terça-feira, 10 de junho de 2014

Entre a fina linha, linha torta

    Ele me tem na ponta da caneta. E me escreve, me delineia, me rascunha, me usa, me abusa. Faz de mim um esboço grosso de todos os traços mais gritantes. Ele me rabisca, desenha minhas linhas em palavras que convém dizer e depois apaga, me apaga, por não saber se continua, depois escreve. Me esconde entre versos tortos, me guarda secretamente nas entrelinhas.
    Sou foto tirada e agora memória da ponta de sua caneta azul, que pinta o traço no seu caderno bonito de capa dura. Sou a imagem presente na sentença de suas palavras. Eu vivo agora, não sou mais pensamento torto e morto, que recria. A literatura me salvou, enfim.
    Dentre os vãos mofados dessa cidade bolorenta e velha, e suja e feia, cheia de pedras e pichações, cansaço, dinheiro, assalto, comício, a fome, o interrupto, o extensivo, a burrice, a ignorância, o vicio, o cigarro, a musica alta, o olhar trocado no meio da sinaleira, o sexo, a audição presente no meio do vazio, eu fui resgatada de dentro do meu Wonderland escondido ali, na terra da maresia.
    Criei em mim um mundo cheio de personagens e flores, e campos, e livros e musica e filmes e me fechei ali, eu e meus personagens com seus problemas pessoais que mais tarde eu viria a resolver. Eu falei muito sobre as pessoas, eu me atentei a elas, eu as observei dentro de um buraco onde ninguém me via, projetei a vida a minha volta dentro de meu mundo recriado.
    Eu fui uma entrelinha, eu fui por muito tempo e ainda sou, claro, você não deixa de ser aquilo que na essência você está fadado a ser, e por isso eu continuo, entrelinhas a ser a linha escondida que eu sou. E poucos leem, poucos anotam a variação fiel de que ali, naquele porém , algo está escrito, algo está anotado. E isso é bom. Passei tempos observando a vida por fora da janela, anotando mentalmente o que acontece do lado de fora onde a vida recria cor, exercitei toda minha arte da contemplação, vendo o café sendo posto na mesa e esfriar, o amor acabar e nascer de novo e depois se tornar em ódio e em amor novamente, ver o amor escrachado no meio do asfalto, ver o amor sendo atirado pela janela através da zona de conforto, ver uma criança crescer e depois dizer palavras duras aos seus pais, ver pais dizerem palavras duras aos seus filhos, observar a vida morrer e nascer. De longe o que todos julgam mais importante, mas eu anoto mentalmente. Eles não sabem que eu sabia esse tempo todo. Até alguém me encontrar.
    Aponta a caneta no papel, escreve, escreve. Sem cores, assim como tem que ser, eu saio da caneta e vou para o papel, transmuto-me em palavras, nadando nas ondas de suas curvas requintadas e quentes, bonitas e charmosas. As palavras dão vida, correm nas minhas veias e eu corro através delas, fazemos carícias em nossos encontros e viajamos juntas pela imaginação de quem nos detém.
    Mastigo uma balinha de caramelo, a caixa e a etiqueta dizem que é de Paris. Sorrio, à la Monalisa. A bala derrete na boca quente, a língua triunfa no sabor. Eu me tornei numa espécie de personagem, e vivo. E a graça encontra-se no que eu não poderia adivinhar. Alguém me tirou da cartola, enfim.




Annabel Laurino 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Alien

       Já fui de Saturno, já visitei Marte. Estive em Júpiter também, mas resolvi visitar Vênus, o meu atual lugar. Satélites a mil a minha volta pela rota interestelar. Eu não tenho medo, eu fujo de lugar em lugar, pululando as estrelas, dando olá aos cometas. Eu vi uma nova vida se acabar.
     Não importa o quanto do universo eu veja na minha xícara de café ou quantos rostos estranhos eu tenha que olhar por dia, decido que não sou daqui. Uma alienígena, uma extraterrestre de 1,56 de altura, com óculos gigantes e que não se encaixa. Não se encaixa. 
     Vejo os dias passarem. Ontem era recém segunda mas agora já é sexta, tive três provas essa semana e achei que fosse passar mal, mas não, era só uma crise de ansiedade, daquelas de palpitar o coração e de me fazer achar que o mundo vai acabar em trinta segundos. Escrevo agora porque eu prometi que dormiria cedo. Mais uma promessa para mim mesma quebrada. Quem se importa?
     De repente alguém te descobre, e te tira da caixa, da zona de conforto, do meio do sinal de trânsito, da nostalgia eterna, do tédio sufocante dos dias sem graça, sem tesão, sem nada. De repente alguém fala sua língua, sabe o seu planeta de origem, entende seu sufoco, seu tropeço, seu choramingo, seu desespero cotidiano de 'não vou alcançar'.
    Os dias funcionam como uma fila indiana que todos furam incessantemente para poderem ser os próximos, ganharem as estrelas de bonificação, ganharem na vida. Bem aventurados os espertos, aqueles que furam a fila, aqueles que tropeçam sobre os tropeços já tropeçados de outros. "A vida é assim, esse é o sistema interminável, seja vem vindo, espero que goste. Canapés e vinho na mesa ao fundo, assine aqui."
     Um café e um abraço no final do dia salvam minha reputação irrefutável de solidão. Solidão não solitária de fato, eu me relaciono, tenho amigos, colegas, você sabe, todos tem. Mas eles não entendem, eles não sabem falar a língua de que aqui falo. E assim vamos indo.
      Eu juro que tento seguir um caminho só, eu e a minha lista de afazeres para daqui até o fim do ano. Não sair da reta, se concentrar. Mas você sabe, amigo, a vida é dinâmica como só ela pode ser e eu, bem, eu para me bagunçar é tão fácil, tão simples. E como diria os Los Hermanos, eu gosto é do estrago. 
      Estou achando as coisas muito paradas aqui por Vênus, esse planeta assim tão blá, to pensando em me mudar, voltar para Saturno, o meu lugar de origem e nascença. Ficar lá por alguns meses, recuperar a saúde mental, me refazer, recuperar o folego, decidir se sou ou não sou e se sim sou o que. Essas coisas, essas coisas. 
      Vamos minha super nave, vamos para Saturno, vamos descompilar daqui. 





