sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Darshan

    A cena era como uma fotografia distinta, dessas em preto e branco, muito em foco, pouca luz, tudo muito claro e usual, sensual também. A luz de fora entrava como um golfo de vida, mas sem iluminar o quarto inteiro, deixando com que os cantos daquele pequeno espaço ainda não soubessem da existência da fraca e pouca luz que entrava sorrateiramente, assim como o calor daquela noite de verão entrava, sem permissão.
    O lugar era o quarto. E o quarto era o lugar. O verão insidia e batia insistentemente. E eles, as pessoas na fotografia, os corpos, eram Alice e Pedro.
    Beijavam-se os dois naquela cama perdida no centro do quarto, como se a cama fosse um barco em meio ao mar. Ele passava a mão sobre o corpo dela como se a sentisse inteira através de um único toque, como se tocar suas costelas, seu queixo, o nódulo da orelha ou a sola de seus pés incrivelmente pequenos fosse como senti-la inteira naquele pequeno e único toque e nada mais, nada mais. Mas um toque não era suficiente, por isso precisava tocá-la mais e em mais lugares e mais rápido antes que o mundo lá fora resolvesse entrar em combustão espontânea, antes que Saturno colidisse com Marte, antes que algum meteoro caísse. E ela sentia o mesmo, ali deitada ao lado dele, o corpo tão próximo que os pelos se eriçavam ao se tocar, passava sua pequenina mão por aquele rosto familiar e quente, perpassava suas perninhas pelas pernas dele e o olhava, mesmo no escuro daquele quarto, meio mar meio oceano, onde o enxergava apenas pela pouca e fraca luz.
    Você não entenderia o amor daqueles dois, nem mesmo eu ou qualquer um. Mas eles se encontraram e se perderam, um dentro da cabeça bagunçada do outro e exatamente por isso sabiam onde estavam sem se perguntarem o lugar exato o tempo inteiro. Aliás, por falar em lugares, já haviam estado naquele quarto outras vezes, se é isso que você quer saber, mas daquela vez era diferente, pois tinha gosto novo e o fundo era azul e lilás, multifacetado de lembranças alegres.
    Livros ao redor se empilhavam na estante. Uma vitrola e um disco, o disco rodando e rodando, ressoando seu som reverberante a 33rpm e a vitrola em trabalho frenético de reprodução. Havia uma máquina de escrever a espera, a espreita. Tudo era som, sabor e música, e literatura também. Tudo trabalhando incessantemente como uma reverencia aqueles dois seres, aqueles dois corpos, duas almas, encontrando-se e se perdendo naquele quarto de pouca luz.
    Alice tinha gosto de café enquanto beijava Pedro. Por isso o beijo tinha gosto de café e era, como pode-se imaginar, tão bom. E Alice estava tão bonita, os olhos piscando caleidoscopicamente naquela fraca luz, olhos de cigarras verdejantes e fugazes, sorriso alegre e infantil, mãozinhas pequenas e quentes, passeando nuas por um corpo completamente nu. Tocando-o com suas mãos sentia como se o encontrasse pela primeira vez, como se o salvasse de um naufrágio, de uma fuga, de um momento, do mundo e de tudo. Cada toque era como o primeiro toque. E tocaram-se os dois.
    Pedro já conhecia aquele corpo minusculo colado ao seu tão bem quanto saberia o caminho exato para chegar em casa, podendo faze-lo de olhos fechados e tranquilamente. Mas sempre havia algo novo a se descobrir naquele corpo pequeno e macio. Por isso passava as mãos pelos cabelos de Alice tão carinhosamente, descobria seus seios desnudos, pequenos seios brancos. Divertia-se com seu nariz, com os cílios compridos e assoprava sua orelhinha para arrepiar-lhe a nuca. Gostava da curva e o contorno de suas coxas, o leve delineio de seus quadris e a curvatura de suas nádegas como maçãs.
