quinta-feira, 14 de março de 2013

Vai Passar

    "Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
    Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
    Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
    Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
    - ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ..."



Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sozinho



Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?




Caetano Veloso

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Borboleta Branca

    Eu fiquei procurando alguma coisa que eu me identificasse e pudesse por aqui. Uma foto ou um trecho de musica. Algum parágrafo de livro ou uma frase de efeito dito por alguém já morto e importante. Algo que simplesmente definisse de alguma maneira o que estou sentindo. Algo que se encaixasse e mostrasse isso, sem que eu precisasse fazer muito esforço para me explicar, para me definir de alguma maneira. Mas sou eu mesma, vejo isso agora, que devo fazer isso. Que devo falar o que estou sentindo. Mesmo que as palavras me fujam. 
    A unica garantia que eu tenho agora é que quero ficar bem, e vou ficar bem. Como diria o Caio, "No que depender de mim, me recuso a ser infeliz". E eu me recuso mesmo. Veementemente. Quero ser feliz, quero ficar bem. E essa é a unica garantia que eu tenho. A minha força interna que nunca se acaba. 
    Não esperava esse tombo. Não esperava por esse engasgo no escuro. Não estou assustada, de certa forma eu previa isso, como um homem das terras prevê a seca quando o verão se aproxima. Ele ora da melhor forma que lhe foi ensinado falar com os céus, ele acorda cedo todos os dias e olha para a sua terra fértil e murmura baixinho para que isso não aconteça. Mas acontece. Sempre acontece. Inevitavelmente. São coisas da vida e o homem da terra entende isso agora, depois de tanto tempo. Dói, mas já era por se esperar.
    Eu não sinto raiva. Ou ódio. Ou tenho qualquer sentimento ruim sobre você. Se sempre foram de luz os nossos encontros, agora eu só quero que você siga sendo luz em algum lugar mesmo que não aqui. É como eu disse, eu não tenho qualquer sentimento ruim, eu só sinto-me triste como uma criança com seu brinquedo preferido retirado de si. Mas eu orei ontem a noite, eu pedi a Deus para que você fosse feliz, e sabe, no que depender de mim, eu serei também. 
    Os caminhos da vida são confusos, estranhos. Abri a janela hoje pela manhã e vi o sol fustigando em cima das telhas e calhas e árvores frutíferas sobre o pátio do vizinho. O coração foi dormir apertado, uma espécie de incerteza mútua. Mas acordou em paz. Em paz porque foi o que eu pedi ontem a noite, enquanto cobria o corpo com as cobertas e pedia a Deus para que tudo ficasse bem. Em paz porque eu sei que no fundo tudo vai se ajeitar. Acontece, são coisas da vida esses rompimentos abruptos. Em paz porque eu entendi. Em paz porque eu quero ficar bem e quero que você esteja bem também, em qualquer lugar que estiver. 
    Não irei fazer falsas promessas. Eu continuo a mesma. Talvez meus passos andem mais firmes, mais bravos e destemidos, mas eu tenho os meus motivos. Assim como todos nós temos os nossos motivos de viver. 
    É verdade que eu ainda acho que poderia ter sido diferente, e ter durado e ter sido lindo com toda a força, e seria lindo, cara, seria lindo. Poderíamos ter sido mais, ter brilhado mais. Poderia ter sido, sim, diferente. Mas eu sei que não foi e que não será. E é por isso que escrevo as linhas a seguir.
    Eu fecho os olhos e prometo que essa será a ultima vez que escreverei sobre você. Porque é necessário assim como um beijo de boa noite de uma mãe. É amável e honrável e bonito te deixar ir. Foi uma escolha limpa. Ninguém ficou preso nos seus ideais. E se assim foi, assim será. Te deixo ir, como assim quis, para livre ser, virar borboleta branca sobrevoando flores e partindo por ai. Enquanto eu serei um gerânio, na minha completa e intensa forma de ser apenas um gerânio e viver. 
    Fique bem, que a luz esteja sobre você.
    Saudades.



Annabel Laurino


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terça-feira, 12 de março de 2013

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"Tomamos decisões na vida. Loucas, insanas, bobas, sem sentido e algumas, sim, algumas até mesmo infantis. A gente toma caminhos, decide e escolhe o que é melhor para a gente. Tem uns que preferem o amor e outros a si mesmos. O que não da é querer abraçar o mundo e escolher tudo ao mesmo tempo, caminhar por todos os trajetos e abrir todas as portas. Corre-se o risco de se perder, perder alguém, perder simplesmente - afinal, sempre depois de um passo algo fica para trás - e até mesmo perder a razão. Enlouquece-se. O que se espera é que é que se siga em frente, mesmo embaixo dos chutes da vida, mesmo quando o caminho escolhido não era bem aquele que se esperava tomar e simplesmente foi necessária a escolha. Mas tomar um rumo, porque é preciso. Um rumo para a frente, para o adiante e agora. A vida se renova. A vida se refaz."


Annabel Laurino

sexta-feira, 8 de março de 2013

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" -... Era uma promessa! Como você pode não cumprir uma promessa desse jeito?
  - As vezes as pessoas não tem noção das promessas que estão fazendo no momento que as fazem."




