quarta-feira, 9 de julho de 2014

Chafurdando

    Ei Zé, tudo bem? Quanto tempo que não nos falamos, ein amigo? Quanto tempo faz que não compro papel de cartas e te escrevo algumas palavras meio doloridas desses dias cotidianos demais para o meu gosto meio doce. Ultimamente o que me falta é luz, luz que clareie forte nessa minha cabeça com pensamentos tão congestionados, ando até meio fatigada, sempre quando acho que a coisa vai engrenar ela desanda e acabou, já era.
    Não to falando de uma coisa especifica não, eu to falando no geral. Tem tanta coisa que eu achei que ia dar certo e não deu, não teve jeito. E depois claro, eu nem fiz mais questão que desse, mas sabe quando parece que vai dar?
    De qualquer forma eu não te escrevo essas palavras para elas serem lidas, te escrevo essas palavras para elas serem desenhadas na sua memória, Zé. Porque se você apenas ler, sentado no seu banco, em frente ao fogo, tomando seu copo de café e esquentando os pés já envoltos nas suas meias de lã velhas, eu sei que você vai esquecer. Que vai entender que tudo isso é apenas um drama, nada mais. Mas não é drama, juro que não é. Dessa vez não.
    Ontem acordei num solavanco, achei que a casa tava caindo. Deitei na cama sem a intenção de dormir e quando menos esperei eu estava num sonho daqueles mais loucos, mais viajados. E quando acordei achei tudo estranho, sabe quando bate um reflexo de sol na sua cara nas primeiras horas do dia e soca você com aquele ‘acorda, acorda, acorda’ insistente? Então, foi isso. Acordei daquele sonho com um reflexo de luz que me cegou, me deixou tonta, me deixou meio zonza e depois clareou os cantos mais estranhos da minha mente, aqueles que eu não estava conseguindo ver.
    Se foi culpa do sonho ou não, eu não sei Zé. Não sei dizer.
    Fico chafurdando dentro desse café amargo nesse exato instante e me sinto mergulhar nessa água de mistura negra. Eu mergulho e depois volto. Zé, quando é que alguma coisa nessa minha vida vai ser permanente?
    As vezes, quando não tenho nada para fazer eu me pergunto quando será que irá surgir o Ultimo dos Moicanos a habitar nessas terras isoladas por onde me encontro e então, decidir ficar. E sim, eu sei que tudo em mim é muito estranho, é muito caos, é muito tudo. Eu sei. Sei também que a minha casa é muito Weasley demais, meio torta, as vezes se tem a impressão de que realmente irá cair, que nada faz sentido e tudo é caótico e turbulento. Culpa de saturno, meu caro. Não importa. Quando é que alguém simplesmente irá ficar por aqui, se encantar por aqui, se encaixar nas rachaduras das paredes e se interessar pela bagunça do meu roupeiro?
    As coisas de dentro são muito mais importantes daquelas que estão de fora e eu me pergunto onde estão essas coisas de dentro que às vezes nem eu mesmo enxergo. Alguém pode enxergar para mim?
    Ah Zé, se você soubesse, se você imaginasse... Eu ando por essas ruas, eu vejo tanta gente, nada me interessa. É apenas em meio aos livros onde me encontro, em meio aquelas palavras grafadas ali, há tanto tempo, saídas de sabe-se onde e quando e porque. É no mundo de outrém por onde vago, mas o que eu queria mesmo era habitar aqui onde fico sempre, embaixo da soleira dessa janela velha e descascada, procurando poemas nos jornais bolorentos de noticias feias e tentando encontrar a beleza em rostos cansados.
    Te escrevo essa carta Zé, para você saber que ando inclusive dormindo muito. Quase sempre que posso e quando consigo. Durmo e depois acordo, e sonho quase sempre, quando lembro. Mas o que eu queria mesmo é que alguém ficasse, que combinasse com as paredes desse quarto, nesse clima. Não, eu não quero alguém, quero o alguém. E você sabe Zé, as vezes eu sei, eu me convenço, eu devo estar cada vez mais só. E é o que eu quero mesmo, estar cada vez mais só. Essa incapacidade de encontrar alguém que nos entenda cansa tanto, da tanto trabalho que ficar só como agora, te escrevendo essa carta, tomando meu café, olhando para meus livros e contando os dias é muito melhor, é mais saudável, é mais aceitável. Sabe, aceita-se, aceita-se os fatos.
    O fato de não saber lidar, de não corresponder, de não saber dividir ou ser. De não se fazer entender se não por partes ou por cifras e códigos e entrelinhas. É tudo entre pausas e não flui. E cansa. Se corre o risco.
    Queria mesmo era estar em Paris. Ah, Paris! Como sonhei esses dias, exatamente como sonhei esses dias. Como em Paris é Uma Festa de Hemingway. Estar lá, respirar Paris, ir nos lugares e nas ruas mais escondidas, mais feias e mais bonitas, comer as comidas mais gordurosas e gostosas. Paris e seu point zero, ainda estarei lá. Que tal, Zé? Topa no próximo inverno? Eu e você, juntos com nossa Polaroid, podemos comer crepes de Nutella e dançar no Jardim das Tulherias. 
    Enquanto isso, enquanto não se pode ter tudo, nós vamos vivendo. Tapando os buracos, mastigando os vazios que nos faltam. E tudo bem.
    Te escrevo, Zé. E abraços, com cheiro de jasmim.