    Tocavam-se ao toque perfeito, descobrindo-se ambos numa dança rítmica ao som do disco e da vitrola a 33rpm, sem parar. Poderia ter chovido naquela noite, mas não choveu. Alice gostava tanto de chuva como Pedro gostava de trovões. Mas tudo bem, eles não se incomodaram com isso e por isso continuaram a se beijar, um encontrando o outro, um tocando o outro. Como tem de ser. 
    - Hum...
    - Por que parou de me beijar? – perguntou Alice, de repente. Uma voz fraca ao fundo do quarto escuro junto da música tocando, os grilos lá fora dançando e pulando, o cheiro de noite quente misturado a hortelã e dama-da-noite, refrescando o aroma pungente do ar.
    - Eu tive uma ideia súbita de algo genial e você está tão bonita que eu precisava olhar.
    - Ah, oras... – depositou-lhe um beijo no rosto quente e corado – Que ideia?
    - Eu pensei em algo para escrever.
    - Escrever agora?
    - É, agora. É tão...tão... Eu preciso colocar para fora. – Pedro levantou-se rapidamente, tão rápido que a assustou. – Preciso escrever.
    - Nossa, parece urgente.
    - E é, meu amor.
    Pedro caminhou até a sua escrivaninha e se pôs em frente a máquina, sentando-se nu na cadeira. O disco ainda girava, a música ressoava a toda pelo quarto. Alice caminhou até ele, colocando as mãozinhas em suas costas.
    - Sobre o que você vai escrever?
    - Sobre dois planetas que colidem, sobre... Um casal apaixonado beijando-se no escuro de um quarto, uma vitrola e uma fraca e pouca luz entrando de algum lugar que ninguém sabe qual é. E sobre os olhos, os olhos dos dois, café e então...
    - Essa luz será verde?
    - Verde?
    - É, como em Gatsby... A luz verde de Gastby, você sabe.
    - Não pensei nisso, meu amor, mas pode ser... ou eles são um para o outro a luz verde. Você é minha luz verde. Vem, senta aqui enquanto eu escrevo.
    Pedro aconchegou sua pequena Alice em seu colo, acendeu a pequena luminária e depois um cigarro.
    - E sobre o que mais você vai escrever sobre esses dois?
    - Ah Alice, meu amor, eu não sei. Mas a cena é clara como uma fotografia, eu preciso falar sobre.
    - Fale sobre, então. E não se esqueça de dizer que era inverno, nada de corpos suados ou calor. E fale sobre maçãs, gosto de maçãs.
    - Maçãs... Sim, também gosto de maçãs - um sorriso se desenhou em seus lábios. - Mas definitivamente a cena é clara, precisa ser verão.
    - Entendo, tudo bem. Vou mudar o disco.
    Alice se levantou. O disco foi trocado, algo como uma trilha sonora já tão reconhecida por aqueles dois começou a tocar. Pedro de sua cadeira, com seu cigarro acesso, sorriu como um vaga-lume feliz numa noite escura e densa. Alice, ao lado da vitrola, com os dedinhos carinhosos em contato com o mundo, sorriu também. E aqueles dois respiraram fundo e tão claramente que seus pulmões encheram-se de uma mista paz e coisa nova e bonita e cheia de flores e música. E era novo e era bonito e Pedro não parou de escrever até o dia pintar-se em cor lá no céu com Alice toda sonolenta ao seu lado, dividindo a over e a libido, dividindo a insana vontade de viver. 




