sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Laços da vida, café solitário e no entanto, tão transbordante

    Perguntou-se então se haveria diferença expressa entre um elefante cor de rosa para um elefante azul. Não existiam tão pouco, mas contentou-se com a observação cravada na mente, e com uma lupa 3/4, de muita espessura, ou se grande fosse, resolveu, decidiu, engoliu o fato, diferença nenhuma havia. Porém perguntava-se porque, encabulada, jogada no sofá, numa sexta a noite, um livro de física ao lado e meia caneca de café fervendo na mão. Estou enlouquecendo, repetia. Insana, perdida, ainda não acredito em meus últimos feitos. Sorriu envergonhada, criança sapeca com a sujeira escondida embaixo do tapete favorito da mamãe.
    Dava muito trabalho ser uma pessoa que não era. Codificar trejeitos, rede-codificar maneiras de se comportar e de sorrir, não conseguia mais. Estava gostando agora, dessa sua nova versão um pouco mais 'eu' de ser. Para que sofrer por amor se não há amor para se sofrer? Qual o sentido de se preocupar tanto quando tudo que você quer está nas suas mãos? Agarra logo a vida e não deixa ela escapar. Passou a ser sua nova filosofia. Telefone desligado, tudo bem, sozinha, mas era bom estar sozinha nas ultimas horas. Sempre alguém, com alguém, tantos alguens. De uns dias para cá, não sabia mais o que era ficar solitária por mais de oito horas, quando estava dormindo.
    Tudo bem, faz parte. Reconsiderou. Se, o elefante azul fosse meu passado existencial, e o rosa no entanto meu futuro planejado, não há diferença em ambos, de modo algum. A diferença não esta nem mesmo nas cores. Quem poderia garantir que o azul em sua evolução futura como uma mescla de cor brilhante, difundindo em suas matizes não roseou?
    Bebeu do café deliciada. Sim, era uma delicia estar no poder de sua própria direção. Lispector de repente tinha total razão. Liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome, pensou. Muito pouco. Um tanto sexy, um tanto low, um tanto gata manhosa, mesclada com seu charme de sempre, tão perdida, tão distrativa, tão pensativa, confusa, descabelada e só, bebeu seu café, pensando apenas no momento presente enquanto os laços da vida faziam por si só.


Annabel Laurino

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"Faz tempo que desconfio. Na última sexta-feira, tive certeza: devo mesmo estar enlouquecendo."



Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

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"Respiro, inspiro, perco o ar. Não, você nunca vai entender. É por isso que optei por dizer que eu não te amo mais. Assim: de forma bem clara, objetiva e sem justificativas pra não render. Me faça uma surpresa quando estiver indo embora de vez: não volte."


Lucas Simões

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“Solidão prolongada me ensinou a ser exigente. Quando me tornei minha melhor companhia, só me apaixonei por pessoas absolutamente incríveis.”




Marla de Queiroz

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

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Você vai perguntar: mas houve um erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende? No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito.



Caio Fernando Abreu

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    "Uma descarga elétrica, por favor! Meu coração enguiça só de ler o seu nome. Pílulas de autoestima para engolir de oito em oito segundos. Injeções de vergonha na cara. Removam aquelas noites da minha pele no grito, no tapa, na chacoalhada. Belisquem a minha burrice nove vezes, de cabeça pra baixo. Bife cru nos hematomas do meu amor próprio.
    Nossa biópsia teve diagnóstico: relação maligna. A distância se amarrando ao tempo, como último recurso de uma cura. Nós em coma por muitas semanas, para que a sanidade combatesse a fantasia que criei. A eutanásia de um amor nunca devolvido.
    Você não infecta mais a minha tranquilidade. Meus anticorpos, as recordações daqueles meses, abortando suas aproximações impulsivas e vazias. Boa notícia. Achei que morreria de você.
    Não tem mais febre no rosto, quando você chega. Não tem mas arritmia, quando você fala comigo as mesmas palavras; o mesmo discurso; a mesma mentira; o mesmo eu, eu, eu. Não tem mais pontos frouxos do coração esgarçados pelo som da sua voz turista. Não tem mais tentativa de anestesiar o desconforto com embriaguez crônica e muita mão no copo ou no bolso ou no cigarro que tentei fumar; e luz fraca, para que você não radiografasse meu amor hemorrágico. Não tem mais o seu sorriso contaminando as minhas decisões."