Annabel Laurino



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Eco e cacos

    Alguma coisa, coisa essa que eu não sei o que, porque não tem nome e ninguém sabe se existe ou não, se é matéria ou imaterial, essa coisa quebrou-se. Partida em cacos, se estilhou no chão. A coisa caiu e quebrou-se. Causando aquele som agudo de algo que se quebra, que estilhaça-se em cacos, aquele som que quebra o silêncio, corrompe o monótono, o som de algo que impõe caos em algo que antes era simplesmente silêncio.
    Quebrou, mudou, não é mais o mesmo. No mesmo instante em que alguém atravessava a rua, que um cigarro era acendido, que a criança começou a chorar, que o senhor de idade entrou no consultório médico, que o café foi servido, o jornal aberto, o dinheiro gasto, o choro derramado, o abraço dado, o beijo proibido, a mentira contada, a fome saciada, tudo e tudo, nada e nada. Foi por um segundo. Um pequeno segundo. Ninguém soube de onde veio, eram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, o que é um algo sem nome caindo no chão? Nada, não tem importância. Levantaram os ouvidos quando o barulho se fez presente onde antes era apenas aquele silêncio, mas não se deram o trabalho de procurar os vestígios, de analisar as provas, de ver de onde vinha aquele som de eco que repercutia após a queda. Havia outras coisas das quais se preocupar.
    Ela foi embora e ele nem viu quando ela foi embora.  Ela juntou todas as coisas, não as roupas, as fotos ou os livros, nem se quer se preocupou com o casaco favorito, seu marcador de páginas ou algo qualquer, nada desse tipo palpável, ela simplesmente juntou as coisas, os retalhos descosturados daquela relação maltratada, pegou o que era seu por direito, o que era dele ela deixou, não quis mais. Juntou tudo, saiu pela porta da frente. Ele não viu. Ele ouviu sim algum som estranho soando firme naquele estranho silêncio, mas não parecia importante, ele continuou pintando cores nas paredes de seu mundo encantado.
    Tão importante quanto um choque drástico, um apagão, o real caos, a guerra. Aquele som mudou tudo, aquela coisa quebrada deixou rastros de minúsculas evidências que alteraram todo o sentido da história, da história deles. Ele nunca mais viu aqueles pequenos pés se agitando na beirada da sua cama, aqueles pezinhos de unhas pintadas de cor de rosa, ele nunca mais avistou aqueles cabelos bagunçados numa manhã de domingo, nunca mais a viu passando delineador no espelho do seu quarto, não cheirou mais o seu cheiro, nem sentiu suas coxas, não se lembrava mais com exatidão a cor daqueles olhos, se castanhos ou quase verdes, tanto tempo passou e alguma coisa mudou.  Aqueles mesmos olhos que o olharam com incredulidade, com repulsa, com medo, com repreensão, “por que você não ouviu quando eu deixei a coisa cair? Eu pensei que você iria ouvir, eu pensei que você se importasse. Por que você fez isso?”. Não houveram palavras pronunciadas, apenas esse simples olhar que disse tudo.  Pediu tudo.