Annabel Laurino 





sábado, 10 de janeiro de 2015

O Som que a Chuva tem

Choveu quase toda a semana. Choveu enquanto eu dormia, mas não fui capaz de perceber as gotas de chuva tamborilando nos vidros da janela ao lado da cama. Choveu quase todos os dias, uma chuva que lambeu as ruas com poças espalhafatosas de água, uma chuva que há dias não caía, ensopou as calçadas, os calçados dos passantes despercebidos e apressados, e estampou gotículas nos guarda-chuvas aglomerados na rua central.
            A chuva oscilava em suas cheganças, principalmente nas tardes quentes desse verão abafado e denso, quase claustrofóbico. Quando parecia que ia cessar, lá estava ela, espalhando-se vivaz, acompanhada de nuvens carregadas e gordas, anuviando o sol.
            Mas o resto você já sabe, muito aguado. O que importa é que por segundos apenas, quando a janela era aberta, podia-se ter um vislumbre faceiro daquele tempo cinza e fechado, daquelas nuvens carregadas, daquela brisa contente e um tanto gelada brincando na ponta do nariz, uma lembrança quase próxima dos tempos invernais. Saudade, saudade. Faz uma caneca de café e senta na soleira da sua janela, menina, veja a chuva escorrendo pelas telhas e por tudo, levando todas as partículas de poeira embora. Nada melhor.
            Nos noticiários, a semana inteira nada foi bom, teve um ataque terrorista do outro lado do mundo, teve gente afundando nas próprias mentiras e você sabe, todos nós sabemos, é a mesma coisa de sempre, aquela coisa ideológica/hipócrita e hostilizada com todos no fim da história tentando salvar seus calções. Mas não estamos nós todos tentando salvar nossos próprios calções? Não importa, reflito, o mundo está escorrendo pelas nuvens nesse exato instante, não importa. E volto a pensar, mastigar, sentir o amargo ferrenho e doce dessa incrível incapacidade de compreensão do porque existir enquanto tudo lá fora só chove, e chuva e chove, pingo que não para de cair, e cai aqui, na minha cabeça confusa e descabelada, cara amassada de dormir mal a noite inteira, cara com olhos dissimulados de cigana oblíqua.
            Minha escrita não é clara, eu sei. Eu falo com pressa, como quem não sabe aonde chegar, não sabe onde estacionar o carro no meio da estação lotada de tantos outros carros. Mas eu insisto, eu quero uma vaga sem nem saber por que. E falo mesmo assim, escrevo nessas linhas que não existem, parafraseio nesse instante que já passou. Minha escrita tem como forma uma existência de peso que se eleva em sua própria leveza. Levo meus dedos em direção dessa máquina que tem por tarefa me deixar entrar, para escorrer calma e precisa, como a chuva lá fora.
            Se você vem ou não eu já não sei mais, mas venha. Aparece no meio da noite e para ser dramática logo, me salva. Me salva desse importuno desesperado de não saber onde estou, se eu já fui ou se já cheguei. Me salva dessa pressa, desse desesperado desaparecer de faces que me tem por inteira. Vem e abraça meu corpo, se cubra comigo nas minhas próprias cobertas e aquece esses braços seus. Canta para mim, o violão ta logo ali, ao lado da porta, dedilha ele como se dedilhasse a mim e depois dedilhe-me também, por que não? Eu te espero e tenho urgência na minha espera desesperada em desesperar.
            Do outro lado da cidade eu sei que um pingo acabou de cair sobre sua face rubra e feliz. Um ônibus acabou de dobrar a esquina e levantar água de uma poça no meio da rua, uma música toca alto dentro de um apartamento do outro lado da praça principal, nossa música favorita. O universo sussurra canções harmoniosas. Te procuro na imensidão vasta dessa chuva que não para de cair sabendo que do outro lado da cidade você me procura em qualquer coisa como um livro, uma frase solta, uma lembrança vaporosa, um café sem açúcar ou chuva, porque eu sou toda chuva, toda temporal. Do outro lado da cidade ou do outro lado do mundo, o universo abraça tudo e ele conspira a meu-seu-nosso favor.
            Agora você já sabe, foi por isso que choveu quase todos os dias. Até mesmo a chuva tem seu próprio e particular som, sua maneira de se comunicar. Ouvi atentamente. Logo, tive a delicadeza de não me silenciar. 