Annabel Laurino 

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ei, você,
você me deixa na ponta dos pés.
E eu que nao sou besta
me estico todo e tento enxergar
lá longe, onde tu costuma mirar
lá longe, onde não consigo nem ver,
mesmo que na ponta dos pés.



Apanhador Só 

terça-feira, 3 de junho de 2014

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"E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma joia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.”



 Charles Bukowski

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fora do Ar

   Tem alguém ai? Alguém ainda vem me visitar? Alguém lê essas palavras tortas e enviesadas? 
   Eu não consigo ouvir respostas, como se estivesse em algum segundo plano, distante de tudo. E o mundo se silencia. Não ouço mais ninguém, nem sei se me ouvem. 
   George Harrison é meu melhor amigo nessa noite. Coloco 'While My Guitar Gently Weeps' para repetir pela décima vez e choro. E choro e choro. Os olhos ardem no começo, em relutância para não se darem por vencidos, mais ai depois eu me entrego. E choro e choro. Agora é fácil.
     Não há vergonha em chorar. Fico feliz que eu ainda sinta algo para poder chorar. 
     Se uma cor pudesse me definir no atual momento seria cinza. Foram tantos dias estáticos. Quanto tempo faz e eu não me dei de conta? Quanto tempo faz que a estação ficou com ruídos e eu nem notei? 
     Escrever agora dói, dói e eu choro. Qualquer esforço em falar, em escrever a respeito incomoda. Como uma coisa estranha, fora do lugar, que você sabe que estava o tempo inteiro ali, mas você só percebeu realmente o incomodo que ela trazia agora. Eu não sou alguém depressivo, nada de grave me aconteceu, só para explicar. Particularmente desconfio que sou apenas uma pessoa que sente de mais. Sentimental de mais. 
     Estou cansada do mundo.
     Se eu pensar de mais eu fico enjoada, enojada, cansada. Então eu parei de pensar, eu parei de escrever. Chega um momento que você cansa de lutar, que você cansa de dar braçadas contra a maré, que a musica do Cazuza não faz mais sentido. "Andar contra a corrente só para exercitar", sério? 
    Se antes eu me dava ao trabalho, nesses dias estáticos eu simplesmente me calei. Meu espirito anarquista sucumbiu no ar como um balão furado. Já era, a festa acabou. O que está havendo comigo? Alguém quer realmente saber? Nem mesmo eu sei se eu quero. 
     Sinto como se estivesse cometendo vários erros, erros e erros. Mas alguém me explica o que é errado afinal? 
     Eu nunca entendi essa porra. Não, espera, eu não posso falar porra. Porra. 
     Acordo todos os dias pensando se o dia vai me aceitar. Bem, vamos ver, será que hoje vai ser um dia bom? E novamente é um dia cinza. Nada de emocionante acontece, eu olho ao redor e parece que todas as pessoas estão o tempo inteiro interpretando suas vidas, como se não vivessem de verdade aquilo que mostram ser, aquilo que aparentam saber. E por que?
    George escreveu "eu olho para o chão e vejo que ele precisa ser limpo". Eu também vejo a mesma coisa. Tudo parece errado então. 
    Eu faço o que eu faço por que eu gosto ou por que eu fui induzida a gostar? O que eu sou quando não há ninguém para quem eu precise mostrar o que eu sou? Quem eu sou?
    Tudo estático. 
    Silêncio.
    Vozes abafadas ao fundo e que não chegam até mim. Com olhos já inchados eu choro mais um pouco. Tenho vontade de ir para Bali, Cucuias, Polo Norte, Triângulo das Bermudas, qualquer coisa. Qualquer lugar.
    Mesmo sabendo que a pergunta ainda assim perduraria no ar. 
    Sem resposta. Sem resposta. 
    Sem frequência. 




Annabel Laurino



sábado, 24 de maio de 2014

Não Sei



Eu não sei se eu tô certo ou se eu tô errado
Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço
Neste mundo eu sou eu você é você
Faça tudo o que quiser porque eu também vou fazer

Não sei mais o que faço
Eu já fumei dez maços
Mandei tudo pro espaço
Agora eu só quero paz

Cansei dessa gente desse papo furado
Eu viajei por todo o mundo pra ficar descansado
Mas nada feito, o meu problema foi sempre você
Diga tudo o que quiser, pois eu preciso saber

Não sei mais o que faço
Eu já fumei dez maços
Mandei tudo pro espaço
Agora eu só quero paz

Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado
Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço
Neste mundo eu sou eu você é você
Faça tudo o que quiser porque eu também vou fazer

Não sei mais o que faço
Eu já fumei dez maços
Mandei tudo pro espaço
Agora eu só quero paz    


TNT

sexta-feira, 23 de maio de 2014

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Podia ser ela mesma, quando estava só. E era isto que precisava fazer com frequência: pensar. Bem, nem mesmo pensar. Ficar em silêncio; ficar sozinha. E toda a existência, toda a atividade, com tudo que possuem de expansivo, brilhante, vibrante, vocal, se evaporavam. Então podia, com uma certa solenidade, retrair-se em si mesma, no âmago pontiagudo da escuridão, algo invisível para os outros.



Virginia Woolf. Ao Farol; tradução de Luiza Lobo. Ediouro, pág. 67.