    Se ele tivesse levantado do sofá para ver através da janela talvez teria visto a coisa repartida em cacos no chão, talvez se tivesse parado por um segundo de viver suas pinturas naquela parede colorida e ilusória ele teria visto as iminências. Eram tão simples. Talvez ela nem tivesse ido, ela poderia ter ficado, ajudado a reconstruir os cacos, a conviver com as rachaduras.
    Através dessa lente caleidoscópica podemos observar o mundo gigante e pequeno, pequeno e gigante. E lá está ele caminhando por aquela praça vazia, oito horas da noite, sentindo os ecos quase mudos de algo que se perdeu. Ele avista um corpo de um homem sentado num banco à frente e parece  perdido, ali sentado. O homem abraça o próprio corpo, mas não parece respirar e nem se quer se move. Ele se pergunta se existe vida ali dentro, e que tipo de vida, que coisas seriam aquelas que se passam por dentro de alguém que se senta na praça as oito da noite e abraça o próprio corpo, como para não sentir o peso do mundo. O peso do mundo.
    Agora ele já sabe que ela foi embora. Agora ele entende, recebeu as mensagens, entendeu os códigos, ainda ouve os ecos, ele ainda sente a partida, a coisa quebrada. Mas tudo bem, acontece, teve que acontecer. Aconteceu não porque ele não ouviu ou porque ele não deu importância. Aconteceria de qualquer jeito, é assim mesmo.
    Caminha entre as pessoas e pensa que a cidade a noite é melhor que de dia. Ele ama a noite, pensa nas luzes da cidade, nas sombras das luzes, pensa na coisa quebrada e perdida, pensa na vida e pensa nas pessoas ainda encerradas em escritórios cobrindo o expediente, fumando seus cigarros, bebendo os seus cafés quentes, trabalhando e vivendo. Vivendo e trabalhando. Ou seria vivendo e perdendo? Vivendo e sentindo o eco. Vivendo e ouvindo o eco de coisas que se quebram e ninguém se importa. Vivendo e voltando desesperadamente ao passado, ao segundo exato, aos cacos repartidos no chão, tentando freneticamente juntar todos eles. É em vão, é em vão. Aceitação é o primeiro passo, vivendo e aceitando.
    Talvez seja isso que aquele homem sentado no banco da praça e abraçando o próprio corpo sentia, a aceitação muda, a aceitação sem palavras, o fechar de olhos em consentimento, o saber exato de que não há o que possa ser feito.
    Bilhares de coisas sem nome quebram-se por dia. Ninguém ouve de fato. Todos continuam ignorando os ecos. 




Annabel Laurino 


segunda-feira, 30 de junho de 2014

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Confusion in her eyes that says it all.
She's lost control.
And she's clinging to the nearest passer by,
She's lost control.
And she gave away the secrets of her past,
And said I've lost control again,
And a voice that told her when and where to act,
She said I've lost control again.