Annabel Laurino



 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Em nome de nós

    Você dormiu. Virou para o lado, deixando as cobertas cobrirem docemente seu corpo nu, moldando sua forma de ossos, carnes e pele tão translucida que agora, eu já não conseguia mais ver. Você dormiu, ouvi seu ressonar baixinho, fiquei ouvindo, escutando você dormir, você e a chuva, caindo os dois sobre o espaço tempo de algum lugar mágico do universo. Embora a chuva só batesse, firme e decididamente, sobre as nossas cabeças naquela noite.
    Você dormiu, sem vigilância alguma. Eu espiei você, gravei seus detalhes, entrei na sua mente sorrateiramente e descobri seus sonhos. Tudo isso enquanto você dormia, mas você nem viu, nem percebeu. Você dormia. E eu fiquei ali, no escuro, querendo alguém para abraçar. Fiquei ali no escuro querendo um calor humano para envolver o meu calor humano também. Fiquei ali ruminando formas de te acordar e te trazer daquele sono tão tranquilo, tão sereno, mas que no fundo eu invejava.
    Chorei no escuro do quarto, perdida entre as quatro paredes simétricas e perfeitas de cor azul. Chorei sobre aquele colchão que já tinha a forma do meu corpo desenhada no canto, próximo a parede. Chorei lágrimas duras e frias, sem você ver. Porque você dormia. Você nem sabia, nem desconfiou, você não me vigiou mais.
    Você não acordou nem mesmo quando eu abracei meu corpo e disse “eu preciso tanto, eu preciso tanto de um abraço agora, eu me sinto só, só nesse imenso quarto, nesse imenso azul, nessa condensação lenta que me desgasta, nessa coisa copiosa e dura em que me perco”. Você não acordou com os meus soluços, meus lamentos. Chorei por muito tempo, pedi paz, falei baixinho pedindo muita paz. Queria algo bem doce e depois sentir cheiro de alecrim, pensei em Paris, chorei mais um pouco e me senti só, mas depois o coração encontrou alento. E você dormia.
    Nesse sono só eu fui me perdendo naquele escuro condensado daquele quarto tão simétrico e perfeito. Você nem percebeu. Você estava ali, deitado ao meu lado, ressonando baixo como um anjo perdido em sonhos, perdido em fábulas, perdido de mim, perdido em nós ou de nós mesmos, sem se quer acordar. Qualquer movimento brusco era incapaz de te tirar dali, daquele sono tão rarefeito. E por isso eu chorei, não existia o que eu pudesse fazer, eu só queria teu corpo, eu precisava de você inteiro e acordado, olhando nos meus olhos, os teus olhos tão limpos e claros e cheios de luz e cor, olhando para mim assim, bem aberto. Eu precisava do teu sexo, do teu abraço apertado, da tua mão enroscada nos meus cabelos, dos teus passeios com a boca sobre o meu ventre. Precisava das caminhadas de sol no domingo, do café amargo numa mesa perdida da cidade, de uma aventura cheia de Flâneur. De um ônibus para lugar nenhum, de um destino, de um rumo, um mergulho, uma direção, você e eu, nós dois, no escuro do teu quarto, sobre a claridade do meu, na luz ofuscante de uma manhã de sexta feira ou no final de uma segunda feira cheia de chuva, cheia de apagão. Eu precisava, eu precisava. Eu muito precisei.

    E agora? E agora? A pergunta bate como um pingo de chuva que estivesse caindo sobre a minha cabeça. E agora? Esperamos a chuva parar, esperamos o dia amanhecer? Esperamos pelo sol? Here comes the sun... 
    Ou aceitamos? Aceitamos que o disco arranhou e que a vitrola perdeu a sua agulha. Aceitamos que a vida é assim, independente da musica, ela simplesmente toca, aceitamos o duro, no duro, nessa coisa chamada engolir em seco, sem piedade. Aceitamos o 'sem você e eu'. Corredores vazios, livros mofados, ônibus lotado, café frio, música ruim, gente estranha, tudo isso, sem você e eu. E sem as conversas, claro, longas e intermináveis, até as quatro no telefone. Meus pés roçando tuas pernas, minha boca pedindo pela tua, meu corpo pequeno vestido num pijama bobo, perdido no meio do teu quarto esperando você chegar de algum outro canto da casa. E tudo e tudo e nada e nada. E vamos indo, como quem há muito tempo já se esqueceu de que horas são.
    Então você dormiu. Assim, como quem gradativamente vai caindo num lugar onde não se tem mais como sair. Você foi indo e eu fiquei aqui, puxando as cobertas sobre meu corpo, tentando a custo e a fio, a choro e desespero, salvar qualquer coisa como um sou de ser, de como era antes, desse desgastado nós.


