sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Enquanto os outros dançavam, o nosso time acabava

    Ta vendo essas pessoas ali na rua dançando na calçada enquanto falta um minuto para o tão falado fim do mundo? Pois é. Você deve ta ouvindo a musica louca explodindo dos alto falantes logo ali na esquina enquanto rola uma festa louca, mulheres gritam e fogos de artificio são soltos no céu por alguém inspirado na polêmica.  
    Tem tanta gente lá fora nessa hora, eu sinto o cheio de umidade entrar pela janela aberta, sentada numa poltrona, olhando as luzes amareladas dos postes, os carros cobertos de gotículas de orvalho, é verão, choveu durante o dia, mal tomei café hoje, talvez por isso eu esteja assim. Nós não estamos lá, nós não estamos no verso tocado da musica descompassada e nem nos passos de dança das pessoas desajeitadas comemorando uma felicidade sem motivos. Não estamos nem em nós mesmos e o fim do mundo pode chegar e nós nem se quer nos falamos, o mundo pode explodir agora e eu não pensarei em nada, somente em como o cheiro da rua é incrivelmente delicioso hoje, com seu cheirinho de chuva próxima.
    Talvez essa história de que o mundo iria acabar tenha me feito pensar um pouco, não sei. Não acredito que isso poderia ser possível, mas e se? E se acabasse mesmo eu faria o que? Talvez não desse tempo nem de sair correndo para algum lugar e pegar os cachorros, tropeçando nos chinelos pela rua, atropelando pessoas. Talvez simplesmente tudo acabasse e puft. Não teria o que fazer, é um fim, uma catástrofe, essas coisas acontecem as vezes. Aceitação.
    E a gente ensaiou os passos tão perfeitamente, a gente queria tanto que desse certo, mas quer saber? Amigo, não deu. Vamos aceitar isso de uma vez por todas. Vamos olhar esse teorema complexado que talvez nem Einstein conseguiria resolver e vamos entender que simplesmente os fatores estão trocados, que ta tudo errado, que não vamos nunca chegar á um resultado aceitável.
    Meteoros caem nas calçadas com fogo zunindo e lambendo todas as coisas que conseguem alcançar, crateras se abrem no solo, pessoas gritam, a terra racha ao meio e meio mundo é engolindo para o abismo infinito, tudo acabando, tudo sendo exterminado. Não há o que se fazer.
    Mas vamos aceitar vai, vamos entender de uma vez por todas, chega de correr para todos os lados e puxar os cabelos, implorando socorro de ultima hora que não vai vir. Nosso tempo acabou que nem jogo em máquina de fliperama depois que você não tem mais moedinha para colocar, game over para nós.
    Essa noite não vai dar a gente dançando na calçada e nem trocando beijos e olhares amistosos com promessa contida no futuro próximo. Não vai ter eu te amo e carinho no rosto. Trocaram a musica e tudo que temos agora é o silêncio da destruição pós final. As cinzas do extermínio.
    Tem tanta gente lá fora agora, eu to aqui esperando um abraço de conforto que não irá chegar, as mulheres pararam de gritar e os fogos de artificio recomeçam em um frenesi distante. Um, dois, três. O mundo não acabou ainda, não preciso me preocupar em sair correndo. Olho para fora da janela, o mundo intacto, perfeito, e o nosso destruído. Já tão esquecido em meio a um cinza desbotado onde um dia teve tantas e tantas cores. Tantas que eu nem saberia dar nome. 




Annabel Laurino

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

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“Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações.”

Não compreendendo o perdido

    Você pensa que me entende. Mas você nunca irá entender. Você nunca conseguirá compreender a fome de novas fórmulas para viver que essa minha alma precisa. Da sede que arranha na minha garganta todas as noites de dormir por querer sempre mais, sempre mais, o muito se tornando aos poucos insuficiente.
    Você não conseguirá acompanhar os meus passos de animal selvagem se esgueirando pelas folhagens, cuidando para não ser visto, quanto também não conseguirá entender os meus caminhos expostos, cheios de feridas abertas, de sorrisos brotados em flores roxas e arco-íris pintados sobre nuvens. Você nunca irá ver além da fumaça densa que sobe da minha caneca de café, daquela minha banda favorita, você nunca verá além, o sorriso de satisfação enquanto mato um vicio, que você também nunca irá entender.
    Não compreenderas minha mania de ler todas as palavras soltas e de querer conhecer sempre mais, tudo, todos os assuntos, palavras, pontos, resquícios e velharias estampadas em jornais de domingo. Não entenderás porque choro sempre quando vejo um animal perdido, o medo que eu sinto na minha pele como se fosse o próprio animal, sozinho na chuva e no mundo. Não conseguirás ver além das mechas loiras dos meus cabelos e das minhas coxas grossas, das minhas mãos pequenas e dos meus olhos dispersos e disparatados, como duas lentes de uma câmera do tempo da vovó.
    Sentarás em teu quarto, tirando os sapatos e passarás horas tentando entender minhas loucuras, meus berros, minhas mudanças de humor e de pensamentos, tentarás sim, inúmeras vezes compreender o porque tão louca, maluca, estranha, sozinha e cheia de manias. Não conseguirás respostas. Passarão horas, dias e talvez semanas, as folhas das arvores serão substituídas por outras cores, mais vibrantes, e ainda assim não entenderás. 
    Te olharei no fundo de teus olhos castanhos e te pedirei em silêncio que não entendas, por favor, não entendas, você não conseguiria de qualquer forma, seria mais um tempo perdido. De todos os outros tempos que também jamais irás entender.



Annabel Laurino

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"Talvez seja da minha natureza não me sentir pertencendo totalmente a lugar nenhum, em lugar nenhum."


 (Chico Buarque)

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"Quem me dera estar ao ar livre. Quem me dera ser de novo aquela criança, meio selvagem, audaciosa e livre… e rir das ofensas em vez de me preocupar com elas! Por que estou tão mudada? Por que ferve o meu sangue com tanta facilidade com umas míseras palavras?"




 O Morro dos Ventos Uivantes

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"Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo."


Chico Buarque

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

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Sou meio sacana mesmo, confesso. Adoro me interessar por novas ilusões. 


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O fim. Aquela coisa, sabe, sei lá, era pronunciada constantemente. E repetida e repetida. Embora nunca ocorresse. O fim. Se perguntava se ele já não teria ocorrido a muito tempo apenas pela menção de sua existência. E a verdade era clara. Havia.




Annabel Laurino

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