She's Lost Control - Joy Division 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Luz Negra




Sempre só
eu vivo procurando alguém
que sofra como eu também
mas não consigo achar ninguém




Cazuza

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O Quarto

    Ao contrário desse documento branco por onde começo essas frases que te escrevo, inóspito e sem nada, aquele quarto era escuro. Da mesma forma que agora, onde esse texto toma forma, textura e cor, o quarto no escuro se acendeu pela luz comprida que entrava pelas frestas da janela. E lá estava ele e lá estava ela. Ela e ele. Poderia repetir isso mil vezes e o gosto seria como coisa doce na boca, aglutinando todo um conjunto de coisas que estão por trás, nas entrelinhas desse simples e tão grande “ele e ela”, onde a língua encontra o céu da boca duas vezes num mergulho perfeito e depois volta. É gostoso.
    Seus abençoados corpos nus beijaram-se na languidez daquela tarde de chuva. Seus corpos nus se encontraram como duas perfeitas formas estrelares que se abençoam num véu escuro e denso no universo galáctico.
    A boca dele encontrou o corpo dela. A mão dela encontrou a nudez dele. O cabelo dela se abria sobre os travesseiros como um leque loiro e ruivo, que confuso. As mãos dele eram ágeis, carinhosas, precisas. Ela não sabia se ele havia entendido, se ele enfim conseguia ver seus grandes olhos brilharem no escuro ou não, se ainda era uma incógnita. Ele arfava denso e respirava profundo. Ela não queria que ele parasse, que a mão dele se afastasse das suas pernas, que a sua barba parasse de roçar no seu ventre.
     Era uma dança bonita de duas mentes fundidas em um e dois corpos vagueando juntos sobre o colchão, sobre a colcha, sobre a pele tremida e arrepiada, sobre os pelos e os gostos, sobre os lugares antes escondidos pelas roupas agora empilhadas no chão, em desordem. Dançavam.
    Máscaras na parede, livros e mais livros por toda a estante, uma máquina de escrever e um violoncelo na parede, tudo encoberto pelo escuro do quarto.  Lugar familiar aquele, longe da cidade, longe do comício, das buzinas dos carros, dos motores dos ônibus, dos passos apressados das pessoas correndo para lugar algum. Familiar porque era um pedaço de um refugio quente e pertencente aquele corpo deitado sobre o seu, refugio parecido com o dela.
     Era como se nada mais existisse, só a respiração dele e o coraçãozinho dela, batendo e batendo naquele peito de seios desnudos e brancos. A chuva poderia ter cessado, ou não. Algum cachorro latido, o telefone tocado, a televisão ligada, o jogo passando, alguém chamado, o mundo se virado em cacos repartidos e eles não teriam percebido. As horas passando. Ela perdida na branca pele dele, nos braços dele, no calor e nos olhos profundamente escuros como um pedaço de galáxia. Nada mais estava escondido, não era como as caixas de cigarros atrás dos livros nas prateleiras, ou as palavras não ditas. Era real, palpável, firme, latente. Era aquilo e era para ser. Sabiam os dois.
     A boca dele procurava a dela e em seguida vinha aquela mordida, forte e forte. Depois virava carinho, o tesão virou um afago, tudo bem. Alinharam-se nas cobertas, sólidos e maciços, reais e instigados. Ela pensava no que recém havia lhe acontecido. Pensava na loucura diária, na aventura, na adrenalina, no desassossego do seu coração batendo forte e de repente tão calmo, tão calmo que flutuava. Deitou de bruços e respirou o ar daquele quarto fechado, respirou o cheiro da pele daquele corpo ao lado do seu, cheiro bom. Respirou os golfos de ar que a vida estava lhe dando, expirou profundo e lentamente enquanto a vida bebia de suas carnes quentes, e gostou. Sentia-se viva.

      


   Annabel Laurino


sábado, 21 de junho de 2014

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   “ - [...]O certo é que não persistirei como sou – devo então renunciar em consideração a quê? Pertencer a um homem a quem não amo simplesmente porque um dia o amei? Não, eu a tanto me recuso; amo a quem me agrada, e faço felizes todos os que me amam. Feio isso? Não. É pelo menos muito mais belo do que se eu me regozijasse dos tormentos provocados pelos meus encantos e virtuosamente me desviasse do pobre que se consome por mim. Sou jovem, rica e bela, vivo serenamente para o desfrute e para o gozo.” 