 Annabel Laurino 




quarta-feira, 12 de novembro de 2014

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In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah

Lonely

    Alguma coisa se partiu em cacos e algo se perdeu. Depois disso, depois do baque, depois da queda lenta e fria, dura sobre o piso frio e sólido, a coisa, a coisa nunca mais foi a mesma.
    O sol desponta na minha cara fresca matinal, recém lavada com cheiro de sabonete, o gosto de café ainda tão forte na boca quente, o sol das oito da manhã, meu cabelo vermelho reluz forte sobre um raio morno e eu caminho firme de encontro ao ônibus, eu sigo em direção ao rumo certo sem saber que rumo eu devo pegar. 
    O ar é rarefeito nessa cidade de pedras onde encontro sossego atrás das portas de uma livraria. Mas tudo me sufoca agora. Eu lembro de Cecília, eu me pergunto constantemente "em que espelho ficou perdida a minha face?'. E você me ronrona no ouvido quente se eu não penso em você e eu afirmo com a cabeça, sim, eu penso, eu penso em você as sete da manhã enquanto tomo o meu café forte e assisto ao noticiário, eu penso em você. 
    Eu penso em nós?
    Mas nós, quem?
    Você brinca com os meus dedos dos pés e eu tenho vontade de afundar a cara na curva perfeita do teu ombro tão branco, de encontrar teus ossos, te raspar a pele na tua barba. Você me chama de pequenininha e eu só penso em ficar mil anos com você. Mas houve a queda, houve o baque e tudo agora é uma mistura de sol forte, cidade vazia, sons abafados e café forte as sete da manhã. Alguma coisa se perdeu.
    Parece que alguma coisa vai endurecendo com o tempo, é isso mesmo? Parece que tudo tem por obrigação de alguma forma... se perder. 
    E eu penso em algum filme que não vimos, eu penso em algo que ainda não fizemos, em alguma viagem já planejada tantas vezes, planos refeitos mil vezes e lembro de tudo, desde o pequeno começo e vejo o quanto nossos rostos, agora pintados num quadro da memória,  mudaram, o quanto o percurso se tornou diferente e eu me pergunto se você ainda vai continuar brincando com os dedos do meu pé, se vamos ver todos os filmes que queremos ver juntos e se essa coisa quebrada pode ser colada novamente.
    Dói, eu sei que dói, e é por isso que eu caminho em direção ao ônibus procurando um rumo certo as oito da manhã, com gosto de café na boca e pensando em te ligar mas não ligo. Eu quase nunca ligo, nos últimos dias eu não ligo mais. É por isso também que choro, claro que você não sabe de todas as vezes que eu choro sentindo um vazio enorme aqui dentro e uma vontade insana de desaparecer por completo, claro que não. Claro que você não tem ideia da metade das coisas que faço sem você saber. E por conta disso ando me sentindo cada vez mais só.
    Talvez eu tenha sido a pessoa mais doida que você conheceu desde que veio ao mundo. Não me orgulho disso. A gente não pode mesmo mudar o que foi feito para ser. A gente só pode mudar o que somos num conjunto. Mudamos.
    Caminho com a lembrança quente dos meus braços enlaçando teu pescoço, da minha boca encontrando a tua no escuro breu do teu quarto as duas da manhã, você pegando minha mão e dizendo que tudo ia dar certo e eu lembro de tudo e tudo dói, então eu só caminho em direção ao ônibus que agora me espera, eu me pergunto sobre o futuro, eu sinto tudo aqui dentro, eu continuo, mas eu nem sei bem por que. 


