mais', virar possibilidade, ou cartão postal jogado dentro da gaveta, empoeirado e perdido, desbotado.
    Tenho falta sua meu bem, mas é uma falta tão cursiva que as vezes dói por que não sei como estanco essa falta. É do tipo, "me deem água que dentro de mim nasce um deserto Saara, mas muita água, água pra valer", mas trazem-me um misero balde de água morna, esquecendo do deserto que há aqui dentro. Não cessa, não cura. Mas dói nessa ausência ribombante que fica girando dentro do peito, ocupando um espaço que não cabe quase nada. E agente acorda todo dia pensando que pode ser diferente, e o passado ali do seu lado, feito garra negra apertando sua mão, aperto frio. E da uma saudade, uma saudade louca do tempo em que tudo fazia um sentido imenso sem nem fazer esforço. Da saudade de tudo, do abraço, do cheiro, do toque, das musicas, dos risos, das brincadeiras. Da saudade. Da ciumes. Dói pensar que tudo o que eu fui pra você agora, não sou mais e não tenho mais importância.
    Ou tenho?
    Bate a porta e grita, chama, diz que tenho, diz que ama. Mesmo que seja incerto, mesmo que a chama seja curta, mesmo que o céu extingue, não tem problema. Só não deixa esse amargo sabor aglutinar na boca e se perder nos ponteiros negros do tempo. Não deixe.
 

Annabel Laurino. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

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 O mundo acaba hoje, eu estarei dançando
  O mundo acaba hoje eu estarei dançando, com você.


Agridoce