A Vênus das Peles - Sacher Masoch 



terça-feira, 17 de junho de 2014

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  "Onde é que ela aprendera aquela depravação quase imaterial de ser profunda e dissimulada?" 




        Gustave Flaubert in Madame Bovary - pag 267

sábado, 14 de junho de 2014

O Poema

    Decidiu naquele dia fatídico, cinza, preto e branco, de nuvens pesadas e frio arranhando sua pele, que pintaria suas unhas e os lábios de vermelho carmim. Em frente ao espelho de seu quarto, inclinou-se como a menina que ainda era no seu corpo de uma mulher que ainda não reconhecia até que ponto, onde e em que parte da história havia crescido. Perpassou o batom em seus lábios secos e sem cor, até tomar forma e delineio da cor vermelha carmim. Fez o mesmo com suas unhas, satisfeita, esperou que secassem enquanto tomava seu chá deixando com que a marca de seu batom se instalasse na borda cristalina e branca de sua xícara de boneca.
    Ainda tinha sonhos ruins a noite. Morar sozinha ainda era estranho e a falta que lhe faziam seus pais doía crivelmente em seu peito como uma dor não suficientemente sofrida. Olhava os cartazes de viagens, estava sempre por dentro das promoções e pacotes de cruzeiros, mas queria mesmo era viajar por mais de um mês ou dois para um lugar onde não se sentisse oprimida pelo prazo de retorno, pensava em algo como Itália, em algum vilarejo ou Irlanda, nos recônditos de Dublin, pensava em algo como a França, Paris e a Notre Dame. Queria sair de onde estava, precisava ver algo que enchesse seus olhos para além do que estava acostumada a ver todos os dias.
    Tomava dois remédios coloridos para dormir, nas suas mentiras a si mesma brincava que eram apenas doces, doces coloridos que a fariam descansar por algumas horas até o próximo dia chegar, o que era sempre extenuante, quando o outro dia chegava. Ouvia musicas, estudava seus exercícios de alemão, lia poesias, já sabia tudo sobre Caetano e queria entender como era viver em 1820, sentia-se uma refugiada solitária em seu mundo insólito no meio de uma terra de ninguém.
    Um dia desses, antes do dia fatídico chegar, estava caminhando nas ruas da cidade e avistou um homem do outro lado da rua. Agora enquanto repensava os fatos não saberia dizer porque aquele homem em especifico havia chamado sua atenção. Concluía agora que não era um homem qualquer, era alguém que carregava livros em seus braços. Ele estava parado em frente a livraria e olhava atentamente através de uma longa vitrine, para os livros em exposição. Olhou-o olhar os livros, olhou-o atentamente e discretamente com o máximo de cuidado que ambos requeriam fazer. Era alto e claro, tinha uma luz bonita que emanava de si, parecia gentil e tranquilo, seus ombros não carregavam pressa, suas faces eram bonitas, iluminadas. Seus olhos ela não podia ver, pois estavam perdidos nas capas duras e nas lombadas douradas, o imaginava castanhos clarinhos, como seus cabelos lisos e curtos.
    Não chamou-o, não fez menção de se aproximar, de falar sobre livros, não quis interromper a cena. Achou tudo tão bonito, aquele sol de final de sábado batendo sobre seu cabelo e seu suéter vermelho, não queria ser ninguém para ele e nem que ele a visse naquele momento. Ela só queria observar.
    Ele foi embora, caminhou a passos lentos e subiu a rua. Ela ficou. Ele não a viu e ela não sabia seu nome. Nunca mais se viram.
    Nesse dia fatídico em que começa a história, ela decidiu que iria voltar a encontrá-lo. Como, ela não sabia ainda, mas precisava de alguma motivação em sua vida assim tão águas mornas. Pintou as unhas e os lábios de vermelho porque pensou que assim ficaria mais bonita, e de fato havia ficado. Vestiu-se e saiu. Deixou metade de seu chá esfriando na mesa da sala.