Annabel Laurino 



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre os olhos e as luzes

    Nas conotações azuis dos meus dias, são seus olhos castanhos dourados que salpicam doçura onde antes havia tédio. São teus olhos que eu vejo quando eu fecho os meus, castanhos dourados, brilhando por trás das lentes de teus óculos lascados. São teus olhos que me seguem nas ruas, que lambem as curvas delineadas do meu corpo, que riscam no meu rosto palavras eternas e mais, escrevem os caminhos por onde eu devo ir. Teus olhos.
    Mas eles ainda estarão lá quando eu abrir os meus olhos? Eu já não sei mais, é recém segunda feira, falta muito para a semana acabar. Ontem era domingo, o pior domingo do ano. Sim, o pior domingo do ano. E hoje é segunda, como aponta o calendário. Chafurdo no café quente disposto sobre a mesa, pululo e danço em meio as minhas palavras que não são nem claras e nem doces, dolorosas. Dolorido-só. Já viu coisa mais horrível que essa? Dolorido-só.
    Dessa vez eu não fiz um coque no cabelo com um lápis colorido e nem liguei o som para escrever no embalo de uma musica gostosa, não há intenção de escrita, dessa vez é apenas eu mesma falando por mim, descontando nos dedos a pressão latente de um coração quebrado, amassado. Seus olhos não estão aqui agora, eles sumiram. Quem apagou a luz?
    Dormi a noite inteira, a mão ao lado do corpo, morta por cima do colchão quente procurando qualquer coisa vaga como a tua coxa, o teu braço, o teu peito ou o toque rijo dos teus pelos me roçando a mão. Dormi a noite inteira sem saber se acordava ou dormia um pouco mais, quando acordei era dia, o sol forte batendo na janela ao lado da cama, o telefone tocando, era você. Mas, teus olhos não estavam mais lá.
    Teus olhos. Teus olhos e você. Engraçado, minha avó dizia uma coisa interessante, os olhos são a janela da alma. Poético, clichê, que seja. Eu achava o máximo, eu com uns centímetros a menos, minhas pernas roliças e minha franja de boneca, achava tudo aquilo muito grande de se imaginar. Quer dizer que eu podia espiar uma pessoa por dentro dela mesma só de olhar em seus olhos? Genial.
    Quando olhei seus olhos eles eram tudo, eles eram o mar revolto em meio de um lugar gélido onde não existe calmaria. E se eu quisesse, e se eu fizesse, e eu fiz, eu sou curiosa, eu poderia espiar por dentro deles e ver uma paz amiga e serena, uma coisa muito branda, muito branca, era de uma alma clara e tranquila. Uma alma azul.
    E porque eu falo isso? Eu não sei, não há intenção. Sou só eu e o meu café espiralando sua fumaça aqui, nada mais, não há nada a ser dito e ao mesmo tudo. E eu digo lento, gaguejo no meio de uma frase, escondo nas entrelinhas, sussurro lentamente, eu digo claro que essa coisa ferrenha e estúpida, tão má e bonita, ela dói.
    Não era para doer, era para doar. Sim. O amor deve ser soma. Coisa aberta, fresca, nova, clara. Ah eu quase liguei agorinha mesmo para o meu amigo distante, o Zé. To afim de chorar um pouquinho no ombro de alguém, porque as vezes parece que eu sei lidar, mas eu não sei. As vezes parece que eu sou forte, mas eu nem sei de onde tiro essa coisa chamada força. Eu quase peguei o telefone, mas me veio outra coisa na cabeça e então eu esqueci. Já falei tanto de você para ele, contei de Paris, Gramado, o apartamento próximo a praia. Coisas boas. Dessa vez eu ia só chorar, falar de ontem, falar da dorzinha amarga que fica latejando no peito e que parece que ninguém sabe entender.
    O meu café e eu. Somos só nós dois. Eu lembrei de uma musica agora, uma musica francesa muito bonita, ontem mesmo, ao chegar em casa com um vazio imenso eu devo ter ouvido repetidas e inúmeras vezes e se não fosse tão dramático assim, mas já sendo, o mundo poderia ter acabado e salvado apenas aquela musica. Se esvaído em uma explosão lenta de faíscas douradas e azuis. A musica é linda, mandei para o Zé, tinha algo no meio que eu lembro agora, algo assim ”Balayé les amours avec leurs trémolos. Balayés pour toujours. Je repars à zéro.”.
    Coloco a musica para tocar. E ela toca, meneio a cabeça, penso nas luzes, nas luzes simplesmente. E penso nisso por um bom tempo.
     A unica pergunta que fica, dura e fria, escondida em um canto onde ninguém pode ver é essa "Quem apagou as luzes?".