 Priscila Nicolielo (Texto Anticorpos que o Coração Cria; in Casal Sem Vergonha)

Sobre-viver

    Insipidamente e quase sem aviso, levanta-se sobre mim uma áurea negra, feia, cheia de escamas e espinhos e coisas virulentas e bobas, preocupadas e sujas. Interpunha sobre meus sonhos tua face que não consigo mais ver, mas enxergo bem enquanto durmo e descarrego toda a falta que sinto no que não posso ter. Vem, lá do fundo, das réstias e raspas, de dentro de mim, uma vontade bem conhecida de destruir e consumir com tudo. Qualquer relação bonita, duradoura, aconchegante, belíssima, enfim. Já leu isso antes? Para mim é mais do que familiar, por que escorre além das veias sanguíneas, pulsa forte entre a essência de mim mesma.
   Eu tentei ser correta, sei lá, agir como bem seguia o regimento da vida e continuar marchando até onde os bons fluidos levassem. Pensei que ia dar certo. Não sei, não deu antes daquela forma soberba e chata, tinha que dar agora dessa forma despreocupada e insana. E novamente não deu. Ainda continuo com os bolsos vazios, o coração pingando, encharcado de tanta mesmice desnecessária e promessas que nunca se cumprem. Não sei, mas acho mesmo é que desisto. Das pessoas, de tudo. Dessa forma minha de ser. Acho que chega aquele momento que estar dentro de si mesmo já não é mais um bom lugar para se estar. Por que fica tudo tão desconexo. Sem sentido. Em vão. Então para que? Não é mais fácil cortar tudo fora e não deixar nada do que observar uma pequena e frágil flor sobreviver esmorecida?
    Eu preferiria que vivesse, você sabe, viver continuamente e crescer, criar ramos, florescer, e depois fechar-se e abrir-se nas primaveras da vida, sempre mais e mais bonita. Diga-me, que sentido tem em somente sobreviver e nada mais prosseguir além de sugar os sulcos de ar secos dentro das vertiginosas horas de um dia que nunca acaba e que possivelmente nunca chegou a começar?

Annabel Laurino

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E enquanto eu olhava o céu limpo da cidade suja, interpunha entre nós seu primeiro muro de palavras. Confusas, atormentadas, sobre tudo e sobre nada: palavras amontoadas umas sobre as outras, como se amontoam tijolos para separar alguma coisa de outra coisa. Eu, mal sabendo que esse — que parecia seu jeito mais falso de ser — seria nas semanas seguintes seu jeito mais verdadeiro, às vezes único. 

— Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

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Literatura é vida. Sou um escritor, mas meu compromisso principal é com a vida. Em todas as suas manifestações. Não acredito naquele tipo de cara que fica sentado entre livros enquanto a vida passa além da janela, sem que ele a toque. Os livros são importantes. Mas a vida é sempre muito mais. Literatura é também magia. Magia é aquilo que não compreendemos com a razão, e que no entanto existe.



 — Caio Fernando Abreu

Fly Me to The Moon

Leve-me para a lua e
Deixe-me brincar entre as estrelas
Deixe-me ver como é a primavera
Em Júpiter e Marte
Em outras palavras, segure minha mão
Em outras palavras, baby me beije
Encha meu coração com música e
Deixe-me cantar sempre mais,
Você é tudo que por muito tempo procurei
Tudo que eu venero e adoro
Em outras palavras, por favor seja sincera
Em outras palavras, estou apaixonado por você
Encha meu coração com música e
Deixe-me cantar sempre mais
Você é tudo que por muito tempo procurei
Tudo que eu idolatro e adoro
Em outras palavras, por favor seja sincera
Em outras palavras
Em outras palavras,
Eu, eu amo ... você


- FRANK SINATRA