A Culpa é das Estrelas 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ah, aquela nostalgia, de repente

    Eu estava sentindo falta de algo e não sabia bem do que era. Até agora a pouco, sentada aqui no mesmo lugar de sempre, no meio do quarto, eu fiquei mordendo o lábio e jurei que tinha esquecido de alguma coisa, um compromisso talvez, sei lá, anotação na agenda, aula do inglês, horário com nutricionista ou colocar a roupa para lavar. Fiquei divagando em suposições. Um sentimento de que eu havia sim esquecido de fazer algo. E eu lembrei quando aquele aperto se incitou no peito e eu soube que era uma espécie de pensamento que estava a horas me torturando, o dia inteiro. Que ele não iria embora enquanto eu não o colocasse para fora.
    Me veio na mente que somos infinitos. Tudo bem, essa ideia já me apareceu anteriormente, uma certa vez, enquanto lia um livro. Somos infinitos. Isso ficou batucando e ressonando lá no fundo do meu cérebro até agora, como uma torneira mal fechada, como um mantra sussurrado. 
    Eu percebi isso enquanto caminhava de volta para casa depois do inglês.
    Você sabe, o outono está chegando. Daqui a alguns dias, eu já posso senti-lo. Havia aquela luminosidade no ar que só o outono trás, um ar meio apático e inaparente, os carros em suas travessias, o engarrafamento, as pessoas nas ruas, as árvores, o céu meio fustigado de cinza, aqueles jovens e suas camisas de banda, as mocinhas e seus cabelos extremamente compridos, os cachorros de rua e tudo e quase nada. Parecia até um cenário de filme. Estava escurecendo e os postes da cidade se acendiam. Estava escurecendo e de repente o clarão dos faróis dos carros se tornaram vaga-lumes pelo meio fio. Eu senti tudo ao mesmo tempo, uma nostalgia das grandes. Mas não me fez mal, eu me senti feliz por poder sentir tudo aquilo.
    É engraçado como sobrevivemos. Sobrevivemos todos os dias. Ao vício, ao comício, a fome, ao escárnio, ao oportuno da vida e ao desespero do azar, à freada do destino, ao apático cinza da vida, ao amor esparramado no chão, as partidas e as saudades, aos choros, as lamúrias e aos dramas. Sobrevivemos irmão. E isso estava lá, muito claro. Tanta gente sobrevivendo e nem sabiam. 
    A terra começa a ficar meio úmida perto do outono. Tão cheirosa. E as folhas secas caem, e fica tudo tão lindo. Eu passei em frente aquela igreja toda impotente, parecendo um castelo, aquela que uma vez eu te pedi para desenhar para mim e você disse que sim, que iria, mas eu sabia que não iria, tudo bem, eu só queria te mostrar meu lugar favorito no mundo, era quase bem ali, sentada em frente aquela igreja. 
    Passou um ônibus por mim enquanto eu esperava atravessar a rua. O sinal vermelho para mim, verde para os carros. E eu fiquei esperando, olhei no relógio, troquei o peso do corpo para a outra perna e o ônibus passou. Eu olhei dentro e vi todos aqueles rostos cansados, alguns alienados, outros olhando para mim. E sabe o que mais? Eu me perguntei se você estaria naquele ônibus. Eu me perguntei e se você estivesse. Eu poderia levantar a mão, sorrir falsamente e enquanto você ia embora me olhando, dentro do ônibus partindo, eu ficaria ali parada, com a mão para cima em um aceno que nem chegaria a acenar e um sorriso murcho nos lábios que nem chegariam a se levantar. 
    Foi essa a história que eu criei na minha mente. Claro, você não estava no ônibus. Mas eu imaginei como se estivesse e tudo pareceu tão cinza quanto a cor do céu naquela hora do dia. Nos tornamos tão brutalmente cinzentos e apáticos um para o outro, o outono está chegando e eu me pergunto, qual serão as cores de nossos dias depois que o inverno engolir as flores?
    Eu senti saudade. Do seu riso dardejado de entonações altas e gostosas e que invariavelmente acariciava os meus ouvidos. Era bom e gostoso e era divertido te ver rir, uma daquelas risadas que parece que ficam brincando com a boca da gente nos convidando a rir junto, seja lá o motivo que for. Eu senti vontade de rir naquele exato instante, contigo. Mas depois passou. Eu estava bem, o dia estava ótimo e a saudade afundou num looping rápido para o fundo da lagoa próxima. 
    Eu estava seguindo em frente sem perceber. Comecei a enfrentar a dor da partida. E pensei que foi melhor assim. Melhor quando alguém pega logo as coisas e simplesmente vai embora. Não há drama, só um vazio daquilo que descolaram da gente sem permissão. Eu fiquei com esse vazio, mas ta tudo bem. Eu não sinto raiva, dor, ou qualquer sentimento ruim. Só acho que poderia ter sido diferente. Assim poderíamos ter sido infinitos de uma melhor forma que não essa, dolorida e só. E sobreviveríamos de alguma forma humana que não essa tão infinita e ao mesmo tempo tão finitamente.






Annabel Laurino

sábado, 2 de março de 2013

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“E que venham novos sorrisos, novas histórias e novas pessoas.”

Caio Fernando Abreu

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"Acham que eu estou realmente bem, que tenho mesmo condições de segurar a minha barra sozinho. (…) Isso me deixa ainda mais confiante."



 Caio Fernando Abreu

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