Annabel Laurino


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Esconderijo, rijo e quente

    Na curva quente do teu ombro é onde eu mergulho o rosto. Mergulho dentre a pele tão quente e branca. Veias azuis, sangue pulsando. Na curva do teu ombro é onde mergulho no teu cheiro tão familiar, meu alecrim. Te cubro de beijos, te deixo uma marca. É nessa curva exata onde perdida nos teus braços eu me encaixo por fim em teu corpo inteiro, selando nosso encontro, repouso meu rosto. Me visto de você, me cobres a pele. Ah, meu amor...



Annabel Laurino

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

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"sou egoísta:
faço por mim mesmo
para salvar o que restou de
mim."


Charles Bukowski

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Saudade Parisiense

    Isso não é Paris, eu bem que o sei. Abro as janelas do meu quarto e vejo o céu quase escurecido lá fora, vislumbro a cor amarronzada, com pinceladas de um vermelho quente e o negrume que toma conta agora de todas as árvores do quintal. Não é Paris, mas é algo bom e fico contente, gosto do que vejo, gosto desse lugar, dessa cidade de pedras e água. Gosto do ar que finalmente entra pelo quarto, esse ar gelado e perfumado que agosto trás, esse agosto que recém chegou. Dentro das formas e nuances perdidas lá fora, no mundo que tange através da janela do meu quarto, dessa caixinha azul por onde me perco e me encontro, eu gosto de imaginar que mesmo não sendo Paris, Hemingway tinha razão quando disse que onde estava, no seu quarto, produziria suas palavras sinceras, verdadeiras. Faço isso agora, dou vida as frases perdidas no fundo da minha cabeça congestionada de divagações e sou sincera. Tenho que ser.
    Ontem mesmo, por acaso ou coincidência, tive uma conversa que há muito tempo reservei apenas para as minhas próprias introspecções. E se não habitamos casas e nem lugares e nem cidades e nem países e sim pessoas? E se não importa nada disso, esses tijolos fabricados, essas argamassas endurecidas e essas paredes levantadas para nos abrigarmos se não existíssemos tão fielmente e tão verdadeiramente, de alguma forma, dentro de alguém? O que habita em mim? Eu habito assim em alguém? Pergunto-me isso enquanto vejo a luz refletida de uma janela vizinha acesa e a televisão acendendo e apagando enquanto alguém troca de canal. Eu sei quem habita em mim, eu sei o que habita em mim, ‘tenho em mim todos os sonhos do mundo’. E onde me faço morada?
    É sexta feira e eu nem acredito. Se eu contasse que alguns dias atrás tudo parecia um caos completo. Não que agora tudo esteja completamente bem, mas as coisas caóticas tende por entrarem no eixo de alguma maneira, e acho que é isso, as coisas estão entrando no eixo. Não quero ser esperançosa, não, eu só quero pensar que tudo está bem, que tudo pode ficar bem. Não é como se eu acreditasse nisso, é só que eu quero pensar nisso.
    Você pode me perguntar, e qual é a diferença? Por que você não quer acreditar, por que você não quer ter esperanças? Eu já tive tantas. Tantas esperanças, fragmentadas e profundas, por muito tempo foram minhas balinhas coloridas de açúcar. Hoje eu prefiro só pensar, pensar que tudo pode ficar bem e o que tiver que ser vai ser, não importa. Eu prefiro dessa forma e é assim que tem sido, é assim que tem funcionado.
