Lucas Simões
domingo, 21 de outubro de 2012
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"E então eu tocava as suas costas calculadamente com a ponta dos dedos e você se encolhia no colchão como uma criança e brincávamos de nada mais importa no mundo."
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Às vezes o que parece um descaminho na verdade é um caminho inaparente que conduz a outro caminho melhor. As vezes não. O que a gente pode fazer é dar crédito ou não à pessoa. Freqüentemente não vale a pena. Freqüentemente, vale.
Caio Fernando Abreu
sábado, 20 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Primavera depressiva e a droga da transição
Dizem os meteorologistas
que a primavera chegou. Dizem os ambientalistas que estamos em uma fase de transição
cuja ocorre raramente em um período de anos, esse em especial é um ano louco, é
verão no inverno, inverno invadindo o outono, o outono invadindo a primavera e
a primavera abocanhando o verão. Coisa de doido mesmo. Mas os meteorologistas
afirmam que isso é normal, é o ciclo de transição do globo terrestre para poder
se estabilizar.
Mesmo assim as
flores brotam lá fora da minha janela, no topo de uma arvore alta que alcança
as telhas e fica bem na vista. Mesmo assim parece que todos os animais estão
procurando um par por ai, e os casais parecem mais animados, os que ainda não
formaram um, estão procurando um par por ai. Tudo como manda o cronograma. Só
que os casais estão se desfazendo aos poucos e muito rápido. Pera ai, o que?
Não estamos na primavera?
As regras foram
quebradas esse ano, meus companheiros. E os casais, na primavera, quase não
existem mais. É tão inédito quando sorvete Negresco no supermercado. Os casais
primavelescos estão em extinção. As pessoas querem ficar só.
Claro, os
psicólogos dizem que isso é normal. É uma fase de transição muito compreensível
afinal o ser humano anda muito independente. Homens e mulheres preferem morar
sozinhos e os jovens preferem curtir. Ninguém quer mais saber daquele troço
antigo e muito out que os avós da gente diziam que era amor. Isso só acontece
no carnaval, com confete e samba da Ivete Sangalo ao fundo. E como os caras
estudiosos afirmam, é uma situação normal, vai se estabilizar.
O que houve com as
pessoas eu não saberia dizer. Astrólogos dizem que o clima fora dos eixos
desencaixa-se do plano astral, interferindo nas áureas humanas. Os astrônomos
arriscariam dizer que a estrela mãe está com vibrações radiativas de alto nível
que estão causando problemas sobre os nossos cérebros e claro, o clima. Os
ateus estão isentos sobre as informações, não acreditam em nada.
Eu, bem eu não sei
o que eu acho disso tudo. É tanta flor querendo voar e tanto pássaro querendo
correr. É tanta gente caminhando para todos os lados. Os vovôs e vovós dizem
que tudo é culpa da ‘internetilização’. Quando criaram os fones de ouvido
então, acabou o romance, ninguém mais quis saber de ouvir o que os outros tinham
a dizer e todo mundo se enfiou nos seus casulos.
Transição é fase
repleta de mudanças, bem como todos sabem. Eu mesma sou um ser puramente de
natureza transitória. Mas ultimamente da uma saudade dos velhos tempos, não
digo do tempo especifico, mas quem sabe do tempo do vovô e da vovó mesmo. As
primaveras eram frescas e cheias de flores e as pessoas paravam nas ruas para
se cumprimentar, para comentarem sobre o aroma das flores e frutos da cidade,
sobre o céu limpo e azul, os verões eram longos e quentes e os invernos
recheados de grossas roupas, longos casacos, chuvas temperais acumulando poças
pela cidade e homens cavalheirescos auxiliando belas damas a atravessá-las.
Cadê os beijos
roubados? Onde foram parar as cortesias, os investimentos de um romance prestes
a engrenar, os pedidos de namoro com cartas e flores e os bombons do dia dos
namorados? Onde está a primavera, aliás, perdida por ai em algum canto do mundo
incapacitada de se achegar sobre nós loucos? Eu nem vi as flores que dirá o
amor! Onde foram parar as boas musicas e o céu limpinho lá acima, e beijo na
mão com faces rubras, cadê o amor minha gente? Cadê a beleza de tudo isso?
