terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Só mais uma página

    Tanta coisa se foi menina. Tanta coisa voou do seu diário, páginas que ficaram bolorentas pelo tempo, desgastadas, ruídas pelas traças. Outras, em branco. Daquele tipo de página que você poderia ter escrito, mas não. Nada. Apenas um silêncio contido diante do papel sem uso. Em branco.
    Tanta coisa meu amor que deixou de ser e agora já não é mais. Fica só aí, nas linhas retas e monótonas do seu diário escondido. Coisas bobas, memórias, acontecimentos passados. Porque tudo é passado, até mesmo esses papéis com letra rabiscada as pressas, na euforia de escrever novas e mais novas coisas, de preencher as folhas avidamente, com sucesso, com amor, carinho, como uma criança feliz. Hoje, me aconteceu algo... E assim por diante. 
    A onda do tempo vem e nos arrasta para longe, tão longe ficamos da praia. A arrebentação nos empurra, nos coloca contra os ponteiros do relógio numa luta sem fim. Como nadar contra a corrente, como diria um velho pensador. 
    Lá estão suas páginas, preenchidas, seus dias de inverno, suas tardes de café quente, seus amores enfeitados com uma tinta de caneta colorida, dado codinomes para que ninguém além de você pudesse saber. É como um segredo bom que só você carrega no peito, ninguém precisa entender, ninguém irá entender. Essas coisas de gente grande a gente só finge que não acontece, a gente enfeita a vida para que fique mais bonita, mais aceita, mais florida. 
    Como jogar purpurina para o alto e ver as partículas coloridas e brilhantes fosforescerem no alto da sua cabeça, assopra, assopra. Elas caem sobre seus cabelos, a luz bate nos seus cílios agora cobertos de pó brilhante e você acredita quase que por um fio que a vida é como uma purpurina lilás.
    O hoje, amanhã já será passado. Já terá passado.
    No seu diário secreto que guarda embaixo da cama terão outras páginas a serem preenchidas, que você irá escrever num lusco fusco de uma tarde de verão perfumada. Tomando chá gelado na varanda, sentada sobre uma rede, o cabelo preso num coque bagunçado, você pensará mil vezes que a vida é mágica. Você aprendeu a esquecer os cortes lentos que já levou. Tirará o gosto doce.
    E o gosto doce esse sempre virá. Mesmo que as vezes não se perceba. Te surpreenderás que mesmo depois do choro você aprenderá de novo e de novo e novamente e vai conseguir tirar seu próprio coelho branco da cartola. Ou o que quiser tirar lá de dentro. Você pode escolher, a vida é sua. 
    Ah menina, se tudo fosse fácil, essas palavras não existiriam. Se tudo fosse belo e não assim tão frágil, as palavras não existiriam. O seu diário secreto perfurado de codinomes nas entrelinhas também não existiria. É preciso sempre disfarçar um pouco para que não doa.
    E assim nós vamos indo, nadando contra a corrente só para exercitar. Um dia a gente aprende, ou não, quem sabe. 
    Buscando o gosto bom que tudo isso pode ter, esquecendo, lembrando, anotando, dançando numa musica louca, cantando até encontrar a rouquidão da garganta seca. 
    We are infinite. 
    E essa é só mais uma página. 






Annabel laurino 


Ma perché scrivo? È l’unico mio conforto. by Silvia Sala on Flickr.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

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     Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e olhar misterioso. Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toquede intuição e um tom de doçura. Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.



Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ao toque de mim

   Flagro a mim mesma dentro de mim, espiando-me. Olhe bem, junto comigo, porque agora eu deixo. Venha, pode entrar. Sinta-se a vontade, óh caro expectador e intruso. Entre e sirva-se de uma xícara de chá de hortelã, sente-se sobre o puf azul marinho e permita-se vislumbrar a mim mesma, dentro de mim. Porque agora, eu te permito. 
    Eis então, eu mesma, não eu cá como me conhecesses, eu presa nesta forma física que caminha, corre, fala, gesticula e se esconde fácil. Não o meu eu de óculos grande e mãos pequenas. Mas Eu, como não podias ver antes até que fosses convidado a entrar e te sentar comigo a ver então eu mesma por dentro de mim, aquela que ninguém conhece, aquela que está aqui mas ao mesmo tempo não está. Aquela que vos fala.
    Na minha imensidão de mim mesma penso constantemente o quanto, bem, o quanto o mundo é gigante. O universo é infinito. Os cosmos são perfeitos, as nuvens, incontáveis e estrelas são brilhantes. O mundo da voltas, todos os dias, o dia inteiro. Enquanto volta e meia um carro quebra, seu cabelo é lavado, alguém morre, você pega o ônibus, bebês nascem e mais bebês são feitos, a vida é dinâmica e nunca para, o universo não para, o mundo não para, o tempo não para. 
     Foi assim que num frenesi sem fim a imensidão das coisas se tornou evidente de uma forma unica nunca vista por mim, pois diminuiu ainda mais as pequenas coisas insignificantes, que são dadas muito valor. 
    E desta forma, foi assim, que agora, como podes ver, meu caro expectador, as paredes de onde você se encontra foram pintadas, veja, azuis. Sim, e não só isso, as janelas também. Por sua vez, os rodapés. E todos os móveis foram mudados de lugar, alguns incensos foram acessos, as roupas dobradas, veja, e os livros na estante foram reorganizados de uma forma mais elegante, mais convidativa aos olhos. Como você pode perceber, sim, tudo mudou dentro de mim mesma, dentro de mim. As coisas alteraram-se, muitas delas, foram recicladas, refeitas. Pensamentos antes impensáveis, hoje, são conclusões bem resolvidas, que tiro de letra. Mágoas, tristezas, essas coisas mais que prefiro nem comentar, bom, elas foram colocadas fora, não precisava mais daquilo tudo. 
     Bilhetes, cartas, fotos e cartões de Natal coloquei fogo em todos, não precisava mais daquilo tudo, a memória é um bom lugar para se guardar coisas e se ela já estava tão congestionada imagina minhas gavetas como não deveriam de estar. 
     O mundo particular de mim mesma dentro de mim se alterou por toda sua forma, cor, exuberância, essência, maneira de ser. Mudei-me no momento em que me permiti sentir ao toque. Que me permiti recomeçar. 
     O meu mundo não parou por nem um instante, e assim, enquanto um copo caia no chão, enquanto uma musica era tocada, um cão latia ou uma comida era preparada numa manhã de domingo, eu me refazia em pedaços, como se me construísse novamente para que eu voltasse a caber dentro de mim.
    Veja, você que foi convidado para entrar, veja com os seus próprios olhos, até onde eles lhe permitem enxergar. Ou se não, sinta como fluo, sinta como eu falo, sinta apenas. 
     É no toque que nos encontramos.




Annabel Laurino

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

sábado, 7 de dezembro de 2013

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“O destino normal do leitor fanático é se transformar num escritor.”


Rubem Fonseca 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

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“Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Quero que você nunca mais deixe de pensar em mim.”


Tati Bernardi

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

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Não posso descansar da viagem: beberei 
A vida até a ultima gota; todo tempo gozei 
Imenso, sofri imenso, tanto com aqueles
Que me amaram, como sozinho; em terra e quando
Por correntes arrastadas as Híades chuvosas
Agitavam o mar sombrio: tornei-me um nome...




(O Chamado do Cuco - Robert Galbraith)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

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“Já passou, já passou. Se você quer saber, eu já sarei, já curou. Me pegou de mal jeito mas não foi nada, estancou.”