    Não sabia por onde começar a procurá-lo. Não sabia seu nome, seu endereço, nem mesmo a cor de seus olhos ou o som de sua voz. Sabia apenas que sua imagem já havia sido costurada em sua memória, não esqueceria tão facilmente. Se o visse de costas talvez soubesse distingui-lo em meio a multidão, reconheceria as costas magras, as pernas longas, o jeito de caminhar, o cabelo e o alto de sua cabeça confiante. Mas a sorte poderia não estar ao seu favor e por isso sentiu medo, esperava ansiosamente encontra-lo. Desesperadamente acabar com aquele vazio simultâneo que hora ou outra a mastigava por dentro e a corroía. Queria uma nova face sobre o seu mundo, queria ouvi-lo falar 'olá', e não sabia porque mas queria encontra-lo. Talvez ele fosse seu companheiro de poesias perdido por ai, esperando que o encontrasse. Talvez fosse ele que viajaria com ela para outro país, fariam torta de maça juntos e daria errado, ririam um do outro, descabelados e confusos em um sábado de manhã. Talvez, talvez.
    Foi em direção a livraria, a rua estava um caos, ônibus, barulho e vozes e buzinas e loucura cotidiana, pessoas passando, pessoas apressadas passando, trafego e sinaleiras mudando de cor, pessoas passavam em frente umas as outras e não se preocupavam em se olhar. Não havia ninguém em frente a vitrine da livraria, chegou mais perto e se pôs a olhar para ela, através dela. Livros em exposição enfeitavam a vitrine, tão bonita. Olhou um a um e depois esqueceu que os havia visto pois se sentiu tola. Ali parada, vestida em vermelho esperando encontrá-lo em frente ao mesmo lugar. Era muito para tão pouco. Sentiu-se pequenina em frente ao prédio com tantas pessoas em volta.
    Decidiu entrar, o peso e o desanimo eram novos amigos abraçados em seus ombros, sentimento familiar. Caminhou em volta da livraria, olhou as prateleiras e foi para onde estavam os livros de poesia.
    Uma voz atrás de si chamou-a, não pelo nome, mas o tom dizia que era com ela mesma a quem se referia e virou-se. Era ele, ele mesmo, o rapaz da vitrine. Alto e claro, luminoso e gentil. Era ele. Vestia o uniforme da livraria e trazia um sorriso gentil. E seus olhos, castanhos claros, exatamente como havia imaginado. Perguntou "Em que posso lhe ajudar?" e ela não soube responder, talvez poderia ter dito que em tudo ou contado que o livro que ele carregava naquele dia em que o havia visto ela já havia lido também e era ótimo e era lindo e amava aquela parte em que o poeta dizia que tinha em si mesmo todos os sonhos do mundo, mas não queria ser assim tão louca e sorriu, olhou para seus pés, envergonhada e tímida. Poderia ter dito tudo, deveria ter dito. "Ajude-me em tudo.", mas não disse. Não ousaria. Ousaria em suas unhas e seu batom, mas não assim, dessa forma.
     Comprou um livro com ele, do escritor que ela já sabia que ele gostava e durante a compra conversaram sobre o poeta, falaram de seus versos favoritos. Seu nome ela ficou sabendo e ele perguntou o dela também. Disse no final da conversa que já a havia visto no ônibus, dia qualquer, lendo o tal escritor, mas não quis interromper a leitura e nem a calma em que ela estava, disse assim mesmo, "você parecia tão calma e luminosa lendo o livro, não ousaria interromper.". Mal sabia ele. Trocaram os telefones. Voltaram a se ver. Ela usou tantas outras vezes a cor vermelha e de todos os sonhos do mundo, dentro de si, ela ousou fazer-se. Realizou-se. Meses depois, saiu da agência de viagens, passagens compradas e o destino era Paris, na França.



Annabel Laurino 
   

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Moon

"Sem pressa fico por aqui
Fecho os olhos pra me decidir 
Qualquer coisa vai me acontecer
Algo muda perto de você

It might be soon, my heart changes with the moon"






thiago Pethit