De tantas pessoas
analisadas na história, uma criança de cinco anos disse que amor ta aqui oh,
aqui dentro, desse peito da gente. Olhando lá pra dentro nem com mil olhos eu
posso ver, garanto que ninguém pode, mas manda essa gente toda começar a
senti-lo por ai, a começar a amar um pouquinho vai, quem sabe assim, a
primavera aparece, recuperada e forte depois de sua crise de depressão, não
tendo mais corações para inflar e flores para brotar, depois que todos
esqueceram-se de apreciá-la, de se inspirar, de sonhar. “Que coincidência é o
amor!”.
Annabel Laurino
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
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"Eu não vou te ligar no meio da noite implorando para que salve a minha vida, porque eu descobri que a única pessoa que pode salvar minha vida sou eu mesma, independente de alguém. E também não irei mentir, eu não minto. Quase sempre, ou sempre, responderei uma de suas perguntas com tanta sinceridade que te surpreenderás, engasgarás magoado ou ferido pelo golpe no estomago que não esperavas e depois pensaras que é melhor assim, no meio do vicio, do comício, da dor, do desespero, da perda, dos olhos fatigados e das noites agourentas de madrugadas insandecidas, pensarás que melhor mesmo é ter alguém que diga sim ou não e que te olhe dentro desse teu olho marejado de saudade todas as coisas que ninguém ainda teve coragem de te contar. E talvez, só talvez, essa seja uma das minhas, se não a maior, qualidade. Não te escondo nada, firo, mas sou sincera e nua como a verdade incontestável."
Annabel laurino in Translúcida
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Flash back of Wine
Bebeu de um gole do vinho, era doce e o cheiro era horroroso. Ao contrário das pessoas ultramodernas, não sabia que safra seria aquela, se o vinho era tinto ou suave, havia uma gravura de belos vinhedos da Itália na garrafa verde fosca, isso bastava para qualquer informação. Afinal o vendedor do posto dissera que vendia bastante. E agora para seu espanto as pessoas além de chatas gostavam de beber vinho ruim.
Quem a olhasse naquele momento acreditaria sim que era do tipo de pessoa ultramoderna, sentada na cadeira de frente para a escrivaninha, a taça de vinho do lado enquanto checava os e-mails com os cabelos presos em um coque bagunçado e os óculos caindo delicadamente pela ponte fina do nariz. Era o tipo de pessoa de aparências. Completamente centrada. Profundamente descontrolada.
Pegou o telefone e apertou uma tecla qualquer, nenhuma mensagem ou ligação, a não ser os recados impertinentes que o chefe havia deixado na caixa de voz. Dane-se o mundo, pensou amarga, tomando mais um gole da bebida fedorenta.
Abriu a janela e acendeu um incenso de jasmim. Era quarta-feira, quartas tendiam a ser dias muito ansiosos, a espera do feriadão e final de semana, a espera pelo descanso que qualquer pessoa precisa. Mas ela não queria descanso nenhum, seus finais de semana ultimamente vinham a ser muito mais tediosos do que qualquer segunda feira podia prometer a ser, muita chuva, muito choro acompanhado de filmes dramáticos e antigos com um pote de sorvete ao colo.
Não era o tipo de pessoa que se ocupada de seu oficio com leitura. Na sua cabeça, livros eram necessários para entrar na onda do “todo mundo ta lendo”, nada mais. Cansativo, out, old, nem pensar.
Passou a mão pelas bochechas descarnadas e sentiu um dó de si mesma que não cabia dentro de si, teve vontade de gritar. Teve vontade de estar na rua naquele exato momento, com o carro empenhado no transito da Paulista só pra poder gritar com um ordinário barbeiro qualquer. Nesses momentos a infelicidade de se estar no lugar errado e não ter com quem gritar é deprimente.
Passou a mão no telefone e não pensou. Não iria mais pensar em nada.
Trabalhava num escritório de direito em um prédio movimentado. Passava horas do seu dia trancada numa sala assinando papéis e falando palavras difíceis com gente que as vezes não entendia metade. Os quatro anos e meio da faculdade faziam-na se arrepender nos dias em que o sol aglutinava nas vidraças do prédio e não tinha para onde correr. Por isso se liberou a uma loucura qualquer, uma locurinha tola de meia tigela, quem iria perceber?