Chico Buarque

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mr. Woody

    Na ultima terça feira eu tive certeza, devo mesmo estar enlouquecendo. Melhor dizendo, eu tive um sonho esquisito na noite passada. Bem, daqueles em que quando acordamos só o que nos resta é desconfiar da tamanha loucura guardada em nossa mente por ter recriado um imaginário tão extenso para um sonho tão sem lógica. 
    De forma alguma que eu não tenha me agradado muitíssimo do tal sonho. É só que, bem, quantas vezes na minha vida o próprio Woody Allen em pessoa poderia estar presente na minha sala de estar tomando uma xícara de café comigo enquanto me aconselhava calmamente a respeito de Freud? Desde a ultima vez que eu chequei, nenhuma, é claro.
    Mas é isso mesmo, Woody Allen, o próprio resolveu surgir nos meus sonhos recriado de uma forma completamente característica e real de como sempre imaginei. Descabelado, com pequenos tufos de cabelos mal espalhados sobre uma futura careca em vista, óculos de grau altíssimo com armações escuras, baixinho, nariz grande, suéter bege e calças cáqui claras, desengonçado, frenético, um humor irônico transbordante. 
    O sonho começa assim, alguém bate na porta, mas eu não escuto porque estou ocupada em tentar desentortar livros amassados que estão espalhados por toda a casa, não sei por qual motivo os livros estão tortos e tão amassados, mas volta e meia eu tento arrumá-los, página por página, então apertam a campainha, que é uma imitação bem fiel de Jingle Bells Rock numa versão anos 30. Dessa vez eu me separo dos livros e vou até a porta, mas a chaleira começa a ferver e eu volto e a tiro do fogo servindo uma xícara cheia de café até que resolvo preparar mais uma xícara, então, ao som da campainha novamente tocando, eu me encaminho até a porta e a abro. 
    Sim, ele mesmo, o tal, o senhor Woody em pessoa me sorri do batente da porta com seu sorriso irônico e pergunta "Fez o café?", eu não digo nada, meneio a cabeça em afirmação e o deixo entrar, da minha altura, magricela, uma maneira de andar como se a sua forma frenética estivesse em conflito com suas pernas bamboleando.
    Woody se senta e toma em mãos sua xícara de café que eu nem tive tempo de oferecer, pega o jornal e começa a lê-lo, por um longo tempo, até que salta do sofá deixando o jornal cair e diz "Sabe aquela galeria de arte nova de que te falei? Então, é hoje, inaugurou!". Sem perder tempo ele pega da minha mão e me arrasta porta a fora. Juntos, nós andamos por ruas de calçadas sujas, passamos por cães de raças em coleiras coloridas, guimbas de cigarros e árvores de folhas alaranjadas e desbotadas, outono, eu penso.
    Woody Allen acende um cigarro e como se recriando a cena de Manhattan, porém desta vez numa rua de um sol fraco ao fundo e dentro do meu próprio sonho, ele diz: 
    - Sei que não deveria estar fumando isso, dá câncer. Mas eu fico tão sexy com ele nas mãos, não acha? 
    - Sim, sim. De toda forma. - respondo. E ele sorri, contente pela minha resposta.
     - "Sabe Nova York era sua cidade, e será para sempre." - ele recita olhando-me por trás de suas lentes de fundo de garrafa.
     - Amo esta parte, amo este filme. É a minha frase, esta que acabou de dizer. 
     - Não, é a nossa frase, menina. 
    Caminhamos e caminhamos enquanto dividimos cigarros e vemos esquilos no Central Park. Tudo que se passa depois são flashes esquisitos. De repente estamos numa galeria toda branca e enevoada, com sofás/pufts dispostos no meio onde as pessoas se deitam e conversam e riem de qualquer coisa, mas obras de arte em exposição não há alguma. Logo, estou deitada nas pernas do senhor Woody Allen, no tal puf gigante, ouvindo-o me dizer que tudo nessa vida é natural "Natural, natural' ele repete, como se estivesse me apresentando a tal palavra pela primeira vez. E por fim, ele diz "Sabe, bem, eu nunca faria parte de um clube do qual aceitassem pessoas como eu. E sabe por que? Porque prefiro fazer parte de um lugar do qual não posso ser aceito. Quem não, não é mesmo?" 
    E o sonho termina com a imagem de eu e o senhor Woody rindo enlouquecidamente sobre os pufs gigantes de uma galeria cheia de pessoas e ao que parece, numa rua qualquer da Times Square. 
    Acordei com a sensação esquisita de que mesmo ludibriada pelo sonho eu queria que fosse verdade. Ah sim, claro que queria. Quem não? 
    E embora sabendo que nada se passou de um sonho, desejei secretamente que uma réstia dele fosse uma lembrança de algo verdadeiro. E assim, Manhattan me veio à mente, e num impulso sedento por algo palpável, eu revivo o filme por mais um milhão de vezes, incontavelmente.





Annabel Laurino