    Meu som favorito, sempre tem sido desde então, é o da cafeteira gorgolejando, aquele ronco produzindo o melhor aroma do mundo, o de café recém-passado. Agora não que esse não seja mais o meu som favorito, mas possuo outros para a minha coleção, outros sons e aromas favoritos.
    Tenho descoberto pequenos prazeres da vida, pequeninos e pequenos grandes. Caminho pela cidade, compro discos de queijo na livraria do centro, vejo rostos e pessoas, pessoas e seus rostos cansados, ouço as buzinas desesperadas e vejo o desespero em olhos demasiado tristes. Há uma beleza nisso, mesmo que quase melancólica, mesmo que seja loucura admirar a tristeza assim, nos olhos de outrem. Mas não estou mais só, divido qualquer coisa como um sorriso, uma música, uma conversa, as minhas próprias mãos e eu inteira. Se isso me assusta? Muitíssimo. Muitíssimo e latentemente. Ignoro, continuo. A vida é um frenesi sem fim de abocanhar e morder as coisas mais doces, mais gostosas. Como receber beijos e flores azuis.
    Nos dias de chuva eu pulo poças d’água dispostas nas calçadas, me escondo embaixo de um guarda-chuva, vezes compartilhado, vezes sozinha, agora mais do que nunca, sempre compartilhado. Vejo as folhas secas chafurdando na lama, os jovens perdidos de botas compridas tentando desviar dos ônibus ensandecidos e em movimento, sinto frio nas faces geladas e escondo o pescoço no meu cachecol. Como diria o Caio, “na ultima sexta feira eu tive certeza, devo mesmo estar enlouquecendo”. Nas sextas feiras eu deixo para sentir saudade, chafurdo nas águas desconhecidas da qual vou adentrando, com medo, e por isso penso que enlouqueço, mas por gosto porque eu quero e porque eu sei, eu me sinto viva. Nessas saudades eu coloco uma musica para tocar, sento na janela do quarto, vejo o céu de inverno, penso, repenso e trespenso, e repito quase baixinho “Não é Paris, mas podia ser.”.
     Escrevi um bilhete recentemente, o começo tem por inicio algo assim “Nas reentrâncias das minhas entrelinhas misteriosas, tu me descobristes só, fizestes do meu tédio cotidiano o teu tédio também, me vestistes das tuas cores e experimentasses do meu mundo. Se mesclados numa singela mistura ambos os dois, veremos que nos enamoramos bem...”. Não irei contar como prossegue, mas a pouco eu o terminei e sorri ao final.
    Sexta feira. Não é Paris. Sexta feira agasalhada de saudade junto desse céu que agora, no fim dessas palavras já se veste de negro. Ah, sexta feira. Agosto. Quanta coisa mudou de um ano para cá, quanta coisa, quanta coisa já não existe mais e hoje são apenas borrões e lapsos de memória empoeirados num lugar distante dentro de mim. Hoje tudo faz sentido, hoje, nessa sexta feira de saudade, eu penso em rosas azuis, em coisas novas.
    Me vejo não mais refletida nos reflexos de um espelho onde deixei minha face, não. Me vejo pululando, repercutindo e respirando através de cada palavra que escrevo, cada ponto, cada vírgula, cada linha enviesada e cruzada em si mesma numa reentrância mista de sentimentos que não escondo, que não demonstro, que conto baixinho, assim, só para dizer no ouvido quente de quem procuro “Gosto tanto de você.”.
                                                                                                                  

Annabel laurino



ô, Ana


Mallu Magalhães