Digitou o número gravado na memória mais até mesmo que a senha do cartão de crédito. Atendeu depois de três chamadas, a voz ruída e um pouco bamboleante.
- Alô?
- Oi. Sou eu. – parecia tímida e a voz tremida como a de uma criança com medo de entrar em um quarto escuro.
- Ah ! Você! Como vai, ta tudo bem?
- É... To sim, e você?
- To bem também. Faz tempos que não nos falamos, desde o que? A festa na casa do Mário?
- É...
A conversa emergia para o ponto de repouso depois do ápice de um reencontro casual. E agora? Fazia o que? Era partir para o ataque ou deixar a conversar morrer em uma desculpa clichê para saber se o brinco da avó não ficou na casa dele, por acaso, simplesmente.
- Estou surpreso de você me ligar, não nos falamos há tanto tempo.
- Senti saudades. – mordeu o lábio com força empurrando a vergonha para dentro com mais um gole de vinho fétido.
- Uau. – pareceu nervoso, se não o conhecesse tão bem não saberia que estaria nesse exato momento passando a mão pela nuca e soltando um sorriso enviesado.
- Faço mal em te ligar essa hora?
- Não... N... Mal nenhum. Foi bom você ligar, pensei em você ontem, achei um filme que vimos juntos passando na televisão e lembrei do ensopado de carne que inventamos de fazer mas saiu tudo errado. Lembra?
- Saiu tudo errado naquela noite... – se permitiu uma risada lembrando-se do acidente com as panelas.
- Gosto de ouvir seu riso, é tão bom.
- ...
- Por que você parou de atender minhas ligações? Foi tudo tão rápido...
- Exatamente, achei que tudo entre a gente estava indo tudo muito rápido.
- Sempre com medo do que é bom.
- Eu sei.
- To indo ai.
- O que?
- Você não me ligou só pra dizer olá, não é mesmo? Então que tal a gente pular as entrelinhas, eu to sozinho, você também, somos dois adultos tal como manda o procedimento, e chego ai em cinco minutos, levo um vinho.
- Ah... Vinho não, tudo menos vinho. – olhou a garrafa em cima da mesa, abominando-a.
- Prometo levar um vinho gostoso, sei que você tem um péssimo gosto para vinhos. – ele riu, uma risada divertida.
- Você me conhece.
- Mais do que deveria.
- Mais do que eu queria.
- Pelo menos você irá beber um vinho decente.
- E talvez mais que isso... – sorriu olhando seu reflexo no vidro da janela.
- Estou chegando.
- Estou te esperado.
Foi até o banheiro e borrifou perfume nos pulsos, soltou os cabelos que despencaram em uma cascata ondulada, tirou os óculos e passou seu batom rosa, depois colocou os óculos novamente. Com um cara como ele as aparências do que não era eram postas de lado. Com um cara como ele, ela sabia que podia ter muito mais do que uma quarta feira prometia, e quem sabe, todos os dias da semana. Todos que viessem.
Quem a olhasse naquele momento acreditaria sim que era do tipo de pessoa ultramoderna, sentada na cadeira de frente para a escrivaninha, a taça de vinho do lado enquanto checava os e-mails com os cabelos presos em um coque bagunçado e os óculos caindo delicadamente pela ponte fina do nariz. Era o tipo de pessoa de aparências. Completamente centrada. Profundamente descontrolada.
Pegou o telefone e apertou uma tecla qualquer, nenhuma mensagem ou ligação, a não ser os recados impertinentes que o chefe havia deixado na caixa de voz. Dane-se o mundo, pensou amarga, tomando mais um gole da bebida fedorenta.
Abriu a janela e acendeu um incenso de jasmim. Era quarta-feira, quartas tendiam a ser dias muito ansiosos, a espera do feriadão e final de semana, a espera pelo descanso que qualquer pessoa precisa. Mas ela não queria descanso nenhum, seus finais de semana ultimamente vinham a ser muito mais tediosos do que qualquer segunda feira podia prometer a ser, muita chuva, muito choro acompanhado de filmes dramáticos e antigos com um pote de sorvete ao colo.
Não era o tipo de pessoa que se ocupada de seu oficio com leitura. Na sua cabeça, livros eram necessários para entrar na onda do “todo mundo ta lendo”, nada mais. Cansativo, out, old, nem pensar.
Passou a mão pelas bochechas descarnadas e sentiu um dó de si mesma que não cabia dentro de si, teve vontade de gritar. Teve vontade de estar na rua naquele exato momento, com o carro empenhado no transito da Paulista só pra poder gritar com um ordinário barbeiro qualquer. Nesses momentos a infelicidade de se estar no lugar errado e não ter com quem gritar é deprimente.
Passou a mão no telefone e não pensou. Não iria mais pensar em nada.
Trabalhava num escritório de direito em um prédio movimentado. Passava horas do seu dia trancada numa sala assinando papéis e falando palavras difíceis com gente que as vezes não entendia metade. Os quatro anos e meio da faculdade faziam-na se arrepender nos dias em que o sol aglutinava nas vidraças do prédio e não tinha para onde correr. Por isso se liberou a uma loucura qualquer, uma locurinha tola de meia tigela, quem iria perceber?
Digitou o número gravado na memória mais até mesmo que a senha do cartão de crédito. Atendeu depois de três chamadas, a voz ruída e um pouco bamboleante.
- Alô?
- Oi. Sou eu. – parecia tímida e a voz tremida como a de uma criança com medo de entrar em um quarto escuro.
- Ah ! Você! Como vai, ta tudo bem?
- É... To sim, e você?
- To bem também. Faz tempos que não nos falamos, desde o que? A festa na casa do Mário?
- É...
A conversa emergia para o ponto de repouso depois do ápice de um reencontro casual. E agora? Fazia o que? Era partir para o ataque ou deixar a conversar morrer em uma desculpa clichê para saber se o brinco da avó não ficou na casa dele, por acaso, simplesmente.
- Estou surpreso de você me ligar, não nos falamos há tanto tempo.
- Senti saudades. – mordeu o lábio com força empurrando a vergonha para dentro com mais um gole de vinho fétido.
- Uau. – pareceu nervoso, se não o conhecesse tão bem não saberia que estaria nesse exato momento passando a mão pela nuca e soltando um sorriso enviesado.
- Faço mal em te ligar essa hora?
- Não... N... Mal nenhum. Foi bom você ligar, pensei em você ontem, achei um filme que vimos juntos passando na televisão e lembrei do ensopado de carne que inventamos de fazer mas saiu tudo errado. Lembra?
- Saiu tudo errado naquela noite... – se permitiu uma risada lembrando-se do acidente com as panelas.
- Gosto de ouvir seu riso, é tão bom.
- ...
- Por que você parou de atender minhas ligações? Foi tudo tão rápido...
- Exatamente, achei que tudo entre a gente estava indo tudo muito rápido.
- Sempre com medo do que é bom.
- Eu sei.
- To indo ai.
- O que?
- Você não me ligou só pra dizer olá, não é mesmo? Então que tal a gente pular as entrelinhas, eu to sozinho, você também, somos dois adultos tal como manda o procedimento, e chego ai em cinco minutos, levo um vinho.
- Ah... Vinho não, tudo menos vinho. – olhou a garrafa em cima da mesa, abominando-a.
- Prometo levar um vinho gostoso, sei que você tem um péssimo gosto para vinhos. – ele riu, uma risada divertida.
- Você me conhece.
- Mais do que deveria.
- Mais do que eu queria.
- Pelo menos você irá beber um vinho decente.
- E talvez mais que isso... – sorriu olhando seu reflexo no vidro da janela.
- Estou chegando.
- Estou te esperado.
Foi até o banheiro e borrifou perfume nos pulsos, soltou os cabelos que despencaram em uma cascata ondulada, tirou os óculos e passou seu batom rosa, depois colocou os óculos novamente. Com um cara como ele as aparências do que não era eram postas de lado. Com um cara como ele, ela sabia que podia ter muito mais do que uma quarta feira prometia, e quem sabe, todos os dias da semana. Todos que viessem.
Annabel laurino
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"É ele. Reaparecendo. Abocanhando as bordas. Vem se espalhando por frestas. Rejuntando brechas. Unhando fendas e poros. Derrama-se por minhas lacunas. Exibido, como fogos de artifício. Assovia sem escorregar nas notas. Cantando sua vontade nas entrelinhas. Quer voltar a ser meu tema."
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